domingo, 12 de novembro de 2017

COLDPLAY - PORTO ALEGRE, 11 DE NOVEMBRO DE 2017

Foto: Ton Muller
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Texto Ana Bittencourt Fotos Ton Muller

Cultivar expectativas não é muito a minha praia. Essa é uma postura que aprendi e procuro seguir, sempre que possível. Quando entro na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, na noite de 11 de novembro de 2017, eu sei que estou prestes a assistir uma das turnês mais aclamadas pela crítica na atualidade, a "A Head Full of Dreams Tour", da banda britânica Coldplay. De todo o modo, nem de longe eu poderia imaginar tudo o que viria pela frente nas próximas duas horas. Na verdade, eu não tinha ideia da grandiosidade do espetáculo. E esse é o grande lance de segurar a curiosidade e não navegar na rede em busca das apresentações anteriores. O meu prêmio foi o total arrebatamento.

Foto: Ton Muller
Já na chegada, ao passar pela catraca, um artefato estranho é colocado no meu pulso. Trata-se da “Xyloband”, pulseira com luzes de led controladas por ondas de rádio e inventada por um fã da banda, Jason Regler. O acessório foi usado pela primeira vez na Mylo Xyloto Tour, em 2011 e 2012. Depois, foram cerca de 30 minutos de espera pelo show. Marcado para às 21h, o concerto inicia com 17 minutos de atraso, tempo aceitável para aquela estrutura toda. De repente, as luzes se apagam e o estádio inteiro ouve a voz de Maria Callas no tema “O Mio Babbino caro”, trecho mais conhecido da ópera "Gianni Schichi", de Giacomo Puccini. Não sei definir exatamente o que sinto nessa hora. Mas naquele instante tenho certeza: vai ser emocionante!

Foto: Ton Muller
E foi. Foi muito mais. Foi tanto, que estar presente nessa primeira vez do Coldplay no RS, e ainda meio zonza pelo espetáculo de som e luzes, não consigo encontrar uma palavra ou frase adequada para definir o mise-en-scène visual/sensorial que presencio na noite deste sábado. É provável que eu e grande parte das outras 59 mil pessoas (número oficial divulgado pela produção do show) tenhamos esse sentimento. As luzes explodem no palco e eu finalmente entendo a magia da Xyloband no meu pulso. Milhares de pontos luminosos acendem em todos os setores, alternando e misturando cores, tornando a Arena do Grêmio num lugar mágico, encantado pelo poder da música. Começa a tocar “A Head Full of Dreams”, música que abre e dá nome ao sétimo álbum de estúdio da banda. Nas cadeiras (setor em que estou), ninguém mais permanece sentado.

Foto: Ton Muller
A partir daí, um desfile de hits segue sem que a plateia tenha tempo para respirar. O primeiro deles, “Yellow”, já me faz entender porque estou ali. Nunca fui grande fã e conhecedora do Coldplay, mas durante o tempo em trabalhei em rádio, tocávamos (e tocávamos muito) essa canção. E se a não a rodasse durante meu horário, sempre algum ouvinte ligava e pedia. De todo modo, sempre achei que "Yellow" combinava com a programação matutina. Os dois primeiros versos me parecem de uma candura tão linda: "Look at the stars / Look how they shine for you". Eu mesma já os utilizei em uma matéria que escrevi recentemente. Ainda durante "Yellow", o vocalista Chris Martin dá seu primeiro recado: "Boa noite, gaúchos. Estamos muito, muito felizes de estarmos aqui, em Porto Alegre. Muito obrigado!”, em português com sotaque britânico. Chris Martins é um bom guri.

Foto: Ton Muller
Na sequência, ainda no palco principal, vem "Every Teardrop Is a Waterfall",  "The Scientist" (minha favorita), além de "Birds" e "Paradise", uma sequência de hits que deixa o público em total sintonia com o espetáculo. E então sou surpreendida por uma das grandes sacadas da turnê: a alternância de palcos. Sim, temos o principal (Palco A), o Palco B – menor, circular e que se estende até a plateia, ligada ao principal por um longo corredor – e o Palco C – esse sim, bem pequeno e situado à direita do palco principal, literalmente no meio da galera. Para entender melhor, abaixo no setlist completo, você confere essa alternância.

Foto: Ton Muller
É inegável o carisma de Chris Martin. Se comunicando o tempo todo com a plateia, a maioria das vezes em inglês, mas novamente falando num português compreensível, o vocalista é extremamente simpático. Pede amor, alegria, enaltece as pessoas que viajaram centenas de quilômetros para estarem ali, desculpa-se pelo alto preço dos ingressos (salgados!), discorre sobre o amor ao Brasil e passa a certeza de que está muito à vontade em nossa casa. Frente ao estrelato de Martin, Guy Berryman (baixo, sintetizadores e gaita), Jonny Buckland (guitarra, violão e sintetizadores) e Will Champion (bateria, percussão e piano), muitas vezes ficam ofuscados de suas virtudes como copresponsáveis pelo sucesso da banda, de todo o modo, mesmo que na posição de coadjuvantes (de luxo), fornecem todo o combustível e tranquilidade para que o frontman se comunique com a plateia. E isso acontece o tempo todo. 

Foto: Ton Muller
Grandes momentos chegam com "Fix You" e "Viva La Vida". Me sinto privilegiada em presenciar as primeiras audições de "Life is Beautiful", número ainda inédito que possivelmente esteja em algum futura lançamento discográfico da banda. A música paga tributo inspirada aos cânticos das torcidas britânicas nos estádios de futebol. Algumas surpresas ainda estariam por vir durante o show. A explosão de fogos de artifício, a chuva de papel picado (pelo menos para quem estava distante do palco, como eu, parecia ser “só” papel picado, mas só depois vim a saber que se tratavam de borboletas e pássaros recortados em papeis coloridos) e as grades bolas, igualmente coloridas, que inundaram a plateia. Tudo isso faz da noite um mix de luz, energia e cores. 

Foto: Ton Muller
Foi ótimo assistir a passagem da "A Head Full of Dreams Tour" com a sensação de não ter feito o tema de casa. Foi bom ser surpreendida pelo trabalho de uma produção primorosa e dedicada, um verdadeiro espetáculo que permanecerá vivo na memória como um dos maiores shows que já assisti na vida, e que possivelmente esteja em um futuro DVD da banda, já que os shows no brasil foram gravados (incluindo o do Porto Alegre). Obrigada pela mensagem de amor e alegria, Coldplay. A primeira vez dos britânicos em solo gaúcho nos deixa com a sensação de que essa não será a última. Então, vivamos la vida!

Grings - Tours, Produções e Eventos (Santa Maria) e Jamil Magic Bus (Passo Fundo) agradecem aos clientes e amigos que escolheram compartilhar experiências conosco. Até o próximo tour. Agradecimento especial ao fotógrafo Ton Muller. 

Setlist Coldplay Porto Alegre:

Faixa incidental: O Mio Babbino Caro (Maria Callas)

Palco principal:

1. A Head Full of Dreams
2. Yellow
3. Every Teardrop Is a Waterfall
4. The Scientist
5. Birds
6. Paradise

Palco B:

7. Always in My Head
8. Magic
9. Everglow

Palco principal:


10. Clocks

11. Midnight
12. Charlie Brown
13. Hymn for the Weekend
14. Fix You
15. Viva la Vida
16. Adventure of a Lifetime
17. Amazing Day


Palco C:


18. Kaleidoscope (Parte 1: The Guest House)
19. Don’t Panic
20. In My Place (acústico)
21. Porto Alegre Song
22. Kaleidoscope (Parte 2: Amazing Grace)


Palco principal:


23. Life Is Beautiful
24. Something Just Like This
25. A Sky Full of Stars
26. Up&Up


Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

GREEN DAY - PORTO ALEGRE, 7 DE NOVEMBRO DE 2017

Foto: Michael Paz
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Texto Márcio Grings Fotos Michael Paz/ BMoov


Se alguém acredita que o rock'n'roll é um gênero em extinção, todas as teorias da conspiração caem por terra se você tiver a oportunidade de assistir a um show do grupo norte-americano Green Day. Formado há exatos 30 anos, o trio se apresentou nesta terça-feira (7) no Beira-Rio (em formato de anfiteatro), frente a cerca de 15 mil pessoas, sete anos depois da primeira passagem do grupo pela capital gaúcha. Para quase três horas de apresentação, Billie Joe Armstrong (guitarra e voz), Mike Dirnt (baixo e vocal de apoio), e Tré Cool (bateria e vocal de apoio), ainda contam com o suporte de Jason White (guitarra e vocal de apoio), Jeff Matika (violão, guitarra e vocal de apoio) e Jason Freeze (teclados, violão, trombone, saxofone, acordeon, vocal de apoio). 

Foto: Michael Paz
Em toda a sua trajetória, o Green Day é uma daquelas bandas que não apenas marcaram uma época especifica com álbuns e canções: - o grupo permanece produzindo bons discos e demonstrando a olhos vistos uma crescente evolução na forma de produzir a sua obra. Mais recentemente podemos citar o excepcional "American Idiot" (2004), álbum com status de ópera rock e marca do talento político das letras de Billie Joe Armstrong. Já o último trabalho, "Revolution Radio", lançado no ano passado, contribui com várias canções no tour homônimo que passou por Rio, São Paulo e Curitiba antes de desembarcar em Porto Alegre (no set gaúcho foram cinco canções). Isso revela que a banda continua olhando para frente, apontando sua carta de intenções também (e principalmente) para o futuro do rock. Para tanto, trago a lembrança de que muitos shows internacionais que cruzam pelo país atualmente não passam de um exercício de saudosismo (sem demérito algum). Por isso, podemos afirmar que assistir ao Green Day ao vivo é como projetar o futuro do rock, ou no mínimo uma expectativa positiva de que ainda haja espaço para a guitarra na música pop.     

Foto: Michael Paz
O show ainda nem começou, e todo o burburinho aumenta quando os temas incidentais do espetáculo tocam em alto e bom som pelo estádio. Na verdade esses mesmos clássicos dão a letra de alguns aspectos da noite. Quando "Bohemian Rapsody" ganha a adesão imediata do público, a lembrança de Freddie Mercury como um dos maiores performers do rock, encontra em Billie Joe um discípulo de sua prática de manipular grandes audiências. Uma das marcas da apresentação é o incansável líder/guitarrista/vocalista/compositor, presença imparável dentro das quatro linhas do palco e interação com o público. "Blitzkrieg Bop" dos Ramones é o elo punk com o Green Day, uma banda que passa pelo abecedário do gênero, e cartilha que induziu o Green Day aos primeiros passos, mas que permanece lumiando o espírito da banda. E por último, "Also Sprach Zarathustra", peça sinfônica do compositor Richard Strauss, e abertura dos shows de Elvis Presley nos anos 1970. Sim,o rock permanece vivo e pulsante nas batidas de nossos corações. 21h5, finalmente começa o show. Ele só irão arredar o pé do palco 2h45 depois...

Foto:Michael Paz
Assistir o Green Day ao vivo é como presenciar uma final de Copa do Mundo. Em cada música há uma entrega absurda da banda, com Billie Joe insistindo a todo momento que todos estamos convidados a participar dessa festa particular. Já no início, em "Know Your Enemy" um fã sobe ao palco e contribui com seu backing ao lado do vocalista. Logo depois, instigado pelo vocalista, o mesmo  indivíduo voa sobre o público como um planador humano - o primeiro mosh da noite. Recado dado, em frente a pista o público abre uma imensa brecha e rola o tradicional pogo (roda punk), onde dezenas de fãs se empurram e acotovelam em tom de distração e brincadeira. 

Foto: Michael Paz
Não tem como não tirar o chapéu para Billy Joe, o homem é um dos atuais showmen do rock. Assim, sempre através da voz de comando do líder do grupo, o público pode migrar amigavelmente para o palco na figura de uma menina que canta, dança e interage com os músicos; outra garota toca guitarra (e ainda leva o instrumento de presente para casa). Billie Joe faz caretas, dança, rebola, troca de figurino (e de guitarra várias vezes), coloca uma tiara feminina, tremula bandeiras de protesto contra Temer e Trump e a favor do Movimento LGBT, enfim, um manifesto artístico digno dos grandes palcos.

Reprodução Instagram Billie Joe Armstrong

Sem preocupações visuais extremas, o telão central emplaca imagens fixas e sem grande variação de temas, com os telões laterais seguindo toda a ação no palco. Visualmente, os calorosos canhões de fogo posicionados ao fundo do palco, são o ponto alto pirotécnico da apresentação. Porém, o esqueleto do espetáculo está alicerçado naquilo que realmente importa: - a música e a forma como o Green Day entrega isso para o público.

Quanto ao repertório, as escolhas do grupo marcam X na boleta de quatro álbuns: ""Dookie" (1994), "Nimrod" (1997) e "American Idiot" (2004), além do mais recente trabalho, "Revolution Radio", que inclusive empresta seu nome ao tour. 21 músicas saltam dos respetivos álbuns para compor a maior fatia do show. O restante é pinçado de outros 5 álbuns do grupo. Destaque para um medley de clássicos do rock, incluindo canções dos Beatles (Hey Jude), Rolling Stones (Satisfaction) , The Doors (Break On Through) e Isley Brothers (Shout) e a zoada do Monthy Python em "A Vida de Brian" (Always Look On the Bright Sight of Life). 

Confira a performance de "She".



Grings - Tours, Produções e Eventos (Santa Maria) e Jamil Magic Bus (Passo Fundo) agradecem aos clientes e amigos que escolheram compartilhar experiências conosco. Até o próximo tour. Nosso agradecimento especial a Agência Cigana pelo suporte e credenciamento. 

***

Green Day - Setlist Porto Alegre "Revolution Tour"

Know Your Enemy
Bang Bang
Revolution Radio
Holiday
Letterbomb
Boulevard of Broken Dreams
Longview
Youngblood
2000 Light Years Away
Armatage Shanks
J.A.R. (Jason Andrew Relva)
F.O.D.
Scattered
Waiting
Hitchin' a Ride
When I Come Around
She
Minority
Are We the Waiting
St. Jimmy
Knowledge
Basket Case
King for a Day
Shout / Always Look on the Bright Side of Life / Break on Through (to the Other Side) / (I Can't Get No) Satisfaction / Hey Jude
Still Breathing
Forever Now

Encore:

American Idiot
Jesus of Suburbia

Encore 2:

21 Guns
Good Riddance (Time of Your Life)


Foto: Michael Paz
Foto: Michael Paz

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

JOHN MAYER - PORTO ALEGRE, 24 DE OUTUBRO DE 2017

Michael Paz/ BMoov 
Texto Márcio Grings Fotos Michael Paz/ BMoov (exceto indicadas)

No coração e na alma de John Mayer, a paixão pelo blues é algo que inevitavelmente granula a sua música. O músico norte-americano que acaba de completar 40 anos, passou nesta terça-feira (24) com seu tour "The Search For Everything" pela capital gaúcha. Segundo assessoria do evento, 15 mil pessoas estiveram no Beira-Rio (em formato de anfiteatro), um dos modelos perfeitos para se ver uma apresentação desse porte aqui no RS. Se nos discos que grava, de alguma forma ele maquia essa paixão, nas apresentações ao vivo o blues passa a ser sua principal matéria prima e fonte de transformação em suas canções. 

Mesmo que você tenha lido manchetes do tipo "Com desfile de hits e pouca empolgação, John Mayer se apresenta em Porto Alegre", me coloco a pensar que muitas vezes os jornais e sites parecem se esforçar para não publicar a verdade sobre um show. Ou falta experiência e discernimento para quem assina a matéria, ou realmente estamos falando em falta de preparo. Afinal, no quesito empolgação e interação, certamente assistir a um show de John Mayer não há equivalência com algo do tipo estar em um show de Ivete Sangalo, por exemplo. Respeitando o lugar de cada artista, no caso do que vi ontem no Beira-rio, houve entusiasmo e adesão em massa do publico, isso desde o início da apresentação e num crescendo, quando até mesmo a audiência das cadeiras mais afastadas do palco, fez bafo na nuca do público que estava na pista, mais próximo ao artista. Em resumo: o resultado foi exatamente o contrário do que foi publicado no referido site, pois houve arrebatamento de sobra em todas as pontas do show. E veja bem, quem assina esse texto não se declara um fã de John Mayer, no entanto reconhece as virtudes do cantor, compositor e guitarrista, um dos grandes hitmakers do nosso tempo. E não me cheira muito bem ler um review de show que começa falando das opções de vestuário do artista.   

Michael Paz/ BMoov 
Eu, por exemplo, prefiro começar falando do espírito blueseiro que assombra a alma e consequentemente a música de Mayer, pelo fato de que provavelmente muitos de seus fãs foram apresentados ao gênero que fundamentou os pilares do rock/pop, através de sua obra. "Ele não tem medo de errar", me disse um amigo logo após o show. Certamente cada apresentação do músico é diferente da outra, pois sua interação com a banda é pautada por constantes autodesafios e saídas estratégicas da zona de conforto. A começar pelo setlist, impossível de ser antecipado, pois Mayer altera consideravelmente a ordem e temas de um show para outro. E ainda há contantes brechas para improvisos e alterações de curso durante cada execução. É o blues novamente conversando, ou melhor, assoprando no ouvido de John Mayer...

Michael Paz/ BMoov 
Como um bom filme - e essa é a sensação que o telão nos passa como os créditos iniciais e finais, além das imagens que dão suporte ao espetáculo, o show tem exatas duas horas divididas em quatro capítulos, pensado para agradar a "geração Netflix". Primeiro ato, com banda completa, incluindo o tecladista Larry Goldings (Norah Jones, Madeleine Peyroux), mais os guitarristas David Ryan Harris (Dave Mattews, Santana) e Isaiah Sharkey (Paul Simon, Patti Labelle). Destaque para os vocais de apoio a cargo da excepcional dupla formada por Carlos Rickets Jr (U2, Willie Nelson) e Tiffany Palmer. No segundo ato, temas com roupagem acústica. A terceira, parte mais blueseira e pesada da noite, e no epílogo, novamente banda completa e desfile de hits compostos em quase vinte anos de carreira.

Michael Paz/ BMoov 
Se o fantasma de Jimi Hendrix eclode sutilmente no riff de "Helpless", o rhithm and blues respira livre leve e solto em "Moving On and Getting Over", colocando assim o novo álbum já em evidência no início da apresentação. "Who Say's", "Why Georgia", "Dear Mary"  e "Stop This Train" são porta de entrada para pop agridoce de Mayer que circula nas FMs, sem deixar de lado a sensação de que a banda nos envolve em sua massa corpórea de sustentação, com o som batendo forte no peito. Temas como "I Don't Trust Myself (With Loving You) e "Slow Dancing in a Burning Room", cartões de visita permanentes em seus shows, não passam de pura demonstração de como o músico consegue mascarar o blues com indumentária pop, algo que ao vivo fica mais evidente. 

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
No momento acústico, quando o protagonista fica sozinho no palco com seu violão, "Your Body is a Wonderland", "Emoji of a Wave" e "In Your Atmosphere", também versam sobre os constantes desdobramentos do show e de como Mayer pensa em recortes e atmosferas diferentes ao se apresentar ao vivo. Tudo isso fica ainda mais evidente quando a terceira parte, a mais blueseira e pesada da noite, revela o músico acompanhado apenas pelo baixista Pino Palladino (Pink Floyd, The Who, Eric Clapton) e o baterista Steve Jordan (Keith Richards, Stevie Wonder, Blues Brothers). Paladino na posição clássica de baixista; Jordan só sorrisos numa bateria reduzida e reposicionada no palco; e Mayer parecendo mais feliz do que nunca, tocando standards de B.B. King, Robert Johnson e "Vultures", um daqueles sons que surgem entortados e distorcidos da forma original que conhecemos da gravação, mas nem por isso menos atraente, até pelo contrário...    

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
"In The Blood", uma das melhores músicas do novo álbum, fica ainda mais interessante com a introdução vocal de David Ryan. A letra versa sobre nossa permanente herança sanguínea, fala de ancestralidade e de como muitas vezes acabamos nos tornando muito parecidos como nossos pais e irmãos. Sem dúvida, a gravação opaca que está eternizada no álbum não faz jus a espetacular versão que foi tocada na noite dessa terça-feira em Porto Alegre.   

Em "If I Ever Get Around to Living", com Mayer no início ao violão, canção que cresce horrores no palco, as guitarras de  David Ryan Harris e Isaiah Sharkey promovem cruzamentos que lembram o som do Gratdeful Dead, ou até mesmo as dobradinhas melódicas do Allman Brothers Band. Na parte final, Sharkey faz o mais longo e belo solo de guitarra do show. Essa é outra das grandes virtudes de Mayer: ele dá espaço para iluminar os talentos individuais de sua banda. Ao final de 'Dear Marie", rola aquele boa noite (até logo). A plateia, efusivamente recorre as lanternas de seus celulares e rememora o coro da canção anterior para pedir o retorno do astro até os holofotes. É quando ouvimos a levada de baixo/bateria de "Waiting on The World To Change", um dos maiores hits de sua carreira e homenagem descarada a sonoridade de "What's Going On", um dos clássicos absolutos de Marvin Gaye. E Mayer ainda faz um mix com "Inner City Blues", outro sucesso de Marvin. Bem em frente ao palco, tudo soa ainda maior. E a despedida tem como moldura "Gravity", quando os vocais de apoio de Carlos Rickets e Tiffany Palmer rumam para a linha de frente, levantando aplausos efusivos do público no Beira-Rio. John Mayer sola e novamente evoca a saudosa quimera do Rio Mississipi.

Veja um breve trecho de 'Waiting On The World To Change".


Por mais que para alguns leitores isso pareça incoerente, ver John Mayer ao vivo me lembra muito a postura de Eric Clapton nos anos 1980: nem sempre o que ouvíamos era blues, mas o blues sempre estava lá. Apesar do injusto status de tardio ícone teen internacional, saio do Beira-rio com a certeza de que o músico ainda nos dará mais do que já deu, e parece que ele está no caminho certo.

Grings - Tours, Produções e Eventos (Santa Maria) e Jamil Magic Bus (Passo Fundo) agradecem aos clientes e amigos que escolheram compartilhar experiências conosco. Até o próximo tour. Nosso agradecimento especial a Agência Cigana pelo suporte e credenciamento.      

John Mayer - Setlist Porto Alegre

Capítulo 1: banda completa

Helpless
Moving On and Getting Over
Who Says
I Don't Trust Myself (With Loving You)
Why Georgia

Capítulo 2: acústico

Your Body is a Wonderland
Emoji of a Wave
In Your Atmosphere

Capítulo 3: trio

Every Day I Have the Blues
Vultures
Cross Road Blues

Capítulo 4: banda completa (reprise)

In the Blood
Stop This Train
Slow Dancing in a Burning Room
If I Ever Get Around to Living
Dear Marie

Bis:

Waiting On The World To Change/Inner City Blues
Gravity

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)

Michael Paz/ BMoov 

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)

sábado, 14 de outubro de 2017

PAUL McCARTNEY - PORTO ALEGRE, 13 DE OUTUBRO DE 2017

Foto: PMC oficial

Tem uma coisa que aprendi com as crianças. Elas têm seu próprio tempo. E não adianta forçar a barra e tentar impor nossas preferências como sendo as mesmas que movem o interesse delas. Afinal, também já fomos crianças. Assim, como o passar dos anos, sabemos que não necessariamente, por exemplo, nossos filhos irão herdar nosso gosto musical. No entanto, invariavelmente essas sementes germinam. Aos 17 anos, Guilherme, meu filho, além de ser ouvinte assíduo de bandas como Artic Monkeys e Red Hot Chili Peppers – também é um convicto fã de Beatles. Tudo começou aos 10 anos, em 2010, quando Paul McCartney passou pela primeira vez em Porto Alegre. Não o levei na época para vê-lo, e até hoje me lamentava. Sem problemas, em 2014 tive uma nova chance, pois comprei ingressos para assisti-lo em Montevidéu, no Uruguai. Dessa vez ele iria comigo. Mas... Tivemos um contratempo e nossa expectativa foi frustrada. Por isso, logo que saiu o anúncio da segunda vinda de Paul na capital gaúcha, não tive dúvida: garanti o ingresso do guri! É curioso, mas assistir a um show de Paul McCartney inspira sentimentos como esse: você quer curtir o show ao lado de quem ama.

Leia resenha do show de Paul McCartney em 7.11.2010

Foto: Ton Muller

Fim de tarde início de noite, cá estamos nós em um dos eventos musicais do ano no RS, chance de ver de perto o tour “One On One”. Antes do espetáculo, filas monstruosas serpenteiam pelo complexo do Beira-Rio (nunca vi maiores), além de todo aquele fuzuê pré-show. Na verdade, desde a terça-feira (10) fãs já começaram a se amontoar aos poucos para garantir um lugar o mais próximo possível em frente ao palco. E quem novamente marcou presença em um evento com ares históricos como esse foi a mau tempo. Depois da lição de ter visto os Rolling Stones totalmente encharcados, dessa vez um exército ainda maior de pessoas vestidas em diversos modelitos de capa de chuva tomou conta do Beira-Rio. Um alerta quanto as expectativas de previsão do tempo para as horas que compreenderiam o espetáculo foi postado pelo próprio artista em sua página oficial. Ao som de "Ob-La-Di, Ob-La-Da", veja o vídeo.


Entramos no estádio no finalzinho da apresentação de abertura, assim, infelizmente podemos assistir apenas os últimos instantes do show de Frank Jorge e Luciano Albo, presenças legítimas como preâmbulo do evento. Uma das principais expectativas dos fãs mais ferrenhos era tentar adivinhar as possibilidades de setlist. Quem chegou mais cedo ao Beira-Rio ganhou um presente: pode ouvir a passagem final de Paul e banda. Entre as músicas tocadas, clássicos do Beatles como "Honey Don't", "Drive My Car" e "Things We Said Today", canções que certamente não desagradariam o público de cerca de 50 mil presentes. 

Dois minutos passados da 21h, uma chuva fina cai novamente sobre Porto Alegre - ela foi e voltou várias vezes, legitimando o uso permanente dos impermeáveis-, eis que o beatle finalmente começa sua apresentação. Uma das marcas que assombram de cara os desavisados é toda a estrutura de som/luz/palco e os gigantescos telões que aproximam Paul de qualquer fã. Abertura com "A Hard Day's Night" joga ainda mais gasolina numa caldeira pronta para explodir. É noite de festa! E nem só de beatle songs se faz um set, "Junior's Farm" nos relembra o quanto o Wings era um grande banda de rock'n'roll. "É bom estar de volta", nos diz Paul em português, e logo depois ouvimos "Can't By Me Love", clássico ilustrado com imagens dos tempos da beatlemania a colorir o telão no fundo de palco. O coração dispara, meu filho canta a plenos pulmões. Um curiosidade: em comparação ao show de Paul de 2010, realizado também no Beira-Rio, a apresentação de 2017 tem cerca de  metade de canções diferentes, revelando um remodelamento de setlist.   

Foto: Ton Muller
Com "Jet" o estádio permanece em nível de histeria controlada. Particularmente, não consigo imaginar um show de Maca sem essa trilha ecoando das caixas de som. E eis que ouvimos uma das primeiras surpresas do set: "Got To Get Into My Life", uma das minhas preferidas de "Revolver", tentativa inicial de espelhar o som da Motown e que ainda vibra como uma das melhores canções da segunda metade dos anos 1960. Logo depois, Paul larga o baixo Hoffner e pega uma guitarra Gibson, mandando ver no riff de "Let Me Roll It", onde novamente o rock setentista marca sua presença, com direito a falso final e medley com "Foxy Lady" de Jimi Hendrix. "I've Got A Feeling" nos evoca novamente a presença de John Lennon, quando Rusty Anderson (guitarra e vocais) canta a parte correspondente a John numa das canções que certamente apontavam para o futuro dos Beatles nos anos 1970, caso tivesse seguido juntos. 

Foto: Ton Muller
Então Paul migra para o piano, dedicando "My Valentine" para sua atual namorada, Nancy Shevell. No telão, imagens da atriz Natalie Portman e do ator Johnny Depp 'declamando' a letra na linguagem de sinais. Ainda ao piano, "Nineteen Hundred One Eight Five" e "Maybe I'm Amazed" soterram expectativas negativas em relação a performance vocal de Paul. Sim, ele ainda continua cantando muito bem! Assombrosamente para uma artista que há mais de 50 anos continua se desafiando do alto de seus 75 anos.

Nova reconfiguração no espetáculo, e outro  grande momento da noite passa por arranjos acústicos de "We Can Work it Out" e "In Spite Of All The Danger", primeira canção gravada pelos Beatles num estúdio caseiro em Liverpool. "Tri bom", disse Paul elogiando o coro da audiência. O mesmo acontece em "You Won't See Me", executada ainda com o beatle ao violão e Abe Laboriel Jr (bateria) em pé, utilizando um kit menor de seu instrumento localizado mais a direita do palco, assim como "Love Me do" (dedicada ao produtor George Martin), temas que inevitavelmente ganham a adesão vitalícia do público. Fechando essa etapa do show, "And I love Her" e "Blackbird" (onde ele chama atenção que a canção tem como tema os direitos humanos, que no final ainda ganha gritos de 'Fora Temer' do público), além de "Here Today", canção dedicada ao amigo John Lennon, composta logo após a sua morte em 1980. É quando espio meu filho e vejo lágrimas nos seus olhos. Dou um forte abraço no guri. 

Voltando ao rock, "Queenie Eye" e "New" revelam a sincronia de Paul com os tempos atuais, canções que soam tão boas quanto muitos de seus clássicos (por que as rádios daqui não as tocam?), e que ainda são mantedoras de suas principais características como compositor. "Lady Madona", outro standard em que o piano permanece no centro das atenções, antecede "FourFiveSeconds", hit composto em parceria com Rihanna e Kanye West, e que conta com adesão maciça da parcela mais jovem do Beira-Rio. A quase erudita "Eleanor Rigby", com strings a cargo de  Paul Wickens (teclados, percussão e gaita de boca), ganha também os backings no refrão de Laboriel e Anderson. Logo depois, segue uma série de canções em que o artista homenageia seus velhos companheiros de banda. Se "I Wanna Be Your Man" traz a permanente lembrança de Ringo, Paul também rememora Lennon em "Being For The Benefit of Mr. Kite", fábula circense composta pela dupla para o álbum "Sgt. Pepper's". Já George revive no arranjo com ukulele logo no início de "Something", uma das mais belas canções de amor de todos os tempos. E "A Day in The Life", o mais próximo que os Beatles se aproximaram da ópera rock, surge mesclada a "Give Peace a Change", manifesto de John ao pacifismo. Assim, Maca fecha esse recorte de homenagens aos colegas, mostrando que ainda continua exercendo a posição de guardião do legado dos Beatles.

Foto: Márcio Grings
Chegando a parte final da noite, "Ob-La-Di, Ob-La-Da", um som que nunca esteve entre minhas escolhidas do Fab Four, soa monstruosamente adequada ao momento, um convite a alegria de estar num show de rock, transformando instantaneamente o Beira-Rio num gigantesco salão de baile: "Apenas um cara como Sir Paul pra fazer o povo gostar dessa música ao vivo", disse o amigo Cristiano Radtke. "Band on The Run" é um daqueles tipos de temas em que a genialidade de quem a compôs está emoldurada para sempre em nossa memória. Quando Brian Ray (guitarra e baixo) aparece  no telão sorrindo, todos sabemos que estamos prontos a cantar o refrão a plenos pulmões. 

Foto: Márcio Grings
Em "Let It Be" milhares de celulares tremeluzentes brilham pelos quatro cantos do estádio. Para "Live and Let Die", a pirotecnia toma conta do palco não apenas com chamas, fogos de artifícios, mas principalmente como espetáculo visual que deixa ainda mais coloridos os olhos do meu filho. Olho para ele em "Hey Jude" e percebo a comoção fluindo livre em todo o seu corpo e espírito: "Blackbird, Hey Jude, Love Me Do e Live and Let Die, gostei de tudo, mas essas foram demais", aponta Guilherme que volta pra casa com um camiseta da banca oficial.

Paul e banda saem de cena e retornam logo em seguida com bandeiras do Brasil, da Grã-Bretanha e do movimento LGBT. Novamente ao violão com "Yesterday", eis uma música que sempre sou como número solo de Maca, mesmo durante a época em que a tocava na banda. "Sgt. Pepper's (reprise)" e "Helter Skelter" emergem com sabor agridoce de adeus ao tour "One On One".

Veja um trecho de "Golden Slumbers"


No entanto, esse tête-a-tête final teria ainda quatro fãs dançando no palco no que Paul autointitulou 'festa de aniversário coletiva' em "Birthday". Dá pra imaginar a euforia dessas meninas? Vestidas como 'Sgt. Pepper's Girls' Gabriela, Daniela, Skelter e Celeste não cabiam em si. E tudo termina com um dos medleys mais incríveis da história do rock: "Golden Slumbers", "Carry That Weight" e "The End", enceramento de "Abbey Road" (1969). "Pra mim, essa trinca é uma das melhores obras já gravadas em todos os tempos, ouvi-las ao vivo [e por um dos compositores que a concebeu], não tem preço", disse o amigo Cristiano Radtke. 

Foto: Márcio Grings
Já Lennon Schwarcz (sim Lennon também esteve no Beira-Rio), que veio de excursão de Santa Maria, resume da segunte forma: "A melhor frase que eu encontro pra tentar explicar a experiência transcendental foi dita por um parceiro de excursão: 'depois do selo de qualidade do Tio Paul vai ser difícil retornar pra nossa humilde existência'. Lennon ainda levanta outra lebre: "A única dúvida que me assombra a mente é a seguinte: se um beatle sozinho faz tudo isso, que magnitude tinham os 4 reunidos?! O jornalista Lúcio Brancato, que estava a cerca de quatro metros da grade, bem em frente ao palco, também exalta a epifania vivida na última sexta-feira em Porto Alegre: "Já tive a oportunidade de vê-lo quatro vezes, essa certamente foi a mais impressionante". Já meu filho, que pela primeira vez teve a experiência de conferir um show internacional, subtrai e resume com perfeição sua experiência: "Estou cansado, mas feliz". Mais feliz está o pai dele com essa passagem de cetro. Agora é tudo contigo, garoto! Prossiga...

Veja um trecho de "Hey Jude". 


Próxima parada do tour "One On One" no Alianz Park, em São Paulo, no domingo (15). Grings - Tours, Produções e Eventos (Santa Maria) e Jamil Magic Bus (Passo Fundo) agradecem a mais de duas centenas de clientes que escolheram compartilhar experiências conosco. Até o próximo tour. Nosso agradecimento especial a Agência Cigana pelo suporte e credenciamento.    

Setlist Paul McCartney "One On One Tour 2017" Porto Alegre

A Hard Day's Night
Juniors Farm
Can't Buy Me Love
Jet
Got to Get You Into My Life
Let Me Roll It/ Foxy Lady
I've Got A Feeling
My Valentine
Nineteen Hundred and Eighty Five
Maybe I'm Amazed
We Can Work it Out
In Spite Of All The Danger
You Won't See Me
Love Me Do
And I Love Her
Blackbird
Here Today
Queenie Eye
New
Lady Madonna
FourFiveSeconds
Eleanor Rigby
I Wanna Be Your Man
Being for the Benefit Mr Kite
Something
A Day In The Life / Give Peace A Change
Ob-La-Di, Ob-La-Da
Band On The Run
Back in the USSR
Let it Be
Live and Let Die
Hey Jude

Bis

Yesterday
Sgt Pepper Reprise
Helter Skelter
Birthday
Golden Slumbers
Carry That Weight
The End   

Nosso colaborador, o fotógrafo Ton Muller, fez um videoreprise da apresentação. Vale o clique.
  

terça-feira, 10 de outubro de 2017

JETHRO TULL PERFORMED BY IAN ANDERSON - PORTO ALEGRE, 9 DE OUTUBRO DE 2017

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
Texto e Fotos Márcio Grings

Lembro da minha frustração em 2 de agosto de 1988, data do lendário show do Jethro Tull no Gigantinho em Porto Alegre. Na época, Ian Anderson e sua trupe divulgavam "Crest of Knave" (1987), um dos discos medianos que o Tull lançou naquela década. "Foram os três solos de flauta mais longos que vi num show de uma banda de rock! E o público enlouqueceu", relembra o músico Rafael Ritzel, que nessa noite de 9 de outubro está ao meu lado. De todo o modo, Ritzel ainda se orgulha de ser uma das testemunhas daquele evento histórico na capital gaúcha, época em que o RS estava longe de ser um corredor de passagem para bandas internacionais. 

Voltando a 2017, todos sabemos que rock e o mercado fonográfico mudaram radicalmente, as formas de ouvir música são outras. Álbuns não vendem tanto quanto há 30 anos, e hoje, artistas que construíram sua história nas décadas de 1960/70 não apenas precisam cair na estrada para reaquecer o interesse pelas suas obras, eles também sabem que os tours passaram a ser pilares de conexão, isso tanto com os fãs devotos, como também frente a novos públicos. E o mais importante: - digressões são fontes de renovação para eles próprios.   

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
21h em ponto: - quando vemos Ian Anderson, 70 anos, corpo ainda esguio, coreografando as cenas clássicas que conhecemos das capas do discos/fotos/vídeos de shows antigos, a sensação é de que essa magia estradeira realmente é essencial para muitos artistas. Se aos 29 anos, o compositor de "Too Old To Rock'n'roll" cantava a decadência do rock e questionava o futuro do gênero, 40 anos depois cá está Ian, entoando a mesma canção e ainda fazendo o seu trabalho a moda antiga. E muito bem! Instrumentalmente, o líder do Tull continua sendo um artista impressionante. Já a garganta, apesar de ainda guardar o conhecido timbre, perdeu a potência, revelando um vocalista mais cuidadoso. Nada que o desabone da sua capacidade de encantar uma audiência. Esse talento permanece intacto. "Com a carreira que o Ian tem, ele pode fazer o que quiser", alerta Ritzel ao pé do ouvido.   

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
No palco, além do lendário líder (flauta, voz e violão), temos dois integrantes que prestam serviços ao Tull a uma década - David Goodier (baixo e voz) e John O'Hara (teclado). Já o músico alemão Florian Opahle (guitarra), com passagem pela banda de Gregg Lake, fixou residência no grupo desde 2003. Completa o time, Scott Hammond (bateria), desde 2010 na banda. A apresentação começa com "Living in the Past", seguida de "Nothing is Easy" e "Heavy Horses", temas pinçados a dedo da joia da coroa da obra desenhada desde 1968 por Ian Anderson. Aos primeiros acordes do violão base de "Thick As A Brick", previsivelmente o público efervesce. 

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
Uma das maiores virtudes da trajetória musical do grupo britânico é justamente o cruzamento da tradicional linha de montagem de uma banda de rock com a música erudita e folclórica europeia. E não estão aí um dos pilares do rock progressivo? E esse é um dos pontos altos da noite, quando instrumentalmente a música do Tull ainda soa assombrosa meio século depois de seu descobrimento. É justamente essa teia sonora que nos deixa impressionados em "Bourée" e "Pastime in Good Company", quando fica fácil associar a figura hiperativa de Ian Anderson com antigas lendas do velho mundo. Iconicamente sua performance também colabora para essa associação, quando a cada movimento e soprada na flauta transversal - novas caretas e olhares são lançados a audiência.  

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
Depois de um breve intervalo de 20 minutos (chance pra colocar o papo em dia com vários amigos presentes), às 22h16, as imagens vampirescas no telão colorem ainda mais "Sweet Dream". Capitaneado pela guitarra de Florian Opahle, esse tête-à-tête entre a sonoridade medieval e o rock pesado alicerça o modus operandi do Jethro Tull, e ao vivo, mesmo com essa formação distante dos membros originais (exceto Ian, é claro)  - a torna ainda mais impressionante e translúcida. E há um equilíbrio entre performance e malabarismos musicais, pois tanto as geniais intervenções da flauta de Anderson, quanto os solos de bateria (Dharma For One) e até mesmo o ápice guitarrístico (Tocatta and Fugue in D Minor), surgem equalizados numa proporção exata, sem excessos. Também é necessário lembrar da raiz blues do Tull, uma memória alinhavada por exemplo na gaita de boca de Ian em "A New Day Yesterday", outro momento especial do set.    

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
E toda as percepções eclodem rumo ao clímax perfeito: "My God", momento em que a 1ª música do Lado B de "Aqualung" faz o preâmbulo e prepara a cama para a faixa título, um dos momentos mais esperados da apresentação. 'Quem nunca ouviu Aqualung que atire a primeira pedra!'. Quem nunca topou com a capa de um dos mendigos mais célebres do rock? E no bis, "Locomotive Breath" surge como um trem bala rumo ao desconhecido, deslizando para uma fronteira além das nossas expectativas iniciais. Em sua 8ª passagem pelo país, finalmente o garoto de 1988 ressuscitou na plateia de um show do Jethro Tull. Lá estava ele, bem em frente ao palco, envelhecido, hipnotizado a registrar tudo com seus olhos e ouvidos... Parado como uma estátua barbuda saída diretamente da imagem do LP.

Nossos agradecimentos a Agência Cigana pelo suporte e credenciamento.       

Jethro Tull performed by Ian Anderson - setlist PoA

Set 1:

Living in the Past
Nothing Is Easy
Heavy Horses
Thick as a Brick
Banker Bets, Banker Wins
Bourrée in E minor
Farm on the Freeway
Too Old to Rock 'n' Roll, Too Young to Die
Songs From the Wood

Set 2:

Sweet Dream
Pastime With Good Company
Fruits of Frankenfield
Dharma for One
A New Day Yesterday
Toccata and Fugue in D Minor
My God
Aqualung

Bis:

Locomotive Breath

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
 
Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
                                                                                                                             
Veja breve trechos de "Thick As A Brick" e "Aqualung".


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

THE WHO - PORTO ALEGRE, 26 DE SETEMBRO DE 2017

Foto: Ton Muller
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Texto Márcio Grings Fotos: Ton Muller 

Há cerca de 30 anos, conheci um garoto na escola que parecia não se encaixar com o restante da rapaziada. Afinal, até hoje, ter 15, 16 anos não é algo fácil para muitos jovens. A adolescência é um período de transição em nossas vidas, e transições podem ser dolorosas e longínquas. No final das contas, o rock acabava sendo uma boa porta para a socialização. Bem, estou falando dos anos 1980, e assim, unidos pelo amor ao rock'n'roll, eu e esse camarada nos tornamos amigos. Naquela época, a maioria da rapaziada se alinhava ao que rolava no rádio (e tocava muito mais rock do que hoje), outra parte curtia o heavy metal de Iron Maiden e diversas bandas nessa linhagem, ou vivia o delay prolongado dos anos 1960/70 (e esse era exatamente o meu caso). E nessa bolha particular, Led Zeppelin era a banda número 1. Já meu brother Joselito era fã do Who. Lembro-me de certa  vez em que se pegou no pau com outro garoto da escola - não recordo o motivo -, sei que sua camiseta preta do Who rasgou próximo a manga. Ele ficou inconformado. Passaram-se alguns dias e Mod Joselito me levou até seu quarto para então lacrar num 3 em 1 Panasonic estalando de novo o vinil de “Quadrophenia”. Ao ouvir o LP, a primeira impressão não foi das melhores. Não consegui me conectar ao som que vazava  a todo volume pelas caixas de som. Alguns meses após esse dia troquei de escola e perdemos o contato. Hoje tenho certeza que ele estava alguns passos a frente de mim. Poderia ter aprendido mais rápido. 

Foto: Ton Muller
E aí foi... Vi “Tommy”, o filme (também não houve encanto), e logo em seguida tive contato com a coletânea “Who´s Better, Who's Best”... Levei o primeiro tapa na orelha. A ficha tilintou valendo e fez um barulho danado. Sucessivamente fui adentrando a obra da banda inglesa: -a apresentação no Festival de Woodstock, o excepcional “Live At Leeds”, "Who's Next", e assim, finalmente cheguei até o box em CD “The Who Thirty Years Of Maximum R & B”. Nessa altura do campeonato, com pouco mais de 17 anos, já havia me tornado um fã cativo de Pete Townshend, Roger Daltrey, John Entwistle e Keith Moon. Joselito estava certo. Queria ter a oportunidade de dizer isso pra ele hoje, no entanto, nunca mais o vi. Espero que também esteja bem, e quem sabe esse texto chegue até meu velho amigo, pois a noite de hoje não é uma noite qualquer. 

Foto: Ton Muller
Recupero essa lembrança porque ainda me parece inacreditável estar em frente ao palco onde daqui a poucos minutos Pete e Roger surgirão frente aos nossos olhos incrédulos. Logo após o aquecimento com Def Leppard, vamos ao o que realmente interessa, afinal: uma das bandas mais importantes da história do rock mundial está em Porto Alegre. O vocalista Roger Daltrey (73), e o guitarrista/ principal compositor do grupo, Pete Townshend (72), guardiões do legado do grupo. Keith Moon e o baixista John Entwistle, morreram respectivamente em 1978 e 2002. E antes do show, as imagens e os textos que sequencialmente narram a história do Who ao longo de seus 53 anos de história, nos dão a sensação de que Keith e John também estão entre nós. E certamente estão...  

Mantenha a calma: aí vem o The Who! A banda se posiciona, efervescência, gritos na multidão e finalmente Pete e Roger entram correndo no palco. Felizes como dois garotos apostando corrida com uma locomotiva. 21h30 e o riff matador de “I Can’t Explain” eclode pelos quatro cantos do Beira-Rio em formato de Anfiteatro. A banda dos sonhos no quintal de casa. 20 graus na Capital dos gaúchos. Mil graus do coração da plateia. E ver Roger e Pete comendo a bola com o vigor que conhecemos dos vídeos clássicos da banda, é nosso maior presente.

Foto: Ton Muller
“The Seeker”, além de ser um rock’n’roll de mão cheia, nos lembra do quanto Pete Townshend é um dos melhores compositores/letristas do rock. Um brinde ao Clube dos Descontentes. E Pete é sócio remido dessa agremiação. “Who Are You” coloca o público pra exercitar a garganta. Cerca de 14 mil pessoas ressoam unidas na mesma palheta, em uníssono. Uma das minhas preferidas, "The Kids Are Allright”, é uma daquelas canções que evocam a simplicidade e eficiência de uma banda de rock. Um clássico com a cara dos anos 1960 que me deixa melancólico, impregnado por um sentimento dúbio de saudade e alegria. Canto como uma criança no jardim de infância. Já “I Can See For Miles” é pura tensão e ao vivo nos soa ainda mais impressionante. Não consigo tirar os olhos de Pete Townshend. E ele está inspirado.

A cada gesto de Pete a audiência se eleva. O propagador do windmill (moinho de vento) - movimento giratório com o braço antes de tocar a guitarra, nos conta como surgiu a performance. “Abrimos dois shows dos Stones quando eram jovens. Quando a cortina abriu, Keith Richards estava fazendo aquele movimento. Semanas depois, nos encontramos de novo, em um clube de Londres. Fiquei observando e ele não fez aquilo. Fui perguntar e ele não entendeu.. Então, peguei para mim”. Roubou e transformou o windmill numa de suas marcas registradas. Assim como o salto com as pernas retraídas ou os pulos com as pernas abertas, encenações que ele repetiu a todo momento no show, do alto de seus 72 anos. O Who continua sendo uma banda impressionante de ver ao vivo, ainda mais nesse clima de final de campeonato, no último show do tour brasileiro, com um publico apaixonado.

Foto: Ton Muller
Mas nem tudo é performance... Nos Beatles, Lennon/Mccartney são os principais compositores. Nos Rolling Stones os moldes ficam a cargo de Jagger/Richards. No caso do Who, Pete Townsend é o mentor intelectual por trás da massa cinzenta da banda. Escreveu centenas de canções espalhadas por uma penca de álbuns, incluindo trabalhos conceituais e óperas rock. Não esqueçam, Pete também um cantor de mão cheia e reconhecido como um  dos Heróis da Guitarra. Qualquer lista do rock que não o colar entre os 10 melhores de todos os tempos no seu instrumento de ofício não passa de uma listagem fajuta. E quando ouvimos a sequência de acordes de “My Generation” batendo no peito, vale lembrar que o Who já era punk antes do punk pensar em existir. Na parte final ainda rolou um medley com “Cry If You Want”, obscura canção de 1982 do álbum "It's Hard" que funciona muito bem como mash-up nessa nova encarnação de 'Generation'.  

E que vocalista é Roger Daltrey! Ele e seus inseparáveis óculos azuis, agilidade admirável e uma voz que migrou para um degrau abaixo do seu timbre original, mas uma garganta que ainda demonstra  potência invejável, além da postura de palco que finca o pé na linhagem clássica de frontman. Roger o arremessador de microfones (como se fossem boleadeiras) e principalmente – o baixinho balaqueiro que inspirou milhares de artistas. Se o espírito incandescente do Who tem a áurea do genial Pete Townshend, Roger é parte significativa do corpo físico do grupo.


Foto: Ton Muller
"Bargain" é um daqueles temas que tem o gene do Who, um leve flerte com o rock progressivo, riffs de guitarra dignos de se colocar numa moldura, e uma parte mais doce, acústica, em que a voz de Pete eclode cristalina pela primeira vez na noite. Vejo os reflexos e a troca de olhares entre Pete e o baterista Zak Starkey no acrílico que protege a bateria. O guitarrista limpa o suor do rosto, desembaça os óculos de grau e sorri para Roger. Aponta o dedo e diz algo do tipo: "Você deu mancada", em tom de brincadeira. E assim que ouvimos "Behind The Blue Eyes", tema regravado pelo Limp Bizkit. Sim essa é música do The Who, algo que Pete menciona em tom de ironia antes do início da canção.  Talvez por essa atemporalidade o tema mantenha o mesmo frescor do ano em que foi lançada, em 1971, algo inteligentemente percebido pelo vocalista do Biskit, Fred Durst. Os isqueiros e celulares compõem um mosaico de luzes que dialogam com as bonitas imagens do telão. "Join Together", outra canção que cresce absurdamente ao vivo, mantém a noite em chama alta. Aos primeiros segundos quando ouvimos o som do berimbau de boca (jew's harp) do tecladista Loren Gold, a massa efervesce como o antiácido. Dá pra perceber claramente o super time montado para o atual tour.

Lá estão Simon Townshend (guitarra e vocais de apoio), irmão mais novo de Pete; John Button (baixo), músico que já tocou com artistas como Shelby Lynne e Marc Ford; o já citado Loren Gold (tecladose jew's harp), profissional envolvido em projetos com Demi Lovato e Selena Gomez; John Corey (teclados), possui no currículo atuações com artistas e bandas como Rod Stewart e Eagles, além  de Frank Simes (teclados, vocais de apoio e diretor musical da banda), multi-instrumentista com serviços prestados ao próprio Roger Daltrey em atuações solo, além de bater cartão na trupe de Roger Waters. Contudo, o destaque fica por conta de um autêntico representante da realeza do rock, um músico com o suingue do pai e a irreverência do padrinho. Zak Starkey (bateria), filho de Ringo Starr, no Who há mais de 20 anos! Uma curiosidade: Zak ganhou seu primeiro kit de bateria de Keith Moon, falecido baterista original do grupo e que também o ensinou as primeiras lições. 

Zak Starkey. Foto: Ton Muller
E Zak é destaque em "You Better You Bet", tema que coloca o estádio novamente pra dançar e cantar, uma rotina dessa apresentação. O baterista tem um brilho especial, é como se fosse um remanescente da velha escola dos bateristas, cara de moleque (ele acaba de completar 52 anos) e movimentos hiperativos que reverbera a linhagem de seus antecessores. Outra curiosidade: Zak tocou uniformizado com o abrigo que ganhou da banda carioca Beach Combers, mesmo grupo em que participou de uma jam ao ar livre no Calçadão de Ipanema no dia seguinte a apresentação do Who no Rock in Rio.

Logo depois, temos a primeira sequência conceitual da noite: três temas enfileirados de "Quadrophenia" (1973). "I'm One", momento em que Pete Townshend troca a guitarra pelo violão e se torna quase um solista no palco. Roger mostra sua habilidade na gaita de boca e como sideman de luxo nessa versão ao vivo que soa tão boa quanto ao que conhecemos dos discos. 'Pete  Townshend e Concerto para banda e orquestra' - é o que imagino na faixa instrumental "The Rock", quando o show vira a direção dos ventos sem deixar de nos imergir em seu encantamento. A épica "Love, Reign O'er Me", tema  regravado pelo Pearl Jam em 2007 para a trilha sonora do filme "Reine Sobre Mim", com Adam Sandler, soa ainda familiar para muitos. Se ouvimos um papo de que Roger Daltrey já poderia pendurar as chuteiras, eis o instante em que os detratores caem por terra.   

Ton: Muller
"Eminence Front" se aproxima das composições solo do Pete (o Who possui dezenas de canções melhores que essa), e com isso temos o único número que me faz pensar em peça de reposição. Putz, seria incrível ouvir "Squeze Box" ao vivo! E finalmente chegamos a "Tommy". "Amazing Journey" "Sparks" são tocadas como uma longa suíte, onde os músicos parecem compenetrados como integrantes de uma rockorquestra ou um exército rumo ao campo de batalha, inspirado pela marcha militar de Roger. Tudo não passa de um prelúdio cirúrgico que nos prepara até a chegada de "Pinbal Wizard", um rock perfeito para as grandes arenas. Se existe um lugar dos sonhos para um fã do Who, esse lugar é o Beira-Rio na noite dessa terça. Já "See Me, Fel Me", nos conecta permanentemente a imagem da banda no Festival de Woodstock, quando remonta  na memória as cenas do documentário sobre o maior festival musical de todos os tempos. Ela é tocada muito mais rápida, alquebrada, raivosa, e não menos bela.   

Foto: Ton Muller
Como trabalhador da música que sou, um combatente do som, guerrilheiro cultural e convicto apaixonado pela vida que levo, existem canções que soam como orações.  Em primeiro lugar, "Baba O'Riley" foi uma das músicas que me convenceram a aceitar o sintetizador no rock, um épico que está eternizado no panteão das melhores canções de todos os tempos. A luta de um trabalhador pelo seu prato de comida,  o  esforço para colocar na mesa o pão de cada dia, a saudade de casa que a distância evoca, a redenção dos erros passados e a eterna busca pela Terra Prometida a encontrar conforto nos braços da pessoa amada. Épico! Épico! Épico! Grito a plenos pulmões: "Teenaaaage wastelaand!!!"     

E ainda tem mais. Ao lado de canções como "Street Fighting Man" dos Stones, "Won't Get Fooled Again" é trilha sonora para a a revolução  das ruas, um alerta que precisamos estar atentos para não sermos enganados, seja pelos governantes ou por qualquer filho-da-puta nesse mundo danado de difícil! Baita reflexão aos alienados de plantão. Sim, as letras de Pete ainda soam atuais. E ver Roger aos 45 do segundo tempo, de camisa desabotoada e atuando como boxeador a golpear um oponente fantasma é uma cena pra guardar na memória. E ainda rolou um beijo na testa de Pete em Roger. Apesar de todas as diferenças entre ambos, são mais de cinco décadas de convivência, é óbvio que existe muito carinho e respeito entre eles.

Foto: Ton Muller
Não houve bis. Por quê? Roger simplesmente não sai do palco. "You know this is bullshit, don't you?". Ele fala da velha encenação: banda sai, público implora sua volta, eles retornam para o palco. Assim, segundos depois, Pete e banda estão de volta. Nada como um grupo a fim de roer o osso. Retornam com "5:15", mais uma de "Quadrophenia", meu preferido do Who (obrigado Joselito!). E para termos a sensação de que certas noites podem ser 'quase' perfeitas, após 2h de apresentação, "Substitute", hino dos impostores de plantão e planilha do orgulho inglês de Pete a entregar sua origem proletária, encerra a noite: "Meu belo terno na verdade é feito de saco de estopa". Sim, minha credencial é falsa! Salve, Jamil! "No Rio de Janeiro o Who estava mais feroz, muito mais. Em SP eles fizeram um super show, era um estádio inteiro pra eles. Em Porto Alegre foi tudo isso junto", disse Anderson Oliveira, fã paulista que assistiu os três shows no pais. Ainda emocionado, o jornalista gaúcho Lúcio Brancato narra outro recorte da noite: "Teve um momento épico com toda a 'quad' deixando o gramado rumo a rua no fim do show e entoando 'We Are The Mods'. E junto conosco estava o primeiro mod brasileiro, Edgar Scandurra do Ira! Chorei de emoção".

Keep Calm: here goes The Who! Não Pete! Volta, Roger! Queremos mais! Em pleno êxtase e arrebatamento, encaro nos olhos da multidão e procuro o rosto de velho amigo que me apresentou a banda inglesa há mais de 30 anos. Não o encontro. Entretanto, essa memória viva ainda respira. Aonde quer que você esteja - outro salve para Joselito!

O outro John do baixo - John  Button. Em outro plano, o tecladista Frank Simes Foto: Ton Muller 
A princípio está decretado: o destino do Who como banda é uma incógnita. Há anos Pete não tem o mesmo apreço pela estrada, ímpeto que o moveu nos anos inciais da banda, mas que há décadas arrefeceu. Tanto que o guitarrista acaba de anunciar um período sabático para breve, desenhando um 2018 sem apresentações do Who ou com algo novo de sua também brilhante carreira solo. Esse não é o desejo de Roger, o homem que de alguma forma insiste em manter flamejante a flâmula do grupo que lhe deu reconhecimento artístico. E é muito provável que o Who nunca mais retorne, o que no meu ponto de vista é bastante compreensível.

No entanto, os shows no Brasil (principalmente esse de Porto Alegre) e as apresentações do próximo dia 29, em Santiago (Chile) e 1º de Outubro em Buenos Aires (Argentina), podem mudar a diração dos ventos. No entanto, sabemos o gigante deve adormecer no próximo ano. O único sentimento que não adormecerá jamais, certamente é o carinho dos fãs pela banda. E quem sabe ainda haja esperança de que o Who coloque na roda mais lenha pra queimar...

Foto: Ton Muller
Encore:

No 'after show' da noite em que assisto um dos mais importantes shows da minha vida, acabo no camarim da banda com dois amigos, e lá trocamos algumas frases com o tecladista Frank Simes. Pete e Roger não aparecem, e assim, meu vinil de "Meaty Beaty Big and Bouncy" continua sem autógrafo. Vida que segue. Reza a lenda que the kids are allright... Certamente eles estão sorrindo, felizes depois da noite de ontem. Possivelmente até mais do que nós. LEIA a a matéria do músico/produtor Brian Kehew (que trabalha na equipe do Who) publicado no site oficial da banda e que coloca o show de Porto Alegre como um dos melhores da banda nos últimos anos.

Obrigado ao talentoso Ton Muller, autor das imagens dessa resenha. Confiram o SITE do fotógrafo. Essa postagem é dedicada a parte do Mod Squad que viveu esse show meses antes dele acontecer: meu abraço nos amigos Cristiano Radtke, Jamil Khoury e Lúcio Brancato. A Grings - Tours, Produções e Eventos e Jamil Magic Bus agradecem as 158 pessoas que novamente viajaram conosco. Próximo grande evento: Paul McCartney... Já estamos ansiosos.

Setlist The Who PoA:

 "I Can't Explain"

"The Seeker"

"Who Are You"

"The Kids Are Alright"

"I Can See for Miles"

"My Generation"

"Bargain"

"Behind Blue Eyes"

"Join Together"

"You Better You Bet"

"I'm One"

"The Rock"

"Love, Reign O'er Me"

"Eminence Front"

"Amazing Journey/Sparks"

"Pinball Wizard"

"See Me, Feel Me"

"Baba O'Riley"

"Won't Get Fooled Again"

"5.15"

"Substitute"

Foto: Ton Muller

ÚLTIMA COBERTURA:

COLDPLAY - PORTO ALEGRE, 11 DE NOVEMBRO DE 2017

Foto: Ton Muller # Texto Ana Bittencourt Fotos Ton Muller Cultivar expectativas não é muito a minha praia. Essa é uma postura que...