sábado, 23 de novembro de 2019

GENE 'BIRDLEGG' PITTMAN - SANTA MARIA, 22 DE NOVEMBRO DE 2019


Foto: Pablito Diego

Depois de Wee Willie Walker (USA), Witney Shay (USA), Tom Worrell (USA), Luciano Leães & The Big Chiefs (BRA), Anthony 'Big A' Sherrod (USA), Luana Pacheco (BRA), Gonzalo Araya + Just Blues (CHI) e Oly Jr (BRA)o Memorabilia Blues no Plataforma 85 recebe a última atração internacional do projeto em 2019, o gaitista norte-americano Gene 'Birdlegg' Pittman. O músico ainda fez shows em Itajaí - SC e Porto Alegre - RS, finalizando sua terceira passagem pelo Brasil em Santa Maria.   

Nascido em Harrisburg, na Pensilvânia, em 1947, Birdlegg começou a carreira tardiamente: aos 26 anos. Sem nunca ter tido aulas de música, entrou em uma loja e comprou sua primeira harmônica. Como músico autodidata, mudou-se para Oakland, na Califórnia, em 1975, onde passou a tocar nos clubes de blues ao lado de nomes como Sonny Rhodes, Massala Talbert, Haskell "Cool Papa" Sadler e Mississippi Johnny Waters. Em 1980, formou o grupo The Tight Fit Blues Band. 

Foto: Pablito Diego
Ao longo dos anos, depois de se apresentar com várias estrelas do blues, Birdlegg lançou um disco com sua banda em 2007, "Meet Me on the Corner". Em 2010, mudou-se para Austin, TX, onde fixou residência e continua a trocar figurinhas com diversos nomes da cena local do blues. Afora shows e gravações, passou a ensinar e se apresentar em escolas, além de promover seminários musicais. Dentre suas conquistas, integrou o lendário time do Mississippi Delta Blues Band (por onde acabou retornando outras três vezes), participando de diversos tours na Europa. Seu mais recente álbum é "Extra Mayo" (2016), trabalho produzido na Suécia.

Foto: Pablito Deigo
Birdlegg e sua banda chegaram na Gare em torno das 16h30. Ao entrar no bar, mesmo antes de pisar no palco para a passagem de som, o músico caminha por toda e extensão do pub, intenção de observar a casa e reconhecer o espaço em que ele irá circular com seu microfone sem fio. Nos vídeos, o vemos cantando entre o público, diretamente interagindo com a audiência - essa que é uma de suas marcas registradas. Logo iríamos entender que o músico realmente não se detém apenas ao quadrado convencional de uma atuação. O bluesman provém de uma geração que gosta do contato mais próximo, não se priva de interação. Inclusive, esse é um dos pontos cardeais que o norteiam. Desse modo, a iluminação do salão principal do Plataforma foi redesenhada, tanto para melhor apreciação do público quanto para facilitar sua movimentação. E claro, para que os registros ganhassem maior qualidade. Assim, um garçom foi designado para acompanhá-lo com uma luz seguidora.

Foto: Pablito Diego
sound-check é realizado em 10 minutos (o mais rápido da história do Memorabilia Blues). Para beber, Gene pede sua bebida favorita — Fanta Laranja. Ao sair do pub, acende um inseparável cigarro Marlboro, observa os verdejantes montes santa-marienses, bate um papo animado com o fotógrafo Pablito Diego (se tornaram melhores amigos) e não economiza em registrar imagens com o celular. Ele circula curioso entre os destroços da saudosa linha férrea, ainda assombrada pelo fantasma do abandono, apesar da louvável revitalização do Mercado da Vila Belga, espaço em frente à Estação onde o Plataforma está instalado. Minutos depois, Adrian Flores (produtor e baterista da turnê) o chama e o grupo parte numa Fiat Doblò rumo ao hotel.  

Foto: Pablito Diego
Às 22h30, a promissora Cheeba Cheeba, banda local de abertura esquenta o público com seu repertório azeitado pelo neo-soul, funk, rock, traços de psicodelia, além de passeios informais pelo território do blues. Destaque para a versão de "Nem Vem Que Não Tem" (Wilson Simonal), além de "Licença Poética", estreia autoral do quinteto santa-mariense. 

Em torno das 23h30, a banda de apoio que dá suporte ao minitour de Birdlegg começa os trabalhos. No palco, além do já mencionado Adrian Flores (bateria e vocal), temos a presença sempre bem-vinda de Solon Fishbone (guitarra) e Fernando Peters (baixo). O trio relê "Everyday I Have The Blues" (Pinetop Sparks) e "Living In My Neighborhood'' (Magic Slim), com a marca do vocal 'howlinwolfiano' de Adrian. Muitos estão lá também para ver Solon, um dos mais respeitados guitarristas do blues feito aqui.   

Foto: Pablito Diego
Quando Birlegg pisa no palco, vestido a caráter - chapéu, camisa e sapatos brancos, gravata cerúlea, colete e terno risca de giz, parte da audiência talvez imagine que esse senhor de 72 anos exerça uma presença cênica mais recatada. Ledo engano, a partir de então, o que assistimos é um retrato da hiperatividade artística. Gene busca uma constante interação com o público — conta histórias, flerta com as mulheres e indubitamente — o tempo todo — passeia entre as mesas. Ele é o espetáculo! Um acrobata, um ginasta em constante espacato - um tornado do blues texano. Se você está sentado numa mesa em frente ao palco, não significa que sua posição é a melhor da noite. Em instantes o cantor está no fundo do bar galanteando outra garota. Ele tira o chapéu e amistosamente a corteja. Um rio de suor despenca sobre a moça — "Sorry", diz o músico. Tudo certo, Gene ainda está sentado em seu colo. 

Foto: Pablito Diego
Outro aspecto dessa atuação passa pela sua direção musical, principalmente quando comanda as dinâmicas da banda, regendo os ups and downs do blues. As vezes parece digladiar-se consigo mesmo, erra o tom de uma de suas gaitas, atira uma delas no palco, cobra andamentos diferentes nas levadas de Adrian Flores. Muitas vezes Gene parece brigar com demônios interiores. Sob a ótica dos músicos, tocar com Birdlegg é como caminhar na corda-bamba - em certos momentos você pode cair. Sem problemas, há redes de segurança. E há um bocado de diversão quando você pega o jeito. Uma delas é a própria informalidade e senso de improviso do gênero. Assim é o blues, cada noite diferente da outra.  

Foto: Pablito Diego
As escolhas de repertório relembram temas célebres como "Don't Start Me Talking" (Sonny Boy Williamson), "The Things That I Used to Do" (Guitar Slim), "You Don't Have to Go" (Jimmy Reed) e "Statesboro Blues" (Blind Willie McTell), além de composições de sua autoria — "San Pablo Avenue""Draw In Your Lip""Maria" e a vibrante "Meet Me at the Corner". Destaque absoluto para "I'm A Man" (Bo Diddley), instante em que o Plataforma Pub se transforma num autêntico Clube de Blues, uma massa uníssona vibrando na mesma frequência. Gene é um grande gaitista, ele bebe nas melhoras escolas da harmônica estadunidense, falo da linhagem dos Sonny, por exemplo - Boy Wiliamson e Terry. Não há firulas na forma como toca, não ouço excessos, percebo que o som da gaita diatônica cristaliza um desenho definitivo de como um instrumento deve soar. 

Veja a performance de "I'm A Man". Captação Pablito Diego.    



Nos minutos finais da apresentação, Birdlegg faz questão de cumprimentar individualmente várias pessoas, demonstrando aquela simplicidade nata dos grandes artistas, fidalguia intrínseca na natureza dos autênticos homens do blues — "Eu não preciso colocar óculos escuros para parecer um bluesman". Perguntado pela produção local se gostaria de jantar antes do início do show, Gene responde — "Gosto de tocar com fome". E essa fome de blues foi o principal cardápio de mais uma noite histórica do Memorabilia Blues no Plataforma 85.    

Foto: Pablito Diego
Próxima parada — Kingsize Blues, no dia 12 de dezembro, com exposição fotográfica dos cliques memoráveis registrados por Pablito Diego nos 10 eventos deste ano. A história do Memorabilia Blues em imagens, além de outras surpresas... Nos vemos por lá.



O Memorabilia Blues no Plataforma 85 é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio: Radiadores Schiavini, Minami, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial: Santa Madre. Apoio: Cabeça Arte, Gasoline Barber e Diário de Santa Maria. Técnica de som: Anderson Bittencourt. Desenho de luz e operação: Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa: Alfredo Giardin e Taís Streit. Comunicação e cobertura fotográfica: Há Cena Cultural. Realização: Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos, em parceria com a Blues Special Produções.


Foto: Pablito Diego



Foto: Pablito Diego


Foto: Pablito Diego


Foto: Pablito Diego


Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

domingo, 27 de outubro de 2019

ZAKK WYLDE - PORTO ALEGRE, 26 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Por Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Zakk Wylde é um dos heróis modernos da guitarra. Estamos falando de um artista extremamente ligado ao seu instrumento de ofício. Eles são indivisíveis. Afinal, por puro merecimento, associações como essa o tornaram guitarrista de Ozzy Osbourne, um operário a serviço da lenda do rock mundial, batendo cartão em cinco álbuns de estúdio, discografia construída em duas décadas como sideman do Príncipe das Trevas. Nem seria necessário mencionar que se trata de um posto desejado por muitos músicos. E não é só isso - como líder de sua banda, o Black Label Society, deixou sua marca em treze álbuns, além de dois discos solo. E ainda precisamos mencionar o Pride & Glory, grupo formado na década de 1990.  

Pablito Diego
Entre suas facetas e escolhas, o show que novamente o traz a Porto Alegre evidencia uma aproximação com o southern rock e o lado clássico do hard rock feito nos anos 1970. E já que estamos falando do headliner no evento Samsung Best of Blues, a insígnia do blues também carimba breves instantes da apresentação do músico norte-americano no Anfiteatro Pôr do Sol. Será mesmo?

Foto: Pablito Diego 
Na trilha incidental que nos prepara para receber os músicos, as preliminares começam com um mashup de "War Pigs" (Black Sabbath) e "Whole Lotta Love" (Led Zeppelin), perfeita preliminar que antecipa a presença da estrela principal da noite, vestido com uma saia escocesa zebrada (combinando com sua Flying Z). No palco,  além de Zakk, Dario Lorina (guitarra), John DeServio (baixo) e Jeff Fabb (bateria), atual formação do Black Label Society. Há sete meses distante dos palcos, o show especialmente preparado para o Brasil aponta para grandes espaços instrumentais. O potente riff do baixo de DeServio (com cordas verdes e amarelas) anuncia a versão do quarteto para "Whipping Post" (The Allman Brothers Band), e apenas 35 minutos depois teremos uma pausa. O longo medley ainda repassa "The Ocean" (Led Zeppelin), "Machine Gun Man" (Pride & Glory) e "Crossroads" (Robert Johnson), para ao final retornar até o início com o tema do Allman.

Foto: Pablito Diego
A releitura de "Still Got the Blues" (Gary Moore) amplifica a empolgação de parte do público, deflagrando intermináveis solos do guitarrista que o distanciam da linguagem usual do blues, e até mesmo do blues rock, batendo na porta do metal. Essa subversão continua em mais um medley deflagrado por "Red House" (Jimi Hendrix), além de uma nova série de enxertos e pequenos trechos de músicas coladas umas as outras, entre elas temas como "Bridge of Sighs" (Robin Trower) e "All Along the Watchtower" (Bob Dylan). No final, a famosa sirene de alerta de um provável ataque aéreo soa como um chamado para nos convocar ao epílogo da noite, prólogo de um novo mashup engendrado por canções do Black Sabbath e  Led Zeppelin (War Pigs e Dazed and Confused). É claro, a massa entra em estado de total ebulição.

Foto: Pablito Diego
Alguém pode perguntar, mas afinal, aonde está o blues? Ora bolas, o blues é apenas uma desculpa para reunir os fãs de Zakk Wylde e Black Label Society, centenas deles tomaram posse das posições mais próximas a grade que separa o público do palco (a estimativa é de que cerca de 40 mil pessoas estiveram no evento). Se o blues ganhar sobrevida através de estradas viscinais como as de Zakk Wylde, é preciso dar crédito ao guitarrista. Afinal, ainda temos os velhos discos para celebrar o autêntico blues que um dia, inclusive, deflagrou um dos maiores movimentos musicais do nosso tempo - esse tal de rock and roll.     

Em evento patrocinado pela Samsung, numa parceria com o Ministério da Cidadania, a realização do Samsung Best of Blues é da Dançar Marketing. Agradecimento especial para Jéssica Barcellos Comunicação - suporte e credenciamento.  

Setlist Zakk Wylde - Samsung Best of Blues

- Intro 
War Pigs/Whole Lotta Love

- Medley: 
Whipping Post
Machine Gun Man
The Ocean
Crossroads

- Still Got the Blues

- Medley:
Redhouse
Bridge of Sighs
All Along the Watchtower

- Medley:,
War Pigs
Dazed and Confused  

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

KENNY WAYNE SHEPHERD - PORTO ALEGRE, 26 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Ainda hoje, quando lembro de Kenny Wayne Shepherd, volto a 1995, ano em que os amantes do blues ganharam um motivo a mais para acreditar na sobrevida do gênero. Com apenas 18 anos, O jovem músico de Shreveport, Louisiana, lançou "Ledbetter Heights", um trabalho extremamente acima da média para um garoto (supostamente) iniciante. O álbum vendeu mais de 500 mil cópias, marca que iria atingir outras duas vezes em sua carreira, número ainda expressivo para um gênero fora do eixo central da grande mídia. Em entrevista exclusiva ao Memorabilia, Shepherd disse acreditar que sua trajetória continua a inspirar jovens músicos a prosseguirem olhando para o blues como caminho a ser seguido: - "Existem artistas talentosos surgindo todos os dias, e fico feliz em perceber que ainda teremos uma nova geração com aspirações de seguir a tradição do blues".  Leia entrevista completa.

Foto: Pablito Diego
Passados 24 anos, Kenny Wayne Shepherd, 42, colocou mais onze álbuns no mundo, o último deles, o elogiado "The Traveler", saiu no último mês de maio, progredindo ao topo da parada blues norte-americana. Em seguida, iniciou tour em parceria com Buddy Guy, com apresentações agendadas até o final de 2019. Casado há 13 anos com Hannah, 38, filha mais velha do ator/diretor Mel Gibson, pai de cinco filhos, o músico também integra o The Rides, grupo que formou ao lado de Stephen Stills e Barry Goldberg, ao qual já lançou dois álbuns. Incentivado por Stills, começou a soltar a voz em algumas canções, com isso, do novo álbum - "Gravity", "Take It  Home" e "Better With Time" mostram que o vocal de Kenny tem calibre para figurar na linha de frente de suas composições: - "Stephen definitivamente me incentivou a encarar o protagonismo como cantor", admite ao Memorabilia

Foto: Pablito Diego
Como primeira atração internacional do Samsung Best of Blues, em evento gratuito que levou cerca de 40 mil pessoas até o Anfiteatro Pôr do Sol, num dos espaços mais interessantes da capital gaúcha para apresentações ao ar livre, Shepherd sobe ao palco pontualmente às 20h. Ao seu lado, Noah Hunt (voz e guitarra), Scott Nelson (baixo), Joe Krown (teclados) e Sam “The Freight Train” Bryant (bateria), além do naipe de metais formado por Joe Sublett (sax) e Mark Pender (trompete).

Foto: Pablito Diego


Tudo começa com "Trouble Is...", perfeito apresentar armas que aponta sua bússula para o norte do rock'n'blues. Na mesma direção, logo após ouvimos o libelo feminista "A Woman Like You", faixa que abre o álbum mais recente do guitarrista. Em sua primeira vinda ao Brasil, Kenny prepara um set diferente da atual turnê ainda em curso pelos Estados Unidos. E se existe um tema preparado para nos impressionar, número propício para certificar a linhagem musical desenvolvida no palco, esse som é "Shame, Shame, Shame" (não confundir com a faixa homônima de Jimmy Reed). - "Sem Stevie Ray Vaughan não haveria Kenny Wayne Shepherd", disse o guitarrista em entrevista ao portal Terra. Na versão apresentada em Porto Alegre, além de comprovar meritocracia nessa ligação e herança musical, o público delira com o desfile de solistas, alternâncias e dinâmicas, num autêntico workshop de como se faz blues. Os solos de sax de Joe Sublett (Rolling Stones, Stevie Ray Vaughan, Eric Clapton), o trompete com surdina de Mark Pender (Bruce Springsteen, Joe Cocker, Robert Cray), além da constante intervenção do Hammond B3 de Joe Krown (Clarence "Gatemouth" Brown), dão o tom de que Shepherd não poupou esforços para trazer o melhor de si até o Samsung Best of Blues.

Foto: Pablito Diego
Em "I Want You" podemos nos certificar o quanto o guitarrista também é um ótimo vocalista, além de perceber o legado de Buddy Guy sendo pareado com propriedade nos arranjos. A faixa de seu mais recente álbum é um dos momentos mais fortes do show. Com uma camiseta do Misfits, o baixista Scott Nelson assesta seu baixo mais abaixo do que o usual, numa posição semelhante aos instrumetistas de punk, economizando sorrisos, mas vendendo uma entrega particular a cada tema. A longa introdução de "While We Cry" crava na memória a imagem do guitar hero do blues, nova passagem instrumental impressionante. Dá para perceber que o vocalista Noah Hunt fica numa posição de coadjuvante, muitas vezes de olhos fechados, escolhendo com cuidado cada sequência de acordes de sua guitarra base. Entretanto, na balada "Blue on Block", Noah assume o protagonismo para nos mostrar a força de sua garganta, numa canção que nos leva ao universo do southern rock.

Foto: Pablito Diego
Tratando-se de blues rock, nada como terminar um show com "Voodoo Chile/Voodoo Child - Voodoo Slight Return" (Jimi Hendrix), com Kenny explorando todas as possíveis vicissitudes do blues, ora se aproximando da energia do rock, outras vezes baixando a dinâmica, levando a banda em várias direções, com o baterista Sam Bryant atento a cada nova ondulação.

Foto: Pablito Diego
Em 1h10 minutos Kenny Wayne Shepherd comprova porque é considerado um dos nomes mais importantes do blues rock mundial. Residente nos grandes festivais do gênero na Europa e Estados Unidos, aguardemos que através desse pontapé inicial o Brasil passe a fazer parte de seu usual roteiro de apresentações. 

Foto: Pablito Diego
Em evento patrocinado pela Samsung, numa parceria com o Ministério da Cidadania, a realização do Samsung Best of Blues é da Dançar Marketing. Agradecimento especial para Jéssica Barcellos Comunicação - suporte e credenciamento. 

Setlist KWS - Samsung Best of Blues

Trouble Is...
Woman Like You 
Shame, Shame, Shame
I Want You 
While We Cry
Blue on Black (Trouble Is)
Voodoo Chile
Voodoo Child (Slight Return)


Foto: Pablito Diego


Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego 

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

IRON MAIDEN - PORTO ALEGRE, 9 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Ton Müller
Review Márcio Grings Fotos Ton Müller

Poucos dias antes do Iron Maiden pisar no palco da Arena do Grêmio (Porto Alegre), e apenas algumas horas após a apresentação do grupo inglês no estádio do Morumbi (São Paulo), li uma interessante matéria do amigo Ricardo Seelig. O texto não apenas fala da nova passagem do sexteto inglês pelo Brasil, jogando luz na apresentação no Rock in Rio, na verdade, a matéria também propõe uma reflexão. O comandante do Collectors Room levanta a lebre sobre a ação do tempo na atividade dos músicos ligados ao rock'n'roll - "Ao contrário de outros gêneros musicais como o blues e o jazz, onde o ato de envelhecer parece enobrecer o artista, no rock a passagem do tempo não é muito bem vista por uma parcela do público e, principalmente, por grande parte da crítica. Ainda se associa o transcorrer dos anos com a decadência (...), o que é uma tremenda bobagem". Em contraponto, acredito que nem sempre estejamos falando bobagem nessa constatação/associação, pois há diversos exemplos de deterioração causados pelo confronto entre passagem do tempo e performance artística. Prova disso é que facilmente podemos encontrar artistas veteranos soando como arremedo de si próprios. Principalmente se tomarmos por base nomes ligados às cenas advindas dos anos 1960/70/80 - é inegável, estamos vivendo o fim de uma era. 

Foto: Ton Müller
Numa outra via, lembro de frase pinçada de uma entrevista cedida por Mick Jagger no início dos anos 1980 - "Não pretendo chegar aos 40 anos cantando Satisfaction", afirmou o líder dos Stones. E disse mais, e aqui faço um link direto com o texto de Seelig - "Gostaria de envelhecer com a dignidade dos músicos de jazz". Hoje sabemos, aos 76, Mick errou feio, pois continua cantando "Satisfaction". Contudo, seu segundo desejo foi atendido, visto que ele realmente conseguiu envelhecer com a dignidade de muitos músicos de jazz, porque certamente estamos falando de um dos mais respeitáveis cantores do rock ainda em atividade.

Foto: Ton Müller
Começo misturando alho com bugalhos para engatar nesse 9 de outubro de 2019, agradável quarta-feira de primavera que demarca a terceira passagem do grupo britânico Iron Maiden pelo RS. E assim como Jagger, o vocalista do Maiden é outro fenômeno a ser referenciado. Mesmo 15 anos mais jovem, aos 61 anos, Bruce Dickinson ainda é um dos maiores prodígios vocais do heavy metal. À frente do grupo, em mais de 40 anos de estrada, o sexteto se completa com seu criador e mentor intelectual, Steve Harris (baixo), mais Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra) e Nicko McBrain (bateria). 

Foto: Ton Müller
Cerca de 40 mil pessoas foram até a Arena do Grêmio em Porto Alegre, um exército de camisetas com a logotipia clássica da banda, e certamente ninguém estava lá para ver o show de abertura. O quinteto inglês The Raven Age conta com o guitarrista George Harris, filho do baixista do Iron - “Meu pai sempre quer ouvir nossas músicas e dá sua opinião. Na verdade, ele é bastante rígido e diz o que precisamos mudar ou o que já está bom", revelou George ao site Uol. Ainda no grupo - Tony Maue (guitarra), Matt Cox (baixo), Jai Patel (bateria) e Matt James (vocal). Eles acabam de lançar “Conspiracy”, álbum que rapidamente deve cair no esquecimento. Já a atração principal teve mais sorte (ou talento), pois mora no inconsciente coletivo do rock.   

Foto: Ton Müller
Às 21h, ao som de “Tranylvania”, numa explosão de imagens no telão, com cenas de Legacy of the Beast, game que inspirou o atual setlist, o público começa a se alvoroçar. Logo depois o sistema de som detona “Doctor Doctor”, hino do UFO que se tornou também um perfeito hinário para acelerar os batimentos cardíacos dos fãs de Iron Maiden, visto que é a canção escolhida para as preliminares finais antes dos músicos pisarem no palco. A festa está decretada...  

Foto: Ton Müller
O setlist de Porto Alegre é o mesmo que foi tocado no Rock in Rio e São Paulo, num show cronometrado e planejado para beirar a perfeição. Pense numa abertura espetacular, tipicamente inglesa, um brado que evoca o legado dos Baby Boomers (como são chamados os nascidos logo após o final da Segunda Guerra Mundial). No telão, cenas em P&B da Segunda Guerra e o trecho de um lendário discurso do primeiro-ministro britânico Winston Churchill. "Aces High" é o maior dos chutes na porta que o Iron Maiden poderia escolher para abrir suas apresentações. Uma réplica de um avião Supermarine Spitfire sobrevoa a banda, impressionante imagem que amplifica o impacto sonoro de um tema que remete aos idos da clássica World Slavery Tour (1984/85). Não é uma música fácil de ser cantada antes das cordais vocais de qualquer vocalista estarem completamente aquecidas. Não se trata de uma simples performance, é um teste de fogo para Bruce! 

Foto: Ton Müller
As guitarras continuam emparedadas em “Where Eagles Dare", outra música incomum nos sets deste século, mais do que bem-vinda nesse tour. “To Minutes do Midnight” é a primeira a ganhar um coro monstruoso do público, isso após Bruce Dickinson bater o primeiro papo com a audiência, para logo depois bradar antes do refrão: “Scream to me Porto Alegre”. E o exército dos 40 mil gritou muito alto. "The Clansman” traz Bruce cantando uma música da época que esteve fora do grupo (1994/99), tema que conhecemos de “Virtual XI” (1998), com Blaze Bayley a frente dos mics (talvez a melhor faixa de Blaze do Iron). No palco, Bruce traz a tona outra de suas paixões, a esgrima. Mesmo que o florete seja trocado por uma réplica de espada medieval, o vocalista elegantemente coreografa e se movimenta de um lado para o outro do palco desenhando rabiscos no ar com seu alegórico sabre.  

Foto: Ton Müller
Sempre encontrei em “The Trooper” um dos maiores símbolos do conteúdo intelectual implícito nas letras do Iron Maiden. Nesse quesito, o grupo também foi um dos pioneiros, saindo de uma temática engessada, muitas vezes sem conteúdo relevante, para sobreviver ao teste do tempo. Com músicas como essa o Maiden simplesmente colocou o heavy metal em outro patamar. A temática é baseada num evento histórico da cavalaria britânica do século 19, durante a Guerra da Crimeia. O bardo inglês Alfred Tennyson escreveu um célebre texto sobre o evento, "The Charge of The Light Brigade", relato poético que impulsionou Steve Harris, o Tolstói do metal, a compor “The Trooper”. O resultado dessa inspiração até hoje nos mantém boquiabertos, pois estamos falando de um autêntico apresentar-armas para o quilate da banda que está no palco – trata-se de uma espécie de tema-síntese do som do Iron Maiden. 

Foto: Ton Müller
Uma curiosidade: antes do show conheço Bento Dickel, um garoto de apenas 9 anos que nessa terça-feira teve sua estreia em shows internacionais. Quando pergunto ao jovem fã qual sua canção preferida, ele não reluta: “The Tropper”. Vários pais levaram seus filhos até a Arena, muitas crianças e adolescentes. No entanto, a faixa etária predominante do público certamente pode ser cravada na faixa dos 30/40. E para alegria de Bento, durante sua canção favorita, tivemos ainda a primeira e única aparição do morto-vivo mais famoso do rock, Eddie the Head.  

Foto: Ton Müller
Em “Revelations”, o palco muda, vitral azul ao fundo, candelabros laranjas despencam do alto do teto. Eis mais uma peça de “Piece of Mind” (1983), o álbum que contribui com a maior parte das canções (4), seguido de (3) “The Number of the Beast” (1982) e (2) “Powerslave” (1984), ou seja, mais da metade do set comtempla a época de ouro do grupo. Um amigo jornalista me diz que essa escolha dos temas também leva em conta os views do grupo em seu canal oficial no YouTube.

Foto: Ton Müller
Tratando-se de uma fã de Iron Maiden que abandonou a banda no contestado “Somewhere in Time” (1986), um LP que particularmente está entre meus preferidos do grupo, músicas como “For the Greater Good of God” (2005), “The Wicker Man” (2000) e “Sign of the Cross” (1995), mais uma da breve era Blaze Bayley, simplesmente não conseguem capturar minha atenção - “Eu tenho o maior respeito por Blaze, pois ele entrou na banda em um momento muito difícil (…) Ele é uma ótima pessoa”, revelou Dickinson ao programa de rádio inglês Do You Know Jack? Eu sei, possivelmente seja execrado por essa declaração, é inegável que há valores nesses temas, principalmente em "Sign of the Cross", uma espécie de "Kashmir" do Iron Maiden, música que Bruce tomou para si. Porém, essa mesma trinca ainda reforça uma teoria própria de que a ideia de som do Iron já está esgotada, e que no final das contas, salvo exceções, assim como acontece com os Stones (novamente uma comparação entre bandas incomparáveis), afora algum novo tema interessante aqui e acolá, o que grande parte do público realmente quer ouvir são os clássicos dos anos 1980/90. O próprio desenho do setlist reforça esse sentimento. No entanto, esse refresco na emoção também é o instante que ganho tempo para perceber o vigor e o talento do incansável Nicko McBrain, um rolo compressor que bate da peles com a precisão de um cirurgião.      

Foto: Ton Müller
Por mais que eu também ache um exagero pirotécnico Bruce Dickinson ostentar um lança-chamas em “Flight of the Icarus”, retornamos finalmente ao eixo central da obra maideniana, na companhia de um gigantesco Ícaro gigante no fundo do palco. "Fear of the Dark” é potencializada pela comoção geral da Arena, e é impressionante perceber - no olho do furacão - a força que canções como essa transformam os fãs numa estrondosa e uníssiona massa sonora - "O público aqui [América do Sul], mas especialmente o Brasil, é incrível, são os melhores do mundo. Eu evito dizer isso, porque acho que as pessoas vão ficar com ciúmes, mas é verdade", disse Dickinson em entrevista a RBS TV.

Foto: Ton Müller
E o que dizer de “The Number of the Beast”? A lembrança de um Eddie titereiro maquinando os movimentos de uma figura satânica acorda o menino em mim, um garoto assombrado pela imagem de uma das capas mais significativas do rock. Em "Iron Maiden", música que dá nome a banda, extraída dos primórdios da década de 1980, o guitarrista Jenick Gers faz seu tradicional malabarismo com a guitarra, algo que me soa extremamente desnecessário. A imagem de Janick pipocando de um lado ao outro do palco é a presença mais irritante da noite. Enquanto isso, Dave e Adrian fazem o trabalho sujo...

Foto: Ton Müller
Após um breve intervalo, o quinteto retorna ao palco com “The Evil That Man Do”, e com uma dobradinha do álbum “The Number of The Beast” - “Hallowed Be Thy Name” e “Run to the Hills”. Para nós que não os tínhamos no RS há 11 anos, ver um show do Iron Maiden condensado em apenas 2h, ao vivo, é chance única de sentir de perto a dimensão de como o heavy metal ainda pode ser relevante, grandioso e apoteótico. E o pior, todos sabemos, não existem peças de reposição no tabuleiro da música mundial para preencher a horrorosa lacuna que ficará escancarada quando Bruce, Steve,  Dave, Adrian, *Janick e Nicko não mais caminharem juntos como uma banda(o) pela terra. Na verdade, tivemos a sorte de novamente revê-los por aqui numa grande performance - "O melhor momento do grupo ao vivo depois do retorno de Bruce Dickinson", sugere o maior dos fãs que conheço, o amigo Roberto Lenz (Sesc). Sim, aos 44 anos, o Iron Maiden envelheceu sem perder o viço.

Detalhe negativo: muitas pessoas mais afastadas do palco reclamram da qualidade do som que chegava até elas, espectro sonoro que parece ter oscilado bastante ao longo das duas horas de apresentação. 

Confira a galeria de fotos do fotógrafo Ton Müller    

Ao final do show, me dou por conta de que estou assistindo Iron Maiden pela primeira vez no mesmo ano em que também vi Saxon (leia review AQUI), dois importantes nomes do New Wave of British Heavy Metal, movimento musical inglês que se espalhou pela Europa e pelo mundo propagando o metal inclusive aqui no Brasil. Tive sorte de viver esse tempo. I feel blessed...  

Foto: Ton Müller
O show do Iron Maiden em Porto Alegre marcou a despedida do minitour “The Legacy of the Beast” pelo Brasil. O Maiden segue sua jornada com apresentação no próximo sábado (12) no Estádio do Velez, em Buenos Aires, para logo depois encerrar sua nova passagem pelo continente sul-americano com dois shows no Moviestar Arena, em Santiago, no Chile (14 e 15). Já estamos com saudades...    

Setlist Iron Maiden PoA

Aces High
Where Eagles Dare
2 Minutes to Midnight
The Clansman
The Trooper
Revelations
For the Greater Good of God
The Wicker Man
Sign of the Cross
Flight of Icarus
Fear of the Dark
The Number of the Beast
Iron Maiden

Encore:

The Evil That Men Do
Hallowed Be Thy Name
Run to the Hills  

Foto: Ton Müller

ÚLTIMA COBERTURA:

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