domingo, 27 de outubro de 2019

ZAKK WYLDE - PORTO ALEGRE, 26 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Por Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Zakk Wylde é um dos heróis modernos da guitarra. Estamos falando de um artista extremamente ligado ao seu instrumento de ofício. Eles são indivisíveis. Afinal, por puro merecimento, associações como essa o tornaram guitarrista de Ozzy Osbourne, um operário a serviço da lenda do rock mundial, batendo cartão em cinco álbuns de estúdio, discografia construída em duas décadas como sideman do Príncipe das Trevas. Nem seria necessário mencionar que se trata de um posto desejado por muitos músicos. E não é só isso - como líder de sua banda, o Black Label Society, deixou sua marca em treze álbuns, além de dois discos solo. E ainda precisamos mencionar o Pride & Glory, grupo formado na década de 1990.  

Pablito Diego
Entre suas facetas e escolhas, o show que novamente o traz a Porto Alegre evidencia uma aproximação com o southern rock e o lado clássico do hard rock feito nos anos 1970. E já que estamos falando do headliner no evento Samsung Best of Blues, a insígnia do blues também carimba breves instantes da apresentação do músico norte-americano no Anfiteatro Pôr do Sol. Será mesmo?

Foto: Pablito Diego 
Na trilha incidental que nos prepara para receber os músicos, as preliminares começam com um mashup de "War Pigs" (Black Sabbath) e "Whole Lotta Love" (Led Zeppelin), perfeita preliminar que antecipa a presença da estrela principal da noite, vestido com uma saia escocesa zebrada (combinando com sua Flying Z). No palco,  além de Zakk, Dario Lorina (guitarra), John DeServio (baixo) e Jeff Fabb (bateria), atual formação do Black Label Society. Há sete meses distante dos palcos, o show especialmente preparado para o Brasil aponta para grandes espaços instrumentais. O potente riff do baixo de DeServio (com cordas verdes e amarelas) anuncia a versão do quarteto para "Whipping Post" (The Allman Brothers Band), e apenas 35 minutos depois teremos uma pausa. O longo medley ainda repassa "The Ocean" (Led Zeppelin), "Machine Gun Man" (Pride & Glory) e "Crossroads" (Robert Johnson), para ao final retornar até o início com o tema do Allman.

Foto: Pablito Diego
A releitura de "Still Got the Blues" (Gary Moore) amplifica a empolgação de parte do público, deflagrando intermináveis solos do guitarrista que o distanciam da linguagem usual do blues, e até mesmo do blues rock, batendo na porta do metal. Essa subversão continua em mais um medley deflagrado por "Red House" (Jimi Hendrix), além de uma nova série de enxertos e pequenos trechos de músicas coladas umas as outras, entre elas temas como "Bridge of Sighs" (Robin Trower) e "All Along the Watchtower" (Bob Dylan). No final, a famosa sirene de alerta de um provável ataque aéreo soa como um chamado para nos convocar ao epílogo da noite, prólogo de um novo mashup engendrado por canções do Black Sabbath e  Led Zeppelin (War Pigs e Dazed and Confused). É claro, a massa entra em estado de total ebulição.

Foto: Pablito Diego
Alguém pode perguntar, mas afinal, aonde está o blues? Ora bolas, o blues é apenas uma desculpa para reunir os fãs de Zakk Wylde e Black Label Society, centenas deles tomaram posse das posições mais próximas a grade que separa o público do palco (a estimativa é de que cerca de 40 mil pessoas estiveram no evento). Se o blues ganhar sobrevida através de estradas viscinais como as de Zakk Wylde, é preciso dar crédito ao guitarrista. Afinal, ainda temos os velhos discos para celebrar o autêntico blues que um dia, inclusive, deflagrou um dos maiores movimentos musicais do nosso tempo - esse tal de rock and roll.     

Em evento patrocinado pela Samsung, numa parceria com o Ministério da Cidadania, a realização do Samsung Best of Blues é da Dançar Marketing. Agradecimento especial para Jéssica Barcellos Comunicação - suporte e credenciamento.  

Setlist Zakk Wylde - Samsung Best of Blues

- Intro 
War Pigs/Whole Lotta Love

- Medley: 
Whipping Post
Machine Gun Man
The Ocean
Crossroads

- Still Got the Blues

- Medley:
Redhouse
Bridge of Sighs
All Along the Watchtower

- Medley:,
War Pigs
Dazed and Confused  

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

KENNY WAYNE SHEPHERD - PORTO ALEGRE, 26 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Ainda hoje, quando lembro de Kenny Wayne Shepherd, volto a 1995, ano em que os amantes do blues ganharam um motivo a mais para acreditar na sobrevida do gênero. Com apenas 18 anos, O jovem músico de Shreveport, Louisiana, lançou "Ledbetter Heights", um trabalho extremamente acima da média para um garoto (supostamente) iniciante. O álbum vendeu mais de 500 mil cópias, marca que iria atingir outras duas vezes em sua carreira, número ainda expressivo para um gênero fora do eixo central da grande mídia. Em entrevista exclusiva ao Memorabilia, Shepherd disse acreditar que sua trajetória continua a inspirar jovens músicos a prosseguirem olhando para o blues como caminho a ser seguido: - "Existem artistas talentosos surgindo todos os dias, e fico feliz em perceber que ainda teremos uma nova geração com aspirações de seguir a tradição do blues".  Leia entrevista completa.

Foto: Pablito Diego
Passados 24 anos, Kenny Wayne Shepherd, 42, colocou mais onze álbuns no mundo, o último deles, o elogiado "The Traveler", saiu no último mês de maio, progredindo ao topo da parada blues norte-americana. Em seguida, iniciou tour em parceria com Buddy Guy, com apresentações agendadas até o final de 2019. Casado há 13 anos com Hannah, 38, filha mais velha do ator/diretor Mel Gibson, pai de cinco filhos, o músico também integra o The Rides, grupo que formou ao lado de Stephen Stills e Barry Goldberg, ao qual já lançou dois álbuns. Incentivado por Stills, começou a soltar a voz em algumas canções, com isso, do novo álbum - "Gravity", "Take It  Home" e "Better With Time" mostram que o vocal de Kenny tem calibre para figurar na linha de frente de suas composições: - "Stephen definitivamente me incentivou a encarar o protagonismo como cantor", admite ao Memorabilia

Foto: Pablito Diego
Como primeira atração internacional do Samsung Best of Blues, em evento gratuito que levou cerca de 40 mil pessoas até o Anfiteatro Pôr do Sol, num dos espaços mais interessantes da capital gaúcha para apresentações ao ar livre, Shepherd sobe ao palco pontualmente às 20h. Ao seu lado, Noah Hunt (voz e guitarra), Scott Nelson (baixo), Joe Krown (teclados) e Sam “The Freight Train” Bryant (bateria), além do naipe de metais formado por Joe Sublett (sax) e Mark Pender (trompete).

Foto: Pablito Diego


Tudo começa com "Trouble Is...", perfeito apresentar armas que aponta sua bússula para o norte do rock'n'blues. Na mesma direção, logo após ouvimos o libelo feminista "A Woman Like You", faixa que abre o álbum mais recente do guitarrista. Em sua primeira vinda ao Brasil, Kenny prepara um set diferente da atual turnê ainda em curso pelos Estados Unidos. E se existe um tema preparado para nos impressionar, número propício para certificar a linhagem musical desenvolvida no palco, esse som é "Shame, Shame, Shame" (não confundir com a faixa homônima de Jimmy Reed). - "Sem Stevie Ray Vaughan não haveria Kenny Wayne Shepherd", disse o guitarrista em entrevista ao portal Terra. Na versão apresentada em Porto Alegre, além de comprovar meritocracia nessa ligação e herança musical, o público delira com o desfile de solistas, alternâncias e dinâmicas, num autêntico workshop de como se faz blues. Os solos de sax de Joe Sublett (Rolling Stones, Stevie Ray Vaughan, Eric Clapton), o trompete com surdina de Mark Pender (Bruce Springsteen, Joe Cocker, Robert Cray), além da constante intervenção do Hammond B3 de Joe Krown (Clarence "Gatemouth" Brown), dão o tom de que Shepherd não poupou esforços para trazer o melhor de si até o Samsung Best of Blues.

Foto: Pablito Diego
Em "I Want You" podemos nos certificar o quanto o guitarrista também é um ótimo vocalista, além de perceber o legado de Buddy Guy sendo pareado com propriedade nos arranjos. A faixa de seu mais recente álbum é um dos momentos mais fortes do show. Com uma camiseta do Misfits, o baixista Scott Nelson assesta seu baixo mais abaixo do que o usual, numa posição semelhante aos instrumetistas de punk, economizando sorrisos, mas vendendo uma entrega particular a cada tema. A longa introdução de "While We Cry" crava na memória a imagem do guitar hero do blues, nova passagem instrumental impressionante. Dá para perceber que o vocalista Noah Hunt fica numa posição de coadjuvante, muitas vezes de olhos fechados, escolhendo com cuidado cada sequência de acordes de sua guitarra base. Entretanto, na balada "Blue on Block", Noah assume o protagonismo para nos mostrar a força de sua garganta, numa canção que nos leva ao universo do southern rock.

Foto: Pablito Diego
Tratando-se de blues rock, nada como terminar um show com "Voodoo Chile/Voodoo Child - Voodoo Slight Return" (Jimi Hendrix), com Kenny explorando todas as possíveis vicissitudes do blues, ora se aproximando da energia do rock, outras vezes baixando a dinâmica, levando a banda em várias direções, com o baterista Sam Bryant atento a cada nova ondulação.

Foto: Pablito Diego
Em 1h10 minutos Kenny Wayne Shepherd comprova porque é considerado um dos nomes mais importantes do blues rock mundial. Residente nos grandes festivais do gênero na Europa e Estados Unidos, aguardemos que através desse pontapé inicial o Brasil passe a fazer parte de seu usual roteiro de apresentações. 

Foto: Pablito Diego
Em evento patrocinado pela Samsung, numa parceria com o Ministério da Cidadania, a realização do Samsung Best of Blues é da Dançar Marketing. Agradecimento especial para Jéssica Barcellos Comunicação - suporte e credenciamento. 

Setlist KWS - Samsung Best of Blues

Trouble Is...
Woman Like You 
Shame, Shame, Shame
I Want You 
While We Cry
Blue on Black (Trouble Is)
Voodoo Chile
Voodoo Child (Slight Return)


Foto: Pablito Diego


Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego 

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

IRON MAIDEN - PORTO ALEGRE, 9 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Ton Müller
Review Márcio Grings Fotos Ton Müller

Poucos dias antes do Iron Maiden pisar no palco da Arena do Grêmio (Porto Alegre), e apenas algumas horas após a apresentação do grupo inglês no estádio do Morumbi (São Paulo), li uma interessante matéria do amigo Ricardo Seelig. O texto não apenas fala da nova passagem do sexteto inglês pelo Brasil, jogando luz na apresentação no Rock in Rio, na verdade, a matéria também propõe uma reflexão. O comandante do Collectors Room levanta a lebre sobre a ação do tempo na atividade dos músicos ligados ao rock'n'roll - "Ao contrário de outros gêneros musicais como o blues e o jazz, onde o ato de envelhecer parece enobrecer o artista, no rock a passagem do tempo não é muito bem vista por uma parcela do público e, principalmente, por grande parte da crítica. Ainda se associa o transcorrer dos anos com a decadência (...), o que é uma tremenda bobagem". Em contraponto, acredito que nem sempre estejamos falando bobagem nessa constatação/associação, pois há diversos exemplos de deterioração causados pelo confronto entre passagem do tempo e performance artística. Prova disso é que facilmente podemos encontrar artistas veteranos soando como arremedo de si próprios. Principalmente se tomarmos por base nomes ligados às cenas advindas dos anos 1960/70/80 - é inegável, estamos vivendo o fim de uma era. 

Foto: Ton Müller
Numa outra via, lembro de frase pinçada de uma entrevista cedida por Mick Jagger no início dos anos 1980 - "Não pretendo chegar aos 40 anos cantando Satisfaction", afirmou o líder dos Stones. E disse mais, e aqui faço um link direto com o texto de Seelig - "Gostaria de envelhecer com a dignidade dos músicos de jazz". Hoje sabemos, aos 76, Mick errou feio, pois continua cantando "Satisfaction". Contudo, seu segundo desejo foi atendido, visto que ele realmente conseguiu envelhecer com a dignidade de muitos músicos de jazz, porque certamente estamos falando de um dos mais respeitáveis cantores do rock ainda em atividade.

Foto: Ton Müller
Começo misturando alho com bugalhos para engatar nesse 9 de outubro de 2019, agradável quarta-feira de primavera que demarca a terceira passagem do grupo britânico Iron Maiden pelo RS. E assim como Jagger, o vocalista do Maiden é outro fenômeno a ser referenciado. Mesmo 15 anos mais jovem, aos 61 anos, Bruce Dickinson ainda é um dos maiores prodígios vocais do heavy metal. À frente do grupo, em mais de 40 anos de estrada, o sexteto se completa com seu criador e mentor intelectual, Steve Harris (baixo), mais Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra) e Nicko McBrain (bateria). 

Foto: Ton Müller
Cerca de 40 mil pessoas foram até a Arena do Grêmio em Porto Alegre, um exército de camisetas com a logotipia clássica da banda, e certamente ninguém estava lá para ver o show de abertura. O quinteto inglês The Raven Age conta com o guitarrista George Harris, filho do baixista do Iron - “Meu pai sempre quer ouvir nossas músicas e dá sua opinião. Na verdade, ele é bastante rígido e diz o que precisamos mudar ou o que já está bom", revelou George ao site Uol. Ainda no grupo - Tony Maue (guitarra), Matt Cox (baixo), Jai Patel (bateria) e Matt James (vocal). Eles acabam de lançar “Conspiracy”, álbum que rapidamente deve cair no esquecimento. Já a atração principal teve mais sorte (ou talento), pois mora no inconsciente coletivo do rock.   

Foto: Ton Müller
Às 21h, ao som de “Tranylvania”, numa explosão de imagens no telão, com cenas de Legacy of the Beast, game que inspirou o atual setlist, o público começa a se alvoroçar. Logo depois o sistema de som detona “Doctor Doctor”, hino do UFO que se tornou também um perfeito hinário para acelerar os batimentos cardíacos dos fãs de Iron Maiden, visto que é a canção escolhida para as preliminares finais antes dos músicos pisarem no palco. A festa está decretada...  

Foto: Ton Müller
O setlist de Porto Alegre é o mesmo que foi tocado no Rock in Rio e São Paulo, num show cronometrado e planejado para beirar a perfeição. Pense numa abertura espetacular, tipicamente inglesa, um brado que evoca o legado dos Baby Boomers (como são chamados os nascidos logo após o final da Segunda Guerra Mundial). No telão, cenas em P&B da Segunda Guerra e o trecho de um lendário discurso do primeiro-ministro britânico Winston Churchill. "Aces High" é o maior dos chutes na porta que o Iron Maiden poderia escolher para abrir suas apresentações. Uma réplica de um avião Supermarine Spitfire sobrevoa a banda, impressionante imagem que amplifica o impacto sonoro de um tema que remete aos idos da clássica World Slavery Tour (1984/85). Não é uma música fácil de ser cantada antes das cordais vocais de qualquer vocalista estarem completamente aquecidas. Não se trata de uma simples performance, é um teste de fogo para Bruce! 

Foto: Ton Müller
As guitarras continuam emparedadas em “Where Eagles Dare", outra música incomum nos sets deste século, mais do que bem-vinda nesse tour. “To Minutes do Midnight” é a primeira a ganhar um coro monstruoso do público, isso após Bruce Dickinson bater o primeiro papo com a audiência, para logo depois bradar antes do refrão: “Scream to me Porto Alegre”. E o exército dos 40 mil gritou muito alto. "The Clansman” traz Bruce cantando uma música da época que esteve fora do grupo (1994/99), tema que conhecemos de “Virtual XI” (1998), com Blaze Bayley a frente dos mics (talvez a melhor faixa de Blaze do Iron). No palco, Bruce traz a tona outra de suas paixões, a esgrima. Mesmo que o florete seja trocado por uma réplica de espada medieval, o vocalista elegantemente coreografa e se movimenta de um lado para o outro do palco desenhando rabiscos no ar com seu alegórico sabre.  

Foto: Ton Müller
Sempre encontrei em “The Trooper” um dos maiores símbolos do conteúdo intelectual implícito nas letras do Iron Maiden. Nesse quesito, o grupo também foi um dos pioneiros, saindo de uma temática engessada, muitas vezes sem conteúdo relevante, para sobreviver ao teste do tempo. Com músicas como essa o Maiden simplesmente colocou o heavy metal em outro patamar. A temática é baseada num evento histórico da cavalaria britânica do século 19, durante a Guerra da Crimeia. O bardo inglês Alfred Tennyson escreveu um célebre texto sobre o evento, "The Charge of The Light Brigade", relato poético que impulsionou Steve Harris, o Tolstói do metal, a compor “The Trooper”. O resultado dessa inspiração até hoje nos mantém boquiabertos, pois estamos falando de um autêntico apresentar-armas para o quilate da banda que está no palco – trata-se de uma espécie de tema-síntese do som do Iron Maiden. 

Foto: Ton Müller
Uma curiosidade: antes do show conheço Bento Dickel, um garoto de apenas 9 anos que nessa terça-feira teve sua estreia em shows internacionais. Quando pergunto ao jovem fã qual sua canção preferida, ele não reluta: “The Tropper”. Vários pais levaram seus filhos até a Arena, muitas crianças e adolescentes. No entanto, a faixa etária predominante do público certamente pode ser cravada na faixa dos 30/40. E para alegria de Bento, durante sua canção favorita, tivemos ainda a primeira e única aparição do morto-vivo mais famoso do rock, Eddie the Head.  

Foto: Ton Müller
Em “Revelations”, o palco muda, vitral azul ao fundo, candelabros laranjas despencam do alto do teto. Eis mais uma peça de “Piece of Mind” (1983), o álbum que contribui com a maior parte das canções (4), seguido de (3) “The Number of the Beast” (1982) e (2) “Powerslave” (1984), ou seja, mais da metade do set comtempla a época de ouro do grupo. Um amigo jornalista me diz que essa escolha dos temas também leva em conta os views do grupo em seu canal oficial no YouTube.

Foto: Ton Müller
Tratando-se de uma fã de Iron Maiden que abandonou a banda no contestado “Somewhere in Time” (1986), um LP que particularmente está entre meus preferidos do grupo, músicas como “For the Greater Good of God” (2005), “The Wicker Man” (2000) e “Sign of the Cross” (1995), mais uma da breve era Blaze Bayley, simplesmente não conseguem capturar minha atenção - “Eu tenho o maior respeito por Blaze, pois ele entrou na banda em um momento muito difícil (…) Ele é uma ótima pessoa”, revelou Dickinson ao programa de rádio inglês Do You Know Jack? Eu sei, possivelmente seja execrado por essa declaração, é inegável que há valores nesses temas, principalmente em "Sign of the Cross", uma espécie de "Kashmir" do Iron Maiden, música que Bruce tomou para si. Porém, essa mesma trinca ainda reforça uma teoria própria de que a ideia de som do Iron já está esgotada, e que no final das contas, salvo exceções, assim como acontece com os Stones (novamente uma comparação entre bandas incomparáveis), afora algum novo tema interessante aqui e acolá, o que grande parte do público realmente quer ouvir são os clássicos dos anos 1980/90. O próprio desenho do setlist reforça esse sentimento. No entanto, esse refresco na emoção também é o instante que ganho tempo para perceber o vigor e o talento do incansável Nicko McBrain, um rolo compressor que bate da peles com a precisão de um cirurgião.      

Foto: Ton Müller
Por mais que eu também ache um exagero pirotécnico Bruce Dickinson ostentar um lança-chamas em “Flight of the Icarus”, retornamos finalmente ao eixo central da obra maideniana, na companhia de um gigantesco Ícaro gigante no fundo do palco. "Fear of the Dark” é potencializada pela comoção geral da Arena, e é impressionante perceber - no olho do furacão - a força que canções como essa transformam os fãs numa estrondosa e uníssiona massa sonora - "O público aqui [América do Sul], mas especialmente o Brasil, é incrível, são os melhores do mundo. Eu evito dizer isso, porque acho que as pessoas vão ficar com ciúmes, mas é verdade", disse Dickinson em entrevista a RBS TV.

Foto: Ton Müller
E o que dizer de “The Number of the Beast”? A lembrança de um Eddie titereiro maquinando os movimentos de uma figura satânica acorda o menino em mim, um garoto assombrado pela imagem de uma das capas mais significativas do rock. Em "Iron Maiden", música que dá nome a banda, extraída dos primórdios da década de 1980, o guitarrista Jenick Gers faz seu tradicional malabarismo com a guitarra, algo que me soa extremamente desnecessário. A imagem de Janick pipocando de um lado ao outro do palco é a presença mais irritante da noite. Enquanto isso, Dave e Adrian fazem o trabalho sujo...

Foto: Ton Müller
Após um breve intervalo, o quinteto retorna ao palco com “The Evil That Man Do”, e com uma dobradinha do álbum “The Number of The Beast” - “Hallowed Be Thy Name” e “Run to the Hills”. Para nós que não os tínhamos no RS há 11 anos, ver um show do Iron Maiden condensado em apenas 2h, ao vivo, é chance única de sentir de perto a dimensão de como o heavy metal ainda pode ser relevante, grandioso e apoteótico. E o pior, todos sabemos, não existem peças de reposição no tabuleiro da música mundial para preencher a horrorosa lacuna que ficará escancarada quando Bruce, Steve,  Dave, Adrian, *Janick e Nicko não mais caminharem juntos como uma banda(o) pela terra. Na verdade, tivemos a sorte de novamente revê-los por aqui numa grande performance - "O melhor momento do grupo ao vivo depois do retorno de Bruce Dickinson", sugere o maior dos fãs que conheço, o amigo Roberto Lenz (Sesc). Sim, aos 44 anos, o Iron Maiden envelheceu sem perder o viço.

Detalhe negativo: muitas pessoas mais afastadas do palco reclamram da qualidade do som que chegava até elas, espectro sonoro que parece ter oscilado bastante ao longo das duas horas de apresentação. 

Confira a galeria de fotos do fotógrafo Ton Müller    

Ao final do show, me dou por conta de que estou assistindo Iron Maiden pela primeira vez no mesmo ano em que também vi Saxon (leia review AQUI), dois importantes nomes do New Wave of British Heavy Metal, movimento musical inglês que se espalhou pela Europa e pelo mundo propagando o metal inclusive aqui no Brasil. Tive sorte de viver esse tempo. I feel blessed...  

Foto: Ton Müller
O show do Iron Maiden em Porto Alegre marcou a despedida do minitour “The Legacy of the Beast” pelo Brasil. O Maiden segue sua jornada com apresentação no próximo sábado (12) no Estádio do Velez, em Buenos Aires, para logo depois encerrar sua nova passagem pelo continente sul-americano com dois shows no Moviestar Arena, em Santiago, no Chile (14 e 15). Já estamos com saudades...    

Setlist Iron Maiden PoA

Aces High
Where Eagles Dare
2 Minutes to Midnight
The Clansman
The Trooper
Revelations
For the Greater Good of God
The Wicker Man
Sign of the Cross
Flight of Icarus
Fear of the Dark
The Number of the Beast
Iron Maiden

Encore:

The Evil That Men Do
Hallowed Be Thy Name
Run to the Hills  

Foto: Ton Müller

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

SCORPIONS - PORTO ALEGRE, 1° DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Ton Muller
Review Márcio Grings Fotos Ton Müller (exceto indicadas)

Novamente evoco a Máquina do Tempo... o escorpião germânico inicialmente se apossou do coração de um menino de 14/15 anos, um moleque que ainda dava seus primeiros passos no rock, sonhando acordado com meia dúzia de discos manjados girando num toca-discos novinho em folha. No caso, voltamos ao início dos anos 1980, quando o Scorpions, inclusive, engatou um faixa na trilha sonora de uma novela da Globo. Ou seja - até mesmo por aqui, eles estavam na boca do povo! Quem no planeta terra não ouviu em algum momento de sua vida a balada/heavy "Still Loving You", música que tomou de assalto as rádios no biênio 1984/85? Possivelmente a garotada de hoje não entenda o furacão provocado por essa música.

Foto: Ton Muller
Falando em furacão, e o que dizer de uma época em que "Rock You Like A Hurricane" era arroz de festa nas FMs do Brasil? Outros tempos. E a primeira passagem do grupo pelo país veio na esteira do lançamento do álbum "Love at First Sting" (1984), um dos maiores sucessos comerciais da banda, com milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. Com essa credenciais, no 1° Rock in Rio, o Scorpions merecidamente estrelou duas noites no evento, apresentações que ajudaram a sedimentar uma legião de fãs por aqui. 

Matthias Jabbs. Foto: Ton Muller
Meu primeiro LP do Scorpions foi "In Trance" (1975), discaço da época em que o guitarrista Uli Jon Roth ainda era endeuzado como uma espécie de Hendrix alemão. Na capa do vinil, a imagem de uma jovem loira, manuseando com aparente delicadeza uma Fender Stratocaster. A rapaziada mais esperta da época levantou a lebre de que na verdade a garota estaria tendo um affair com o mágico instrumento. Grande parte das capas do Scorpions sempre tiveram certa conotação sexual, é uma das marcas do grupo. 

Foto: Camila Gonçalves
Se os Scorpions já ocupou um lugar no coração de um menino, hoje esse garoto se tornou um veterano que bate da casa dos 50. Contudo, a lembrança daqueles dias ainda paira sobre esse primeiro encontro ao vivo com os alemães. 21h50, depois de Helloween e Whitesnake, segue a maratona do Rock ao Vivo, evento que leva 8 mil pessoas até o Gigantinho. Na abertura, ao cair da cortina azul com a imagem símbolo da "Crazy World Tour", já em "Goin Out With a Bang", fica fácil perceber que o Scopions retorna ao Brasil vestido de gala para essa festa, com show completo em termos de aparatos tecnológicos e um impressionante telão com imagens adicionais preparadas especialmente para a turnê. A formação atual conta com dois remanescentes da linhagem original - Rudolf Schenker (guitarra) e Klaus Meine (vocal). Há quatro décadas Matthias Jabs (guitarra) se tornou um dos responsáveis pelo som do Scorpions. Completam o bando, o músico polonês Pawel Maciwoda (baixo) e Mikkey Dee (bateria).

Foto: Ton Muller
Um pouco adiante, em "The Zoo", entra em jogo o talk box de Mathias Jabs. O aparelho produz uma amplificação que direciona o som da guitarra através de um tubo, posicionado ao lado do microfone, de maneira que ele fique próximo ou na boca do músico. O talk box já foi utilizado em célebres canções do rock - "Show me the Way" (Peter Frampton), "Sweet Emotion" (Aerosmith), "Hair of the Dog (Nazareth), "Living on a Prayer" (Bon Jovi), "Man in the Box (Alice in Chains), entre outras. Coloque "The Zoo" nesse hall das talk box songs. É um dos grande temas do Scorpions, indispensável no set de suas apresentações.

Rudolph Schenker. Foto: Ton Muller
Na instrumental "Coast to Coast", a força das guitarras novamente é destaque, tema instrumental que ganha ainda o elemento figurativo do vocalista Klaus Meine empunhando uma Fender. O medley formado por "Top of the Bill/Speedy's Coming/Steamrock Fever/Catch Your Train" nos leva de volta ao Scorpions pré-mainstream, uma lembrança de "Tokyo Tapes" (1979), o grande álbum ao vivo do grupo nos anos 1970. Basta o riff de "Top of the Bill", um dos grandes hits de "In Trance", para cravar essa sensação saudosista. É indiscutivelmente um dos grandes momentos do show para os verdadeiros fãs do Scorpions. O público, que parece mais frio durante a primeira metade de apresentação, desperta interativo em "We Bulty This House", um dos temas de "Return to Forever", último álbum do grupo, de 2015, e uma das músicas mais interesantes da leva atual. "Delicate Dance", a segunda trilha instrumental da noite, conta com participação de Ingo Powitzer, roadie/técnico de Matthias Jabs, e regra-três no banco de reservas dos guitarristas da equipe. Nos últimos cinco anos ele pode ser ouvido em três álbuns do Scorpions - "Unbreakable" (2014), "Get Your Sting & Blackout" (2011) e "MTV Unplugged in Athens". No palco, Ingo é só felicidade.

Foto: Ton Muller
Aí chegamos nas baladas, dois números que definitivamente acordam até mesmo a plateia chapa branca, e  momento de maior interação da noite. Estamos falando dos roqueiros de ocasião, aquele tipo de público que conhece Scorpions apenas por tabela. E quem nunca ouviu "Send Me An Angel" e principalmente o megahit "Wind of Change"? Eis um dos ápices do grupo nas FMs do mundo nos anos 1990, principalmente "Wind of Change",  letra de Klaus Meine que versa sobre os ventos da mudança que atingiam a Europa, demarcando o ocaso da Guerra Fria e da União Soviética, assim como a queda do Muro de Berlim. Vale lembrar que o Scorpions foi uma das bandas/artistas pioneiras em se apresentar na ex-União Soviética, tudo registrado no DVD "To Russia With Love & Other Savage Amusements" (1988).

Mikkey Dee. Foto: Ton Muller
Em "Tease Me Please Me", Mikkey Dee ganha o seu recorte de destaque no show. Esse músico sueco que atuou em bandas como King Diamond, Dokken e Thin Lizzy, se tornou realmente conhecido como baterista do Motorhead, grupo ao qual gravou 13 álbuns de estúdio, em mais de 20 anos de colaboração. Só abandonou o barco após a morte do baixista, em 2015. O Scorpions é sua nova banda, e Mikki é valorizado no espetáculo, com destaque para constantes imagens do baterista nos telões, e até mesmo pela sua posição em cena - instalado numa grande elevação do palco. E o solo de bateria faz parte desse misancene, condecorando um daqueles instantes clássicos num show de metal.

Chegando a parte final, temas como "Blackout" e "Big City Nights" exibem aquilo que tornou o Scorpions assíduo nas grandes arenas do rock, e com justica, os alemães ainda são roconhecidos por serem responsáveis em tornar o heavy metal um dos gêneros mais amados nos anos 1980/90. E por mais que o flerte com o pop tenha afastado os fãs mais ferrenhos, quando chega o refrão de "Big City Nights" é impossível não nos juntarmos ao coro. Ao vivo, também fica fácil perceber como Jabbs e Shenker gostam de intercalar solos e bases. Curiosidade: no palco, dois guitarristas de uma banda de rock sem tatuagens nos braços, algo raro nos dias atuais. Matthias, mais introspectivo, muitas vezes parecendo concentrado, focado em sua atuação. Rudolph joga para a torcida o tempo todo - seja relembrando o windmill de Pete Townshend, trocando de instrumento a cada música, fazendo caras e bocas para os fotógrafos/público e principalmente correndo de um lado ao ao outro do palco. 

Pawel Maciwoda. Foto: Ton Muller

No bis, uma balada - "Still Loving You" e um tijolaço scorpiano - "Rock You Like a Hurricane" - "Elas são as favoritas dos fãs e são uma boa combinação. Gostamos das duas. As pessoas curtem a atmosfera e 'Rock You Like A Hurricane' é uma ótima canção para fechar as apresentações", disse Matthias Jabs em entrevista ao site G1. Impossível contestar o óbvio.

Próxima parada do Scorpions é na sexta-feira (4), quando fechará a noite do quinto dia do Rock in Rio. Antes, também no Palco Mundo, ainda se apresentam Sepultura, Helloween e Iron Maiden. Como assim? Iron Maiden tocando antes do Scorpions? - "Eu sei, é claro, que o Iron Maiden é a atração principal. Mas eles preferem tocar mais cedo e pediram que tocássemos mais tarde. Aceitamos, não tem problema", explicou Jabbs na mesma entrevista ao G1. Depois do ensaio geral em Porto Alegre, o Scorpions está azeitado para  novamente fazer história no Rock in Rio.               

Foto: Divulgação Facebook Scorpions



Setlist Scorpions - Rock ao Vivo/PoA

Going Out With a Bang
Make It Real
The Zoo
Coast to Coast
Medley: Top of the Bill / Steamrock Fever / Speedy's Coming / Catch Your Train
We Built This House
Delicate Dance
Send Me an Angel
Wind of Change
Tease Me Please Me
Blackout
Big City Nights

Encore

Still Loving You
Rock You Like a Hurricane


Foto: Ton Muller


ÚLTIMA COBERTURA:

ZAKK WYLDE - PORTO ALEGRE, 26 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Pablito Diego Por  Márcio Grings  Fotos  Pablito Diego  ( Há Cena ) Zakk Wylde é um dos heróis modernos da guitarra. Estamos fa...