segunda-feira, 29 de julho de 2019

ANTHONY 'BIG A' SHERROD - SANTA MARIA, 27 DE JULHO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Por mais que haja um romantismo literário na palavra bluesman, alguns oportunistas acabam se apropriando ilegitimamente desse epíteto. E na verdade, nem sempre trata-se de uma questão de predileção ou de um simples carimbo tatuado na persona artística, o certificado de autenticidade muitas vezes não é visualizado numa simples passada de olhos. Vinícius de Moraes escreveu: “O samba nasceu lá na Bahia/ E se hoje ele é branco na poesia/ Ele é negro demais no coração.” E se o samba primeiramente surgiu na Bahia, como sabemos, o blues de uma forma iconográfica e efetiva também nasceu negro no Mississippi. Mas nem todo homem ou mulher que aflorou no território baiano é sambista, e  necessariamente não temos um bluesman em cada afro-americano concebido no Mississippi. Contudo, quando essa associação entre o mapeamento geográfico e ancestralidade comungam na mesma cartilha, muitas vezes é deflagrado o milagre - eis o instante mágico em que 'o trovão soa'... 

Foto: Pablito Diego
Depois de Wee Willie Walker (USA), Witney Shay (USA), Tom Worrell (USA) e Luciano Leães & The Big Chiefs (BRA), o Memorabilia Blues no Plataforma 85 recebe sua quarta atração norte-americana, o guitarrista Anthony "Big A" Sherrod. O músico nasceu em Clarksdale, no Mississippi, uma das cidades mais míticas do blues, berço de importantes nomes da música negra como Eddie Boyd, Jackie Brenston, Willie Brown, Sam Cooke, John Lee Hooker, Son House, Ike Turner, Robert "Bilbo" Walker Jr, entre outros. É também em Clarksdale que a Highway 61 encontra a Highway 49, encruzilhada onde supostamente Robert Johnson fundamentou seu pacto com o lado oculto da força.

Foto: Pablito Diego
Anthony toca blues desde uma idade muito jovem. Filho do cantor gospel E.J. Johnson, encontrou inspiração e instrução num dos grandes educadores sobre a geografia musical do Delta do Mississippi, Johnnie Billington, com quem conviveu e se tornou um discípulo - "Mais do que ensinar a tocar blues, Billington orientava a crianças como eu sobre a importância de se manter fora de problemas. Eram aulas de sobrevivência para as dificuldades que a vida iria nos apresentar mais tarde", explicou Big A ao jornalista Andrei Andrade do Jornal Pioneiro de Caxias do Sul. O guitarrista também é apresentado com destaque no documentário musical "We Juke Up In Here” (2012) - veja trailer AQUI, um mergulho na atual cena do blues em sua Terra Natal. A música tema do filme é dele.

Foto: Pablito Diego
E antes de chegarmos na Blues Special Band, trio que acompanha o norte-americano, vamos falar do músico/produtor argentino Adrian Flores. Residindo há 15 anos no Brasil (Navegantes - SC), Adrian certamente é uma das figuras mais emblemáticas do blues sul-americano. Como pesquisador e amante do blues, são quase 40 anos de imersão, somando 27 anos na produção efetiva de shows, tendo articulado a vinda de 52 artistas internacionais, isso somente de afro-americanos ligados ao blues. É ele o responsável por trazer Big A pela segunda vez ao Brasil. O resultado dessa atividade alcança a incrível marca de quase 700 shows pelo continente! Além disso, Adrian Flores ainda atua como baterista e diretor musical nos eventos musicais que promove, recrutando músicos argentinos/brasileiros para acompanhar os gringos.

Foto: Pablito Diego
Assim, no palco ele movimenta as baquetas e dirige o time que acompanha Sherrod - Santiago Tomy Esposito (guitarra) e Nico Fami (baixo), argentinos como ele. Quando não estão tocando como banda base de fora, o trio atende por Los Gringos. Porém, ao lado de personagens do blues internacional, seja em tours pela América Latina, América Central ou Europa, chame-os de Blues Special Band, em mais uma de suas encarnações.

Foto: Pablito Diego
O show começa pontualmente ás 22h30, com "Everyday I Have The Blues", abrindo alas com a maior das referências de Sherrod - "Meu ídolo é BB King. Fui criado tocando a música dele", disse a Camila Gonçalves, repórter do Diário de Santa Maria. Vê-lo ao vivo nos permite presenciar um músico com a cara do blues. A manha, a ginga, o sotaque, o senso de humor, o tom provocativo, a constante troca e interação com o público - inúmeros trejeitos decodificados e remontados num único artista. Entre uma música e outra, como um boxeador ao soar do sino que encerra um round, ele recorre a uma toalha para secar o suor de seu rosto. E como toca sem setlist, a vibração de cada apresentação é sempre exclusiva - "Eu nunca sei o que vou tocar. Eu toco de acordo com o que eu sei e como eu me sinto, e o que percebo na vibe do público", explicou na mesma reportagem do Diário.

Foto: Pablito Diego

Showman convicto, meneia guitarra sem um cabo conectado ao amplificador (via transmissor sem fio), promovendo um dos grandes momentos de suas apresentações - longos passeios performando em meio ao público. Por quatro vezes, durante o show, o músico explora praticamente todos os espaços do bar, encantando a audiência com seus carisma, talento e simpatia. No repertório, vários momentos de pico, reconfigurando clássicos como "Hoochie Coochie Man" (Willie Dixon), "I Got Woman" (Ray Charles), "Lucille" (Little Richard), "Mustang Sally" (Mack Rice) e "Got My Mojo Working" (Preston Foster), entre outros. No momento em que parece citar o riff inicial de "Feel's Like a Rain" (Buddy Guy), emenda uma monumental versão de "Frankie and Johnny" (Sam Cooke), um dos instantâneos mágicos da noite, revelando sua capacidade se apropriar dos temas que o inspiram, imprimindo uma digital própria nessa reinvenção.

Foto: Pablito Diego
O baterista local, Ninu Ilha (Kingsize Blues), um dos cicerones de Sherrod e banda na cidade, participa de dois temas, ganhando merecido destaque no evento, ele que há mais de 25 anos é um dos grandes músicos ligados ao blues em Santa Maria - "O sentimento era de que eu poderia tocar a noite toda, estava muito confortável naquele palco", fala Ninu ao final de sua participação - "Anthony me disse que toco com alma", conclui com uma sensação de dever cumprido.               

Foto: Pablito Diego



Uma das grandes revelações em assistir a apresentação de Big A é que estamos presenciando uma renovação aonde a renovação é escassa. Aos 35 anos, Anthony Sherrod é um daqueles artistas que parecem compreender com legitimidade as bençãos e maledicências dessa trajetória. Através dele, importantes nomes que já partiram, lendas como B.B. King, Little Milton, Albert Collins, Big Jack Johnson (seu padrinho musical como guitarrista) sobrevivem a cada nova apresentação - "Quero continuar ensinando, compondo e tocando blues por diferentes cidades e países. Desejo seguir divertindo as pessoas, assim como eu também me divirto fazendo meu trabalho", conclui o músico ciente de seu ativismo e predestinação artística "Sou grato a todo esse legado que construiu o gênero e que permanentemente continua agindo sobre minha música".    

O Memorabilia Blues no Plataforma 85 é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio: Radiadores Schiavini, Uglione, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial: Santa Madre. Apoio: Cabeça Arte, Gasoline Barber e Diário de Santa Maria. Técnica de som: Diego Fiorenza. Apoio de logística: Ninu Ilha. Captação de áudio: Anderson Bittencourt. Desenho de luz e operação: Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa: Alfredo Giardin e Taís Streit. Comunicação e cobertura fotográfica: Há Cena Cultural. Realização: Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos, em parceria com a Blues Special Produções.

Próxima atração, Luana Pacheco, em 16 de agosto.

Foto: Pablito Diego

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Foto: Pablito Diego

segunda-feira, 27 de maio de 2019

TOM WORRELL - SANTA MARIA, 25 DE MAIO DE 2019

Foto: Pablito Diego 
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

O Memorabilia Blues no Plataforma 85 (Gare da Estação Férrea, anexo ao Mercado Público) avança ano adentro proporcionando inesquecíveis momentos ao som do melhor blues. Em apenas três meses de projeto, no último sábado (25), o terceiro nome da música norte-americana pisou no palco do evento. Depois de Willie Walker (12/3) e Whitney Shay (18/4), tivemos uma agradável noite de outono conferir o pianista Tom Worrell, genuíno representante de um dos legados mais importantes da música mundial.

Mas afinal, o que difere o show de Worrell de outras apresentações do gênero que já passaram pelo Centro do RS? Ao longo dos últimos 20 anos, cruzaram por aqui mais de uma dezenas de músicos. Shows memoráveis que continuam a ocupar um lugar carinhoso em nossas lembranças. Porém, nunca antes tivemos a oportunidade de assistirmos um set de blues com foco no piano e na tradicional escola de New Orleans. É como se fossemos teletransportados para um bar em Nola sem a necessidade de pegar um voo internacional.

Foto: Pablito Diego
Na banda base, Luciano Leães (teclado e voz), Caetano Santos (guitarra), Edu Meirelles (baixo), Ronaldo Pereira (sax) e Ronie Martinez (bateria) - juntos, o quinteto atende pelo cognome de Luciano Leães & The Big Chiefs, reunião de talentos que não deixa de ser uma atração a parte dentro do contexto do espetáculo. Quanto ao nome escrito em letras garrafais na parte de cima do cartaz , além de residente nos bares, concertos e festivais de New Orleans, Tom Worrell é um 'nativo' da cena artística de lá, e declarado amante da música de Professor Longhair, importante pianista que morreu em 1980. O repertório começa e termina com os temas de Longhair, fonte primordial da apresentação que veremos em instantes, pois mais da metade do setlist executado tem a assinatura do Professor.   

Santo Protetor. Professor Longhair iconizado no camarim do Memorabilia Blues 
E diferentemente dos show de blues que advém de celeiros musicais como o Delta do Mississippi, Texas ou Chicago, por exemplo, o legado de New Orleans atua em outra frequência. Na geografia do palco/gravações, o piano passa a ser o instrumento que centraliza as ações, com a guitarra frequentemente ficando em segundo plano. A intenção sonora flerta com a rumba, calypso, ritmos do Caribe, jazz, diversas fontes da música negra e uma gama de ingredientes ligados ao caldeirão cultural de New Orleans. Foi dessa mistura que nasceu o funk norte-americano, por exemplo. O resultado de tudo isso é que o repertório incorpora um alto astral absurdo.

22h35min, abertura com versão funkeada de "Hoochie Coochie Man" (Willie Dixon), espelhada na releitura de Freddie King, com apenas Luciano Leães & The Big Chiefs no palco, eis uma brilhante preliminar com suingue próprio, pifando um gingado que nunca abandonará o palco ao longo dessa noite. E quando Leães anuncia a entrada triunfal de Tom Worrell, o público o ovaciona, com o pianista retribuindo o carinho e fazendo reverência a audiência.

Foto: Pablito Diego
A sequência inicial rende homenagem a Longhair - "Don't It", "Her Mind Has Gone", "She Walks Right In" e "Big Chief", abecedário básico para entender o idioma original do piano blues. "Eu nunca vi alguém tocar as canções do 'Professor' como Tom Worrell. Durante as apresentações, por exemplo, ele canta frases que não estão nos discos, pois frequentemente Longhair alterava várias letras de músicas durante os shows. Até a ordem do setlist reverencia essa atuação. Considero Tom o maior propagador desse legado e também o mais autêntico", diz Luciano Leães, denotando a posição do norte-americano dentro do cenário em que atua nos Estados Unidos.

Foto: Pablito Diego
Antes de tocar "Classified", Worrell fala que temos um especialista em James Booker no palco. O desaparecimento precoce em 1983, com apenas 43 anos, não impediu que Booker continuasse inspirando músicos nos quatro cantos do planeta. É o caso de Leães, que simplesmente parece absorver como uma esponja o estilo de James Booker, fazendo de "Classified" um dos momentos mais empolgantes da noite. Brilhante divisão das teclas e alternância de solistas, com o martelar do NORD 5D de Leães soando como um diabólico Hammond B3. Destaque para a balanço fácil da banda, com o baixista Edu Meirelles tendo extremas dificuldade para se livrar do sorriso do rosto - "Com um repertório desses é impossível esconder a felicidade", declara ao final do show.

Foto: Pablito Diego
"Such A Night" (Dr. John), uma canção que exala a malandragem velhaca da cidade mais musical da Louisianades, sempre esteve entre minhas pérolas preferidas da Arca Mágica de Nola, rutila autêntica na voz de Worrell. Em "Sugar Coaded", um daqueles temas repassados por dezenas de bluesman, rememoro o falecido Lazy Lester (vi o gaitista tocando ao vivo essa música em 2014, leia AQUI). Caetano Santos dá lugar ao guitarrista santa-mariense Paulo Noronha (Kingsize Blues), um dos maiores batalhadores da cena local ligada ao blues.

Foto: Pablito Diego
"501 Boogie" é puro bate-bola entre Leães e Worrell, com o saxofonista Ronaldo Pereira abrindo sua caixa de ferramentas. Luciano Leães salta de sua cadeira e promove a lendária e já tradicional performance a quatro mãos, numa empolgante demostração do talento de ambos, colegas de profissão, irmãos de som e dupla imersa na mesma confluência musical. Certa vez, Tom Worrell disse a Patricia Byrd, filha de Longhair, que em alguns momentos, enquanto toca, ele sente a presença do músico no palco. Talvez essa sensação tenha retornado a bater na sua porta em "Tipinina" - "Tom não só domina a técnica do meu pai, ele é um pianista incrível, além de ser um dos músicos que imensamente se esforçam para manter esse legado vivo. Quando o assisto tocando, muitas vezes me vejo tomada de lágrimas, tanto que preciso me retirar em algumas apresentações. Eu vejo meu pai na maneira como ele toca", reforça Pat Byrd ao autor desse review.

Foto: Pablito Diego
A catarse se materializa concretamente em "Paint It Black", quando a versão instrumental de Worrell, simplesmente alitera, subverte e desconstrói a sólida imagem da composição original dos Rolling Stones. Há flertes com o lado psicodélico da força, as vezes batendo no bop, riscando de leve no free jazz, com o sax de Ronaldo Pereira protagonizando essa encarnação. A despedida vem com "Red Beans & Rice", fechando perfeitamente o ciclo de reverência a Longhair, e mais um extrato do talento de Tom Worrell como um dos Santos Protetores da música de New Orleans.     

Foto: Pablito Diego
"Temos um ditado local: 'pianistas raramente tocam juntos', no entanto,  se eu pudesse realizar um desejo em meu coração, gostaria muito de ver meu pai e Tom tocando juntos. Seria um dos maiores concertos que Nola já testemunhou", invoca Pat Byrd. Fica a certeza de que os bem-vindos fantasmas musicais do piano blues orleanense deram uma passeada pelo Memorabilia Blues no Plataforma 85. Assistir Tom Worrell + Luciano Leães & The Big Chiefs ao vivo não deixa de ser uma experiência de pós-vida nesse legado - “É uma tradição que eu estou honrado em fazer parte, embora eu não tenha realmente escolhido representá-la, foi a música de New Orleans que me escolheu”, confessa o norte-americano. Como nos disse Pat Byrd - "Thank you Tom for FESS -N- UP AND KEEPING FESS LIFE AND LEGACY ALIVE".

Foto: Pablito Diego
O Memorabilia Blues no Plataforma 85 é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio: Radiadores Schiavini, Uglione, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial: Santa Madre. Apoio: Cabeça Arte, Gasoline Barber e Diário de Santa Maria. Roadie: Matheus OG. Som: Bolzan Áudio. Luz: Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa: Alfredo Giardin e Taís Streit.  Comunicação e cobertura fotográfica: Há Cena Cultural. Realização: Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos, em parceria com o Clube do Blues.

Foto: Pablito Diego






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Setlist Tom Worrel + Luciano Leães & The Big Chiefs - SM, Memorabilia Blues

Hoochie Cochie Man 
Don't It 
Her Mind Is Gone 
She Walks Right In 
Big Chief 
Classified 
Such A Night
Sugar Coated 
501 Boogie
Tipitina 
Paint It Black 
Red Beans & Rice  


Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

quarta-feira, 22 de maio de 2019

SLASH + MYLES KENNEDY & THE CONSPIRATORS - PORTO ALEGRE, 21 DE MAIO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

É óbvio que grande parte das pessoas que vieram nesta terça-feira (21) até o Pepsi On Stage em Porto Alegre estão em busca de resquícios do Guns N' Roses. Em torno das 17h30, filas consideráveis se formam no entorno do evento, assim como as camisetas com 'Armas e Rosas' proliferam por todos os lados. Afinal, Slash, o inglês mais americano do rock, 53 anos bem vividos, e o grupo que o tornou uma lenda, fazem parte do universo do rock como uma de suas castas mais valorizadas.

E os números do Guns são superlativos. Após nova reunião da banda, o grupo esteve na estrada por dois anos, varrendo os quatro cantos do planeta na mega-bem-sucedida turnê "Not in This Lifetime". O tour passou por América do Norte, América do Sul, América Central, Ásia, Oceania e Europa, num toral de 156 concertos. De 1 de abril de 2016, no Troubador em West Hollywood, até 8 de Dezembro de 2018, no Aloha Stadium, em Honolulu, no Havaí. Porto Alegre recebeu a turnê "Not in This Lifetime" em 8 de novembro de 2016, com o Beira-Rio lotado (leia review AQUI).

Foto: Pablito Diego 
Estima-se que Slash já tenha colaborado com mais de cem artistas, isso além do que realizou com GnR, Slash's Snakepit, Velvet Revolver e com a atual banda. Não há dúvidas, estamos falando de um dos homens mais ocupados no ramo do rock and roll. E pra que se tenha uma ideia de como o guitarrista é um legítimo working man, entre brechas da digressão seu novo 'álbum solo' foi gravado, para logo depois se juntar a Myles Kennedy & The Conspiratours e dar início ao "Living The Dream Tour" em 11 de setembro de 2018, dois meses antes da  "Not in This Lifetime" chegar ao fim. Haja fôlego! E desde lá, foram quase 50 shows até o músico novamente tocar o solo gaúcho, dois anos e meio após a última estada por aqui.

Foto: Pablito Diego
No terreno pessoal, Slash também vive um momento de maturidade. Livre das drogas pesadas, uma de suas nefastas marcas pessoais no auge do GnR nos anos 1980/90, essa lucidez também pode ser refletida em vários âmbitos em sua vida pessoal/carreira: "Enquanto Axl se apegou em briguinhas e birras, Slash se dedicou a evoluir e evoluir muito", disse Marielle Flores, fã que estava entre os cerca de quatro mil presentes na noite gaúcha do "Living The Dream Tour".        

Essa evolução também pode ser vista a olhos vistos quando ele se une ao seu parceiro favorito no crime, Myles Kennedy (vocal), além da companhia de Frank Sidoris (guitarra base e vocais de apoio), e dois músicos canadenses - Todd Kerns (voz principal em duas músicas, baixo e vocais de apoio) e Brent Fitz (bateria). Juntos, já gravaram "Apocalyptic Love" (2012), "World on Fire" (2014) e "Living in the Dream" (2018), álbuns que formam a base do atual tour.

Foto: Pablito Diego
21h, Som no palco, luzes azuis sinalizam o início do espetáculo. Sem depender de telões, truques cenográficos ou adereços, a primeira bola de fogo advém do último álbum da banda, "The Call of the Wild". No palco, Slash, a lenda - o homem com uma Les Paul, o anel caveira e sua inseparável cartola. O guitarrista entrega ao público o retrato iconizado de sua persona artística - 'óculos Ray-Ban espelhado, o piercing no nariz, os cabelos escondendo traços de suas expressões' - o texto que escrevi em 2016 no show do GnR em PoA não precisa ser reescrito. Enquanto isso, Myles Kennedy ronda o palco e ocupa todos os espaços possíveis, apesar do foco principal obviamente estar sempre no guitarrista.

Foto: Pablito Diego
Uma baita sacada de Slash foi escolher Myles como o frontman de sua banda. O ex-professor de guitarra, é respeitado não apenas por sua invejável extensão vocal - "A abordagem de Jeff Buckley me ajudou a aceitar o fato de que eu era um tenor. Devo muito a ele", disse em entrevista recente. Essa veia fica exposta já em "Halo". da mesma maneira em que percebemos uma banda que vive o seu melhor momento. Não se pode negar, Myles Kennedy está no front da atual linhagem dos vocalistas de rock, e além de suas atribuições como cantor, estamos falando de um grande performer. Veja o desenho de sua atuação na falsa balada "Shadow Life" e entenda essa afirmação.

Foto: Pablito Diogo
A versão ao vivo de "Back From Cali" é o ponto do alto do início da apresentação, instante exato em que a audiência deixa o deslumbramento de lado e revela que também está pronta para cantar os refrões. Esse mesmo coro da plateia retorna afiado em canções como "Mind Your Manners" e "World On Fire". O som cru da guitarra de Slash brilha no início de "Serve You Right", assim como ganha toneladas de volume em "Boulevard of Broken Hearts". O solo de "Wicked Stone" é interminável, uma performance que alcança cerca de 10 minutos de execução, para alegria de qualquer amante da guitarra.

Foto: Pablito Diego 
Quando Todd Kerns incumbe-se dos vocais em "You're All Gonna Die" e "Doctor Alibi", uma energia contagiante toma conta do Pepsi. Como voz substituta de Iggy Pop e Lemmy Kilmister (intérpretes na gravação original de 2010), o baixista assume a liderança provisória das ações. O multi-instrumentista está acostumado a esse protagonismo, pois Todd já dividiu o tablado com nomes como Alice Cooper, Rick Nielsen, Duff McKagan, Sammy Hagar, entre outros, além de assumir a encarnação de Paul Stanley na banda tributo Black Diamond Kiss (veja AQUI). Ah, Brent Fitz toca bateria na mesma banda.

Foto: Pablito Diego
Myles retorna com o (quase) blues "The One You Loved Is Gone", mesmo instante em que Slash surge com sua guitarra de dois braços (double neck) a lá Jimmy Page, aumentando a temperatura ainda mais com canções como "Driving Rain" e "By The Snow". Esse é uma das constatações determinantes do atual tour - Slash não precisa mais recorrer aos temas do Guns e do Velvet Revolver para montar um setlist, ele já tem canções de sobra para constituir um repertório que represente seu legado solo fora desse círculo vicioso, saindo de uma zona de conforto que muitos permaneceriam o resto da vida - "Gosto do lugar onde o rock está atualmente, em que o pop contamina todos os gêneros com seu filtro. O rock é a ovelha negra, e quem está tocando rock atualmente o faz pela paixão. É a primeira vez em muito tempo que não há dinheiro, não há fama, só o amor pela música", disse ao jornalista Gustavo Foster (ZH).

Foto: Pablito Diego
Ok, esquecendo os idealismos, dá pra tocar apenas uma do GnR? Slash se aproxima do amp, aumenta o volume de seu instrumento, e a resposta vem com "Nightrain", rolo compressor/sonoro que Axl e sua trupe sempre utilizaram como um dos clímax das apresentações nas grandes arenas ao redor do mundo. Na sequência, para sepultar de vez essa lembrança (se é que isso é possível), "Starlight" é a prova viva de que Slash já é um hitmaker do rock, naquela que, convencionalmente falando, talvez seja sua melhor canção 'solo' até hoje. Ao vivo, quase 10 anos após a gravação original, o desempenho de Myles Kennedy soa ainda mais cristalino. Nada como o tempo para amadurecer algumas músicas...

Confira "Starlight" ao vivo, um dos retratos mais positivos do "Living The Dream Tour"



Detalhe: tanto a voz de Myles quanto a guitarra de Slash em alguns momentos carecem de definição/volume, importante componente, mas que não chega a prejudicar o resultado final daquilo que ouvimos. Positivamente, é preciso ainda destacar os ótimos vocais de apoio de Todd Kerns, um daqueles músicos que colocam uma energia fantástica naquilo que produzem no palco, e isso sempre faz a diferença.
   
Foto: Pablito Diego
Chegando ao final da noite, "World on Fire" é também utilizada para as apresentações da banda, com destaque para o solo de bateria de Brent Fitz (eu detesto esses solos!). Até nesses momentos performáticos, temos a revelação de um grupo maduro, pois, tudo certo quando em cerca de apenas um minuto podemos concluir que Fritz é um grande baterista. Depois de um breve intervalo, a banda retorna para o encore com "Anastasia", um riff, que segundo muitos, rivaliza com "Sweet Child O Mine". Exageros a parte, temos a mesa posta para um final digno, após 2h10 de espetáculo, eis o retrato de uma formação que está pronta para alçar voos maiores. Após o show em Lisboa, em 15 de março, o guitarrista Frank Sidoris publicou em suas redes: "70 dias, 35 shows, 22 países, (apenas) 13 dias de folga, 48 mil milhas viajadas". O tour sul-americano nem havia começado... 10 show depois dessa postagem, os números só continuam a aumentar. 

Nossos agradecimentos a Hits Produtora pelo suporte e credenciamento. Agradecimento especial Myllena Ribeiro (Hits).

Slash - Setlist Porto Alegre

The Call of the Wild
Halo
Standing in the Sun
Apocalyptic Love
Back From Cali
My Antidote
Serve You Right 
Boulevard of Broken Hearts
Shadow Life
We're All Gonna Die - Todd Kerns on lead vocals
Doctor Alibi - Todd Kerns on lead vocals)
The One You Loved Is Gone
Wicked Stone
Mind Your Manners
Driving Rain
By the Sword
Nightrain
Starlight
You're a Lie
World on Fire

Bis:

Anastasia

Foto: Pablito Diego 


Foto: Pablito Diego 



Foto: Pablito Diego 

Foto: Pablito Diego 

Foto: Pablito Diego 

ÚLTIMA COBERTURA:

ANTHONY 'BIG A' SHERROD - SANTA MARIA, 27 DE JULHO DE 2019

Foto: Pablito Diego Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego ( Há Cena ) Por mais que haja um romantismo literário na palavra blues...