quinta-feira, 14 de março de 2019

SAXON - PORTO ALEGRE, 13 DE MARÇO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Quem gosta de rock e viveu no Planeta Terra no finalzinho dos anos 1970, primeira metade dos anos 1980, certamente sabe a chapoletada que todos nós levamos com o New Wave of British Heavy Metal. Tempos em que bandas como Iron Maiden, Def Leppard, Saxon, entre outras, venderam milhões de álbuns, além de reconfigurarem a cena musical naquele período. Surgida entre o vácuo do movimento punk, na esteira da decadência dos grupos setentistas, o NWOBHM não apenas revigorou o gênero, houve principalmente uma clara evolução do metal como estilo, empréstimos de novas plasticidades, além de uma necessária renovação no cenário musical. Dentro desse contexto, com shows lotados, assédio dos fãs e da imprensa, o Saxon foi um dos pivôs do sucesso forjado pelo gênero naquele período. 

Foto: Pablito Diego
Em cinco anos, cinco álbum foram registrados pelos ingleses, sendo que quatro deles viraram clássicos do rock mundial. Depois de uma estreia equivocada com um álbum homônimo, principalmente por uma produção desalinhada - "Wheels of Steel" (1980), "Strong Arm of the Law" (1980), "Denim and Leather" (1981), "Power & the Glory" (1983) e "Crusader" (1984), tornaram-se LPs indispensáveis em qualquer boa coleção de rock pesado. Milhões de cópias foram vendidas e de lambuja o grupo colocou nas prateleiras um álbum 'live' que quase furou de tanto girar nos toca-discos da molecada. Conheço cada virada de sulco de "The Eagle Has Landed" (1982), primeiro LP ao vivo lançado pela banda. As canções foram gravadas um anos antes de seu lançamento, no lendário Hammersmith Odeon (atual Hammersmith Apollo), em Londres, e encapsulam o Saxon num dos melhores momentos de seus anos iniciais. Trata-se de um disco fundamental para emaranhar-se no espírito musical daquela faixa de tempo. Tão importante, que essa mesma performance ainda baliza parte do que veremos na noite desta quarta-feira (13) em Porto Alegre. 

Foto: Pablito Diego
Em sua sétima passagem pelo Brasil (as anteriores foram em 1997, 1998, 2002, 2011, 2013 e 2018), essa é a primeira vez do grupo no RS. No ano em que o quinteto relembra os 40 anos de seu primeiro álbum, nada melhor do que retornar ao espectro daquele período mágico para celebrar o suprassumo do repertório dos ingleses. Não podemos dizer que o banda inglesa permaneceu fora do caminho do sucesso nas décadas seguintes, mesmo que saibamos que o Saxon desceu a lomba na direção contrário do Iron Maiden, já que com "Powerslave" Steve Harris e seus comandados chegaram ao topo mundial do heavy metal mundial. Quase na mesma época, o Saxon declinou. Mesmo assim, eles sobreviveram!

Foto: Pablito Diego
Balançando com eventuais trocas de personagens e algumas bolas fora, dá pra afirmarmos que no decorrer dessa trajetória houveram muitos acertos e consecutivas reinvenções no corpo sonoro dos álbuns. Entre os destaques pós anos 1980, nos anos 1990 o Saxon crava trincheiras importantes com "Solid Ball of Rock", ganha novos fãs com o excepcional "Dogs of War" (1995), e no final daquela década, "Metalhead" (1999) revela um grupo que teima em continuar conectado ao melhor do rock pesado. Mais recentemente, "Lionheart" (2007), considerado por muitos uma obra digna de figurar ao lado de qualquer disco clássico da banda, é uma sequência evolutiva de "Crusader", #onehitalbum que parcialmente o inspirou.         

Foto: Pablito Diego
Retornando aos dias atuais, "Thunderbolt" (2018) é o trabalho que mantém o Saxon como ponta de lança da velha guarda remanescente no heavy metal atual. E o mais importante: eles estão comendo a bola na estrada - em 2018, foram 83 apresentações. O show no Opinião já é o 16º do ano sob o comando de Biff Byfford (vocal), 68 anos, e Paul Quinn (guitarra), 67 anos, os únicos remanescentes da formação original. Também no time, o baterista Nigel Glockler, nas fileiras da banda desde 1982. Entre idas e vindas, desde 2005 Glockler, 66 anos, fixou território como comandante das baquetas. Já Nibs Carter (baixo), 52 anos, completa exatas duas décadas de atuação no grupo. E por último, Doug Scarratt (guitarra), 59 anos, é membro da banda desde 1995. Em suma, essa é uma das formações mais estáveis do  Saxon.

Foto: Pablito Diego
A APRESENTAÇÃO - 21h em ponto, o show começa com "Thunderbolt", faixa que dá nome ao tour e também demarca o retorno do Saxon ao melhor status da banda - riffs de guitarras, a poderosa voz de Biff proferindo com propriedade o velho heavy metal encardido que os fãs nunca se cansam de ouvir. "Cerberus no submundo / Guarda os portões do inferno", o Saxon retorna a utilizar a consagrada cartilha ao qual o som pesado se debruçou nos seus tempos gloriosos. E dá pra perceber que o tema já está na boca do povo. "Sacrifice" segue na mesma via da clássica abordagem saxônica, com destaque para o agudo final de Biff, uma demonstração de que o frontliner continua afiadíssimo como ícone da resistência no gênero - um velho general que ainda sabe comandar o seu exército.

Foto: Pablito Diego
Talvez alguns não saibam, mas as próximas três músicas que iremos ouvir praticamente definiram o New Wave of British Heavy metal. De todo modo, Biff avisa que lá vem chumbo grosso pela frente. Dough Scarret abre um sorriso, coloca o pé no PA e dispara o riff destruidor de "Wheels of steel", simplesmente um dos maiores hinos do culto a estrada e a velocidade: "Quando coloco meu pé no acelerador / Não há como olhar para trás". O tema sempre foi um dos instantâneos catárticos das apresentações do Saxon, um exemplo de como o som da banda flerta diretamente com o classic rock. Em 2019 'Wheels' ressoa ainda mais pesada (Talking 'bout my wheels of steeeeel!!!). A truculência policial é o tema de "Strong arm of the law", com a camada de guitarras provocando um trovoar impressionante pela parede de amplificadores Marshall que compõem o backline da banda. Craque na arte de arquitetar hinos de louvor ao heavy metal, "Denin & Leather" novamente ganha o coro de cerca de 1.000 espectadores. A levada de bateria de Nigel Glockler é acompanhada por palmas, com o saltitante Nibbs Carter, no baixo, escalando os monitores e incendiando a massa, mas sempre retornando a tempo frente ao microfone, bem no exato instante a colocar seus vocais de apoio nos refrões.

Foto: Pablito Diego
Cultuadores da temática anglo-saxã ligada a idade-média, "Battering ram", faixa do álbum homônimo lançado em 2015 é uma porrada sonora que mostra a força de algumas canções mais recentes do grupo. Um momento esperado (pelo menos para esse fã aqui) é "Rainbow Theme/Frozen Rainbow" e "Backs to the Wall", ases do álbum de estreia da banda lançado a exatos 40 anos. Tudo soa ainda melhor ao vivo, revigoradas por um arranjo que sopra novo viço aos temas. Impressionante assistir o veterano Glocker demolindo as peles e articulando viradas espetaculares com rara habilidade para um músico sexagenário na posição de baterista. 

"They played rock and roll", uma homenagem de Biff ao amigo Lemmy do Motorhead, dropes do trabalho mais recente, poderia ser um instante de baixa da noite, no entanto, sua execução cresce horrores ao vivo. "Power and the Glory" recoloca toda a massa pra sacudir o esqueleto. Trata-se de uma valorosa peça no tabuleiro da banda. Novo show particular de Glockler.

Foto: Pablito Diego
Chega o momento da turnê em que Biff conversa com o público e deixa que a audiência defina a próxima canção a ser executada. A escolhida é "Ride Like the Wind", música que dá nome ao álbum de 1988, uma releitura de Cristopher Cross que se na época soou como bola fora, mas hoje reluz melhor do que nunca. É o próprio público que nos dá essa resposta, cantando o refrão em uníssono. "Broken Heroes" está alinhada nessa mesma via, perfilada no pior dos álbuns do Saxon, "Innocence Is No Excuse" (1986), LP que marca o absurdo declínio da banda após seus anos de glória. É engraçado como o tempo pode jogar a favor de certas canções. Biff canta macio, a banda baixa a crista e a dinâmica de uma semi rock ballad de peso se impõe no palco do Opinião.   

Foto: Pablito Diego
E aí vem "Motorcycle Man", uma das músicas em que a marca registrada dos guitarristas do Saxon é carimbada. Vêm a tona a parceria forte entre Paul Quinn e Doug Scarratt, invariavelmente dividindo base e solos, sempre precisos nas suas construções rítmicas. Um dos maiores hits do Saxon, "747 Strangers in the Night" foi também uma das primeiras músicas a colocar a NWOBHM nas rádios inglesas, o que obviamente sedimentou a afirmação do movimento. Mais pesada e mais rápida, no entanto ainda fiel a original gravada em 1981, dá pra perceber a comoção tomando conta do bar. No intervalo entre uma canção e outra, Biff autografa alguns LPs e novamente estreita o contato com os fãs. Ele é o cara e a cara da banda.

Foto: Pablito Diego
Falando em emoção, quando "The Band Played On" é reconhecida pelo amigo Alfredo Giardin, fã do Saxon há mais de 30 anos, ele não segura a emoção e as lágrimas desabam de seus olhos. A música, com letra escrita por Biff, retrata a comoção do Saxon ao se apresentar pela primeira vez no Festival Monsters of Rock, em Donington Park, Leicestershire, Inglaterra (1980). É também o maior hit da banda em todos os tempos (chegou a 12ª posição nas paradas britânicas) e emana o espírito de irmandade que muitas vezes se forja nos festivais e eventos de rock. Essa mesma vibe foi um sentimento permanente no Opinião, aquele sopro de ar puro de que todos estão torcendo para o mesmo 'time', um tipo de reunião em que a irmandade impera. Poucos eventos conseguem polinizar essa impressão. Bem, nos shows de metal frequentemente tenho essa sensação. Pode chorar Alfredo...

Foto: Pablito Diego
"Lion heart", homenageia Ricardo Coração de Leão,  Rei da Inglaterra conhecido por sua grande reputação como guerreiro e líder militar. Uma canção épica com a autêntico digital saxônica, e que ao vivo, cresce absurdamente. Um fã bem em frente ao palco grita: "Dallas!", em referência a "Dallas 1PM", Biff responde amassando e comendo o setlist. O senso de humor do cantor inglês é um dos pontos altos da noite. Biff está a fim de jogo. Contrariando o pedido, "To Hell and Back Again" é outro dos temas em que a parede de guitarras nos atropela. Biff pisca o olho de pirraça e dá ok para "Dallas 1PM", eterna reflexão sobre a morte de John Kennedy, com destaque para toda a climática inicial da cozinha baixo/batera, além do dramático emaranhado de riffs dos guitarristas.


Foto: Pablito Diego
"Crusader" é Saxon em sua essência mais genuína. "Estamos marchando, para uma terra distante / Ninguém pode garantir se um dia voltaremos para casa / Em nome do Reino Cristão, é hora de nossa vingança contra os pagãos do leste". Assim os anglo-saxões ajudaram a perpetuar o velho tema de saquear e matar em nome de Deus, simbolizado na figura do resignado soldado que está pronto para encarar a morte. Estamos também no momento mais emotivos da apresentação, átimo em que vários fãs teimam em esconder as lágrimas dos olhos. Breve intervalo para receber uma nova ovação do público, o quinteto retorna e rapidamente "Heavy Metal Thunder" explode pelo Opinião. Talvez muitos não saibam, mas o termo heavy metal advém da cultura motociclista norte-americana, terminologia que influenciou o escritor William Burroughs a documentar a expressão em "Naked Lunch", um de seus mais famosos livros. Temos um dos instantâneos mais impressionantes da noite. Se o penteado foi pro saco e o cabelo está encharcado de suor, pelo menos a voz de Biff nunca oscila, sempre no talo, da mesma forma que ouvimos nos discos.

Foto: Pablito Diego
"Never Surrender" é um riff esmagador que simplesmente define o som da banda, a "Não Podemo Se Entregá Pros Home" do metal, um rolo compressor sonoro que nos leva ao melhor do som pesado inglês. Quer um epílogo perfeito? Então libera a autoestrada para "Princess of the Night", ode a vida sobre duas rodas e emblema de uma das maiores paixões do grupo: o culto ao motociclismo. Um show para ficar na história de nossas vidas. Nada pode ser mais rejuvenescedor do que um dia de férias no universo do rock. Que os saxônicos permaneçam por aí, por muito mais tempo. Precisamos de mais doses desse elixir da juventude. Só o heavy metal salva...

Nossos agradecimentos a Abstratti Produtora pelo suporte e credenciamento. Agradecimento especial Homero Pivotto Jr (Abstratti).

Veja a performance de "Princess of the Night". Captação Pablito Diego (Há Cena).     




Setlist Saxon - Porto Alegre

Thunderbolt
Sacrifice
Wheels of Steel
Denin and Leather
Strong Arm of The Law
Battering Ram
Rainbow Theme/Frozen Rainbow
Backs to the Wall
They Played Rock and Roll
Power and The Glory
Ride Like the Wind
Broken Heroes
Motorcycle Man
747 (Strangers in the Night)
And the Band Played On
Lionheart
To Hell and Back Again
Dallas 1PM
Crusader

Bis

Heavy Metal Thunder
Never Surrender
Princess of the Night     


Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

quarta-feira, 13 de março de 2019

WEE WILLIE WALKER - SANTA MARIA, 12 DE MARÇO DE 2019

Willie Walker. Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Toda a criatura que existe sob o sol, tudo que se arrasta, voa e nada - tem um ritmo próprio. E assim se faz a peculiar musicalidade de cada ser. Quiz a natureza das coisas que o homem fosse o mais musical dos seres, e entre os escolhidos dessa casta, alguns artistas parecem abençoados por algo deífico. No palco, sob às luzes, ele olha a plateia nos olhos, sorri, ginga o corpo no ritmo da banda, estufa o peito e com uma natural emissão sonora parece esculpir o ar. Assim, manipula sons com contornos absolutamente perfeitos. Eu falo da voz de de um cantor especial, dotado de um invisível aparato melódico assestado para nos maravilhar.

Foto: Pablito Diego
Essa reflexão me toma de assalto quando ouço "A Change Is Gonna Come" pular da garganta de Willie Walker direto para os nossos ouvidos. O pequeno grande homem é o responsável pela feitiçaria disfarçada pelas cores vivas do blues e do soul, resultando num espetáculo imperdível que acontece nesta terça-feira 12 de março de 2019, e acreditem - aqui em Santa Maria (RS), essa cidade aparentemente esquecida pelo Criador. Fácil reparar nos diversos rostos espalhados pelo bar e encontro arrebatamento em cada face semi-iluminada. Ah, você não estava por lá? Sem problemas, posso contar algumas coisas que vi e senti ao longo da noite...

Foto: Pablito Diego
Depois do première com Luciano Leães + Kingsize Blues no último dia 28 (leia review AQUI), o Memorabilia Blues no Plataforma 85 (Gare da Estação Férrea, anexo ao Mercado Público) preconiza sua estreia internacional. Noite para assistir ao show do cantor norte-americano, artista e repertório que representam o autêntico espólio do Memphis Soul - ou Memphis Sound - tradicional linhagem do Southern Soul. Trata-se de um estilo que ganhou as paradas de sucesso nos anos 1960/70, impulsionado principalmente pela Stax, gravadora sediadas em Memphis, Tennessee. Quem diria que no ressurgir do século seguinte o Memphis Soul estaria mais vivo do que nunca!? 

Foto: Pablito Diego
Explicando um pouco melhor, Memphis é o lar de um dos primeiros nomes fonográficos do blues, W.C. Handy, berço artístico de Memphis Minnie, Frank Stokes e Joe McCoy. Pós Segunda Guerra a cidade brilhava ao som de BB King, Rufus Thomas, Big Walter Horton, Howlin' Wolf, Bobby "Blue" Bland, Little Milton, Ike Turner e muitos outros. Nos anos 1950, o som de Memphis definitivamente alterou a curva da música pop mundial, pois de lá saíram Elvis Presley, Johnny Cash, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Chuck Berry, até então estrelas emergentes da Sun Records. E enfim, com a Stax vieram Wilson Picket, The Bar-Keys, Otis Reding, Booker T. & the MG's e Albert King. Dá pra sacar por que o som de Memphis é importante para a música pop? 

Foto: Pablito Diego
Willie Walker atua nesse contexto, ainda jovem começou a carreira performando nos grupos de doo-wop e cantando pelas esquinas da Beale Street. Por mais que durante esse período mágico o sucesso tenha apenas arranhado bem de leve a sua porta, após uma longa ausência fora dos palcos, o cantor conseguiu se reinventar e ressurge nos dias de hoje como uma das genuínas vozes desse importante legado da música estadunidense. Depois de sua primeira vinda ao país em 2014, Willie voou alto - gravou três álbuns e praticamente não parou mais de trabalhar. Nessa elevação de nível, gravando discos, uma janela imensa se abriu. O veterano soulman é novamente um dos indicados ao Blues Music Awards de 2019, o Grammy do Blues, na categoria Best Blues Male Artist, mesma premiação que também estão relacionados nomes como Buddy Guy, Kenny Neal e Ben Harper. Com mais quatro indicações, seu último álbum, "After While", é destaque na premiação acontece no próximo dia 9 de maio, em Memphis. O cutuque de muitos é que desta vez ele leva o troféu pra casa.

Foto: Pablito Diego
Walker chega a Santa Maria após 10 apresentações no país, a segunda com essa formação. São eles - o guitar hero do blues nacional, Igor Prado (guitarra), o fenomenal das teclas Luciano Leães (piano), e aquela cozinha de respeito - Edu Meirelles (baixo) e Ronie Martinez (bateria). E a apresentação começa assim, em quarteto, sem Willie no palco. Dois temas instrumentais apresentam armas - em cena, breves demostrações de que a banda base não atua apenas no quesito da coadjuvação.  O show esquenta, e sob uma chuva de aplausos, Willie lentamente se aproxima das luzes. Terno dourado, tons e sobretons, vestido 'de ouro' da cabeça aos pés. Além de ser 'a voz' do soul, Willie Walker distribui simpatia e simplicidade. Na mão, uma taça de DomecQ, sua bebida preferida - aos 77 anos, bebe conhaque e fuma um Marlboro atrás do outro (autografa CDs e tira fotos no camarim com um cigarro entre os lábios). No palco, permanente intercâmbio com a banda claramente o inspira. Ao decorrer do espetáculo, muitas vezes ele ri alto, uma risada engraçada que também pontua suas tiradas fora do palco. Willie é naturalmente divertido, e essa atuação não é uma performance.   

Foto: Pablito Diego
No repertório, algumas de suas composições miscigenadas a clássicos do soul, músicas que todos nós nunca cansamos de ouvir. E claro, o blues também bate cartão. Epítomes como "Thrill is Gone" (BB King) e "Body and the Fender Man" (Johnny Adams), releituras que revelam abordagens classudas, aquela forma de cantar que só os grandes traduzem aos mortais. Porém, quando caminha em direção ao soul, entendemos a alcunha de Rei do Memphis Soul. Nascido em Hernando, no Mississippi, Willie construiu sua trajetória no rastro do legado de Memphis, e ouvi-lo ao vivo é como vê-lo incorporado ao imaginário desse espólio musical. Canções como "Let's Stay Together" (Al Green) e Knock On Wood (Otis Redding), além da já citada "A Change is Gonna Come" (Sam Cooke) roubam nossos corações para sempre. No entanto, em cerca de 1h30 de apresentação, nada se equivale a fenomenal versão de "Cry to Me" (Solomon Burke), inesquecível e brilhante retrato de uma noite praticamente perfeita.

Veja o vídeo de "Cry to Me". Captação Pablito Diego (Há Cena).



Todos nós que gostamos de blues, soul, e como arqueólogos do som em constante busca pelos últimos resquícios da legitimidade da velha escola da música negra norte-americana, nos curvamos. Solenemente, ou não, nos vergamos sobre à sombra dos derradeiros gigantes do gênero. Longa vida, Willlie! Poucas memórias serão tão extraordinárias quanto essa do dia 12 de Março.

Willie Walker encerra seu tour 2019 no Brasil com mais três apresentações - Mogi das Cruzes (14), Londrina (15) e São José dos Campos (16), quem sabe seus derradeiros shows antes da consagração como ganhador do Blues Music Awards em maio. Particularmente, fico na torcida pelo baixinho.

Foto: Pablito Diego
O Memorabilia Blues no Plataforma 85 é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio - Uglione, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial Santa Madre Cervejaria. Apoio - Cabeça Arte, Depra Barber Club e Diário de Santa Maria. Som - Bolzan Áudio. Luz - Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa - Alfredo Giardin e Taís Streit.  Comunicação e cobertura fotográfica Há Cena Cultural. Realização Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos.     

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

ED SHEERAN - PORTO ALEGRE, 17 DE FEVEREIRO DE 2019

Fotos: Ton Muller
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Review Márcio Grings c/ Camila Gonçalves Fotos Ton Muller  

Dez mil quilômetros. Essa é a distância que separa o cantor e compositor Ed Sheeran de Londres. Neste domingo, 17 de abril de 2019, o músico britânico celebrou na capital gaúcha seu aniversário. Mesmo tão longe de casa, o garoto prodígio está entre os seus. Afinal, em sua primeira vez no RS, quarenta mil vozes incessantemente oferecem demonstrações de que ele é muito bem-vindo. "Hoje faço 28 anos. Muito obrigado por estarem aqui. Nunca fiquei tão distante de casa em meu aniversário, e eu estou muito feliz de estar entre vocês celebrando", disse a atenta audiência logo no início da apresentação.

Confira um breve trecho do início da apresentação em Porto Alegre. Captação: Ton Muller

Considerado como uma das salvações da nova safra da indústria fonográfica mundial, Ed Sherran vive um dos melhores momentos de sua careira. Quer um exemplo? No Reino Unido, o álbum “Divide” (2017) respondeu por mais de 10% das vendas de CDs, isso apenas durante o período de seu lançamento. Outro dado impressionante é que 25% dos compradores não haviam adquirido um único CD no ano anterior. A mais lucrativa das pérolas da Asylum Records, não foi apenas responsável por mobilizar 250 mil consumidores a retornarem ao mercado da mídia física. Ed ainda se dá muito bem na estrada... Segundo o instituto Pollstar, o “Divide Tour” é também a mais lucrativa digressão dos últimos trinta anos na história da música pop. Apenas por esses dois fatos ele já mereceria nossa atenção.
    
Foto: Ton Muller
E como fruto de uma geração acostumada a joysticks, smarthphones e jogos tecnológicos, no palco, o cantor abusa de seus pedais de efeito e loops, quando mostra uma invejável habilidade em gravá-los instantaneamente, sincroniza-los, e assim, fabricar no ato inúmeras camadas sonoras e vocais. Como escudo instrumental, Sheeran precisa de apenas um violão ou guitarra. Acima, lateralmente e atrás dele, os telões, distribuem cores e imagens que lembram filtros do Instagram.  Se daqui alguns anos os sidemen (músicos que acompanham os artistas no palco) forem dispensados de seus serviços, a culpa é de Ed Sheeran, esse jovem demônio individualista que multiplica riffs, ritmos e vozes.   

Foto: Ton Muller
É inegável, apesar de muito jovem, e inicialmente sugerir uma enganosa timidez, o inglês já pode ser considerado um artista experiente, acostumado as luzes e badalação. Tanto que, aos poucos, podemos perceber que ele fica cada vez mais a vontade em frente ao público. E sobram hits. A cada nova canção, um ensurdecedor delírio com acento feminino toma conta da Arena. O interessante é que quase metade do set retém canções do último álbum, mostra da força exercida na sua recente produção autoral. Temas como “Castle on the Hill”, “Dive”, “Eraser”, “Galway Girl”, “Nancy Mulligan”, “Perfect” e “Shape of You”, são marcas desse sucesso.  Algumas antigas, como no caso de “The A Team”, levam ao êxtase milhares de fãs. Antiga? Engraçado, constatação de que no Planeta Sheeran, dez anos podem parecer bem mais tempo. Outro destaque está “Love Yourself”, versão para uma música do muito menos talentoso Justin Bieber.

Foto: Ton Muller
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Aos fãs que nunca participaram de uma festa de aniversário com tantos convidados, a cereja do bolo fica por conta de um “Happy Birthday To You, Ed”, marca que certamente ficará impressa na lembrança do músico e de seus fãs. Próxima quarta-feira (20) o "Divide Tour" aporta em Montevidéu. Grings - Tours, Produções e Eventos agradece a LS8 Consultoria de Imprensa pelo suporte e credenciamento.

Setlist

Castle on the Hill
Eraser
The A Team
Don't / New Man
Dive
Bloodstream
Love Yourself
Tenerife Sea
Kiss Me / Hearts Don't Break Around Here / Give Me Love
Galway Girl
Wayfaring Stranger / I See Fire
Thinking Out Loud
One / Photograph
Perfect
Nancy Mulligan
Sing

Bis

Shape of You
You Need Me, I Don't Need You


Foto: Ton Muller

PASSENGER - PORTO ALEGRE, 17 DE FEVEREIRO DE 2019

Fotos: Ton Muller
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Review Márcio Grings c/ Camila Gonçalves Fotos Ton Muller

Okay, preciso admitir. Pra início de conversa, até poucos dias atrás, nunca ouvira falar de Passenger. Caso tenha ouvido algo, passou batido. Havia lido que certa banda inglesa chamada Passenger abriria o show de Ed Sheeran em Porto Alegre. De repente, no palco, surge um homenzinho barbudo vestido inteiramente de jeans. Apenas ele e seu violão. Antes de tocar um acorde apenas, relembro a tradição folk se materializando na minha memória. No entanto, onde afinal estará o restante do grupo?

Foto: Ton Muller
Na verdade, o nome do artista que pisa no palco da Arena é Michael David Rosenberg. Anteriormente à frente de um grupo chamado Passenger, com o qual gravou um álbum, Rosenberg resolve seguir em frente com esse mesmo nome, mesmo após a banda se dissolver em 2009. “Eu era muito novo. Eu tinha essas música e queria cantá-las. No entanto, não sabia como fazer isso”, contou, em entrevista ao The Washington Post. Na sequência, vieram mais dez álbuns - o último deles, "Runaway", foi lançado ano passado. Portanto, podemos afirmar  sem medo que esse músico de 35 anos está longe de ser um novato, além de ter se virado muito bem no mundo solo.  

Foto: Ton Muller
É fato: Passenger é muito bem recebido pelo público gaúcho. E tudo começa com a dylanista "Fairytales & Firesides", música do seu primeiro álbum solo, "Divers & Submarines" (2010). Já num segundo segundo momento, quando foge da eterna busca pela sombra de Bob Dylan, "Life's for Leaving" é aquele tipo de composição que nos deixa esperançosos. Outra pista de suas referências está na releitura de "The Sound of Silence" (Paul Simon), quando instantes antes de tocá-la, pede silêncio ao público. Trata-se de uma repaginação soberba, original e repleta de dinâmicas. Sua versão alterna suavidade e violência na batida de sua mão direita sobre as cordas do violão. Um dos melhores momentos da noite, quando novamente há claras reconexões ao ideário do autêntico songwriter norte-americano.  

Foto: Ton Muller
Já em "I Hate", surge aquele tipo de tema com refrão pegajoso, brecha propícia para promover uma ligação mais próxima com o público, algo que naturalmente já estava acontecendo e que exato naquele momento soa apenas como algo forçado. O prumo é assestado em "Survivors", uma das melhores canções de seu álbum mais recente, típica faixa que se encaixa em uma boa playlist ligada ao folk rock. "Suzane", novo tema ainda não gravado, foi revelado ainda na segunda metade do ano passado (há boas versões no YouTube, veja ESSA). Já "Let Her Go" é aquela música que você já ouviu por aí e não sabia dizer quem seria o dono da voz sussurrada. Sim, esse é o som que o público cantou tão alto que acabou por deixar o compositor com lágrimas nos olhos. Visivelmente emocionado, diz: "Eu compus essa música em 45 minutos. Nunca imaginei que se tornaria tão conhecida".  

Foto: Ton Muller
Em pouco mais de 30 minutos, Passenger encerra sua participação com "Scare Way the Dark", outra gema que define sua estética sonora, na trilha dos compositores melódicos, uma linhagem cada vez mais rara nos dias atuais. No coro, o público canta tão alto quanto cantaria alguns minutos depois. Novamente emocionado, o inglês se despede com um breve aceno. Em instantes, seu amigo Ed Sheeran pisaria no palco. O melhor da noite já havia nos sido entregue. Bem, pelo menos para um 'ancião' como eu, pois emaranhado em meio a tanta juventude, renovei minhas esperanças na música atual com esse sujeito. Ah, se você não viu ao show do músico inglês e mora em São Paulo, a boa notícia é que Passenger retorna ao país em março, dia 10, com show no Cine Joia. Grings - Tours, Produções e Eventos agradece a LS8 Consultoria de Imprensa pelo suporte e credenciamento.            

Setlist

Fairytales & Firesides
Life's for the Living
The Sound of Silence
I Hate
Survivors
Suzanne
Let Her Go
Scare Away the Dark  
    
Foto: Ton Muller

domingo, 2 de dezembro de 2018

BILL HOWL-N-MADD PERRY - SANTA MARIA, 1 DE DEZEMBRO DE 2018

Foto: Camila Gonçalves
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Por Márcio Grings Fotos Camila Gonçalves

Depois de assistir dois shows de Bill Hown-N-Mad Perry no Mississippi Delta Blues Festival, nos últimos dias 22 e 24 de Novembro, exatamente uma semana após o término do tradicional festival na Serra gaúcha, novamente cá estamos, bem em frente ao guitarrista do Norte do Mississippi. "Eu não sou seu típico bluesman", disse Perry a um entrevistador. "Sou casado há muitos anos, então eu não canto sobre amores perdidos e coisas do gênero. Todos aqueles sons que Muddy Waters e Charlie Patton tiravam de seus instrumentos, busco um pouco dessa influência e adiciono a marca da minha experiência como guitarrista". Ele colaborou com diversos artistas do gênero, e tardiamente acabou ganhando reconhecimento, igual a dezenas de seus conterrâneos e compatriotas. Nascido em Lafayette County, condado do Norte do Mississippi, o veterano atualmente vive em Abbeville, uma cidade com cerca de 400 habitantes. Hownl-N-Madd cresceu em uma família que já era e ainda é muito musical - a esposa, Pauline, e seus dois filhos, Bill Perry Jr e Shy perry, também são músicos. 

Foto: Camila Gonçalves
Bill Howl-N-Madd Perry não tem relação direta com o som acústico do Delta ou com a tradicional escola elétrica de Chicago, por mais que eventualmente os revisite em seus shows. Sua música subiu do Delta para as Colinas do Mississippi, revelando ao mundo nomes como R.L. Burnside, T-Model Ford e Junior Kimbrough, com quem diviu o palco há quase trinta anos. Buddy Guy, a maior lenda viva do gênero, compôs um álbum em homenagem a esse legado, o excepcional "Sweet Tea" (2001).

O North Mississippi Sound migrou para o rock e nos deu bandas como Black Keys e White Stripes, filhotinhos diretos dessa estirpe musical. Assim, ao vivo, o som de Perry é mais sujo, aparentemente mais tosco, não menos interessante que a linhagem mais popular do blues. A marca principal de sua guitarra não está nos solos ou em virtuoses, pois o músico aposta principalmente na potência dos riffs e no hipnotismo de seus grooves. E na sua garganta, é claro! Além de fazer shows solo, com banda ou mesmo com a família, "Howl N' Madd" também é professor de guitarra para crianças no Museu do Blues em Clarksdale, Mississippi. Há exatos 10 anos foi incluído no Blues Hall of Fame.

A banda que o amparou em seus shows no Brasil (Caxias do Sul, Porto Alegre e Lajeado) conta com os argentinos Nico Fami (guitarra) e Adrian Flores (bateria), além de sua filha, Shy Perry (teclado, na função do baixo), mesmo trio que vem ao Centro do RS. O show em Santa Maria é no Moto Garage, um dos bares da cidade que apostam na dobradinha rock/blues.

Confira review do show de Bill Howl-N-Madd Perry na primeira noite de MDBF
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Foto: Camila Gonçaves
Na verdade a apresentação entrega dois shows num único pacote. Além de ouvirmos músicas dos três álbuns gravados por Bill Perry, "The Way Of Blues" (2009), "Blues is Not Exclusive" (2011) e "The Clarksdale Sessions" (2012), Shy Perry, acaba de lançar "Brand New Day", e o temas de seu álbum solo de estreia consequentemente também estão no repertório da noite. No setlist de Papai Perry, números que definem seu som - "The way of blues", "Back to the crossroad", "Jack, Johnny or Jim", "I got the blues", "Five dollar and a dime", "Delta women", entre outros.

E quando o guitarrista se aventura pelas releituras de seus coirmãos, a versão de "Oh pretty woman" (Albert King) está entre os melhores momentos da noite, assim como "Love in vain" (Robert Johnson), uma das canções símbolos dos anos iniciais do blues e presença frequente no revival do gênero nos anos 1960. As vozes de pai e filha emprestam um charme especial ao refrão. As revisitações de "The sky is crying" (Elmore James) e "Catfish blues" (Robert Petway) se encaixam perfeitamente na voz catarrenta de Perry, com destaque para as ótimas intervenções de Nico Fami, sempre preciso nos solos.

Além de Adrian Flores claramente se divertir na sua função de palco, há um permanente sorriso no rosto do argentino e uma constante troca de olhares com Fami. Esse foi o terceiro show que assisti da formação, e fica óbvio que o entrosamento do quarteto evoluiu ao longo desse minitour pelo RS. Já Shy Perry coloca a casa abaixo com "Wang dang doodle" (Willie Dixon), emulando a potência vocal de uma de suas inspirações, Koko Taylor. Ela também relembra "You got me running" (Jimmy Reed) e "Rock me baby", quando divide os vocais com o pai no clássico de BB King. Em quase duas horas de espetáculo, o público santa-mariense (que prestigiou num bom número de pagantes), presenciou um autêntica noite de blues com os Perry.

Foto: Camila Gonçalves
Que venham mais shows, Santa Maria é uma cidade que gosta de blues. No final dos anos 1990, início dos anos 2000, vivemos um autêntico boom dessa influência, época em que bandas/artistas formados aqui como Celso Streit, Alex Lappan, Daniel Rosa, Paulo Noronha, Hightime, Red House, Artur Aguiar, Lenha Seca, entre outros, frequentemente podiam ser vistos em bares e casas de espetáculo da Região Central. O ápice dessa efervescência musical aconteceu em shows no Theatro Treze de Maio, no projeto Terça Blues (Coyote Bar) e principalmente no Cesma in Blues, festival que por nove edições disseminou o gênero para além das fronteiras santa-marienses. Outra lembrança passa pelo projeto 'Na Rota do Blues', realizado no extinto Rota 1, eventos que trouxeram a Santa Maria os bluesmen norte-americanos Eddie C. Campbell, Phill Guy e Willie 'Big Eyes' Smith, shows que deixaram uma marca de sucesso na noite local. Que venham mais apresentações como essa de Bill Howl-N-Madd Perry. Quem viver verá.
 
Shy Perry. Foto: Camila Gonçalves
               
Nico Fami, Bill Howl-N-Mad-Perry, Adrian Flores e Shy Perry. Foto: Camila Gonçalves 
Foto: Camila Gonçalves

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