sexta-feira, 23 de março de 2018

DAVID BYRNE - PORTO ALEGRE, 22 MARÇO DE 2018

Foto: Cristiano Radtke (iPhone 4s)
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Texto e fotos Cristiano Radtke 


Como líder do Talking Heads, David Byrne deixou seu nome na história do rock. Em oito álbuns lançados, o autor de hits absolutos como “And She Was” e “Psycho Kiler”, também colocou no mercado onze discos solo, sendo que o mais recente "American Utopia", foi lançado há poucos dias. Byrne ainda escreveu nove livros, incluindo "Diários de Bicicleta" (2009), que o tornou reconhecido como ativista das bikes. Inclusive, no dia do show na Capital gaúcha, o baixista Bobby Wooten postou uma foto dele e de David passeando de bicicleta pela orla do Guaíba. Vinda de Buenos Aires, a “David Byrne: American Utopia World Tour” chega a Porto Alegre como parte dos side shows do Lollapalooza Brasil, concertos mais intimistas fora do palco principal do evento em São Paulo. E se alguém imagina ver um show de grandes sucessos do Talking Heads, o andar da carruagem revelaria uma outra jornada... 

Antes do show principal, as apresentações de abertura ficaram a cargo de Antonio Villeroy (conhecido cantautor gaúcho) e Karina Zeviani (ainda não tão conhecida no Brasil apesar de ter uma sólida carreira internacional, com participações em grupos como Nouvelle Vague e Thievery Corporation). Ao terminar sua ótima participação, Karina avisa ao público que o 'mestre David Byrne', de acordo com suas próprias palavras, em seguida faria seu show e que estava emocionante, segundo ela, que disse ter assistido à passagem de som e ficado arrepiada com o que viu.

Foto: Cristiano Radtke

Alguns minutos depois, uma surpresa: em vez de vermos instrumentos, amplificadores ou microfones no palco, que é extremamente minimalista, rodeado de cortinas formadas por correntes de ferro, vemos ao centro apenas uma cadeira e uma mesa simples, em cima da qual repousa a réplica de um cérebro. Minutos depois entra Byrne, elegantemente vestido com um terno cinza e camisa da mesma cor, com os pés descalços, e senta-se à mesa começando o show com “Here”, faixa que encerra seu mais novo disco, o bom “American Utopia”, enquanto a banda toca atrás das cortinas de ferro, dando início a um dos shows mais incomuns já vistos no Pepsi . 

A partir de “Lazy” a banda com 11 integrantes entra aos poucos no palco, um por um e vestidos de maneira idêntica a Byrne. Em vez de um kit de bateria tocado por apenas um músico, o que se vê são seis percussionistas no palco, cada um com uma peça de bateria presa por um suporte encaixado ao corpo, assim como o tecladista, o que lhes dá total liberdade de movimentos. Isso permite, por exemplo, que eles deixem Byrne sozinho no palco durante “Doing the Right Thing” enquanto tocam atrás da cortina, com seus instrumentos à mostra, e até que eles simulem uma partida de futebol enquanto tocam “The Great Curve”. Um curiosidade: entre os percussionistas está brasileiro Mauro Refosco, músico formado pela UFSM e que também toca nos tours com o Red Hot Chili Peppers (ele se apresenta com o RHCP nesta sexta-feira em São Paulo).  

Foto: Cristiano Radtke
Pode-se dizer que mais do que um simples show, o que o público assistiu foi a uma verdadeira instalação artística, em que os efeitos de luz e a movimentação da banda no palco mudavam a todo instante, criando um incrível efeito visual que combinava perfeitamente com cada música tocada. Em “I Should Watch TV”, por exemplo, a banda se posiciona completamente à esquerda do palco, enquanto Byrne está no extremo oposto parado em frente à cortina de ferro, por trás da qual a iluminação é feita de modo a dar um efeito semelhante à luz irradiada de uma TV. Byrne já havia declarado não se prender ao passado (leia entrevista), e das vinte e uma músicas do setlist, sete vêm de seu disco novo, oito são da carreira dos Talking Heads, e as outras seis passeiam entre covers e outros projetos de David Byrne, como “Toe Jam”, composta por ele e creditada à The Brighton Port Authority, colaboração entre ele e Dizzee Rascal. Apesar de alguns insistentes pedidos para que ele tocasse “Psycho Killer”, uma das músicas mais conhecidas dos Talking Heads, os hits da banda se resumem nesse show a “Once in a Lifetime” e “Burning Down the House”, provando mais uma vez a inquietação do músico escocês. 

Foto: Cristiano Radtke
Antes de tocar a última música do show, “Hell You Halmbout” (cuja versão original é de Janelle Monáe), Byrne avisa que fez uma releitura especial para os shows no Brasil, e logo percebemos o porquê. Na versão original, os nomes de vários negros norte-americanos que foram assassinados por policiais ou por preconceito racial são citados ao longo da canção. Na versão de Byrne, são citados os nomes de ativistas e outros brasileiros assassinados, com destaque para Marielle Franco (vereadora recentemente executada no RJ), o que motiva aplausos gerais da plateia. Num momento turbulento em que muitos artistas daqui não assumem posição alguma, procurando se distanciar dos acontecimentos, Byrne merece todos os elogios possíveis ao mostrar que está antenado com o que acontece no Brasil e prova que é possível utilizar sua arte para fazer uma manifestação política, sem cair no lugar comum que tais discussões costumam gerar. 

Antes de vir ao país, Byrne declarou em entrevista estar ciente da “bagunça completa” no Brasil (ele tem bons informantes, pois três músicos de sua banda são brasileiros), causada pela corrupção, e disse ter fé nas “pessoas que fazem coisas incríveis”. E Byrne é uma delas. O que se viu em Porto Alegre nessa noite no Pepsi on Stage foi mais do que um simples show: foi uma verdadeira e instigante obra de arte, que as pessoas que tiveram a oportunidade de assistir jamais irão esquecer.  Nossos agradecimentos a Jéssica Barcellos (Agência Cigana) pelo suporte e credenciamento. 

Setlist David Byrne Porto Alegre:

Here
Lazy
I Zimbra
Slippery People
I Should Watch TV
Dog's Mind
Everybody's Coming to My House
This Must Be the Place (Naive Melody)
Once in a Lifetime
Doing the Right Thing
Toe Jam
Born Under Punches (The Heat Goes On)
I Dance Like This
Bullet
Every Day Is a Miracle
Like Humans Do
Blind
Burning Down the House

Bis 1:

Dancing Together
The Great Curve

Bis 2:

Hell You Talmbout

Veja dois trechos do show. Captação: Lúcio Brancato.


quarta-feira, 21 de março de 2018

STEVE HACKETT - PORTO ALEGRE, 20 DE MARÇO DE 2018

Foto: Camila Gonçalves
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Por Márcio Grings Fotos Camila Gonçalves

No dia 11 de maio de 1977, um jovem casal de namorados pegou um ônibus em Santa Maria rumo a Porto Alegre. O destino final demarcava um fato incomum naqueles tempos: assistir um show internacional na capital gaúcha. Anos luz antes do RS estar alinhado ao corredor dos grandes eventos do gênero na América do Sul, tal iniciativa não era apenas um acontecimento atípico a ser celebrado: em primeiro lugar, deveria ser prestigiado por qualquer fiel fã de rock! Por isso, para dois amantes da boa música internacional, não havia chances deles não estarem presentes na primeira passagem do grupo britânico Genesis pelo Brasil. E lá estavam Paulo e Vânia - frente à frente com Phil Collins, Steve Hackett, Mike Rutheford, Tony Banks e o baterista convidado Chester Thompson, homens responsáveis pela "After the Wind & Wuthering tour", digressão que já antecipava alguns temas do até então ainda inédito novo álbum da banda, "Wind & Wuthering", lançado em dezembro daquele mesmo ano.

Era uma quarta-feira de outono no Estado, e a segunda noite de show do Genesis no Gigantinho. Entre expectativa, êxtase e realização de um sonho, uma curiosidade: "A duração do show foi mais curta porque Mike Rutherford sentiu-se mal, teve uma espécie de mal súbito. Além disso, nessa segunda noite, o raio-laser deu pau. Em resumo: quem esteve na primeira noite se deu melhor", lembra Paulo Cozer. Sim, além do problema com as luzes, a apresentação teve apenas uma hora e quinze de show, aproximadamente. Cerca de sessenta minutos a menos do que a noite anterior (e não apenas 12 minutos como noticiaram alguns jornais na época). Segundo o livro "Lembra do Transasom", escrito por Pedro Sirotski, o verdadeiro motivo do mal súbito do baixista foi um coquetel de vodca com chocolate quente em Gramado. Mike foi a nocaute. O irmão de Paulo, Francisco Coser, fez algumas fotos do show no Gigantinho. Veja AQUI  

Foto: Camila Gonçalves
Mais de 40 anos depois, o mesmo casal retorna a Porto Alegre com a memória incandescente daqueles dias. Afinal, ainda estamos falando do espólio do Genesis, já que grande parte do tesouro da discografia do grupo voltara à baila na noite desta terça-feira 20 de março de 2018...

Principalmente ao que compete ao prolífico período em que o vocalista Peter Gabriel e o guitarrista Steve Hacket dividiram  estúdios e palcos. Em retrospectiva, Gabriel saiu em 1975, e Hackett deixaria o Genesis apenas cinco meses após a passagem pelo Brasil, em outubro de 1977. Pra encurtar a história, o Genesis sobreviveu muito bem sem os dois, aproximou-se de vez das rádios, distanciando-se do viés progressivo, além de tornar Collins seu principal protagonista.

Foto: Camila Gonçalves
Voltando a 2018, se Peter Gabriel não olha para o passado e raramente retorna ao repertório que o consagrou nos anos 1970 (há quatro anos ele não faz shows), se Phil Collins partiu para o lado iluminado da força ao se tornar uma estrela reconhecida pelo seu trabalho solo, coube ao paladino Steve Hackett empunhar a espada de Último Jedi a defender esse legado que misturava rock, teatro e literatura. Por isso, essa nova turnê de Hackett - "Genesis Revisited, Solo Gems & GTR 2018 Tour de Force", passa a ser um evento imperdível para qualquer fã de rock progressivo, principalmente quando falamos da fase áurea do Genesis. "Estamos presenciando os últimos escombros da era clássica do rock", me diz Lauro Hack, um dos fãs mais entusiasmados que encontro minutos antes do início da apresentação.


Primeira noite de outono, Auditório Araújo Vianna, o show de Hackett começa religiosamente no horário programado, às 21h. O guitarrista volta ao início de sua carreira solo apresentando temas como "Please Don't Touch Me" e "Every Day". Na sequência, três dos seus frutos prediletos na estrada atualmente - e colhidos na safra mais recente, o ótimo álbum "The Night Siren" (2017". "Behind the Smoke, por exemplo, é disparado um dos melhores temas que já compôs (veja o clipe AQUI). Os orientalismos alternados com peso, o vocal seguro do guitarrista, somado a recortes instrumentais onde guitarra e teclados se enredam numa sinfonia metal, fazem do tema um dos grandes momentos da apresentação. A instrumentais "El Nino" também bebe em fonte semelhante, com destaque para a atuação  do baterista Gary O' Toole, responsável ainda por ótimos vocais de apoio ao longo da apresentação. De igual identidade, como se permanecêssemos em solo marroquino, o rock e os orientalismos prosseguem em "In The Skeleton Galery", quando Rob Townsend mostra seu talento ao saxofone, além de ainda atuar como flautista, tecladista e percussionista.  Já Steve Hacket tira as mãos da cordas de seu instrumento por alguns instantes para sacar do bolso uma harmônica diatônica e mostrar que o blues também está impregnado de leve em sua genética.

Foto: Camila Gonçalves

Quando o GTR é invocado, supergrupo que Hackett montou ao lado de Steve Howe do Yes, "When the Heart Rules the Mind" é a canção escolhida para remontar o espírito das rock songs que transitaram pelas FMs nos anos 1980. Se "Icarus Ascending" me sugere que chegou o momento de buscar uma bebida para arejar a garganta, a fantasmagórica "Shadow of the Hierophant" parece ser formada da mesma cepa de canções ancestrais europeias, cenário perfeito para o rock progressivo e para recolher as cortinas da primeira parte do espetáculo.           

Foto (Sansung J5): Camila Gonçalves

























É quando o Genesis entra no set. É também o momento do vocalista Nad Sylvan, não apenas uma voz que reprisa a forma de Peter Gabriel interpretar as canções que ajudou a compor, ele se porta como um autêntico performer, um ator advindo do Vaudeville, ou dependendo do ponto de vista, a mistura de vários cantores em um. Da maneira cênica como toca a pandeirola, ao olhar congelado num ponto invisível, sua androgenia e movimentos corporais nos convencem dessa atuação. "Nédi, Nédi!!", um fã que nunca abaixa os braços estraga todas minhas fotos e grita ao mundo sua admiração pelo vocalista. Em "Dancing With the Moonlit Knight" entra em pauta um dos álbuns favoritos dos fãs do Genesis - "Selling England by the Pound". Logo depois, Sylvan emula Phil Collins em "One for the Wine", uma música de transição nas apresentações do Genesis em 1977 no Brasil, apresentada na época como novidade no set. Em "Inside and Out", um dos melhores momentos dessa segunda parte, Jonas Reingold toca um instrumento de dois braços que o coloca na posição de acumular funções como baixista e guitarrista base, dependendo da circunstância e necessidade.   

Luz direta no tecladista Roger King, um dos protagonistas nessa mudança de humores e ambiência com o repertório do Genesis. "The Fountain of Saumacis", tema que fecha o álbum "Nursery Cryme", é remontado como uma suíte perdida no tempo, uma peça perfeita que ilustra o quão merecido foi para o grupo inglês ter rompido a fronteira do anonimato o adentrado de forma triunfal a primeira divisão do rock internacional, e consequentemente, ser reconhecido como uma das agremiações mais respeitadas do gênero. 

Foto: Camila Gonçalves
A seguir, algumas sínteses do prog rock em "Firth of Fifty" - instrumentos em uníssono, dinâmicas alternadas, a lembrança do erudito sobreposto a energia dos riffs de Hackett, somados a leveza da interpretação de Nad Sylvan, além da suavidade a modular os instrumentos de sopro, melodias que nos fazem fechar os olhos e lembrar o quanto o rock já viveu dias melhores. Esse sentimento persiste em "The Musical Box", um dos melhores takes de Sylvan no palco, postura inicial de boneco de cera impassível, para depois reagir como um fantoche manipulado por títeres invisíveis. "Um profissional versátil. Sabe muito bem dosar a interpretação (necessária para qualquer vocalista de banda progressiva) com vocais que lembram (e muito) as vozes do Peter Gabriel e Phil Collins. Ou seja. Ideal para o posto onde está", conclui o jornalista Lúcio Brancato.

Foto: Lúcio Brancato
Chegando ao final das ações, Hackett surge com seu violão de 12 cordas em "Super's Ready", quando a memória de Peter Gabriel sobrepõe a realidade e materializo aquele maluco cantando e se contorcendo no palco. No auge de sua força criativa, enquanto esteve no Genesis, Gabriel era imbatível. É o que dirão todas as viúvas que ainda derramam lágrimas após décadas de sua saída... Mas Hackett está lá, guardião de todo esse legado. Após um breve apagar de luzes, "Los Endos" é o coringa em forma de bis, tema que nos nos dá uma última dose de toda essa gama de emoções encapsuladas em 2h30 de apresentação.

Após assistir ao vivo Steve Hackett e banda no espetáculo "Genesis Revisited, Solo Gems & GTR 2018 Tour de Force", sinto-me como se tivesse renovado minha carteirinha Progger. "We are the  Proggers", como diz o amigo Lúcio. Sim, todos nós - ele, eu, Paulo, Vânia, Lauro, e tantos outros, assim como Alan Garcia, músico que viajou oito horas pra assistir o espetáculo: "Era um sonho ver esse show e esse repertório", reforça o morador de São Luiz Gonzaga,  nas Missões. Todos nós, sócios remidos do clube, passaportes atualizados e sorrisos largos na saída do Araújo. Próximo encontro Progger: CARL PALMER'S ELP LEGACY. Garanta seu tíquete AQUI

Grings - Tours, Produções e Eventos agradece a Eduardo Elias (Branco Produções), pela assessoria, suporte e credenciamento.   


Setlist SH PoA

I - Solo Gems & GTR

Please Don't Touch  
Every Day 
Behind the Smoke 
El Niño  
In the Skeleton Gallery 
When the Heart Rules the Mind 
Icarus Ascending
Shadow of the Hierophant 

II - Genesis 

Dancing With the Moonlit Knight 
One for the Vine 
Inside and Out
The Fountain of Salmacis 
Firth Of Fifth 
The Musical Box
Supper's Ready

Bis

Los Endos 

Veja mais fotos de Camila Gonçalves.

Foto: Camila Gonçalves


Foto: Camila Gonçalves


Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves



Foto: Camila Gonçalves
Foto: Camila Gonçalves (Sansung J5)

quinta-feira, 15 de março de 2018

KATY PERRY - PORTO ALEGRE, 14 DE MARÇO DE 2018

Fotos: Talles Kunzler
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Por Márcio Grings Fotos Talles Kunzler

Katy Perry é um fenômeno pop. Alguém tem dúvida disso? Extraordinária em seus feitos, os números de sua trajetória artística são superlativos. Em apenas dez anos de carreira, a namorada do ator Orlando Bloom tem mais de 100 milhões de seguidores no Twitter e mais de 100 milhões de álbuns vendidos, isso em apenas cinco trabalhos de estúdio! É apenas a maior vendedora de álbuns desse século. Em sua quarta grande digressão mundial, depois de passar por Chile e Argentina, Katy chega a Porto Alegre, cidade em que começa a perna brasileira da sua "The Whitness: The Tour", 55º apresentação da turnê, exatamente metade do percurso. O primeiro show de sua quarta GIG mundial foi no dia 19 de Setembro de 2017, em Montreal, no Canadá, e só para de correr o mundo no dia 21 de agosto, após 11 meses e 110 apresentações pelos quatro cantos do planeta.

Foto Talles Kunzler
Arena do Grêmio em configuração de Anfiteatro, antes de Katy, às 19h20, com propriedade e talento, a cantora trans porto-alegrense Valéria abre os trabalhos. Seu EP de estreia "Sexo Frágil?", que já está em pré-produção, contará com canções assinadas por ela e também por Cláudio Lins, Paulo Renato Nardell, Marcel Varzea e Paulinho Mendonça (letrista da banda Secos e Molhados), além de parcerias com Filipe Catto e Lan Lahn. Em 40 minutos de apresentação, destaque para "Esmalte Velho", tema composto por uma trans piauiense, a cantora Benício Bem. Na despedida, Valéria mostra suas versões de "I Will Always Love You", tema que ficou famoso na voz de Whitney Houston, além da versão em francês de "I Will Survive". de Gloria Gaynor. Já às 20h15, a nova-iorquina Bebe Rexha promove sua estreia em palcos tupiniquins. E ela faz questão de valorizar esse momento, parece se emocionar com o público que faz coro a canções como "Me, Myself & I", "Bad Bitch", "Meant to Be" e "I Got You", um de seus maiores sucessos. Aos 28 anos e com apenas dois EPs lançados, seu álbum de estreia deve chegar às prateleiras nos próximos meses. Ela deve fazer barulho...

Foto: Talles Kunzler
Para alegria do público de 19 mil pessoas, com 20 minutos de atraso, às 21h50, a estrela da noite surge imponente num modelito rubro, com gola, capuz e óculos de sol. A direção do espetáculo é de um especialista em efeitos visuais, o cineasta Tim Sekiguchi. As apresentações da "Whitness; The Tour" estão divididas em cinco atos, e como se fosse Alice no País das Maravilhas, Katy Perry escorrega pelo buraco do coelho o tempo todo: são várias trocas de figurino, dezenas de mudanças de adereços e alternâncias de cenário. Tudo observado pelo onipresente e gigantesco olho/telão/galáxia, um caleidoscópio que compõe o pano de fundo do campo de ações de toda a apresentação. A impressão é que estamos assistindo ao vivo uma peça da Broadway, um clipe filmado ao vivo ou um desfile temático em plena Marquês de Sapucaí. Não! Não estamos presenciando uma montagem teatral, uma filmagem engessada ou conferindo a passagem de uma escola de samba. É música pop, estamos na Arena do Grêmio, mas vários elementos artísticos se misturam, compondo uma explosão de som e cores  que eclodem em frente nossos olhos/ouvidos. 

Foto: Talles Kunzler
Além de uma banda base e duas vocalistas de apoio situados nos extremos laterais, o centro do palco é totalmente utilizado pelas oito dançarinas, e também por fuzileiros em forma de flamingos; vespas e bonecos com cabeça televisiva; um tubarão de formas humanas ou um bailarino que faz pole dancing na extensão que avança até o meio da pista. Quanto ao repertório, Katy realmente aposta no novo álbum: são oito temas de "Whitness". Em contraponto, ela também prestigia os fãs com sete músicas de "Teenage Dream" (2010), álbum que a colocou no Everest do pop mundial. Completam o cerco a seu repertório, 3 sons de "One of These Boys" (2008) e mais dolis de "Prism" (2013).

Foto: Talles Kunzler
Com a ajuda do público e sempre muito simpática e carinhosa, Katy se comunica em português, interage constantemente com o público e ganha o coro de milhares de fãs em sucessos como "Hot N' Cold", "Last Friday Night", além de cânones de seu setlist como "I Kissed a Girl" e a balada "Thinking of You". Depois de Porto Alegre, Katy Perry ainda se apresenta em São Paulo (17), no Allianz Parque; e no Rio de Janeiro (18), na Praça da Apoteose. Quanto ao show na Capital gaúcha, nossos agradecimentos a Agência cigana pelo suporte e credenciamento. 

Setlist KP PoA:

Act 1 - "In The Space" (Video introduction)

Witness
Roulette
Dark Horse
Chained to the Rhythm

Act 2 - Act My Age (video interlude)

Teenage Dream
Hot N Cold
Last Friday Night (T.G.I.F.)
California Gurls
I Kissed a Girl

Act 3 - Celestial Body (video interlude)

Déjà Vu
Tsunami
E.T.
Bon Appétit

Act 4 - Mind Maze (video interlude)

Wide Awake
Thinking of You
Power

Act 5 - Vídeo Game (video interlude)

Part of Me
Swish Swish
Roar

Bis:

Firework

Foto: Talles Kunzler


segunda-feira, 5 de março de 2018

FOO FIGHTERS - PORTO ALEGRE, 4 DE MARÇO DE 2018

Fotos: Diego Castanho/FF Brasil
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Texto Márcio Grings Fotos Diego Castanho

Dave Grohl é um predestinado. Imagine você ser coadjuvante de uma das bandas mais importantes do rock mundial. Dave era o baterista. Imagine que o líder e mentor intelectual dessa banda liquida com a própria vida ao dar um tiro de espingarda nos cornos?  Assim, após o fim trágico do Nirvana, esse poderia ser também o fim do baterista. Com o baixista Krist Novoselic aconteceu exatamente isso. Tanto que, artisticamente Novoselic não fez praticamente nada! Quem sabe seria diferente se não recusasse o convite do amigo Dave Grohl para integrar uma nova banda que havia formado para retomar a carreira: - um tal de Foo Fighters.  

Foto: Diego Castanho
Uma década e meia depois desse reinício, Grohl, 49 anos, é um dos principais nomes do rock mundial. Além de lotar arenas e estádios, como performer, agora ele é cantor/guitarrista/compositor (baterista eventual), e consequentemente transformou-se num dos astros mais amados e imbatíveis em orquestrar multidões ao redor do planeta. Prova disso é que a passagem da "Concret and Gold tour" pela capital gaúcha entrega ao público exatamente aquilo que a massa espera ouvir. E assim, por mais previsível que o set possa parecer, como reclamar? A sensação que saímos do show é de que Dave olha para o seu passado no FF com a mesma reverência que a audiência o percebe: o músico norte-americano construiu um punhado de hits que solidificam a trajetória da banda. Ele não apenas virou o jogo, Dave Grohl trilhou um novo e iluminado caminho. Quantos em situações adversas conseguiram reverter a esse desafio de uma maneira vitoriosa? Certamente muito poucos...

Foto: Diego Castanho
21h, Foo Fighters no palco com "Run". Eles só irão sair dali depois de 2h40min. O show começa com uma energia tão formidável,  pois já em "Learn to Fly" Dave Grohl está completamente tomado pelo suor e  o público vibra em uníssono. Cá entre nós, pergunte para uma 'puta velha' qual a sua opinião sobre o Foo Fighters, a resposta será sempre muito parecida. Foo Fighters não é a melhor banda que Dave participou. Será que isso importa? Ao vivo, o que realmente faz a diferença é o espírito 'old school' do rock arena que permanece azeitado sob a tutela de Dave Grohl e seus comandados.

Foto: Diego Castanho
Tanto que, um dos melhores momentos do show nem é uma canção deles: trata-se da releitura de "Under Pressure", clássico do Queen com participação de David Bowie. Quem canta é o baterista Taylor Hawkins, músico que ajuda a construir a imagem de grupo do Foo Fighters não apenas ancorado a figura de Dave Grohl. Durante a apresentação dos integrantes, o guitarrista Pat Smear ressuscita Ramones, Chris Shiflett faz o mesmo com Alice Cooper, Rami Jaffee (lembra do Wallflowers?) toca imagine ao piano e Grohl canta "Jump" do Val Halen, num extranho mash-up que até funciona. Dave é sempre muito generoso ao apresentar seus colegas. Ele é uma figura simpática, como não gostar de Dave Grohl?   

Foto: Diego Castanho
E claro, dá-lhe hits como "My Hero", "Times Like These", "Big Me", "Monkey Wrech", entre outros. Bons momentos com "The Sky Is a Neighborhood" e "Sunday Rain", representantes de "Concret and Gold", álbum que também dá nome ao tour. O Foo Fighters ainda estica demais certas canções, abusando dos falsos finais, assim como Dave recorre a um dos grandes erros de Paul McCartney em sua turnês - contar a mesma piada muitas vezes. Em contraponto, divertidíssima a sacada de encenação (via telões) no backstage como se a banda estivesse decidindo se volta ou não volta para o bis. É claro que eles voltam, para alegria dos 30 mil presentes no Beira-rio. Se em janeiro de 2015 a escolha da Fiergs deixou muitos fãs descontentes com o local utilizado para a primeira vinda do grupo a Porto Alegre, três anos depois o Beira-Rio cada vez mais firma-se como o melhor  dos espaços para a realização de shows internacionais na capital gaúcha.  

Foto: Diego Castanho
De todo o modo, quando vejo Maria Eduarda Fialho Minussi (veja foto abaixo), uma garotinha de apenas 14 anos segurando um cartaz bem em frente ao palco em seu primeiro show internacional, aí podemos entender uma das principais virtudes do Foo Fighters: não deixar as bandas de rock e a guitarra saiam da linha de frente do cenário da música mundial. E isso promove também uma manutenção de público. E quando, trêmula,  ela me mostra o setlist que ganhou de um dos integrantes da equipe técnica da banda, a mando de Dave Grohl em carne e osso, com um sorriso aberto no rosto, Maria Eduarda certamente representa parte do sangue novo dessa renovação. Pessoalmente, se me perguntarem o que realmente achei do show do Foo Figherts, a resposta é apenas uma: um grande show de entretenimento em que o rock ainda é a matéria prima principal. Todas as láureas para o grupo.      

Foto: Diego Castanho
Da capital gaúcha, FF e QOTSA seguem para Buenos Aires, onde se apresentam no dia 7, próxima quarta-feira no Estádio do Velez. A Concret and Gold Tour" segue até setembro de 2018, por apresentações nos Estados Unidos e Canadá.  


Maria Eduarda e seu cartaz. Foto: Camila Gonçalves
Setlist FF PoA

Run
All My Life
Learn to Fly
The Pretender
The Sky Is a Neighborhood
Rope
Sunday Rain
My Hero
These Days
Walk
Breakout
Under My Wheels
Imagine /Jump / Blitzkrieg Bop / Love of My Life
Under Pressure
Monkey Wrench
Times Like These
Generator
Big Me
Best of You

 Bis:

Dirty Water
This Is a Call
Everlong


Foto: Diego Castanho

Foto: Diego Castanho

Foto: Diego Castanho

QUEENS OF THE STONE AGE - PORTO ALEGRE, 4 DE MARÇO DE 2018

Foto: Diego Castanho
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Texto Márcio Grings Fotos Diego Castanho, João Macedo e Camila Gonçalves

A ancestralidade do Queens Of The Stone Age remete a outra banda: o Kyuss. O grupo californiano que defendia o brasão do stoner rock (estilo originário/derivado do hard rock/heavy metal),  virou ícone cult na década de 1990, além de ter em sua formação o protagonismo de Josh Homme  guitarrista, letrista e vocalista que se tornaria conhecido um pouco mais a frente num outro time. Em 1995, Homme abandona o grupo original e forma o Gammaray, mais tarde rebatizado de Queens of the Stone Age. E foi com o QOTSA que ele definitivamente entrou no panteão dos grandes músicos do rock da atualidade. E Homme ainda teve tempo pra arquitetar ao lado de Dave Grohl e de John Paul Jones (Led Zeppelin) o supergrupo Them Crooked Vultures. Ouça "Elephants", um dos sons do TCV AQUI

Foto: João Macedo
Fechando 20 anos de atividade discográfica em 2018, em pleno tour de divulgação de "Villains" (2017), e pouco menos de quatro anos após sua primeira passagem pela Capital gaúcha em setembro de 2014, o Queens of the Stone Age é o responsável pelas preliminares no tour dos correlegionários do FF.

19h, ao som de "Walk the Night" do The Skatt Brothers, Josh Homme e sua trupe entram dançando no palco. Além de Homme (guitarra e voz), na formação Troy Van Leeuwen (guitarra e voz  de apoio); Dean Fertita (teclados e voz de apoio), músico que também esteve no Brasil em 2015 como sideman de Jack White; Michael Shuman (baixo e voz e apoio) e Jon Theodore (bateria). Com essa formação que chega aos 5 anos sem alteração no quadro de integrantes (Homme já utilizou mais de 20 elementos em duas décadas de atividade), ele emplacou 2 álbuns elogiadíssimos pela crítica musical.

Foto: João Macedo
O mesmo homem que já protagonizou episódios polêmicos como os chutes a equipamentos de uma fotógrafa em dezembro do ano passado em Los Angeles, não podeira deixar de produzir resquícios desse comportamento por aqui. Na Pedreira Paulo Leminski, dois dias antes da apresentação no RS, disse que veio de cidade pequena [ele nasceu em Joshua Three, localidade com menos de 5 mil habitantes] que não tinha drogas nem álcool nem gente ruim, e que se lhe dissessem que tocaria no Brasil, não acreditaria.

Depois, chutou os leds e derrubou torre de iluminação. No Beira-Rio, apesar de mais comportado em frente as luzes, também mostra sua persona de bad boy falastrão: "Essa é a nossa noite, nossa, de vocês, do Foo Fighters, então vou ficar bêbado", diz o vocalista com seu peculiar tom de transgressão.         

Numa apresentação autocentrada na figura de seu líder, do último álbum, o elogiado "Villains" (2017), ouvimos "Domesticated Animals", "Feet Don't Fail Me", "The Evil Has Landed" e "The Way You Used to Do". O set em PoA também joga luz em "Like Clockwork" (2013), "Lullabies to Paralyse " (2005) e "Songs for Death" (2002), massa corpórea responsável pela maior parte do que ouvimos. Entre os destaques, um dos breves momentos de interação do QOTSA com o público é "Make It Wit Chu", certamente o mais conhecido e radiofônico tema da banda. A surpresa fica por conta de "Regular John", faixa do álbum homônimo de estreia do QOTSA, e número ausente em todos os sets  no Brasil até Porto Alegre.

Foto: Camila Gonçalves
A apresentação encerra com a trilha de 'A Song for the Dead", quando após 1h20, feito uma banda autista e sem uma despedida formal, o quinteto norte-americano abandona o palco ao som de um longínquo feedback da guitarra de Josh. O instrumento agoniza solitário pelos alto-falantes do estádio, igual um bicho morrendo, encarnando o uivo de um coiote com a perna presa numa cerca de arame farpado de uma pequena propriedade em Joshua Tree. Era Porto Alegre... 

Setlist QOTSA PoA:

My God Is the Sun
In My Head
Feet Don't Fail Me
The Way You Used to Do
Smooth Sailing
The Evil Has Landed
Regular John
Make It Wit Chu
If I Had a Tail
Domesticated Animals
Little Sister
You Think I Ain't Worth a Dollar, but I Feel Like a Millionaire
No One Knows
A Song for the Dead

Foto: Camila Gonçalves

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

PHIL COLLINS - PORTO ALEGRE, 27 DE FEVEREIRO DE 2018

Texto: Marcos Nagelstein/ Agência Preview
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Texto Márcio Grings Foto Marcos Nagelstein

Se você é daquele tipo de ouvinte que torce o nariz para a música pop, gosta de bandas/artistas obscuros ou não tão conhecidos do grande público, geralmente não dá a mínima para a maior parte das músicas que tocam nas FMs, então Phil Collins certamente está postulado no seu pódio particular de desafetos. O mesmo cara que sucedeu o idolatrado Peter Gabriel e assim tornou o Genesis mais acessível, desconectou o grupo do rock progressivo para ligá-lo na tomada do pop, também está na listagem dos 50 maiores campeões de venda de todos os tempos. Frente aos números, ele é um fenômeno de vendas, isso é inegável! Apesar de anunciar a aposentadoria em 2011, devido a sérios problemas em uma vértebra, Collins também está impedido de tocar bateria para sempre - instrumento com o qual iniciou a carreira, ainda no Genesis, ainda nos anos 1960. 

Foto: Marcos Nagelstein
E aí, contra qualquer probabilidade, o sujeito está de volta num retorno improvável. O mesmo cara que disse em 2004 que se pendurasse o microfone e deixasse os palcos, sua falta não seria sentida, agora segue em uma turnê mundial, com o delicioso título de "Not Dead Yet", ou "ainda não estou morto" - leia com ironia, é óbvio! E quando o vemos entrando no palco apoiado por uma bengala, sorriso simpático e acenando carinhosamente para o público, dá pra sacar que o mesmo homem que está resignado com limitações aprendeu uma nova forma de se conectar ao seu público. 

Foto: Marcos Nagelstein
E o Rei da Balada e do pop nas FMs não poderia começar o show de outra maneira: "Agains All Odds (Take a Look At Me Now), música que ardeu nas paradas mundiais em 1984 quando alavancou o filme "Paixões Violentas", dirigido por Taylor Hackford (Ray). Esse é o momento em que ouvimos o clique: sim, você está num show de Phil Collins. "Another Day in Paradise" confirma essa sensação. O tema foi escrito com o intuito de chamar atenção para o problema da falta de moradia nas grandes regiões metropolitanas do mundo. A ficha caiu depois de uma visita do cantor a Washington, Capital Federal dos EUA. O público de cerca de 20 mil pessoal que toma conta do Beira-rio vibra em sintonia com o artista.

Foto: Marcos Nagelstein
E como suporte, Collins traz ao Brasil um super time de acompanhantes. Nicholas Collins, seu filho filho de apenas 16 anos assume a bateria com propriedade. Também no palco nomes conhecidos como o baixista  Leland Sklar (Toto, Joe Cocker, Leonard  Cohen), os experientes guitarristas Daryl Stuermer (sideman em alguns tours do Genesis) e Ronnie Caryl (Garry Brooker. Maggie Bell), além dos teclados de Brad Cole (Supertramp, Lionel Ritchie). Chance ainda de ver um percussionista de primeira linha, Luis Conte (James Taylor, Madonna). Nos metais, Harry Kim (Marvin Gaye, Aretha Franklin) e Dan Fornero (Ton Jones, Neil Diamond), mais o saxofonista George Shelby (Stevie Wonder, Bruce Springsteen) e o trombonista Luis Bonilla (Dizzy Gillespie, Tony Bennett). Vozes de apoio por conta de Arnold McCuller (James Taylor, Bonnie Rait), Amy Keys (Ringo Starr, Toto), Bridgette Bryant (The Fire Choir) e  Lamont van Hook (Joe Cocker, Rod Stewart).   

São 15 músicos no palco, e todo o esquema cênico do espetáculo é desenhado para valorizar todas as participações. Apesar de termos Phil Collins colado no centro das atenções, todos os músicos ganham destaque com a orquestração de luzes e cores projetadas sob medida para encantar a plateia. E realmente encanta.     

Foto: Marcos Nagelstein
Destaque ainda para temas mais embalados de sua carreira solo como "I Missed Again", "Hang In Long Enough", "Only You Know and I Know", "Something Happened on the Way to Heaven" (e a dancinha engraçada do quarteto e sopros), mais "Sussudio". O meu recorte favorito da noite é a lembrança do Genesis - "Throwing It All Away", "Invisible Touch" e "Follow You Follow Me", esse último tema também escolhido como trilha sonora para um retrospecto no telão, onde vemos diversas imagens de Collins ao lado de seus colegas do Genesis. Outro instantâneo da cultura pop é "In the Air Tonight", tema que fez parte do seriado "Miami Vice", flerte com ambient music/rock progressivo e um dos momentos mais sombrios da noite, marcado também pela ausência dos vocalistas de apoio e do naipe de metais.   

Foto: Marcos Nagelstein
Entre os melhores passagens, emocionante de ver a intimista "Separate Lives" e o bonito dueto de Collins com a cantora Bridgette Bryant. Como não dançar frente a releitura de "You Can Hurry Love", clássico das Supremes num arranjo colado a "Dance into the Light", além de "Easy Lover", sucesso de Philip Bailey gravado em 1985 no álbum "Chinese Wall" - na linha de frente, ouvimos todas as vozes de apoio do grupo passeando pelo palco e esbanjando talento. 

No bis, quando "Take Me Home" acaba, após 2h de espetáculo, chega finalmente a hora de todos irmos para casa com a sensação de que ainda tem água pra passar debaixo da ponte e da vida artística da atração principal do "Not Dead Yet Tour". Aos 67 anos, o velho Phil deve aprontar mais uma em breve. Um novo álbum vindo por aí... Quem sabe...

Nossos agradecimentos a Agência Preview pelo suporte e credenciamento.

Setlist Phil Collins PoA

Against All Odds (Take a Look at Me Now)
Another Day In Paradise
I Missed Again
Hang in Long Enough
Wake Up Call
Throwing It All Away
Follow You Follow Me
Who Said I Would
Separate Lives
Something Happened on the Way to Heaven
In the Air Tonight
You Can't Hurry Love
Dance Into the Light
Invisible Touch
Easy Lover
Sussudio

Bis:

Take Me Home  
 
Foto: Marcos Nagelstein
 

THE PRETENDERS - PORTO ALEGRE, 27 DE FEVEREIRO DE 2018

Fotos: Marcos Nagelstein/Agência Preview
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Texto Márcio Grings Fotos Marcos Nagelstein  

Beira-Rio, Porto Alegre - terça-feira, 27 de Fevereiro de 2018. Eu não poderia estar em outro lugar. Afinal eu tenho um inadiável encontro marcado com Miss Chrissie Hynde. Aos 66 anos, minha musa ainda personifica com orgulho o emblema de anti heroína do gênero, uma sobrevivente do autêntico espírito revolucionário do rock. Sim, estamos falando de insurgência contra o establishment, porque além de estar nos holofotes, muitas vezes um artista também pode ser um porta-voz da contracultura ou ativista de alguma bandeira. A ex-garçonete de um fast food que há décadas é uma ferrenha vegetariana/defensora dos direitos dos animais, ainda segura a guitarra como um escudo. Ela que desistiu de morar nos Estados Unidos, montou uma banda de rock na Inglaterra e é praticamente uma cidadã do mundo -“É engraçado estar de volta [ao Brasil] Eu morei na avenida São Luis. Sou quase uma paulistana”, brincou em frente ao microfone no 1º show de São Paulo, relembrando da época em que gastou os seus sapatos pelas ruas e avenidas da Capital paulista. Assim, deixa claro que se sente a vontade no Brasil, e também qualquer urbe do planeta...

Foto: Marcos Nagelstein
Às 19h45, hora prevista para o início do espetáculo o mundo desaba sobre Porto Alegre. Um chuva torrencial que nos faz lembrar o histórico concerto dos Rolling Stones em Março de 2016.  Quando a chuva dá uma trégua, após o staff da banda secar e ajustar os últimos detalhes, às 20h10, Chrissie Hynde e seus comandados finalmente estão sob os holofotes. Chrissie veste um blazer rosa ajustado ao corpo esguio, calças pretas coladas, olhos delineados e cabelo loiro. Guardadas as devidas proporções, cenicamente sempre a vi consoante a pináculos como Dylan e Richards, um híbrido feminino/masculino, pura androgenia sexy e plural. 

Foto: Marcos Nagelstein
O show começa com "Alone", uma música que lembra os desavisados que o negócio do Pretenders é se portar como uma autêntica banda de rock. E a canção que dá nome ao novo álbum lançado em 2016 é também um certificado da visão irreverente de Hynde sobre o mundo. "Sim, eu gosto de estar sozinha / O que você vai fazer sobre isso?" Depois de três ou quatro casamentos ela dá o recado, gostar de si mesma já lhe basta! De todo o modo, o lado agridoce no repertório bate cartão em "Talk of the Town", tema em que o DNA melódico do grupo imprime sua marca com o característico vibrato de Chrissie Hynde. Sua voz está mais  linda do que nunca. E o que dizer de "Back on the Chain Gang"? Nada pode ser mais Pretenders. E o coro do Beira-Rio deixa bem claro essa insígnia de sucesso. O termo chain gang (algo como "bando acorrentado") é uma expressão idiomática que já foi usada para denominar a classe trabalhadora; "Chain Gang" também faz alusão a a clássica imagem de presidiários acorrentados a quebrar pedras. Sim, somos todos prisioneiros dos Enganadores...

Foto: Marcos Negelstein
No mesmo momento em que a chuva cessa completamente, e depois de um clássico absoluto, o reggae "Private Life" soa como uma ducha de água fria. Ok, ""Brass in Pocket"" nos leva de volta ao ápice criativo do grupo. "Hym to Her" só precisaria da voz de Chrissie Hynde para deixar tudo nos eixos. A versão que ouvimos no Beira-Rio começa apenas com o acompanhamento do tecladista Carwyn Ellis (ele parece um sósia de Brian Jones [Rolling Stones], ainda mais quando toca maracas), para logo depois ganhar contorno adocicados do guitarrista James Walbourne. "Stop Your Sobbing" é uma gema extraída do território do Kinks que parece ter sido feita por encomenda para o Pretenders, tanto que virou seu primeiro single em 1979. Soa viva, acesa e com um frescor inacreditável. Sinto falta e canções como essa no rock mundial de hoje.

Back on the Chain Gang.


Chrissie interage o tempo todo com o público, esbanja bom humor e simpatia, perguntando aos fãs mais próximos o que eles gostariam de ouvir. A impressão que tenho é que ela precisa do contato próximo com a audiência, e essa proximidade a estimula.Se "Message of Love" nos leva de volta ao pós-punk do início dos anos 1980, "I'll Stand By You" fez parte da famigerada trilha da novela da Rede Globo "A Viagem" e com isso somos premiados por mais um daqueles coros em uníssono que deixa o público orgulhoso de poder cantar mais uma música do repertório. E a viagem continua...

Foto: Marcos Negelstein
"Forever Young" é uma das mais belas e messiânicas canções de Bob Dylan. Quando assisti pela TV em 1992 Chrissie cantando "I Shall Be Relased" (outro número do mesmo naipe) no Especial dos 30 anos de carreira de Bob Dylan no Madison Square Garden concluí de 'prima' que sua voz é perfeita pra cantar certas canções do bardo americano. E essa mágica acontece também na versão de "Forever Young" quando toda a banda reforça o coro no refrão formando uma pequena orquestra de vozes.

"Down the Wrong Way" faz parte de "Stockholm", bom álbum solo de Chrissie Hynde lançado em 2014. Na verdade, tudo soa como Pretenders, já que para muitos o grupo poderia se chamar Chrissie Hynde and The Pretenders. Atento de que da formação original, além de Chrissie, temos apenas o baterista Martin Chambers. Vale lembrar que James Honeyman-Scott (guitarra) e Pete Farndon (baixo) morreram respetivamente em 1982 e 1983. Os dois foram vítimas de overdose de drogas e também dividiram os lençóis com Chrissie. "Don't Get Me Wrong" certamente figura no hall das canções mais conhecidas da banda. Também fez parte de filmes, comerciais e diabo a quatro. O que importa? Ela continua sendo um grande pop/rock pra se ouvir batendo forte no peito, bem em frente ao palco aonde estou.  

Foto: Marcos Nagelstein
"Mystery Achievement" é uma amostra do poder de fogo dessa encarnação atual do Pretenders. Com seu cabelo laqueado, Walbourne abre a caixa de ferramentas e nos dá amostras do seu talento como solista. O baixinho Nick Wilkinson segura uma linha hipnótica no baixo. Goteiras pingam sobre a bateria de Chambers. Para se livrar delas o baterista promove esguichos de água quando bate nas peles, embaçando o acrílico que envolve o aquário de seu instrumento. Ele também começa a fazer malabarismos com as baquetas que voam alto sobre sua cabeça. Mas o ápice de todas as ações do Pretenders na noite gaúcha que faz a despedida da banda em terras brasileiras fica reservado para os últimos instantes: "Middle of The Road", o mais afiado dos temas escolhido a dedo por Chrissie Hynde para encerrar os concertos em que protagoniza, e exemplo para qualquer outra banda/artista de como deixar o público em êxtase frente a um bom show de rock. 1h10 de encenação, o terreno está adubado para o headliner da noite: Mr. Phil Collins. Até a próxima, Miss Hynde!   

Nossos agradecimentos a Agência Preview pelo suporte e credenciamento.     .   

Setlist Pretenders PoA

Alone
Talk Of The Town
Back On The Chain Gang
Private Life
Brass in Pocket
Hymn to Her
Stop Your Sobbing
Message of Love
I'll Stand by You
Forever Young
Down the Wrong Way
Don't Get Me Wrong
Mystery Achievement
Middle of the Road

Foto: Marcos Nagelstein

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