segunda-feira, 27 de maio de 2019

TOM WORRELL - SANTA MARIA, 25 DE MAIO DE 2019

Foto: Pablito Diego 
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

O Memorabilia Blues no Plataforma 85 (Gare da Estação Férrea, anexo ao Mercado Público) avança ano adentro proporcionando inesquecíveis momentos ao som do melhor blues. Em apenas três meses de projeto, no último sábado (25), o terceiro nome da música norte-americana pisou no palco do evento. Depois de Willie Walker (12/3) e Whitney Shay (18/4), tivemos uma agradável noite de outono conferir o pianista Tom Worrell, genuíno representante de um dos legados mais importantes da música mundial.

Mas afinal, o que difere o show de Worrell de outras apresentações do gênero que já passaram pelo Centro do RS? Ao longo dos últimos 20 anos, cruzaram por aqui mais de uma dezenas de músicos. Shows memoráveis que continuam a ocupar um lugar carinhoso em nossas lembranças. Porém, nunca antes tivemos a oportunidade de assistirmos um set de blues com foco no piano e na tradicional escola de New Orleans. É como se fossemos teletransportados para um bar em Nola sem a necessidade de pegar um voo internacional.

Foto: Pablito Diego
Na banda base, Luciano Leães (teclado e voz), Caetano Santos (guitarra), Edu Meirelles (baixo), Ronaldo Pereira (sax) e Ronie Martinez (bateria) - juntos, o quinteto atende pelo cognome de Luciano Leães & The Big Chiefs, reunião de talentos que não deixa de ser uma atração a parte dentro do contexto do espetáculo. Quanto ao nome escrito em letras garrafais na parte de cima do cartaz , além de residente nos bares, concertos e festivais de New Orleans, Tom Worrell é um 'nativo' da cena artística de lá, e declarado amante da música de Professor Longhair, importante pianista que morreu em 1980. O repertório começa e termina com os temas de Longhair, fonte primordial da apresentação que veremos em instantes, pois mais da metade do setlist executado tem a assinatura do Professor.   

Santo Protetor. Professor Longhair iconizado no camarim do Memorabilia Blues 
E diferentemente dos show de blues que advém de celeiros musicais como o Delta do Mississippi, Texas ou Chicago, por exemplo, o legado de New Orleans atua em outra frequência. Na geografia do palco/gravações, o piano passa a ser o instrumento que centraliza as ações, com a guitarra frequentemente ficando em segundo plano. A intenção sonora flerta com a rumba, calypso, ritmos do Caribe, jazz, diversas fontes da música negra e uma gama de ingredientes ligados ao caldeirão cultural de New Orleans. Foi dessa mistura que nasceu o funk norte-americano, por exemplo. O resultado de tudo isso é que o repertório incorpora um alto astral absurdo.

22h35min, abertura com versão funkeada de "Hoochie Coochie Man" (Willie Dixon), espelhada na releitura de Freddie King, com apenas Luciano Leães & The Big Chiefs no palco, eis uma brilhante preliminar com suingue próprio, pifando um gingado que nunca abandonará o palco ao longo dessa noite. E quando Leães anuncia a entrada triunfal de Tom Worrell, o público o ovaciona, com o pianista retribuindo o carinho e fazendo reverência a audiência.

Foto: Pablito Diego
A sequência inicial rende homenagem a Longhair - "Don't It", "Her Mind Has Gone", "She Walks Right In" e "Big Chief", abecedário básico para entender o idioma original do piano blues. "Eu nunca vi alguém tocar as canções do 'Professor' como Tom Worrell. Durante as apresentações, por exemplo, ele canta frases que não estão nos discos, pois frequentemente Longhair alterava várias letras de músicas durante os shows. Até a ordem do setlist reverencia essa atuação. Considero Tom o maior propagador desse legado e também o mais autêntico", diz Luciano Leães, denotando a posição do norte-americano dentro do cenário em que atua nos Estados Unidos.

Foto: Pablito Diego
Antes de tocar "Classified", Worrell fala que temos um especialista em James Booker no palco. O desaparecimento precoce em 1983, com apenas 43 anos, não impediu que Booker continuasse inspirando músicos nos quatro cantos do planeta. É o caso de Leães, que simplesmente parece absorver como uma esponja o estilo de James Booker, fazendo de "Classified" um dos momentos mais empolgantes da noite. Brilhante divisão das teclas e alternância de solistas, com o martelar do NORD 5D de Leães soando como um diabólico Hammond B3. Destaque para a balanço fácil da banda, com o baixista Edu Meirelles tendo extremas dificuldade para se livrar do sorriso do rosto - "Com um repertório desses é impossível esconder a felicidade", declara ao final do show.

Foto: Pablito Diego
"Such A Night" (Dr. John), uma canção que exala a malandragem velhaca da cidade mais musical da Louisianades, sempre esteve entre minhas pérolas preferidas da Arca Mágica de Nola, rutila autêntica na voz de Worrell. Em "Sugar Coaded", um daqueles temas repassados por dezenas de bluesman, rememoro o falecido Lazy Lester (vi o gaitista tocando ao vivo essa música em 2014, leia AQUI). Caetano Santos dá lugar ao guitarrista santa-mariense Paulo Noronha (Kingsize Blues), um dos maiores batalhadores da cena local ligada ao blues.

Foto: Pablito Diego
"501 Boogie" é puro bate-bola entre Leães e Worrell, com o saxofonista Ronaldo Pereira abrindo sua caixa de ferramentas. Luciano Leães salta de sua cadeira e promove a lendária e já tradicional performance a quatro mãos, numa empolgante demostração do talento de ambos, colegas de profissão, irmãos de som e dupla imersa na mesma confluência musical. Certa vez, Tom Worrell disse a Patricia Byrd, filha de Longhair, que em alguns momentos, enquanto toca, ele sente a presença do músico no palco. Talvez essa sensação tenha retornado a bater na sua porta em "Tipinina" - "Tom não só domina a técnica do meu pai, ele é um pianista incrível, além de ser um dos músicos que imensamente se esforçam para manter esse legado vivo. Quando o assisto tocando, muitas vezes me vejo tomada de lágrimas, tanto que preciso me retirar em algumas apresentações. Eu vejo meu pai na maneira como ele toca", reforça Pat Byrd ao autor desse review.

Foto: Pablito Diego
A catarse se materializa concretamente em "Paint It Black", quando a versão instrumental de Worrell, simplesmente alitera, subverte e desconstrói a sólida imagem da composição original dos Rolling Stones. Há flertes com o lado psicodélico da força, as vezes batendo no bop, riscando de leve no free jazz, com o sax de Ronaldo Pereira protagonizando essa encarnação. A despedida vem com "Red Beans & Rice", fechando perfeitamente o ciclo de reverência a Longhair, e mais um extrato do talento de Tom Worrell como um dos Santos Protetores da música de New Orleans.     

Foto: Pablito Diego
"Temos um ditado local: 'pianistas raramente tocam juntos', no entanto,  se eu pudesse realizar um desejo em meu coração, gostaria muito de ver meu pai e Tom tocando juntos. Seria um dos maiores concertos que Nola já testemunhou", invoca Pat Byrd. Fica a certeza de que os bem-vindos fantasmas musicais do piano blues orleanense deram uma passeada pelo Memorabilia Blues no Plataforma 85. Assistir Tom Worrell + Luciano Leães & The Big Chiefs ao vivo não deixa de ser uma experiência de pós-vida nesse legado - “É uma tradição que eu estou honrado em fazer parte, embora eu não tenha realmente escolhido representá-la, foi a música de New Orleans que me escolheu”, confessa o norte-americano. Como nos disse Pat Byrd - "Thank you Tom for FESS -N- UP AND KEEPING FESS LIFE AND LEGACY ALIVE".

Foto: Pablito Diego
O Memorabilia Blues no Plataforma 85 é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio: Radiadores Schiavini, Uglione, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial: Santa Madre. Apoio: Cabeça Arte, Gasoline Barber e Diário de Santa Maria. Roadie: Matheus OG. Som: Bolzan Áudio. Luz: Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa: Alfredo Giardin e Taís Streit.  Comunicação e cobertura fotográfica: Há Cena Cultural. Realização: Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos, em parceria com o Clube do Blues.

Foto: Pablito Diego






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Setlist Tom Worrel + Luciano Leães & The Big Chiefs - SM, Memorabilia Blues

Hoochie Cochie Man 
Don't It 
Her Mind Is Gone 
She Walks Right In 
Big Chief 
Classified 
Such A Night
Sugar Coated 
501 Boogie
Tipitina 
Paint It Black 
Red Beans & Rice  


Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

quarta-feira, 22 de maio de 2019

SLASH + MYLES KENNEDY & THE CONSPIRATORS - PORTO ALEGRE, 21 DE MAIO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

É óbvio que grande parte das pessoas que vieram nesta terça-feira (21) até o Pepsi On Stage em Porto Alegre estão em busca de resquícios do Guns N' Roses. Em torno das 17h30, filas consideráveis se formam no entorno do evento, assim como as camisetas com 'Armas e Rosas' proliferam por todos os lados. Afinal, Slash, o inglês mais americano do rock, 53 anos bem vividos, e o grupo que o tornou uma lenda, fazem parte do universo do rock como uma de suas castas mais valorizadas.

E os números do Guns são superlativos. Após nova reunião da banda, o grupo esteve na estrada por dois anos, varrendo os quatro cantos do planeta na mega-bem-sucedida turnê "Not in This Lifetime". O tour passou por América do Norte, América do Sul, América Central, Ásia, Oceania e Europa, num toral de 156 concertos. De 1 de abril de 2016, no Troubador em West Hollywood, até 8 de Dezembro de 2018, no Aloha Stadium, em Honolulu, no Havaí. Porto Alegre recebeu a turnê "Not in This Lifetime" em 8 de novembro de 2016, com o Beira-Rio lotado (leia review AQUI).

Foto: Pablito Diego 
Estima-se que Slash já tenha colaborado com mais de cem artistas, isso além do que realizou com GnR, Slash's Snakepit, Velvet Revolver e com a atual banda. Não há dúvidas, estamos falando de um dos homens mais ocupados no ramo do rock and roll. E pra que se tenha uma ideia de como o guitarrista é um legítimo working man, entre brechas da digressão seu novo 'álbum solo' foi gravado, para logo depois se juntar a Myles Kennedy & The Conspiratours e dar início ao "Living The Dream Tour" em 11 de setembro de 2018, dois meses antes da  "Not in This Lifetime" chegar ao fim. Haja fôlego! E desde lá, foram quase 50 shows até o músico novamente tocar o solo gaúcho, dois anos e meio após a última estada por aqui.

Foto: Pablito Diego
No terreno pessoal, Slash também vive um momento de maturidade. Livre das drogas pesadas, uma de suas nefastas marcas pessoais no auge do GnR nos anos 1980/90, essa lucidez também pode ser refletida em vários âmbitos em sua vida pessoal/carreira: "Enquanto Axl se apegou em briguinhas e birras, Slash se dedicou a evoluir e evoluir muito", disse Marielle Flores, fã que estava entre os cerca de quatro mil presentes na noite gaúcha do "Living The Dream Tour".        

Essa evolução também pode ser vista a olhos vistos quando ele se une ao seu parceiro favorito no crime, Myles Kennedy (vocal), além da companhia de Frank Sidoris (guitarra base e vocais de apoio), e dois músicos canadenses - Todd Kerns (voz principal em duas músicas, baixo e vocais de apoio) e Brent Fitz (bateria). Juntos, já gravaram "Apocalyptic Love" (2012), "World on Fire" (2014) e "Living in the Dream" (2018), álbuns que formam a base do atual tour.

Foto: Pablito Diego
21h, Som no palco, luzes azuis sinalizam o início do espetáculo. Sem depender de telões, truques cenográficos ou adereços, a primeira bola de fogo advém do último álbum da banda, "The Call of the Wild". No palco, Slash, a lenda - o homem com uma Les Paul, o anel caveira e sua inseparável cartola. O guitarrista entrega ao público o retrato iconizado de sua persona artística - 'óculos Ray-Ban espelhado, o piercing no nariz, os cabelos escondendo traços de suas expressões' - o texto que escrevi em 2016 no show do GnR em PoA não precisa ser reescrito. Enquanto isso, Myles Kennedy ronda o palco e ocupa todos os espaços possíveis, apesar do foco principal obviamente estar sempre no guitarrista.

Foto: Pablito Diego
Uma baita sacada de Slash foi escolher Myles como o frontman de sua banda. O ex-professor de guitarra, é respeitado não apenas por sua invejável extensão vocal - "A abordagem de Jeff Buckley me ajudou a aceitar o fato de que eu era um tenor. Devo muito a ele", disse em entrevista recente. Essa veia fica exposta já em "Halo". da mesma maneira em que percebemos uma banda que vive o seu melhor momento. Não se pode negar, Myles Kennedy está no front da atual linhagem dos vocalistas de rock, e além de suas atribuições como cantor, estamos falando de um grande performer. Veja o desenho de sua atuação na falsa balada "Shadow Life" e entenda essa afirmação.

Foto: Pablito Diogo
A versão ao vivo de "Back From Cali" é o ponto do alto do início da apresentação, instante exato em que a audiência deixa o deslumbramento de lado e revela que também está pronta para cantar os refrões. Esse mesmo coro da plateia retorna afiado em canções como "Mind Your Manners" e "World On Fire". O som cru da guitarra de Slash brilha no início de "Serve You Right", assim como ganha toneladas de volume em "Boulevard of Broken Hearts". O solo de "Wicked Stone" é interminável, uma performance que alcança cerca de 10 minutos de execução, para alegria de qualquer amante da guitarra.

Foto: Pablito Diego 
Quando Todd Kerns incumbe-se dos vocais em "You're All Gonna Die" e "Doctor Alibi", uma energia contagiante toma conta do Pepsi. Como voz substituta de Iggy Pop e Lemmy Kilmister (intérpretes na gravação original de 2010), o baixista assume a liderança provisória das ações. O multi-instrumentista está acostumado a esse protagonismo, pois Todd já dividiu o tablado com nomes como Alice Cooper, Rick Nielsen, Duff McKagan, Sammy Hagar, entre outros, além de assumir a encarnação de Paul Stanley na banda tributo Black Diamond Kiss (veja AQUI). Ah, Brent Fitz toca bateria na mesma banda.

Foto: Pablito Diego
Myles retorna com o (quase) blues "The One You Loved Is Gone", mesmo instante em que Slash surge com sua guitarra de dois braços (double neck) a lá Jimmy Page, aumentando a temperatura ainda mais com canções como "Driving Rain" e "By The Snow". Esse é uma das constatações determinantes do atual tour - Slash não precisa mais recorrer aos temas do Guns e do Velvet Revolver para montar um setlist, ele já tem canções de sobra para constituir um repertório que represente seu legado solo fora desse círculo vicioso, saindo de uma zona de conforto que muitos permaneceriam o resto da vida - "Gosto do lugar onde o rock está atualmente, em que o pop contamina todos os gêneros com seu filtro. O rock é a ovelha negra, e quem está tocando rock atualmente o faz pela paixão. É a primeira vez em muito tempo que não há dinheiro, não há fama, só o amor pela música", disse ao jornalista Gustavo Foster (ZH).

Foto: Pablito Diego
Ok, esquecendo os idealismos, dá pra tocar apenas uma do GnR? Slash se aproxima do amp, aumenta o volume de seu instrumento, e a resposta vem com "Nightrain", rolo compressor/sonoro que Axl e sua trupe sempre utilizaram como um dos clímax das apresentações nas grandes arenas ao redor do mundo. Na sequência, para sepultar de vez essa lembrança (se é que isso é possível), "Starlight" é a prova viva de que Slash já é um hitmaker do rock, naquela que, convencionalmente falando, talvez seja sua melhor canção 'solo' até hoje. Ao vivo, quase 10 anos após a gravação original, o desempenho de Myles Kennedy soa ainda mais cristalino. Nada como o tempo para amadurecer algumas músicas...

Confira "Starlight" ao vivo, um dos retratos mais positivos do "Living The Dream Tour"



Detalhe: tanto a voz de Myles quanto a guitarra de Slash em alguns momentos carecem de definição/volume, importante componente, mas que não chega a prejudicar o resultado final daquilo que ouvimos. Positivamente, é preciso ainda destacar os ótimos vocais de apoio de Todd Kerns, um daqueles músicos que colocam uma energia fantástica naquilo que produzem no palco, e isso sempre faz a diferença.
   
Foto: Pablito Diego
Chegando ao final da noite, "World on Fire" é também utilizada para as apresentações da banda, com destaque para o solo de bateria de Brent Fitz (eu detesto esses solos!). Até nesses momentos performáticos, temos a revelação de um grupo maduro, pois, tudo certo quando em cerca de apenas um minuto podemos concluir que Fritz é um grande baterista. Depois de um breve intervalo, a banda retorna para o encore com "Anastasia", um riff, que segundo muitos, rivaliza com "Sweet Child O Mine". Exageros a parte, temos a mesa posta para um final digno, após 2h10 de espetáculo, eis o retrato de uma formação que está pronta para alçar voos maiores. Após o show em Lisboa, em 15 de março, o guitarrista Frank Sidoris publicou em suas redes: "70 dias, 35 shows, 22 países, (apenas) 13 dias de folga, 48 mil milhas viajadas". O tour sul-americano nem havia começado... 10 show depois dessa postagem, os números só continuam a aumentar. 

Nossos agradecimentos a Hits Produtora pelo suporte e credenciamento. Agradecimento especial Myllena Ribeiro (Hits).

Slash - Setlist Porto Alegre

The Call of the Wild
Halo
Standing in the Sun
Apocalyptic Love
Back From Cali
My Antidote
Serve You Right 
Boulevard of Broken Hearts
Shadow Life
We're All Gonna Die - Todd Kerns on lead vocals
Doctor Alibi - Todd Kerns on lead vocals)
The One You Loved Is Gone
Wicked Stone
Mind Your Manners
Driving Rain
By the Sword
Nightrain
Starlight
You're a Lie
World on Fire

Bis:

Anastasia

Foto: Pablito Diego 


Foto: Pablito Diego 



Foto: Pablito Diego 

Foto: Pablito Diego 

Foto: Pablito Diego 

sábado, 11 de maio de 2019

BLACKBERRY SMOKE, 10 DE MAIO DE 2019


Charlie Starr, líder do BBS. Foto: Pablito Diego
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Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Quando conheci o Blackberry Smoke, eu ainda chorava o fim precoce dos Black Crowes. Sim, eu sou uma das eternas ‘viúvas’ que continuam a lamentar a falta do Corvaiêdo da Georgia, que após uma longa novela, finalmente encerrou as atividades de forma definitiva em 2015. Alguns talvez não saibam, mas Chris Robinson é uma espécie de padrinho do BBS, pois foi ele quem batizou o quinteto. Além de conterrâneo, o atual Chris Robinson Brotherhood também é amigo de Charlie Starr, líder dos Fumacentos. E no meu ponto de vista, é exatamente nessa lacuna deixada pelo fim dos Crowes que surge o Blackberry Smoke, uma daquelas bandas que parecem deslocadas no tempo, com os pés fincados mais no passado do que no futuro do rock. Afinal, que droga de futuro é esse?

Foto: Pablito Diego
Assim, dentro de gigantesco espectro do rock mundial, dá pra dizer que o Blackberry Smoke é uma banda nova, mesmo que arraigada principalmente na geografia do rock dos anos 1970. Eles soam mais antigos do que são. Em 17 anos, lançaram seis álbuns, operam numa média de 1 disco full lenght a cada dois anos e meio. Não tão conhecidos do público brasileiro, tê-los por aqui, no Opinião, é chance imperdível de vê-los justamente num período em que o grupo parece estar prestes a decolar rumo ao cume. Isso fica muito claro ao assisti-los cara a cara. 

Richard Turner, BBS. Foto: Pablito Diego
O southern rock é a chave-mestra que abre a caixa sonora do BBS. Falando em paralelismos, dá-lhe ligações com o que já ouvimos do Lynyrd Skynyrd, The Marshall Tucker Band, The Almann Brothers Band, o já citado Black Crowes, entre outros. Não que haja chupadas ou conexões diretas com bandas/artistas e a herança sulista do rock (e isso até acontece), porém, o mais importante - eles já encontraram caminho próprio, fora da trilha embarrada de seus heróis. Entretanto, essa lama continua sendo repassada através da trajetória do grupo. E não há nada errado nessa intenção, pelo contrário, que outra banda poderia representar esse emblema com tamanha identidade?    

Britt Turner, BBS. Foto: Pablito Diego
Já o Find A Light Tour retorna à ativa especialmente para os shows no Brasil. Retorna porque o BBS estava correndo os EUA com a turnê "Break It Down Acoustic Tour", totalmente na vibe do EP "The Southern Ground Sessions" (2018). Desse modo, eles novamente plugam seus instrumentos na eletricidade - "As performances acústicas são legais pelos espaços vazios, musicalmente. Elétrico é bacana pelo volume e poder", disse Charlie Starr a Homero Pivotto Jr da Abstratti (leia entrevista AQUI). Um detalhe a mais: os shows que antecedem a chegada do grupo ao país - Bogotá (5) e Lima (7) fazem a abertura do "Living Dream Tour", nova vinda ao continente de Slash + Myles Kennedy & The Conspirations. Sorte nossa que os shows do Blackberry por aqui estão descolados dessa associação, assim, ao invés de assistirmos um set mirrado, com cerca de sete ou oito músicas, em Porto Alegre, por exemplo, temos show completo, assim como foi um dia antes (9) em Curitiba!

Foto: Pablito Diego



19h55, no palco, além de Charlie Starr (vocais e guitarra), cá estão - Paul Jackson (guitarra e voz de apoio), Brandon Still (teclados), (baixo e voz de apoio) e Brit Turner (bateria), juntos a quase 20 anos, com exceção de Still, na banda desde 2009. O setlist é formado perincipalmente por temas dos álbuns "The Whippoorwill" (2012), "Like An Arrow" (2016) e o recentemente lançado "Find A Light" (2018), fontes sonoras que adicionam o combustível mais inflamável do que veremos.


Paul Jackson, BBS. Foto: Pablito Diego
A poucos metros do palco, a impressão de vê-los ao vivo parece promover um instantâneo déjà-vu em nossos olhos/ouvidos, resquícios estético/sonoros que inevitavelmente nos jogam rumo ao delicioso caleidoscópio musical dos anos 1970. Sabe aquela recorrente lembrança de que você já teve diversas relações paralelas com algumas das canções? Essa sensação aumenta quando recortes de clássicos como "Things Goin' On" (Lynyrd Skynyrd), "It's Only Rock N' Roll" (Rolling Stones) e "Come Together" (The Beatles) surgem como enxertos amarrados aos temas do grupo, e claro, sempre daquele jeito descolado, sem forçar a barra. E o Blackberry Smoke nunca força a barra. 

Brandon Still, BBS. Foto: Pablito Diego
Charlie Starr é o centro das atenções - óculos escuros, cachecol enrolado no pescoço, jaqueta jeans estonada perfeitamente ajustada ao corpo esguio - um clichê ambulante do rock. Além de ser líder e principal compositor do quinteto, Starr é também o dono da bola nos riffs, solos e na movimentação de palco. E que guitarrista! Perfeccionista, troca de instrumento entre uma música e outra, da mesma forma que alterna timbres e texturas, além de ser o senhor de uma das vozes mais respeitadas do rock atual. Toda a banda precisa de um líder, um feiticeiro, alguém que seja o centro das atenções, que atue como interlocutor com o público, que saiba conduzir uma apresentação, nos prepare para o clímax, e, consequentemente nos contamine com toda a energia do espetáculo. No caso do BBS, esse xamã é Charlie Starr.

Veja um trecho de "Sleeping Dogs". Registro: Camila Gonçalves. Saiba a história por trás de canção AQUI



Na outra guitarra, o sorridente Paul Jackson, maquinador de bases aparentemente invisíveis, porém responsável por backing vocals certeiros, apoio que sempre surge encaixadíssimo nos refrões. Já os barbudos Richard Turner (baixo) e Brit Turner (bateria), formam não só uma cozinha digna das grandes duplas do gênero - eles também encarnam a estampa clássica do imaginário southern. E nunca deixe de prestar atenção em Brandon Still, dividindo sua atuação entre um teclado Wurlitzer, Yamaha e um órgão Hammond A-101. Responsável por diversas harmonizações e panos de fundo, Still ainda provoca interessantes aberturas em solos e recortes de canções.

Foto: Pablito Diego
No setlist, destaque para aquelas músicas que já estão na boca do povo, temas como "Six Ways To Sundays", "Run Away From It All", "Restless" e "One Horse Town", instantâneos em que o público gaúcho com orgulho dá claras demonstrações de como os hits do Blackberry Smoke já estão na ponta da língua. "Waiting on a Thunder" é puro hard rock na sua forma mais faiscante, perfeita para incendiar a massa. Outro ponto alto da noite passa pelo pop/rock "Rock and Roll Again", homenagem explícita a banda coirmã Georgia Satelittes. A audiência também deu o seu show particular. 

Veja um trecho de "Run Away From It All". Registro: Camila Gonçalves.




"Medicate My Mind" e a interminável "Sleeping Dogs" possuem aquela vibe vianjandôna que os fãs da psicodelia se deliciam sem moderação; assim como "Free on The Wing", bela homenagem a Gregg Allman, lega um tributo legítimo a um dos maiores ídolos do gênero. Já "I'll Keep Rambling", pérola do álbum "Find a Light", incorpora o melhor do BBS - riffs dobrados de guitarra, aditivos apimentados de blues, country, rock e gospel, encontro musical capaz de transportar o espectador para um universo paralelo, um lugar aonde a verdadeira música sempre irá triunfar.

Foto: Pablito Diego
No bis, "Flesh and Bone" parece nos reenergizar com sua potência sonora chumbada pelo blues/rock. A pergunta é: será que precisava tocar uma versão de "Three Little Birds" (Bob Marley) Em Curitiba a releitura no bis foi "You Can't Always Get What You Want" (Rolling Stones). Okay, tudo certo! Não há regras no mundo da arte, assim nasce o southern reggae. O golpe final arrendonda as coisas com "Ain't Much Left of Me", grand finale que nos deixa saudosos bem antes que o último acorde decrete o fim do show. Luzes que se acendem, em poucos segundos o quinteto se despede, sem fotos posadas para as redes sociais ou uma histórica ovação pré-programada e previsível. Afinal, o próximo voo até o centro do pais os espera, última data do minitour, com show na capital paulista neste sábado (11).   

Eu não tive o prazer de assistir ao vivo Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, The Marshall Tucker Band e várias outras bandas/artistas representativos do rock sulista estadunidense, mas posso afirmar, a experiência de ter presenciado ao vivo o Blackberry Smoke parece me aproximar de todo esse legado. Que o quinteto de Atlanta voe ainda mais alto. Eles estão preparados para chegar ao topo. Nos reencontraremos em breve, no futuro...

Nossos agradecimentos a Abstratti Produtora pelo suporte e credenciamento. Agradecimento especial Homero Pivotto Jr (Abstratti).     
  
BS – Setlist PoA

Fire in The Hole 
Six Ways To Sunday
Good One Comin'
Working for a Working Man
Waiting on a Thunder
Crimson Moon
Rock and Roll Again/ It's Only Rock N' Roll (But A Like It)
Medicate My Mind
Sleeping Dogs/ Come Together 
Run Away From It All
Ain't Got The Blues
Things Going On/ Restless
Free On The Wing
Everybody Knows She's Mine
One Horse Town
I'll Keep Rambling

Bis:

Flesh and Bone
Three Little Birds/ Ain't Much Left of Me


Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego 

ÚLTIMA COBERTURA:

TOM WORRELL - SANTA MARIA, 25 DE MAIO DE 2019

Foto: Pablito Diego  Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego ( Há Cena ) O Memorabilia Blues no Plataforma 85 (Gare da Estação F...