quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

DEEP PURPLE - CURITIBA, 12 DE DEZEMBRO DE 2017

Fotos: Ton Muller
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Texto Márcio Grings Fotos Ton Muller

Depois da abertura com Tesla, do show empolgante do Cheap Trick, o minifestival Solid Rock fecha a noite da última terça-feira (12) na Pedreira Paulo Leminski com sua principal atração, o grupo inglês Deep Purple. Eles estão se despedindo das grandes turnês, pelo menos esse é o anúncio. Conviver com essa permanente sensação de que nossos ídolos estão pendurando as chuteiras é um bad feeling difícil de se afugentar! Por isso, vejo muita gente passando o rodo em diversos shows internacionais que cruzam pelo país (me coloque nesse saco de gatos). Acredito que para muitos dessa casta artística  que beira os 70 anos, a decisão de parar é um mantra que ressoa como o sino do coveiro. Ou quem sabe, o orgulho próprio caminhe de mãos dadas com a impressão de dever cumprido. O que posso afirmar é que assistir ao Deep Purple pela segunda vez, apenas três anos após a última passagem deles pelo Brasil, ainda é algo impressionante. Mesmo com amargo sabor de adeus, devido a essa despedida anunciada, por enquanto o que sabemos é que a 'The Long Goodbye Tour" segue até julho de 2018. Bem, alguns de nós tivemos a sorte de presenciá-la. 

Vale lembrar que depois de anos empilhando álbuns com carimbos protocolares, eis que o Deep Purple novamente lança um disco digno da sua grandeza. "inFinite" tem a marca do som que consagrou o quinteto na primeira metade dos anos 1970. Basta ouvir canções como "Time For Bedlan" e "Hip Boots" para sacarmos o calibre do álbum. Ouça os teclados de Don Airey - eles nunca soaram tão viscerais; já Steve Morse, como de costume engaveta qualquer lembrança de Ritchie Blackmore (se é que isso é possível para os fãs  mais ferrenhos). 

Com fotos de Fabiano Dallmeyer, LEIA a resenha do show do Deep Purple em 2014 (Porto Alegre) 

Foto: Ton Muller
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De todo o modo, mesmo que o grupo tenha colocado no setlist até mesmo cinco canções de "InFinite" em alguns do shows desse ano na Europa, isso não acontece em Curitiba, quando apenas "Birds of Prey" surge como representante do novo álbum. Quem se importa? 

A noite púrpura começa com o implacável compasso 5/4 de " Mars, the Bringer  of War", trilha incidental composta pelo compositor erudito inglês Gustav Holst, peça sinfônica análoga aos planetas do Sistema Solar. E já que estamos falando do Cosmo, nada melhor que uma estrela cadente riscar o céu curitibano. "Highway Star", abre alas de "Machine Head", é também o pontapé inicial da maioria dos shows do Purple. Segundo o site setlist.fm, essa foi a execução de nº 1.718 da canção lançada originalmente em 1972. A primeira vez que "Highway Star" surgiu em uma apresentação foi em 6 de Fevereiro de 1971, em Shefield, na Inglaterra. 45  anos depois, ver Gillan, Glover e Paice (três compositores originais) impondo respeito com um dos principais brasões do rock em todos os tempos, ainda nos impressiona. De igual forma, "Pictures of Home" é também uma marca registrada do som do Purple, ainda que agora um norte-americano, o guitarrista Steve Morse, substitua com louvores o criador original do riff, Mr. Ritchie Blackmore. E se Gillan conseguiu se livrar de Blackmore (as brigas entre o ex-guitarrista e o vocalista sempre foram lendárias), em "Bloodsucker" ele mostra como ainda consegue dar conta do recado, e com louvores, numa das faixas mais 'gueludas' de "In Rock" (1970). Esse Gillan amaciado pelo tempo também distribui carinho e mantém uma constante troca de olhares com seu guitarrista, e assim, o clima no palco é o melhor possível.  

Foto: Ton Muller
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Logo depois, "Strange Kind of Woman", o mais radiofônico dos hits forjado na era Blackmore/Gillan/Glover/Lord/Paice, funciona como uma canção novinha em folha. No solo, Morse desconstrói a linha original para deixar a sonoridade mais ao seu estilo. Depois de engatar quatro músicas emendadas uma a outra, só então Gillan saúda o público na Pedreira. Uncommon Man", de "Now What!?" (2013), é dedicada ao lendário tecladista e membro fundador do grupo, Jon Lord, falecido em 2012. Uma música aonde percebe-se com facilidade as reverências - e referências - ao legado de Lord como um dos maiores nomes do teclado no rock. "Lazy" pode soar diferente de uma noite para a outra, pois a marca do improviso está diluída em sua gema. Temos até o blues na gaita de boca de Gillan; já Glover crava um walking bass jazzístico em uma das bases de improvisação; no entanto, o ponto alto da performance certamente está permanente diálogo entre Don Airey e Steve Morse.      

Foto: Ton Muller
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"Birds of Prey", insígnia representativa de "inFinite", possui o espírito das velhas canções do grupo, porém é uma vinha extraída da colheita mais recente do Purple. Dá pra perceber que Gillan busca reforço no teleprompter para não tropeçar na letra. De todo modo, essa nova peça no repertório é também um reflexo de que essa formação, a mais estável na história do Purple (são 15 anos gravando e tocando juntos), também revela faixas dignas de evidência no tour. Se tem um disco que mora nos corações dos fãs da banda, esse álbum chama-se "Perfect Strangers" (1984), trabalho que marcou o retorno do grupo após um hiato de 8 anos inativo. Quando ouço ao vivo "Knocking at Your Back Door", um número com sutil referências a sexo anal (tema confirmado por Gillan em uma entrevista), a canção ainda soa poderosa como a gravação original. Mesmo que rearranjada, mais lenta e num tom confortável para equalizar as limitações de um vocalista que já passou dos 72 anos, podemos destacá-la como um dos grandes momentos do espetáculo. Eu, mais uma vez voltei aos 14.

Foto: Ton Muller
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Como notáveis instrumentistas, não são Ian Paice ou Steve Morse a estrelar momentos individuais no atual show do Purple. Nada de longos solos solitários de bateria ou guitarra. Esse momento solo fica a cargo do tecladista Don Airey, que após passar por bandas como Rainbow e Whitesnake, estabilizou no Purple como um dos melhores representes da escola de Jon Lord (os dois eram amigos). Entre acentos sinfônicos, eruditos, hammonds ora raivosos, ora fantasmagóricos, o músico ainda homenageia grandes compositores brasileiros como Zequinha de Abreu (Tico-Tico no Fubá) e Ari Barroso (Aquarela do Brasil), para no final sampar o mais celebrado dos riffs de teclado do seu predecessor no Purple. "Perfect Strangers" não ganha o quilate de 'clássico' por acaso. Trata-se de uma das canções mais importantes da história do grupo, porque além de marcar seu renascimento como banda de primeiríssima grandeza, a música passou a ser um tema impossível de ser riscada de qualquer setlist da banda. Nenhuma letra foi cantada mais alto na primeira edição do Solid Rock em Curitiba. E se "Space Truckin" nos leva de volta ao espírito dos shows ao vivo do Purple nos anos 1970, quando tudo soava ainda melhor ao vivo, "Smoke on the Water", umas das sequências de acordes mais repetidas de todos os tempos por qualquer moleque que algum dia pegou uma guitarra na mão, nos leva ao topo do Olimpo de hard rock mundial. É como se estivéssemos assistindo de camarote a uma final de Copa do Mundo.

Foto: Ton Muller
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E sem tentar inventar a roda, mas fazendo o mais previsível bis que o Deep Purple pode nos apresentar (quem disse que um bom clichê não pode ser repetido?), "Hush" clássico de Joe South que o grupo surrupiou para si (os medíocres copiam, os gênios roubam), mesmo assim podemos nos surpreender com uma introdução de "Peter Gunn  Theme" (ao estilo dos Blues Brothers), como também o último capítulo da noite, "Black Night", single ancestral lançado em 1970, é adesivado por enxertos de "How Many More Times" do Led Zeppelin.       

Se esse foi o fim, só saberemos nos próximos meses. O que podemos afirmar é que se o adeus está consumado, então tivemos uma despedida digna dos monstros sagrados da música. E só alguém muito estúpido para não sacar o tamanho do Deep Purple dentro do espectro do rock mundial.   
                
Setlist DP no SR em Curitiba

Intro: Mars, the Bringer of War (Holst)
Highway Star
Pictures of Home
Bloodsucker
Strange Kind of Woman
Uncommon Man
Lazy
Birds of Prey
Knocking at Your Back Door
Perfect Strangers
Space Truckin'
Smoke on the Water

Encore:

Hush   
Black Night

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muler

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller


CHEAP TRICK - CURITIBA, 12 DE DEZEMBRO DE 2017

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Foto: Ton Muller
Texto Márcio Grings Fotos Ton Muller

Depois do show de aquecimento do Tesla, a banda americana Cheap Trick faz sua estreia não apenas no Solid Rock em Curitiba, pois essa foi a primeira vez do quarteto no Brasil! E se possivelmente as primeiras vezes nem sempre são legais (vocês sabem do que eu estou falando), essa analogia pode ser ignorada no caso em questão, já que a première do Cheap Trick deixou milhares de pessoas na Pedreira Paulo Leminiski batendo cabeça. Enquanto muitos lamentaram a troca de uma versão pálida do Lynyrd Skynyrd por um grupo inacreditavelmente ausente até mesmo da discoteca de roqueiros escolados, eu fui um dos poucos que comemoraram a suplência. Eis um grupo que já merecia faz tempo uma GIG por aqui.   

Foto: Ton Muller
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Em primeiro lugar, o Cheap Trick é um grupo que toca profundamente no espírito do rock norte-americano dos anos 1970, a grosso modo, um som que faz uma mistura da sonoridade dos anos 1960 com hard rock, cheio de melodia, refrões, solos de guitarra e muita diversão no palco. Em quatro décadas de atividade, 17 álbuns foram gravados, contabilizando mais de 20 milhões de discos vendidos em todo o mundo. O último trabalho, "We're All Alright!", saiu em junho deste ano. Na formação atual, três integrantes originais - Robin Zander (voz), Rick Nielsen (guitarra) e Tom Petersson (baixo). O baterista do tour é Daxx Nielsen (filho de Rick), no Trick desde o início dessa década, e com a responsabilidade de substituir o carismático Bum E. Carlos.  

Foto: Ton Muller
Em Curitiba, em pouco mais de uma hora e meia de apresentação, podemos ouvir hits pinçados de oito seus álbuns, patenteando 40 anos de serviços prestados ao rock'n'roll. Alguém lembra da música tema do seriado That '70s Show? (ouça AQUI) O tema relido da obra do grupo Big Star passou pelo set como uma dos momentos mais celebrados da noite. Capitaneada pelo baixista  Tom Petersson, o público do Solid Rock também pode ouvir o novo single da banda, e também a melhor versão de "I'm Waiting for a Man" do Velvet underground, com direito a um fantástico solo no baixo de 12 cordas de Petersson.

Já "California Man", clássico do grupo inglês The Move, originalmente ao estilo do rock dos anos 1950, ganha maquiagem nova e faz o povo chacoalhar o esqueleto, assim como a forma propositalmente desleixada/bagunçada como o Trick toca "Ain't no Shame" de Fats Domino (pioneiro do rock falecido no último mês de outubro) é simplesmente eletrizante e sintetiza todo o mudus operandi do quarteto. E ainda rola uma releitura arrasa quarteirão de "Run Rudolph Run" de Chuck Berry. Mas nem só de (ótimas) releituras vive o Cheap Trick, bem pelo contrário. Do novo álbum, "Long Time Coming" e "You Got It Going On" são a prova que nem só de passado vive o Cheap Trick, e além do mais, dá-lhe canções que você já conhecia e daí pensou consigo: "ah, então essa música é do Cheap Trick!!!". Sim, foi o que muitos concluíram ao ouvir temas como "If You Want My Love", "Ghost Town", "The Flame", "Dream Police" e "Stop This Game".   
     

Foto: Ton Muller
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Já nos primeiros instantes da apresentação, com "Hello There" e "Big Eyes", dupla de ases do álbum "In Color" (1977), recebemos um 'carteiraço' que expõe o poder de fogo do grupo. Estão lá a guitarra afiada de Rick Nielsen, seu estilo anárquico de se movimentar no palco e uma capacidade sobrenatural de intercalar velocidade e feeling o colocam em muitas listas dos melhores guitarristas de todos os tempos. Já o vocalista Robin Zander, um dos mais influentes perfomers do rock, como artista parece encapsular muitas personas conhecidas. Bastar ouvi-lo cantar ao vivo temas como "You Got It Going On" e fica fácil entender de onde eles vieram os tiques, trejeitos e o estilo de nomes como Axl Rose (Guns N' Roses) e principalmente Vince Neil  (Motley Crue). E falando de sua versatilidade, se em "When I Wake Up Tomorrow" Zander pode soar limpinho como Roy Orbison, já em "Baby Loves to Rock" ele solta a voz como se fosse um Little Richard branquelo.

Um show que pegou o público aos poucos e acabou por instaurar um clima de celebração que entrega a bola queimando nas mãos do Deep Purple. Disparado, um dos melhores show de rock que vi em 2017.        

Setlist CT no SR em Curitiba

Hello There
Big Eyes
California Man
You Got It Going On
Ain't That a Shame
If You Want My Love
When I Wake Up Tomorrow
Long Time Coming
Baby Loves to Rock
Ghost Town
In the Street
Stop This Game
I'm Waiting for the Man
The Flame
I Want You To Want Me
Dream Police
Surrender
Run Rudolph Run
Goodnight

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

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Foto: Ton Muller

TESLA - CURITIBA, 12 DE DEZEMBRO DE 2017

Foto: Ton Muller
Texto Márcio Grings Fotos Ton Muller

Localizada no bairro do Abranches, em Curitiba,  a Pedreira Paulo Leminski é uma área destinada a espetáculos ao ar livre. Aberto em 1990, o espaço possui área de 103,5 mil m² e um palco de 480 m², e pode receber até trinta mil pessoas. Seu nome é uma homenagem ao poeta curitibano Paulo Leminski. No passado o local foi uma pedreira municipal e usina de asfalto, mantendo este aspecto peculiar, pois é cercado por um belíssimo paredão de rocha de trinta metros. Além de ampla área verde, um pequeno lago aonde inclusive alguns patos e animais silvestres fazem morada, a Pedreira é um local fantástico para assistir um evento ao estilo do Solid Rock, que traz a Curitiba Tesla, Cheap Trick e Deep Purple.

Foto: Ton Muller
Em pleno mês de dezembro, temperatura com cara de outono, céu bastante cinzento, às 18h30 o Tesla dá início aos trabalhos. A banda californiana ganhou reconhecimento mundial na segunda metade dos anos 1980, graças a repercussão positiva de álbuns como "Mechanical Resonance" (1986) e "Great Radio Controversy" (1989). Atuando com a escuderia do hard rock (ou glam metal, como alguns se referem), o som do grupo é feito sob medida para os amantes do rock calcado em riffs de guitarra intercalado com passagens acústicas. A atual formação conta com Jeff Keith (voz), Frank Hannon (guitarra e voz de apoio), Dave Rude (guitarra e voz de apoio), Brian Wheat (baixo e voz de apoio) e Troy Luccketta (bateria).

Veja um breve trecho da apresentação.



Num show curto, set enxuto com apenas sete canções e 50 minutos de som, o quinteto apresenta um breve resumo de suas apresentações full. Com público reduzido, já que a banda tocou cerca de uma hora antes do horário anunciado no serviço do evento, esse foi o momento também de visitar as barraquinhas oficiais com produtos das bandas, calibrar os copos de cerveja, bater papo com os amigos, e claro, conferir o primeiro show do Tesla no Brasil em 30 anos de carreira. O vocalista Jeff Keith parecia viver um dos momentos mais felizes de sua vida. Com um permanente sorriso no rosto, interagiu constantemente com o público e distribuiu carinho aos fãs mais próximos ao palco (que cantavam todas as músicas em alto e bom tom). Entre os destaques, "Love Song" e "Modern Day Cowboy", temas em que a voz rasgada de Keith encontra um território perfeito para brilhar. Ainda teríamos Cheap Trick e Purple pela frente...   

Setlist Tesla no SR em Curitiba.

Into the Now
Edison's Medicine (Man Out of Time)
The Way It Is
Signs
Love Song
Little Suzi
Modern Day Cowboy


Foto: Ton Muller



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Foto: Ton Muller



Foto: Ton Muller



Foto: Ton Muller



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Foto: Ton Muller



Foto: Ton Muller











Foto: Ton Muller

domingo, 12 de novembro de 2017

COLDPLAY - PORTO ALEGRE, 11 DE NOVEMBRO DE 2017

Foto: Ton Muller
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Texto Ana Bittencourt Fotos Ton Muller

Cultivar expectativas não é muito a minha praia. Essa é uma postura que aprendi e procuro seguir, sempre que possível. Quando entro na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, na noite de 11 de novembro de 2017, eu sei que estou prestes a assistir uma das turnês mais aclamadas pela crítica na atualidade, a "A Head Full of Dreams Tour", da banda britânica Coldplay. De todo o modo, nem de longe eu poderia imaginar tudo o que viria pela frente nas próximas duas horas. Na verdade, eu não tinha ideia da grandiosidade do espetáculo. E esse é o grande lance de segurar a curiosidade e não navegar na rede em busca das apresentações anteriores. O meu prêmio foi o total arrebatamento.

Foto: Ton Muller
Já na chegada, ao passar pela catraca, um artefato estranho é colocado no meu pulso. Trata-se da “Xyloband”, pulseira com luzes de led controladas por ondas de rádio e inventada por um fã da banda, Jason Regler. O acessório foi usado pela primeira vez na Mylo Xyloto Tour, em 2011 e 2012. Depois, foram cerca de 30 minutos de espera pelo show. Marcado para às 21h, o concerto inicia com 17 minutos de atraso, tempo aceitável para aquela estrutura toda. De repente, as luzes se apagam e o estádio inteiro ouve a voz de Maria Callas no tema “O Mio Babbino caro”, trecho mais conhecido da ópera "Gianni Schichi", de Giacomo Puccini. Não sei definir exatamente o que sinto nessa hora. Mas naquele instante tenho certeza: vai ser emocionante!

Foto: Ton Muller
E foi. Foi muito mais. Foi tanto, que estar presente nessa primeira vez do Coldplay no RS, e ainda meio zonza pelo espetáculo de som e luzes, não consigo encontrar uma palavra ou frase adequada para definir o mise-en-scène visual/sensorial que presencio na noite deste sábado. É provável que eu e grande parte das outras 59 mil pessoas (número oficial divulgado pela produção do show) tenhamos esse sentimento. As luzes explodem no palco e eu finalmente entendo a magia da Xyloband no meu pulso. Milhares de pontos luminosos acendem em todos os setores, alternando e misturando cores, tornando a Arena do Grêmio num lugar mágico, encantado pelo poder da música. Começa a tocar “A Head Full of Dreams”, música que abre e dá nome ao sétimo álbum de estúdio da banda. Nas cadeiras (setor em que estou), ninguém mais permanece sentado.

Foto: Ton Muller
A partir daí, um desfile de hits segue sem que a plateia tenha tempo para respirar. O primeiro deles, “Yellow”, já me faz entender porque estou ali. Nunca fui grande fã e conhecedora do Coldplay, mas durante o tempo em trabalhei em rádio, tocávamos (e tocávamos muito) essa canção. E se a não a rodasse durante meu horário, sempre algum ouvinte ligava e pedia. De todo modo, sempre achei que "Yellow" combinava com a programação matutina. Os dois primeiros versos me parecem de uma candura tão linda: "Look at the stars / Look how they shine for you". Eu mesma já os utilizei em uma matéria que escrevi recentemente. Ainda durante "Yellow", o vocalista Chris Martin dá seu primeiro recado: "Boa noite, gaúchos. Estamos muito, muito felizes de estarmos aqui, em Porto Alegre. Muito obrigado!”, em português com sotaque britânico. Chris Martins é um bom guri.

Foto: Ton Muller
Na sequência, ainda no palco principal, vem "Every Teardrop Is a Waterfall",  "The Scientist" (minha favorita), além de "Birds" e "Paradise", uma sequência de hits que deixa o público em total sintonia com o espetáculo. E então sou surpreendida por uma das grandes sacadas da turnê: a alternância de palcos. Sim, temos o principal (Palco A), o Palco B – menor, circular e que se estende até a plateia, ligada ao principal por um longo corredor – e o Palco C – esse sim, bem pequeno e situado à direita do palco principal, literalmente no meio da galera. Para entender melhor, abaixo no setlist completo, você confere essa alternância.

Foto: Ton Muller
É inegável o carisma de Chris Martin. Se comunicando o tempo todo com a plateia, a maioria das vezes em inglês, mas novamente falando num português compreensível, o vocalista é extremamente simpático. Pede amor, alegria, enaltece as pessoas que viajaram centenas de quilômetros para estarem ali, desculpa-se pelo alto preço dos ingressos (salgados!), discorre sobre o amor ao Brasil e passa a certeza de que está muito à vontade em nossa casa. Frente ao estrelato de Martin, Guy Berryman (baixo, sintetizadores e gaita), Jonny Buckland (guitarra, violão e sintetizadores) e Will Champion (bateria, percussão e piano), muitas vezes ficam ofuscados de suas virtudes como copresponsáveis pelo sucesso da banda, de todo o modo, mesmo que na posição de coadjuvantes (de luxo), fornecem todo o combustível e tranquilidade para que o frontman se comunique com a plateia. E isso acontece o tempo todo. 

Foto: Ton Muller
Grandes momentos chegam com "Fix You" e "Viva La Vida". Me sinto privilegiada em presenciar as primeiras audições de "Life is Beautiful", número ainda inédito que possivelmente esteja em algum futura lançamento discográfico da banda. A música paga tributo inspirada aos cânticos das torcidas britânicas nos estádios de futebol. Algumas surpresas ainda estariam por vir durante o show. A explosão de fogos de artifício, a chuva de papel picado (pelo menos para quem estava distante do palco, como eu, parecia ser “só” papel picado, mas só depois vim a saber que se tratavam de borboletas e pássaros recortados em papeis coloridos) e as grades bolas, igualmente coloridas, que inundaram a plateia. Tudo isso faz da noite um mix de luz, energia e cores. 

Foto: Ton Muller
Foi ótimo assistir a passagem da "A Head Full of Dreams Tour" com a sensação de não ter feito o tema de casa. Foi bom ser surpreendida pelo trabalho de uma produção primorosa e dedicada, um verdadeiro espetáculo que permanecerá vivo na memória como um dos maiores shows que já assisti na vida, e que possivelmente esteja em um futuro DVD da banda, já que os shows no brasil foram gravados (incluindo o do Porto Alegre). Obrigada pela mensagem de amor e alegria, Coldplay. A primeira vez dos britânicos em solo gaúcho nos deixa com a sensação de que essa não será a última. Então, vivamos la vida!

Grings - Tours, Produções e Eventos (Santa Maria) e Jamil Magic Bus (Passo Fundo) agradecem aos clientes e amigos que escolheram compartilhar experiências conosco. Até o próximo tour. Agradecimento especial ao fotógrafo Ton Muller. 

Setlist Coldplay Porto Alegre:

Faixa incidental: O Mio Babbino Caro (Maria Callas)

Palco principal:

1. A Head Full of Dreams
2. Yellow
3. Every Teardrop Is a Waterfall
4. The Scientist
5. Birds
6. Paradise

Palco B:

7. Always in My Head
8. Magic
9. Everglow

Palco principal:


10. Clocks

11. Midnight
12. Charlie Brown
13. Hymn for the Weekend
14. Fix You
15. Viva la Vida
16. Adventure of a Lifetime
17. Amazing Day


Palco C:


18. Kaleidoscope (Parte 1: The Guest House)
19. Don’t Panic
20. In My Place (acústico)
21. Porto Alegre Song
22. Kaleidoscope (Parte 2: Amazing Grace)


Palco principal:


23. Life Is Beautiful
24. Something Just Like This
25. A Sky Full of Stars
26. Up&Up


Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

ÚLTIMA COBERTURA:

DEEP PURPLE - CURITIBA, 12 DE DEZEMBRO DE 2017

Fotos: Ton Muller # Texto Márcio Grings Fotos Ton Muller Depois da abertura com Tesla, do show empolgante do Cheap Trick, o minif...