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quarta-feira, 8 de abril de 2026

LYNYRD SKYNYRD - PORTO ALEGRE, 7 DE ABRIL DE 2026

| Foto: Laura Aldana |
| De Porto AlegreMárcio Grings Fotos Laura Aldana

Quando uma mentira é repetida muitas vezes, pode se vesti-la com uma fatiota aparentemente legítima. Num mundo em que a verdade escorre como chuva repentina, uma das bandas da era clássica do rock setentista pisa, enfim, em solo gaúcho. A missão da trupe: nos seduzir, convencer de que nem tudo é uma farsa.

O Lynyrd Skynyrd é a Coca-Cola do southern rock, uma daquelas bandas que fazem parte do abecedário do som feito nos anos 1970. Todos nós — em dado momento — já bebemos um gole dessa bebida. Tê-los por aqui, mesmo com o delay gigantesco, e sem nenhum integrante da formação clássica, não deixa de ser um ato celebrativo.

Foto: Laura Aldana 

A formação que pisa no palco do Araújo Vianna (lotado!) reúne Johnny Van Zant (vocal, desde 1987), Rickey Medlocke (guitarra — um dos fundadores do Blackfoot e integrante honorário do Skynyrd nos anos 1970, retornando em 1996), Mark “Sparky” Matejka (guitarra, desde 2006), Keith Christopher (baixo), Peter Keys (teclados, desde 2009), Michael Cartellone (bateria, desde 1999), além das backing vocals Carol Chase e Stacy Michelle.

Pelo ponto de vista dos fãs, o setlist é impecável. A história do grupo é contada por meio de canções presentes no imaginário de várias gerações, em arranjos que se colam ao máximo das gravações de estúdio ou reprisam versões ao vivo que se aproximam daquilo que conhecemos do álbum "One More for the Road" (1976). Há também um belo trabalho de restrospecto nas imagens do telão, revivendo os personagens construtores desse legado. Sob o viés do saudosismo, tudo o que ouvimos mantém os fãs nas nuvens. A banda, suas execuções e reprises, são impecáveis. Aquela cena clássica dos guitarristas enfileirados à frente do palco, coreografando com os braços dos intrumentos alinhados, prosperou com o Lynyrd Skynyrd, uma das primeiras bandas a utilizar três guitarristas no palco. Tivemos esses momentos na noite passada. A pergunta é: será que precisa tanta volume?

Foto: Laura Aldana

Vamos a um ponto nebuloso da noite: a bandeira dos EUA como adereço permanente no palco — nas mãos de Johnny Van Zandt e em seu pedestal — provoca desconforto. A banda cultiva um orgulho sulista ligado a valores reacionários, ao direito ao porte de armas e a temáticas conservadoras ultrapassadas. Enquanto isso, o trumpismo vomita uma retórica de guerra: ameaça-se hoje com truculência, negocia-se amanhã com pesos e medidas ambivalentes. O cessar-fogo anunciado na guerra contra o Irã não dissipa a sensação de que um barril de pólvora está prestes a explodir. Difícil engolir esse americanismo em muitos contextos, no que tange a esse ponto de vista musical e artístico, aí nem se fala. 

Foto: Laura Aldana 

Voltemos à luz. Canções como "What's Your Name", "That Smell", "Saturday Night Special" e "The Needle and the Spoon" funcionariam em qualquer tempo para um bom amante do rock setentista. E, quando o guitarrista Rickey Medlocke dispara o riff característico de "Down South Jukin'", um dos melhores momentos da noite se deflagra. No telão, imagens dos brejos e paisagens do Sul mítico tão enaltecido pelo grupo. Essa foi a música escolhida para abrir um dos melhores discos do Lynyrd pós-retorno — "Endangered Species" (1994) —, um álbum acústico que revelou uma banda que ainda tinha lenha para queimar. E dá pra perceber essa fome de bola em cada música ouvida no Araújo.

Foto: Laura Aldana 

Ao enfileirar duas falsas baladas como "Tuesday's Gone" (que rende homenagem a Gary Rossington, falecido em 2023, último membro da formação clássica) e "Simple Man", a banda lança cartadas de mestre — público na mão, e o coro nos refrões ganha o apoio de milhares de vozes e celulares registrando tudo. Em "Call Me the Breeze", releitura do Lynyrd de um clássico de J.J. Cale, o volume aumenta de forma considerável. Os ouvidos do vovô doem. Uma pena que o mesmo ocorra em "Sweet Home Alabama" — excessos que talvez incomodem apenas o autor desta resenha e mais meia dúzia. A plateia está em êxtase.

Foto: Laura Aldana 

No bis, a homenagem final em "Free Bird" recai sobre o saudoso Ronnie Van Zant — ora em uma filmagem sua falando à câmera, ora em um trecho cantado, sincronizado à execução ao vivo. Em outros momentos, a reverência se amplia: surge no telão a capa do álbum "Pronounced ‘Lĕh-‘nérd ‘Skin-‘nérd" (1973), marcada pela ausência de todos os seus integrantes originais, seguida de uma lista abrangente de músicos da banda que também já partiram.

A bandeira yankee foi hasteada em outro sul, bem mais ao sul de onde tudo começou para eles. E todos saíram sorrindo do Araújo Vianna. Essa é a mais pura verdade.  

Cobertura: Grings Tours | Quando o Som Bate no Peito. Review: Márcio Grings. Fotos: Laura Aldana. Agradecimento: Renata Gomes, credenciamento, suporte e assessoria.  

Lynyrd Skynyrd
Porto Alegre, 7 de abril de 2026

  1. Workin’ for MCA
  2. What’s Your Name
  3. That Smell
  4. I Need You
  5. Gimme Back My Bullets
  6. Saturday Night Special
  7. Down South Jukin’
  8. Still Unbroken
  9. The Needle and the Spoon
  10. Tuesday’s Gone
  11. Simple Man
  12. Gimme Three Steps
  13. Call Me the Breeze
  14. Sweet Home Alabama
✦ Bis ✦
Free Bird








Foto: Laura Aldana 

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

GLENN HUGHES - PORTO ALEGRE, 11 DE NOVEMBRO 2025

| Foto: Laura Aldana |
| Por Márcio Grings Fotos Laura Aldana |

Ah, Glenn! Qualquer um que tivesse vivido metade do que você viveu — drogas, estrada, glória, sexo, ressaca, purgatório — já estaria por aí, se arrastando, cantando versões pálidas de si mesmo com uma asa quebrada. Mas não: você continua com aquele olhar de quem detém algo sagrado, quase sobre-humano. Muitos de sua estirpe tombaram pelo caminho ou não são mais sombra do que já foram. Glenn, aos 74 anos, não apenas permanece em pé — ele tira onda. Dificilmente há outro igual. O clichê é inevitável: o criador fez a forma e quebrou o molde. E sim, é verdade — a voz desse inglês danado de bom continua intacta, nas nuvens, como se o tempo tivesse decidido poupá-la.

 Foto: Laura Aldana 
Setenta e quatro anos! Ah, vai! O vi pela primeira vez aos 66 e hoje ele está ainda melhor. O sujeito entra no palco como se tivesse vinte e quatro e o mundo inteiro o desconhecesse. Comendo a bola, cá temos Glenn, o pirata em busca da próxima conquista. Magro, dentes de porcelana, de óculos púrpura e calça de skatista. A camiseta homenageia... Prince. Nada mais justo, outro artista raro. O sorriso nunca se desmancha. A voz? Intacta. O som que sai da garganta empurra o tempo — uma vingança pessoal contra a ordem das coisas. E como ele agradece ao seu público. Todos somos gratos por mais uma noite. Afinal, essa pode ser a última? 

 Foto: Laura Aldana 
No Opinião, em Porto Alegre, Hughes transformou o palco em parque de diversões. Nem mesmo o fato de ter a bagagem extraviada na chegada ao Brasil parece ter azedado o humor do grupo. Tocando com um backline emprestado por músicos da capital, pela quarta vez no Opinião, Glenn Hughes (baixo e voz) se apresentou ao lado de Søren Andersen (guitarra), seu fiel escudeiro há 16 anos e coprodutor do último álbum, e de Ash Sheehan (bateria). Um trio, de forma circular ele volta ao início, como tudo começou ainda no final dos anos 1960.

 Foto: Laura Aldana 

A primeira do set foi Soul Mover — um soco na boca do estômago. Muscle and Blood veio logo depois, lembrando a todos o que é groove pesado sem precisar de autotune ou nostalgia barata. Quando atacou Voice in My Head, do novo disco, o refrão já estava na garganta do público. Ele sorriu ao perceber. Glenn se diverte — canta como se estivesse rindo da própria lenda que construiu em torno de si. Entendam: Glenn é um cantor de soul, apenas usa o hard rock pra enganar a torcida. 

É inegável: muita gente ainda vai ver Glenn Hughes pra matar saudade do Deep Purple — o som que moldou uma geração. Mas o homem há muito deixou de ser apenas o ex-baixista dos tempos dourados. Glenn é um corpo em combustão contínua, um satélite que risca o céu do rock com luz própria.

 Foto: Laura Aldana 
No palco, ele faz questão de deixar isso claro — canção a canção, pausa a pausa. Explica, provoca, traduz na linguagem da música, nos convida a partilhar essa viagem. E fez muito, gravou demais, de tudo e com todos. Glenn se apoia no passado mas reescreve o presente. Quando ele fala, há um respeito quase litúrgico, uma troca que transcende o idioma. O público entende tudo. Ele diz que nos ama milhares de vezes. Deve dizer isso pra todos! Quem não se permite ser enganado num momento de paixão?

E então, Trapeze. Way Back to the Bone e Medusa: "meu primeiro amor", diz. Ele fala da casa da avó, da cozinha onde compôs suas primeiras músicas, aos 17 anos — e a gente começa a entender aonde ele quer chegar. O garoto ainda está ali, escondido sob as rugas, segurando o baixo como quem pilota uma máquina do tempo. Quebração. Mel Galley e Tom Holand são citados várias vezes. O fantasma deles sobrevoou o palco. 

Também relembra a parceria com o amigo Tony Iommi, com quem dividiu um álbum em 2005 (também gravou Seventh Star, como um dos Black Sabbath, em 1986). Glenn pode misturar tudo: Led, Purple e Sabbath — há conexões diretas e indiretas com a tríade sagrada. Duvida? O medley Grace/Dopamine deixa a audiência em transe, boquiaberta.

 Foto: Laura Aldana 
E então vem Mistreated. Um clássico do Deep Purple que o próprio Purple não toca — azar deles. O teto do Opinião ameaça cair. Nunca vi nada parecido. A música se estende, dobra, se desfaz, explode e vira silêncio... renasce à capela, como se estivéssemos de volta aos anos 1970, Made in Europe, quando o rock estava no topo.

No bis, ele volta sozinho com o violão. Coast to Coast, minimalista e atonal, mostra que as estranhezas melódicas e a forma de cantar e compor são únicas. E como canta! De volta ao power trio, Black Country vira pista livre para o poderio sonoro. O clima de jam session é a bola da vez. Entre o vai e vem, até Søren Andersen ri, incrédulo, a cada agudo que Hughes dispara, a cada virada impossível que ele inventa na hora. A despedida não poderia ser outra, Burn, ardendo como brasa com sabor de despedida, uma das marca definitivas da formação MK3.  

 Foto: Laura Aldana 

Chamam de “turnê de despedida”, mas não é droga nenhuma. Quem pode ser enganado? Isso é golpe de marketing pra cutucar preguiçosos em seus sofás e os malditos adeptos de churrascos com trilha-sonora via caixas bluetooth. Nada se compara a ver um dos grandes ao vivo. E vamos lá, deixo claro — não me venham com turnês de despedida. Hughes não está se despedindo de nada. Ele ainda quer tudo. É do tipo que só vai parar quando o corpo não responder mais.

Enquanto os velhos heróis se aposentam (alô Coverdale e Tyler), Glenn continua ali — chutando poeira e cuspindo fogo, lembrando que o rock ainda está bem das pernas na sua carcaça. Glenn Hughes é uma rocha inquebrantável. Rola pra caramba, mas não se deteriora. To be a rock and not to roll, esse homem atravessou as tempestades, enfrentou os excessos like a rolling stone, mas ainda permanece sólido, íntegro, fiel a si mesmo — mesmo quando o mundo à sua volta se desconfigura. Me disseram: ele tem a senha e não entrega a ninguém. 

Outra vez, a lenda fez jus à lenda. E o vimos em seu melhor momento. Porque, sim — aos 74 anos, Glenn Hughes ainda é a voz do rock. Não foi? Azar o seu!

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Cobertura: Grings Tours | Quando o Som Bate no Peito. Review: Márcio Grings. Fotos: Laura Aldana. Agradecimento: Homero Pivotto Jr (Abstratti), credenciamento, suporte e assessoria.


 Foto: Laura Aldana 

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 Foto: Laura Aldana 

 Foto: Laura Aldana 

 Foto: Laura Aldana 

Foto: Homero Pivotto Jr

segunda-feira, 19 de maio de 2025

THE PRETENDERS - PORTO ALEGRE, 18 DE MAIO DE 2025

| Foto Laura Aldana |
| Por Márcio Grings Fotos Laura Aldana |

Final de domingo, uma chuva fina cai sobre Porto Alegre. A pé, cruzo a Avenida Osvaldo Aranha em direção ao Araújo Vianna, no caminho, um sujeito em situação de rua, deitado em frente a uma loja, levanta a cabeça do colchão e me pergunta qual é o show da noite. Ao ouvir a resposta, ele me grita enquanto atravesso a avenida:  

— Pede pra Chrissie tocar Don't Get Me Wrong, diz o sujeito tomado por uma euforia momentânea. Nunca menospreze o poder de um hit, penso. 

Foto: Laura Aldana
Quase uma década após a primeira vinda ao Rio Grande do Sul — quando fez o show de abertura para Phil Collins no Beira-Rio em 2018 — leia review AQUI — os Pretenders, banda criada por Chrissie Hynde, pisa pela quarta vez em solo brasileiro. Assim como naquele ano, ainda me sinto motivado em vê-los ao vivo. Afinal, a líder deles é um dos peixes grandes do rock. O atual status comprova que o grupo ainda está no jogo. A fila andou e o tempo foi generoso para os Pretenders. Na estrada desde 1978, Hynde acaba de celebrar 45 anos do autointitulado LP de estreia, lançado em janeiro de 1980. A atual gira, a Latin America Tour, já passou pela Cidade do México, Santiago, Montevidéu e Buenos Aires.  

Foto: Laura Aldana

Atualmente, como headliner, os Pretenders se apresentam em casas de espetáculo e teatros menores, um território onde Chrissie se sente à vontade: “Pessoalmente, não consigo curtir um show de três horas. Prefiro ver a banda de perto ao invés de assisti-la pelo telão. E da minha posição, como artista, gosto da possibilidade de poder enchergar os espectadores com meus próprios olhos”, disse em entrevista. “Poderíamos estar tocando em lugares maiores, ganhando mais dinheiro e conquistando mais prestígio. Contudo, não damos a mínima para essas coisas”, complementa. Quem a acompanha ao longo dos anos sabe, Chrissie não mede as palavras e,  além de seu ativismo em prol dos direitos dos animais e questões ambientais, a vocalista ainda vê no rock e no seu métier um instrumento de revolução ao modelo do Século XX. 

Foto: Laura Aldana

O fato é que os Pretenders estão na estrada com um dos melhores shows de rock da atualidade. O setlist mescla canções de nove dos doze álbuns lançados em quatro décadas e meia de atividade, e ainda promove um avant-première de “Kick ‘Em Where It Hurts – Live”, disco ao vivo que será lançado em junho. A formação que está no novo registro é a mesma que vem ao país. Além de Chrissie Hynde (voz, harmônica e guitarra), o grupo apresenta armas na Latin America Tour com James Walbourne (guitarrista e grande parceiro de Hynde nas composições), Dave Page (baixo) e Rob Walbourne (bateria). O trabalho de estúdio mais recente, "Relentless" (2023), é uma confirmação de que o grupo vive essa ótima fase, assim como os anteriores, "Hate For Sale" (2020) E "Alone" (2016).

Foto: Laura Aldana
O SHOW

Araújo Vianna, 3 mil pessoas saíram de casa num domingo de tempo instável para assistir a atual encarnação do grupo. 20h15, banda no palco, aos 73 anos, Chrissie Hynde mantém sua silhueta esguia, sombra nos olhos e o cabelo vermelho desgrenhado com estilo, os penduricalhos, calça jeans com botas de couro que sobem acima do joelho. A capa de "Freak Out" (1966) de Frank Zappa & The Mothers estampa a camiseta da cantora, um aceno à transgressão de um dos grandes guitarristas da história. A mistura de rock clássico, pós-punk, new wave e pop é a cartilha do som dos Pretenders, porém, nos últimos álbuns, há sínteses e subtrações dessa fórmula. A exemplo, nas canções recentes, encontramos ótimas letras, menos doçura e mais agressividade musical.  

Foto: Laura Aldana

Desse modo, inicialmente destituído de uma intenção pop, o show abre com uma das novas, "HATE FOR SALE", que diz: "Dinheiro no banco e cocaína no bolso/ Pornô o dia todo (...) Implante dentário/ Oh, ele vai à academia/ Peito depilado", é um retrato crítico, punk e turbulento do macho idiota propagado nas redes e nos dias de hoje. “Estou descartando um repertório só de hits. Eu nunca quis ir para essa direção, mas precisava me manter viva e pagar as contas. Se alguém quiser me assistir no futuro, vai ser punk rock/sem sucessos”, declarou Chrissie. O show tem esse contraste: um vai e vem entre o pop e o anti-pop. "TUFF ACCOUNTANT DADDY", mais uma do último álbum, mantém a corda esticada. James Walbourne arrepia no solo e mostra porque é o melhor guitarrista que já passou pelos Pretenders — "Queria cortar as mãos dele", disse Jeff Beck a Chrissie Hynde, ao visitá-la no back stage de uma apresentação do grupo em 2017. Hoje, Walbourne é parte do organismo vivo que o grupo se tornou. 

Foto: Laura Aldana

"KID" é a primeira que nos leva direto ao cânone do pop rock dos anos 1980. Ela ainda é uma das minhas cantoras de rock favoritas, dona de um contralto flutuante e sempre expressivo. A maneira como Chrissie ondula cada linha vocal – aquele trêmulo característico – é sublime. O timbre é inconfundível, e não há nenhuma subtração nessa entrega, apesar da líder da banda já ter passado dos 70 anos. "MY CITY OF GONE", de "Learning to Cry" (1984) foge da risca Greatest Hits. É um aceno a cidade natal de Hynde, como ela anuncia antes de tocá-la, conectando sua história com qualquer pessoa que tenha deixado para trás sua terra, emprestando aquela sensação de nostalgia e perda.

Foto: Laura Aldana

Antes de tocar "THE BUZZ", Chrissie avisa ao público que essa missiva tem endereço: é uma homenagem a Johnny Thunders, lendário guitarrista do New York Dolls. É também uma das melhores músicas do rock and roll feitas neste século, detentora das credenciais que forjaram o grupo. E mesmo que James Walbourne não tivesse nem nascido quando os Pretenders surgiram (ele veio ao mundo no que o primeiro LP foi lançado), sua guitarra tem o som dos Pretenders.

Dentro do preset do show, há passeios por vários estilos — "PRIVATE LIFE" (reggae), "BOOTS OF CHINESE PLASTIC" (psychobilly) e o rock dos anos 1950 repaginado com tintas oitentistas impregna "THUMBELINA". Não à toa, a capa do próximo álbum recicla uma iconografia clássica de Elvis (que o Clash chupou em London Calling), assim como Chrissie aparece em fotos de divulgação com uma imagem do Rei do Rock na sua camiseta. "TALK OF THE TOWN" é puro saudosismo, mas soa novinha em folha nessa noite no Araújo.  

Foto: Laura Aldana
"BACK ON A CHAIN GANG" é uma canção assinatura que até os hereges conhecem e se juntam ao coro. Os malditos celulares se elevam e a massa faz seus registros para as redes sociais. O bloco punk retorna com "DON'T CUT YOUR HAIR" e a ótima "JUNK WALK", retrato da atual cruzada ruidosa do grupo. Além disso, letras cheias de ironia como "LET THE SUN COMES IN" são a marca da safra mais recente (e bem aceita prlo público), com James destrinchando sua guitarra nas bases e solos. E Chrissie não se furta de deixar o seu menino dos olhos brilhar. Bem, se alguém veio até aqui para os hits (e o Pretenders tem alguns) "DON'T GET ME WRONG" satisfaz essa parcela do público no Araújo Vianna (e o meu camarada homeless a ouve na sua cabeça), pois temos aqui uma das músicas mais conhecidas do grupo no Brasil. Lá se erguem os celulares. 

Foto: Laura Aldana

"TIME THE AVENGER" bota fogo no parquinho e a releitura de "FOREVER YOUNG" empresta uma beleza magnânima e quase introspectiva. Se você não viu Chrissie cantando “I Shall Be Released” em 1994 no Bob Fest, corra até o YouTube, ela canta Dylan com propriedade e pode até errar a letra (a cantora gravou um álbum apenas com canções do bardo). Se "NIGHT IN MY VEINS" é um som moldado para as FMs dos anos 1990, "MIDDLE OF THE ROAD" (com direito ao coro atento do público) é uma pedra de quebrar vidraça, com Chrissie levantando o público com o solo de harmônica empapado de distorção e atitude, mote final para que a banda deixe o palco ovacionada pela plateia.  

O bis começa com dois clássicos, "MESSAGE OF LOVE" e a sempre bem-vinda releitura dos Kinks "STOP YOUR SOBBING", assim como “TATTOED LOVE BOYS", um antigo flerte com o pós-punk. No segundo bis, "I'LL STAND BY YOU", com Chrissie sem a guitarra e cantando como crooner, emociona e mostra o poder de uma canção pop que ultrapassou o tempo e segue batendo forte. Nem precisaríamos ouvir "PRECIOUS" e "MYSTERY ACHIEVEMENT", um último sopro de resistência ao lado mais indomado do quarteto no palco, mas esse final passa um recado: os Pretenders começam e terminam seu show ondulando na turbulência do rock, sempre com autenticidade e rebeldia. A cola de tudo está no pop e na força do hit, uma fórmula invocada pelos grandes. Afinal, nem todo mundo tem um sucesso pra chamar de seu. A apresentação no Araújo Vianna foi a mais longa até agora na Latin America Tour, com 24 músicas, prova de que esse encontro foi especial. 

Na saída, de volta pra casa, reencontro o sujeito em situação de rua e digo que os Pretenders tocaram “Don’t Get Me Wrong”. O pobre homem, escorado na parede e fumando um cigarro imaginário, abre um sorriso gigante. Nunca subestime o poder de um hit... Da Capital gaúcha  o grupo segue para Curitiba (20), Brasília (22) e São Paulo (24). Cobertura: Grings Tours | Quando o Som Bate no Peito. Review: Márcio Grings. Fotos: Laura Aldana. Agradecimento: Paulo Finatto (Opinião Produtora), credenciamento, suporte e assessoria.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

SAXON — PORTO ALEGRE, 6 DE MAIO DE 2025

| Foto: Laura Aldana |
Review Márcio Grings Fotos Laura Aldana |

Há quatro décadas e meia, a banda inglesa que chegou a Porto Alegre nesta terça-feira (6) se tornou um dos pilares do som pesado. A atual turnê, a 9ª em terras brasileiras, com um novo show no Opinião — leia a resenha da passagem anterior (2019) AQUI —, é a última data no país da Hell, Fire & Steel Tour. Vindo de uma miniturnê pelo Japão, onde fez três apresentações (duas em Tóquio e uma em Osaka), no Brasil, antes da capital gaúcha, o Saxon ainda passou por São Paulo (3), como uma das atrações principais no festival Bangers Open Aire, e Belo Horizonte (4), onde se apresentou no Mister Rock.

Formado em Barnsley, South Yorkshire, na Inglaterra, há um símbolo indivisível na persona do grupo: o Saxon surgiu sincrônico ao nascimento do New Wave of British Heavy Metal, subgênero com termologia cunhada em 1979 por Alan Lewis, editor da revista britânica Sounds. O NWOBHM deu o play exatamente quando o punk entrou em declínio e, entre os principais expoentes dessa safra do som pesado, além do Saxon, bandas como Iron Maiden, Def Leppard e Motörhead também surfaram na mesma onda. No entanto, só em 1997 o Saxon visitaria o Brasil, com shows em Santos e São Paulo. Na época, como um quinteto reestruturado e já fora da crista da onda, a aterrissagem fazia sentido, pois não só por aqui — mas em toda a América do Sul — havia uma base sólida de fãs, forjada principalmente nos anos 1980, sedentos por esse encontro. Em tempo: até aquele período, todos os LPs do grupo ganharam edições no país via RGE e EMI, o que justifica sua popularidade.

Foto: Laura Aldana

Quase cinco décadas depois, muitos dos egressos no NWOBHM ainda permanecem no cenário, apesar de poucos terem seguido em frente com ousadia e inovação, não apenas regurgitando um espólio saudosista. Na linha do tempo, o erro estratégico do Saxon está fixado na segunda parte dos anos 1980 (a partir de 1985, principalmente) quando o grupo americanizou o som, amaciando a 'britanicidade' e o peso. Já o Iron Maiden, mais bem orientado pelos seus managers, parece nunca ter superdimensionado o mercado norte-americano e, mesmo assim, se tornou grande nos dois lados do Atlântico, sem abandonar seus propósitos, permanecendo tão britânico quanto o chá das cinco.

Por outro lado, hoje, nos trabalhos deste século, é fácil identificarmos desmedidas repetições de uma fórmula já esgotada na banda de Bruce Dickinson e Steve Harris. Quanto ao Saxon, mesmo tendo diminuído de estatura frente ao Iron Maiden (nos anos 1980, por um breve período, ambos igualaram forças), salvo algum equívoco ou outro, o grupo liderado pelo vocalista Biff Byford, segue conquistando crítica e renovando seu público, repaginando a ordem das coisas e cravando — ano após ano — ótimos discos, como é o caso do elogiado "Hell, Fire and Damnation" (2024).

Doug Scarrat. Foto: Laura Aldana
A FORMAÇÃO

Para entendermos a atual composição que chega até Porto Alegre e a troca de cadeiras em relação à era jurássica, inicialmente comecemos por Nibbs Carter (59 anos), na banda desde 1989. Ele começou sua história no Saxon gravando o baixo no álbum ao vivo "Rock 'n' Roll Gypsies", substituindo um integrante da formação original, Steve Dawson. Antes disso, em 1982, Nigel Glockler (72 anos) ocupou a lacuna deixada por Pete Gill, homem das baquetas nos quatro primeiros LPs. Nigel entrou quebrando tudo no álbum "The Eagle Has Landed" (1982), o mais poderoso registro ao vivo do grupo em qualquer década. Deste modo, juntando-se ao vocalista, o velho general Biff Byford (74 anos), comandante geral das operações, eis o trio que segura a bronca há mais tempo.

Nibbs Carter. Foto: Laura Aldana

Na década seguinte, em 1997, Doug Scarrat (65 anos) substituiu Graham Oliver e foi um dos guitarristas que participou do primeiro tour pelo país. E, por último, quando Paul Quinn decidiu pendurar as chuteiras em março de 2023 (ele esteve em Porto Alegre em 2019), o Saxon anunciou o substituto, Brian Tatler (64 anos), presença legítima no NWOBHM, já que o músico fez história como guitarrista do Diamond Head.

Laura Guldemond, vocalista do Burning Witches. Foto: Laura Aldana
ABERTURA: URDZA E BURNING WITCHES

Antes do Saxon, duas ótimas atrações aqueceram o público. Direto de Santos, a Urdza, que acaba de lançar o seu álbum de estreia, "A War With Myself” (2024), fez um show curto e encaixado. A banda paulista está pronta para alçar voos maiores, guardem esse nome.  Logo depois, a grande surpresa (pelo menos para mim) da noite se deu com a Burning Witches. Essa banda de garotas vinda da Suíça, com cinco álbuns de estúdio lançados, aposta no power e heavy metal dos anos 1980, mas também traz sangue novo e originalidade ao gênero, com destaque para a vocalista Laura Guldemond, uma cantora e performer de mão cheia. Completam o time Romana Kalkuhl (guitarra e voz de apoio), Courtney Cox (guitarra), Jeanine Grob (baixo) e Lala Frischknecht (bateria e voz de apoio). Músicas como "Unleash the Beat", "Dance With the Devil", "The Spell of Skulls" e "Lucid Nightmare" são cartões de visita que dão o tom do calibre das meninas. Voltem logo, já estamos com saudades!

E COMO VEM A ATRAÇÃO PRINCIPAL?

Dividido em duas partes distintas, a Hell, Fire & Steel Tour já passou por 11 países em três continentes, pulverizando uma fusão de novas músicas e sons 'da antiga', além da execução na íntegra de "Wheels of Steel" (1980), álbum que colocou o Saxon na primeira divisão do metal nos primeiros dias de sua década mais fértil. A apresentação em Porto Alegre é a 30ª desse ano, numa agenda que se encerra em novembro. Até o final de 2025, o Saxon fará no mínimo mais 30 shows, o que posiciona a passagem pela capital gaúcha como o meio do caminho da atual turnê.

Nigel Glockler. Foto: Laura Aldana
O SHOW

Em primeiro lugar, parabéns à Opinião Produtora por novamente oportunizar ao público local a assistir aos ingleses ao vivo. Particularmente, se o Saxon virou uma banda de nicho, se não lota mais estádios (não estamos falando de festivais, onde o grupo tem cadeira cativa nos line-ups da Europa), o fato de se apresentar em lugares menores, de poder reunir mais de 1000 head bangers apaixonados numa casa de espetáculo com o peso do Opinião, felizardos de nós que aqui estamos.

Após a introdução com "PROFECY”, quando ouvimos em off a voz marcante do ator britânico Brian Blessed, o Vultan em "Flash Gord" (1980) e Boss Nass em "Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma" (1999), proferindo ditames de antigas profecias e da eterna disputa entre o bem e o mal, um a um, os membros do grupo se posicionam e são ovacionados nos segundos iniciais. O pontapé com a banda tête-à-tête se dá com “HELL, FIRE AND DAMNATION”, um balaço do álbum mais recente. O padrão dos shows atuais é alto, muitas bandas tombaram pelo caminho ou soam como arremedos de si próprias, mas o Saxon permanece em pé, sólido, ainda se conectando com o público no intercâmbio e paixão pelo emblema do metal. Prova disso é ver a alegria de Biff ao perceber que o refrão de "Hell, Fire and Damnation" já está na boca do povo. O ataque das guitarras de Scarratt e Tatler (um volume ensurdecedor), os lanceiros do time, abrem caminho para Biff brandir a espada saxônica. "POWER AND THE GLORY" impressiona, continua candente e ainda mais viva no palco. Já podemos sentir que Tatler está em casa no Saxon, como se tocasse no grupo desde sempre. Antes de "BACKS TO THE WALL", tema do álbum de abertura do primeiro LP do grupo, Biff brinca dizendo que muitos na plateia certamente não tinham nascido em 1979. E esse é um bom exemplo de como as velhas canções soam novas em folha, imantadas por uma energia incrível (tocada mais rápida) e com um arranjo que deixa a gravação original no chinelo. 

Brian Tatler. Foto: Laura Aldana

As novas músicas trazem uma mistura de metal clássico com uma atmosfera mais moderna, como na ótima “MADAME GUILLOTINE”. "HEAVY METAL THUNDER" não apenas tem epítome de hino, como de fato é, assim como é incrível ver a banda em ação com a pegada dos velhos tempos intacta. Sem respiro entre uma música e outra, o sempre empolgado Carter dispara o baixo pulsante de “DALLAS 1 PM”, relato da morte de John Kennedy, que inclui a transmissão de rádio no meio da música. Hit. Também na agenda gaúcha temos um dos clássicos absolutos, "STRONG ARM OF THE LAW", uma amostra de que o Saxon intercala temáticas, podendo falar de truculência policial (é uma das preferidas dos fãs), grudada em "1066", mais uma das boas canções da nova safra, um épico histriônico que trespassa a narrativa de uma batalha saxônica. "THE EAGLE HAS LANDED" é a música que fecha um dos melhores álbuns do Saxon (e essa primeira parte do show), "Power and the Glory" (1983), esteve ausente no setlist de 2019, traz ares reflexivos intercalando dedilhados e riffs poderosos. Tatler e Scarret novamente mostram sintonia, tanto na divisão dos solos quanto na dobra dos riffs, honrando a tradição guitarrística do grupo. Se você gosta de som de guitarra pesada, esse é o seu show!

Biff Byford. Foto: Laura Aldana
WHEELS OF STEEL, O ÁLBUM

Na pole position, entre os álbuns mais representativos do Saxon — aqui está forjado o seu DNA —, o LP lançado em 3 de abril de 1980 colocou o grupo na primeira divisão e na história do heavy metal. Enfurnados em um refúgio rural no País de Gales, uma série de canções foram escritas, duas delas definiram tudo a partir dali: "Wheels of Steel" e "747 (Strangers in the Night)". O disco pega as guitarras de Graham Oliver e Pete Gill (dupla de músicos da formação clássica) e as coloca na linha de frente. Quando ouvimos o álbum, percebemos que elas circulam pelo lado esquerdo e direito das caixas de som, muitas vezes dobradas, até mesmo centralizadas, potencializando a sensação cêntrica dessa escolha. No show  a sensação é semelhante. As músicas são rápidas e as canções trazem letras sobre dirigir em alta velocidade ou do tipo "não deixem que os desgraçados te derrubem". Com isso, "Wheels of Steel" não foi apenas a origem do sucesso do Saxon, aqui o mundo teve o sinal de alerta de que a Grã-Bretanha estava pronta para lançar um ataque sem precedentes, pois, como sabemos, o heavy metal se tornaria um dos gêneros dominantes daquela década.

Assim, a peça central do set da atual turnê traz a íntegra de "Wheel's of Steel", uma das marcas dessa nova gira.

Foto: Laura Aldana
WHEELS OF STEEL, AO VIVO NO OPINIÃO

Antes de tocar o álbum na ordem em que o conhecemos, Biff faz um longo discurso relembrando o público de como era o mundo em 1980: "sem celulares, CDs e streaming. Com LPs, fitas cassete e revistas de música", um discurso saudosista, mas também parece um relato de uma banda sobrevivente. "Não vivemos no passado. Trazemos, sim, o passado de volta quando tocamos ao vivo, mas não vivemos lá", disse Biff a Martin Popoff, um dos biógrafos do grupo. Essa sensação (sobre um passado pulsante) se impõe no público quando o som das motocicletas introduz “MOTORCYCLE MAN”, testemunho sobre o prazer de pilotar uma máquina potente. Para muitos, é o início de uma viagem pela estrada da memória, mas também é possível ver fãs mais jovens curtindo. Poucas bandas congregam essa grandeza, ter músicas em seu portfólio que conectam gerações. É o passado que está de volta. E o séquito do Saxon não se importa de continuar morando por lá. Biff simula estar segurando no guidão de uma moto e acelera a adrenalina do público.

Foto: Laura Aldana

As guitarras ensopadas de phazer em "STAND UP AND BE COUNTED", uma música que versa sobre a busca por um lugar no mundo, dá seguimento na escalada do álbum, na exata sequência do LP. "747 (STRANGERS IN THE NIGHT)" é um dos Montes Rushmore da discografia do grupo (minha preferida, pop e pesada). O tema se baseia num blecaute que aconteceu em Nova York, com pessoas presas no metrô e nos elevadores, quando até as luzes da pista do aeroporto J.F. Kennedy se apagaram. Ainda hoje reverbera a lenda de que nove meses após o apagão (ocorrido em 1965), houve um baby boom. Na letra, Biff até menciona um voo real — o 911, da Scandinavian Airlines — envolvido no apagão, que obteve êxito no seu pouso na Big Apple graças à lua cheia. História digna de um filme... e de uma boa música. Romantizada por Biff, trechos de tudo isso estão na letra, pegando o mote de estranhos se esbarrando à noite durante o blecaute histórico. Sempre gostei do início de '747', que começa pelo solo, uma sensação de que pegamos o bonde andando, com o riff das guitarras atingindo o ouvinte de surpresa. O volume do show e a intensidade do público chega a um dos seus ápices.

Foto: Laura Aldana

Bem, talvez ainda não. A faixa-título, “WHEELS OF STEEL”, crisol alquímico e síntese dos propósitos do Saxon, tem como desculpa temática falar sobre uma competição automobilística e, com isso, promove uma das catarses previsíveis de um show do grupo: o público se une a Biff em uníssono durante o refrão. É também o momento em que o vocalista pega seu celular e filma a plateia ondulando no embalo da cozinha de Nigel e Nibbs (veja AQUI). Virando o lado do LP, praticamente sem brechas entre uma e outra execução, "FREEWAY MAD", "SEE THE LIGHT SHINING" e “STREET FIGHTING MAN” soam como rescaldo após o tufão de um megahit, ponte eficiente e borda áspera que nos leva até "SUZIE HOLD ON", um riff de baixo que atropela tudo, mas que empresta ares de balada marmorizados na voz melodiosa de Biff. Carter toca seu baixo empoleirado no praticável da bateria (ele simplesmente não para um segundo). O tufão volta a ondular em "MACHINE GUN", empurradas pelo efeito do tremolo com a alavanca da guitarra de Scarrat que leva parte do público no Opinião a sacudir a cabeça até quase quebrar o pescoço (eu não tenho a mínima condição de fazer algo parecido). Os sons da explosão ao final da música passam o recado de que tudo pode ter acabado nessa noite... Mas, a audiência clama pela volta do grupo.

Foto: Laura Aldana

Em 2019, poucos meses após a sua primeira vinda ao RS, Biff passou por uma cirurgia de revascularização, o que causou preocupação nos fãs. Seis anos depois, em nenhum momento do show identifico evidências de fragilidade no velho general. O Biff bufão, com a barriga proeminente de um sábio ancião, que joga água no público e ainda agita a massa como poucos (e canta muito, não esqueçam disso!), mostra porque é uma lenda viva. A energia física e a potência de sua voz impressionam. E, após a jogada ensaiada dos apelos do público para que o Saxon retorne ao palco (e a audiência realmente fez barulho), o grupo monta sua despedida com uma quadra de ases — primeiro, a mais pedida da noite, “CRUSADER”; o hino dos hinos; “DENIM & LEATHER” foi cantada em uníssono com o baterista Nigel Glockler arrepiando; “AND THE BANDS PLAYED ON”, outro alvoroço, é uma música símbolo de identificação das letras que falam do homem comum e faz um retrato da simbiose com o público nos shows, e “PRINCESS OF THE NIGHT”, fecha o serviço nessa sarrafada de clássicos do songbook metal. Parecia que o show estava recomeçando, vide a integração entre a banda e seus fãs e, com ambos pulsando em alta rotação, mas assim se despediu do Brasil a Hell, Fire & Steel Tour. De Porto Alegre o Saxon segue para Buenos Aires (8), Montevideo (9) e Santiago (11).

O Saxon é uma banda que se recusa à acomodação, embora obviamente — como dezenas de outros confrades — ainda dependa dos clássicos para manter os fãs envolvidos. Contudo, passados quase cinquenta anos, ela se reaviva, ano após ano, e o show que acabo de assistir é a prova de que, do ponto de vista de uma apresentação, o grupo inglês consegue entregar material novo em nível similar, além de reverenciar um passado glorioso.

Cobertura: Grings Tours | Quando o Som Bate no Peito. Review: Márcio Grings. Fotos: Laura Aldana. Agradecimento: Paulo Finatto (Opinião Produtora), credenciamento, suporte e assessoria.

Foto: Laura Aldana
Foto: Laura Aldana


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