sexta-feira, 19 de abril de 2019

WHITNEY SHAY, 18 DE ABRIL DE 2019

Foto: Pablito Diego

Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena) e legenda Zé Carlos de Andrade


Quinta-feira Santa, véspera de feriado, com casa lotada, o Memorabilia Blues no Plataforma 85 chega a sua edição #3. Depois do première em fevereiro (28) com Luciano Leães + Kingsize Blues (leia review), da estreia internacional em março (12) com o Rei do Memphis Soul, Wee Willie Walker (leia review), chega a vez de Santa Maria receber uma estrela em ascendência no cenário internacional - a cantora californiana Whitney Shay. Antes, vale duas lembranças - há exatos 11 anos, em 18 de abril de 2007, outro norte-americano se apresentava na cidade, o guitarrista de Chicago Eddie C. Campbell (leia review), e no mesmo dia em que recordamos o nascimento de um gigante do gênero, Clarence 'Gatemouth' Brown, coincidentemente, pelo menos por aqui, o blues/soul continua cravando sua marca neste 18 de abril de 2019.

Foto: Zé Carlos de Andrade
O Memorabilia Blues traz a cidade esse obstinada jovem de 33 anos, uma artista que já chegou a emplacar no currículo 28 shows em apenas um único mês, muitas vezes somando duas apresentações em menos de 24h! Em sua segunda turnê pelo Brasil (a primeira foi em 2015), após passagens por São Paulo, pocket shows em Porto Alegre, na Sala Geraldo Flach, Whitney Shay chega ao Centro do RS para única performance num bar no estado (sold out!). Na banda base, Luciano Leães (piano) e seus Big Chiefs - Edu Meirelles (baixo) e Ronie Martinez (bateria), com participação especialíssima de Solon Fishbone (guitarra).

Foto: Zé Carlos de Andrade 
A californiana vive o melhor momento de sua carreira, com quatro indicações ao San Diego Music Awards - o troféu de Artista do Ano em 2019 é dela - Whitney também está nomeada para a maior premiação do gênero nos Estados Unidos - O Blues Music Awards, com cerimônia agendada para o próximo dia 9 de maio, em Memphis, TN. O álbum que a coloca em evidência nos últimos meses é "A Woman Rules the World" (2018), trabalho que ainda revela sua veia de compositora, ativista pela feminismo e arqueóloga da música norte-americana - "O álbum reflete minha própria jornada como artista, e nos últimos tempos, parece que há um renovado ardor pelos direitos das mulheres", disse Shay em entrevista recente. - "Eu acredito que novamente ressoa essa movimentação, afinal , estamos todos fartos do status quo", reforçou a cantora em entrevista ao Diário de Santa Maria.

Foto: Zé Carlos de Andrade
22h35min, o show começa com Luciano Leães & The Big Chiefs. O pianista faz sua terceira apresentação do ano no Plataforma, já que além do première, também atuou como sideman na banda base de Willie Walker em março. O quarteto aquece as turbinas com uma versão funk/blues de "Things That I Used To Do" (Guitar Slim). Na sequência, o convidado especial Solon Fishbone assume o microfone e canta "I Ain't No Use" (Z.Z. Hill). Público devidamente aquecido, que venha a atração principal.

Foto: Pablito Diego
A estrela da noite finalmente fixa presença no palco - vestido preto, detalhes prateados que reluzem sob às luzes, batom vermelho, sorriso no rosto que nunca se esgota, e o inconfundível cabelo vermelho, Whitney começa os trabalhos com "Midnight Special", tema de domínio público bastante conhecido no Brasil através da versão do Creedence Clearwater Revival, porém o espelhamento escolhido pela californiana passa próximo a memória de Little Richard, uma de suas principais influências. De "A Woman Rules the World" estão no setlist temas como "Check Me Out" (Jimmy McCracklin), "Don't You Fool Me No More", "Love's Creeping Up On You" e a faixa título, certamente um dos grandes destaques da noite. A música de Denise LaSalle que dá nome ao CD surge como uma espécie de resposta a "Its A Man World” (James Brown), pois além de guardar semelhanças com a melodia, se alinha a visão feminista de Whitney. Dentro de seu repertório, há desde resgates a velha escola do funk, blues, visões musicais próximas a ancestral escola da música negra, resquícios do soul, e o mais importante - no palco - estamos presenciando os movimentos e ações de uma artista extremamente original.

Foto: Zé Carlos de Andrade
A versão de "Cry to Me" (Solomon Burke), começa com Leães rememorando "Tipitina" (Professor Longhair), um dos temas que definem o som de New Orleans, e combustível original que mescla novas cores a um dos clássicos da soul music. Esse é um dos grandes baratos de assistir apresentações ao vivo como essa - cada show pode ser único, como de fato é! Ver Whitney Shay de perto nos conduz a experiência de materializar um desenho perfeito da cantora por excelência, uma artista pronta para brilhar em qualquer palco do mundo. O jogo de olhares - como se fosse uma atriz interpretando - a constante interação com a banda, a graça de seu corpo preenchendo todos os espaços - há consonância em cada gesto. E nesse mundo repleto de injustiças, muitas vezes não basta apenas ter uma grande voz para encarar uma plateia, é preciso, cada vez mais ter atitude e postura de palco. Whitney marca um X nas duas lacunas.       

Foto: Pablito Diego
E no vai e vem de suas escolhas, "Save me", de Lavern Baker, hino de redenção (às avessas) a vida pregressa, soa como se a alma de Whitney fosse muito mais velha do que seu corpo. E certamente é. Prova disso é o sensacional medley formado por "Grinnin' In Your Face", de Son House, mesma canção que Jack White demonstra devoção no filme "It Might Get Loud" (2008), - veja AQUI. A releitura de Whitney é surpreendente, quase a capella, com a cantora batendo o pé da mesma forma que o velho Son House esmurrava o estúdio com seu sapato esburacado na América 'boca-braba' do imaginário Bluesland. "A true friend is hard to find / Don't you mind people grinnin' in your face" - (É difícil de encontrar um amigo de verdade / Não esquenta se as pessoas estão rindo da sua cara). Sem que possamos respirar, "Baby, Please Me Set a Date", de Elmore James, é um prato cheio para a guitarra de Solon Fishbone brilhar com a força de um guitar hero do blues, como de fato ele é.

Foto: Zé Carlos de Andrade
A catarse coletiva, o momento em que a casa silencia e a dinâmica da banda evidencia a importância desse episódio, a voz da cantora surge como sopro luminoso em "I Love You More Than You'll Ever Know", tema que Amy Winehouse gostava de explorar em suas apresentações. A canção de Donnie Hathaway é perfeita para a intenção vocal de Whitney, legítima evidência de que estamos assistindo uma voz muito peculiar. E quando nos aproximamos do final do espetáculo, como numa sansara cíclica e necessária para a sobrevivência de seus antepassados artísticos, Whitney novamente paga tributo a Little Richard, em versões que literalmente colocam a casa abaixo. Primeiramente em "Lucille", com a potência de sua garganta aumentando ainda mais a temperatura e a interação com o público, mas principalmente em "Get Down With It", tema em que Ricardinho solta os demônios como poucos. Whitney faz o mesmo, e seu corpo acompanha essa mesma vibração, aludindo também a lembrança do repaginamento que o grupo inglês Slade fez no início dos anos 1970.

Foto: Zé Carlos de Andrade
A noite parecia ter chegado ao fim, até que uma garota em frente ao palco pede "I Just Want to Make Love To You" (Willie Dixon). Whitney combina rapidamente as ações com Leães que comanda a banda numa versão improvisada, totalmente sanguínea. E tudo que sobe... Desce... A noite se encerra na mansidão de "Georgia On My Mind", com Whitney Shay deixando a todos deslumbrados com seu talento, carisma e presença de espírito. Muitas pessoas tomam conta da parte frontal do palco e o bar entra em total ebulição, mesmo com o final do espetáculo, já passado de 0h30min. A cantora continua a distribuir sorrisos, assinar CDs e tirar fotos com os novos fãs recém engajados ao seu nosso hall de admiradores.

Foto: Zé Carlos de Andrade
Depois de Santa Maria, Whitney segue seu "A Woman Rules the World Tour" com shows em Campinas (SP), dia 19; São Carlos (SP), dia 20; Ribeirão Preto (SP), dia 24; Maringá (PR), dia 26; e encerra seu tour em Londrina (PR), no dia 27 de abril. Ficamos na torcida no próximo dia 9 de maio, noite da cerimônia do Blues Music Awards. Dois nomes que passaram pela cidade no Memorabilia Blues no Platafaforma 85 concorrem a premiações na edição desse ano do BMA, além de menina Whitney (Soul Blues Female Artist), Wee Willie Walker também está com a mão numa estatueta (Soul Blues Male Artist).   

Foto: Pablito Diego
O Memorabilia Blues no Plataforma 85 é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio: Uglione, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial: Santa Madre. Apoio: Cabeça Arte, Depra Barber Club e Diário de Santa Maria. Som: Bolzan Áudio. Luz: Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa: Alfredo Giardin e Taís Streit.  Comunicação e cobertura fotográfica: Há Cena Cultural. Realização: Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos, em parceria com o Clube do Blues.
Foto: Zé Carlos de Andrade
Foto: Pablito Diego 

quinta-feira, 14 de março de 2019

SAXON - PORTO ALEGRE, 13 DE MARÇO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Quem gosta de rock e viveu no Planeta Terra no finalzinho dos anos 1970, primeira metade dos anos 1980, certamente sabe a chapoletada que todos nós levamos com o New Wave of British Heavy Metal. Tempos em que bandas como Iron Maiden, Def Leppard, Saxon, entre outras, venderam milhões de álbuns, além de reconfigurarem a cena musical naquele período. Surgida entre o vácuo do movimento punk, na esteira da decadência dos grupos setentistas, o NWOBHM não apenas revigorou o gênero, houve principalmente uma clara evolução do metal como estilo, empréstimos de novas plasticidades, além de uma necessária renovação no cenário musical. Dentro desse contexto, com shows lotados, assédio dos fãs e da imprensa, o Saxon foi um dos pivôs do sucesso forjado pelo gênero naquele período. 

Foto: Pablito Diego
Em cinco anos, cinco álbum foram registrados pelos ingleses, sendo que quatro deles viraram clássicos do rock mundial. Depois de uma estreia equivocada com um álbum homônimo, principalmente por uma produção desalinhada - "Wheels of Steel" (1980), "Strong Arm of the Law" (1980), "Denim and Leather" (1981), "Power & the Glory" (1983) e "Crusader" (1984), tornaram-se LPs indispensáveis em qualquer boa coleção de rock pesado. Milhões de cópias foram vendidas e de lambuja o grupo colocou nas prateleiras um álbum 'live' que quase furou de tanto girar nos toca-discos da molecada. Conheço cada virada de sulco de "The Eagle Has Landed" (1982), primeiro LP ao vivo lançado pela banda. As canções foram gravadas um anos antes de seu lançamento, no lendário Hammersmith Odeon (atual Hammersmith Apollo), em Londres, e encapsulam o Saxon num dos melhores momentos de seus anos iniciais. Trata-se de um disco fundamental para emaranhar-se no espírito musical daquela faixa de tempo. Tão importante, que essa mesma performance ainda baliza parte do que veremos na noite desta quarta-feira (13) em Porto Alegre. 

Foto: Pablito Diego
Em sua sétima passagem pelo Brasil (as anteriores foram em 1997, 1998, 2002, 2011, 2013 e 2018), essa é a primeira vez do grupo no RS. No ano em que o quinteto relembra os 40 anos de seu primeiro álbum, nada melhor do que retornar ao espectro daquele período mágico para celebrar o suprassumo do repertório dos ingleses. Não podemos dizer que o banda inglesa permaneceu fora do caminho do sucesso nas décadas seguintes, mesmo que saibamos que o Saxon desceu a lomba na direção contrário do Iron Maiden, já que com "Powerslave" Steve Harris e seus comandados chegaram ao topo mundial do heavy metal mundial. Quase na mesma época, o Saxon declinou. Mesmo assim, eles sobreviveram!

Foto: Pablito Diego
Balançando com eventuais trocas de personagens e algumas bolas fora, dá pra afirmarmos que no decorrer dessa trajetória houveram muitos acertos e consecutivas reinvenções no corpo sonoro dos álbuns. Entre os destaques pós anos 1980, nos anos 1990 o Saxon crava trincheiras importantes com "Solid Ball of Rock", ganha novos fãs com o excepcional "Dogs of War" (1995), e no final daquela década, "Metalhead" (1999) revela um grupo que teima em continuar conectado ao melhor do rock pesado. Mais recentemente, "Lionheart" (2007), considerado por muitos uma obra digna de figurar ao lado de qualquer disco clássico da banda, é uma sequência evolutiva de "Crusader", #onehitalbum que parcialmente o inspirou.         

Foto: Pablito Diego
Retornando aos dias atuais, "Thunderbolt" (2018) é o trabalho que mantém o Saxon como ponta de lança da velha guarda remanescente no heavy metal atual. E o mais importante: eles estão comendo a bola na estrada - em 2018, foram 83 apresentações. O show no Opinião já é o 16º do ano sob o comando de Biff Byfford (vocal), 68 anos, e Paul Quinn (guitarra), 67 anos, os únicos remanescentes da formação original. Também no time, o baterista Nigel Glockler, nas fileiras da banda desde 1982. Entre idas e vindas, desde 2005 Glockler, 66 anos, fixou território como comandante das baquetas. Já Nibs Carter (baixo), 52 anos, completa exatas duas décadas de atuação no grupo. E por último, Doug Scarratt (guitarra), 59 anos, é membro da banda desde 1995. Em suma, essa é uma das formações mais estáveis do  Saxon.

Foto: Pablito Diego
A APRESENTAÇÃO - 21h em ponto, o show começa com "Thunderbolt", faixa que dá nome ao tour e também demarca o retorno do Saxon ao melhor status da banda - riffs de guitarras, a poderosa voz de Biff proferindo com propriedade o velho heavy metal encardido que os fãs nunca se cansam de ouvir. "Cerberus no submundo / Guarda os portões do inferno", o Saxon retorna a utilizar a consagrada cartilha ao qual o som pesado se debruçou nos seus tempos gloriosos. E dá pra perceber que o tema já está na boca do povo. "Sacrifice" segue na mesma via da clássica abordagem saxônica, com destaque para o agudo final de Biff, uma demonstração de que o frontliner continua afiadíssimo como ícone da resistência no gênero - um velho general que ainda sabe comandar o seu exército.

Foto: Pablito Diego
Talvez alguns não saibam, mas as próximas três músicas que iremos ouvir praticamente definiram o New Wave of British Heavy metal. De todo modo, Biff avisa que lá vem chumbo grosso pela frente. Dough Scarret abre um sorriso, coloca o pé no PA e dispara o riff destruidor de "Wheels of steel", simplesmente um dos maiores hinos do culto a estrada e a velocidade: "Quando coloco meu pé no acelerador / Não há como olhar para trás". O tema sempre foi um dos instantâneos catárticos das apresentações do Saxon, um exemplo de como o som da banda flerta diretamente com o classic rock. Em 2019 'Wheels' ressoa ainda mais pesada (Talking 'bout my wheels of steeeeel!!!). A truculência policial é o tema de "Strong arm of the law", com a camada de guitarras provocando um trovoar impressionante pela parede de amplificadores Marshall que compõem o backline da banda. Craque na arte de arquitetar hinos de louvor ao heavy metal, "Denin & Leather" novamente ganha o coro de cerca de 1.000 espectadores. A levada de bateria de Nigel Glockler é acompanhada por palmas, com o saltitante Nibbs Carter, no baixo, escalando os monitores e incendiando a massa, mas sempre retornando a tempo frente ao microfone, bem no exato instante a colocar seus vocais de apoio nos refrões.

Foto: Pablito Diego
Cultuadores da temática anglo-saxã ligada a idade-média, "Battering ram", faixa do álbum homônimo lançado em 2015 é uma porrada sonora que mostra a força de algumas canções mais recentes do grupo. Um momento esperado (pelo menos para esse fã aqui) é "Rainbow Theme/Frozen Rainbow" e "Backs to the Wall", ases do álbum de estreia da banda lançado a exatos 40 anos. Tudo soa ainda melhor ao vivo, revigoradas por um arranjo que sopra novo viço aos temas. Impressionante assistir o veterano Glocker demolindo as peles e articulando viradas espetaculares com rara habilidade para um músico sexagenário na posição de baterista. 

"They played rock and roll", uma homenagem de Biff ao amigo Lemmy do Motorhead, dropes do trabalho mais recente, poderia ser um instante de baixa da noite, no entanto, sua execução cresce horrores ao vivo. "Power and the Glory" recoloca toda a massa pra sacudir o esqueleto. Trata-se de uma valorosa peça no tabuleiro da banda. Novo show particular de Glockler.

Foto: Pablito Diego
Chega o momento da turnê em que Biff conversa com o público e deixa que a audiência defina a próxima canção a ser executada. A escolhida é "Ride Like the Wind", música que dá nome ao álbum de 1988, uma releitura de Cristopher Cross que se na época soou como bola fora, mas hoje reluz melhor do que nunca. É o próprio público que nos dá essa resposta, cantando o refrão em uníssono. "Broken Heroes" está alinhada nessa mesma via, perfilada no pior dos álbuns do Saxon, "Innocence Is No Excuse" (1986), LP que marca o absurdo declínio da banda após seus anos de glória. É engraçado como o tempo pode jogar a favor de certas canções. Biff canta macio, a banda baixa a crista e a dinâmica de uma semi rock ballad de peso se impõe no palco do Opinião.   

Foto: Pablito Diego
E aí vem "Motorcycle Man", uma das músicas em que a marca registrada dos guitarristas do Saxon é carimbada. Vêm a tona a parceria forte entre Paul Quinn e Doug Scarratt, invariavelmente dividindo base e solos, sempre precisos nas suas construções rítmicas. Um dos maiores hits do Saxon, "747 Strangers in the Night" foi também uma das primeiras músicas a colocar a NWOBHM nas rádios inglesas, o que obviamente sedimentou a afirmação do movimento. Mais pesada e mais rápida, no entanto ainda fiel a original gravada em 1981, dá pra perceber a comoção tomando conta do bar. No intervalo entre uma canção e outra, Biff autografa alguns LPs e novamente estreita o contato com os fãs. Ele é o cara e a cara da banda.

Foto: Pablito Diego
Falando em emoção, quando "The Band Played On" é reconhecida pelo amigo Alfredo Giardin, fã do Saxon há mais de 30 anos, ele não segura a emoção e as lágrimas desabam de seus olhos. A música, com letra escrita por Biff, retrata a comoção do Saxon ao se apresentar pela primeira vez no Festival Monsters of Rock, em Donington Park, Leicestershire, Inglaterra (1980). É também o maior hit da banda em todos os tempos (chegou a 12ª posição nas paradas britânicas) e emana o espírito de irmandade que muitas vezes se forja nos festivais e eventos de rock. Essa mesma vibe foi um sentimento permanente no Opinião, aquele sopro de ar puro de que todos estão torcendo para o mesmo 'time', um tipo de reunião em que a irmandade impera. Poucos eventos conseguem polinizar essa impressão. Bem, nos shows de metal frequentemente tenho essa sensação. Pode chorar Alfredo...

Foto: Pablito Diego
"Lion heart", homenageia Ricardo Coração de Leão,  Rei da Inglaterra conhecido por sua grande reputação como guerreiro e líder militar. Uma canção épica com a autêntico digital saxônica, e que ao vivo, cresce absurdamente. Um fã bem em frente ao palco grita: "Dallas!", em referência a "Dallas 1PM", Biff responde amassando e comendo o setlist. O senso de humor do cantor inglês é um dos pontos altos da noite. Biff está a fim de jogo. Contrariando o pedido, "To Hell and Back Again" é outro dos temas em que a parede de guitarras nos atropela. Biff pisca o olho de pirraça e dá ok para "Dallas 1PM", eterna reflexão sobre a morte de John Kennedy, com destaque para toda a climática inicial da cozinha baixo/batera, além do dramático emaranhado de riffs dos guitarristas.


Foto: Pablito Diego
"Crusader" é Saxon em sua essência mais genuína. "Estamos marchando, para uma terra distante / Ninguém pode garantir se um dia voltaremos para casa / Em nome do Reino Cristão, é hora de nossa vingança contra os pagãos do leste". Assim os anglo-saxões ajudaram a perpetuar o velho tema de saquear e matar em nome de Deus, simbolizado na figura do resignado soldado que está pronto para encarar a morte. Estamos também no momento mais emotivos da apresentação, átimo em que vários fãs teimam em esconder as lágrimas dos olhos. Breve intervalo para receber uma nova ovação do público, o quinteto retorna e rapidamente "Heavy Metal Thunder" explode pelo Opinião. Talvez muitos não saibam, mas o termo heavy metal advém da cultura motociclista norte-americana, terminologia que influenciou o escritor William Burroughs a documentar a expressão em "Naked Lunch", um de seus mais famosos livros. Temos um dos instantâneos mais impressionantes da noite. Se o penteado foi pro saco e o cabelo está encharcado de suor, pelo menos a voz de Biff nunca oscila, sempre no talo, da mesma forma que ouvimos nos discos.

Foto: Pablito Diego
"Never Surrender" é um riff esmagador que simplesmente define o som da banda, a "Não Podemo Se Entregá Pros Home" do metal, um rolo compressor sonoro que nos leva ao melhor do som pesado inglês. Quer um epílogo perfeito? Então libera a autoestrada para "Princess of the Night", ode a vida sobre duas rodas e emblema de uma das maiores paixões do grupo: o culto ao motociclismo. Um show para ficar na história de nossas vidas. Nada pode ser mais rejuvenescedor do que um dia de férias no universo do rock. Que os saxônicos permaneçam por aí, por muito mais tempo. Precisamos de mais doses desse elixir da juventude. Só o heavy metal salva...

Nossos agradecimentos a Abstratti Produtora pelo suporte e credenciamento. Agradecimento especial Homero Pivotto Jr (Abstratti).

Veja a performance de "Princess of the Night". Captação Pablito Diego (Há Cena).     




Setlist Saxon - Porto Alegre

Thunderbolt
Sacrifice
Wheels of Steel
Denin and Leather
Strong Arm of The Law
Battering Ram
Rainbow Theme/Frozen Rainbow
Backs to the Wall
They Played Rock and Roll
Power and The Glory
Ride Like the Wind
Broken Heroes
Motorcycle Man
747 (Strangers in the Night)
And the Band Played On
Lionheart
To Hell and Back Again
Dallas 1PM
Crusader

Bis

Heavy Metal Thunder
Never Surrender
Princess of the Night     


Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

quarta-feira, 13 de março de 2019

WEE WILLIE WALKER - SANTA MARIA, 12 DE MARÇO DE 2019

Willie Walker. Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Toda a criatura que existe sob o sol, tudo que se arrasta, voa e nada - tem um ritmo próprio. E assim se faz a peculiar musicalidade de cada ser. Quiz a natureza das coisas que o homem fosse o mais musical dos seres, e entre os escolhidos dessa casta, alguns artistas parecem abençoados por algo deífico. No palco, sob às luzes, ele olha a plateia nos olhos, sorri, ginga o corpo no ritmo da banda, estufa o peito e com uma natural emissão sonora parece esculpir o ar. Assim, manipula sons com contornos absolutamente perfeitos. Eu falo da voz de de um cantor especial, dotado de um invisível aparato melódico assestado para nos maravilhar.

Foto: Pablito Diego
Essa reflexão me toma de assalto quando ouço "A Change Is Gonna Come" pular da garganta de Willie Walker direto para os nossos ouvidos. O pequeno grande homem é o responsável pela feitiçaria disfarçada pelas cores vivas do blues e do soul, resultando num espetáculo imperdível que acontece nesta terça-feira 12 de março de 2019, e acreditem - aqui em Santa Maria (RS), essa cidade aparentemente esquecida pelo Criador. Fácil reparar nos diversos rostos espalhados pelo bar e encontro arrebatamento em cada face semi-iluminada. Ah, você não estava por lá? Sem problemas, posso contar algumas coisas que vi e senti ao longo da noite...

Foto: Pablito Diego
Depois do première com Luciano Leães + Kingsize Blues no último dia 28 (leia review AQUI), o Memorabilia Blues no Plataforma 85 (Gare da Estação Férrea, anexo ao Mercado Público) preconiza sua estreia internacional. Noite para assistir ao show do cantor norte-americano, artista e repertório que representam o autêntico espólio do Memphis Soul - ou Memphis Sound - tradicional linhagem do Southern Soul. Trata-se de um estilo que ganhou as paradas de sucesso nos anos 1960/70, impulsionado principalmente pela Stax, gravadora sediadas em Memphis, Tennessee. Quem diria que no ressurgir do século seguinte o Memphis Soul estaria mais vivo do que nunca!? 

Foto: Pablito Diego
Explicando um pouco melhor, Memphis é o lar de um dos primeiros nomes fonográficos do blues, W.C. Handy, berço artístico de Memphis Minnie, Frank Stokes e Joe McCoy. Pós Segunda Guerra a cidade brilhava ao som de BB King, Rufus Thomas, Big Walter Horton, Howlin' Wolf, Bobby "Blue" Bland, Little Milton, Ike Turner e muitos outros. Nos anos 1950, o som de Memphis definitivamente alterou a curva da música pop mundial, pois de lá saíram Elvis Presley, Johnny Cash, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Chuck Berry, até então estrelas emergentes da Sun Records. E enfim, com a Stax vieram Wilson Picket, The Bar-Keys, Otis Reding, Booker T. & the MG's e Albert King. Dá pra sacar por que o som de Memphis é importante para a música pop? 

Foto: Pablito Diego
Willie Walker atua nesse contexto, ainda jovem começou a carreira performando nos grupos de doo-wop e cantando pelas esquinas da Beale Street. Por mais que durante esse período mágico o sucesso tenha apenas arranhado bem de leve a sua porta, após uma longa ausência fora dos palcos, o cantor conseguiu se reinventar e ressurge nos dias de hoje como uma das genuínas vozes desse importante legado da música estadunidense. Depois de sua primeira vinda ao país em 2014, Willie voou alto - gravou três álbuns e praticamente não parou mais de trabalhar. Nessa elevação de nível, gravando discos, uma janela imensa se abriu. O veterano soulman é novamente um dos indicados ao Blues Music Awards de 2019, o Grammy do Blues, na categoria Best Blues Male Artist, mesma premiação que também estão relacionados nomes como Buddy Guy, Kenny Neal e Ben Harper. Com mais quatro indicações, seu último álbum, "After While", é destaque na premiação acontece no próximo dia 9 de maio, em Memphis. O cutuque de muitos é que desta vez ele leva o troféu pra casa.

Foto: Pablito Diego
Walker chega a Santa Maria após 10 apresentações no país, a segunda com essa formação. São eles - o guitar hero do blues nacional, Igor Prado (guitarra), o fenomenal das teclas Luciano Leães (piano), e aquela cozinha de respeito - Edu Meirelles (baixo) e Ronie Martinez (bateria). E a apresentação começa assim, em quarteto, sem Willie no palco. Dois temas instrumentais apresentam armas - em cena, breves demostrações de que a banda base não atua apenas no quesito da coadjuvação.  O show esquenta, e sob uma chuva de aplausos, Willie lentamente se aproxima das luzes. Terno dourado, tons e sobretons, vestido 'de ouro' da cabeça aos pés. Além de ser 'a voz' do soul, Willie Walker distribui simpatia e simplicidade. Na mão, uma taça de DomecQ, sua bebida preferida - aos 77 anos, bebe conhaque e fuma um Marlboro atrás do outro (autografa CDs e tira fotos no camarim com um cigarro entre os lábios). No palco, permanente intercâmbio com a banda claramente o inspira. Ao decorrer do espetáculo, muitas vezes ele ri alto, uma risada engraçada que também pontua suas tiradas fora do palco. Willie é naturalmente divertido, e essa atuação não é uma performance.   

Foto: Pablito Diego
No repertório, algumas de suas composições miscigenadas a clássicos do soul, músicas que todos nós nunca cansamos de ouvir. E claro, o blues também bate cartão. Epítomes como "Thrill is Gone" (BB King) e "Body and the Fender Man" (Johnny Adams), releituras que revelam abordagens classudas, aquela forma de cantar que só os grandes traduzem aos mortais. Porém, quando caminha em direção ao soul, entendemos a alcunha de Rei do Memphis Soul. Nascido em Hernando, no Mississippi, Willie construiu sua trajetória no rastro do legado de Memphis, e ouvi-lo ao vivo é como vê-lo incorporado ao imaginário desse espólio musical. Canções como "Let's Stay Together" (Al Green) e Knock On Wood (Otis Redding), além da já citada "A Change is Gonna Come" (Sam Cooke) roubam nossos corações para sempre. No entanto, em cerca de 1h30 de apresentação, nada se equivale a fenomenal versão de "Cry to Me" (Solomon Burke), inesquecível e brilhante retrato de uma noite praticamente perfeita.

Veja o vídeo de "Cry to Me". Captação Pablito Diego (Há Cena).



Todos nós que gostamos de blues, soul, e como arqueólogos do som em constante busca pelos últimos resquícios da legitimidade da velha escola da música negra norte-americana, nos curvamos. Solenemente, ou não, nos vergamos sobre à sombra dos derradeiros gigantes do gênero. Longa vida, Willlie! Poucas memórias serão tão extraordinárias quanto essa do dia 12 de Março.

Willie Walker encerra seu tour 2019 no Brasil com mais três apresentações - Mogi das Cruzes (14), Londrina (15) e São José dos Campos (16), quem sabe seus derradeiros shows antes da consagração como ganhador do Blues Music Awards em maio. Particularmente, fico na torcida pelo baixinho.

Foto: Pablito Diego
O Memorabilia Blues no Plataforma 85 é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio - Uglione, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial Santa Madre Cervejaria. Apoio - Cabeça Arte, Depra Barber Club e Diário de Santa Maria. Som - Bolzan Áudio. Luz - Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa - Alfredo Giardin e Taís Streit.  Comunicação e cobertura fotográfica Há Cena Cultural. Realização Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos.     

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

ED SHEERAN - PORTO ALEGRE, 17 DE FEVEREIRO DE 2019

Fotos: Ton Muller
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Review Márcio Grings c/ Camila Gonçalves Fotos Ton Muller  

Dez mil quilômetros. Essa é a distância que separa o cantor e compositor Ed Sheeran de Londres. Neste domingo, 17 de abril de 2019, o músico britânico celebrou na capital gaúcha seu aniversário. Mesmo tão longe de casa, o garoto prodígio está entre os seus. Afinal, em sua primeira vez no RS, quarenta mil vozes incessantemente oferecem demonstrações de que ele é muito bem-vindo. "Hoje faço 28 anos. Muito obrigado por estarem aqui. Nunca fiquei tão distante de casa em meu aniversário, e eu estou muito feliz de estar entre vocês celebrando", disse a atenta audiência logo no início da apresentação.

Confira um breve trecho do início da apresentação em Porto Alegre. Captação: Ton Muller

Considerado como uma das salvações da nova safra da indústria fonográfica mundial, Ed Sherran vive um dos melhores momentos de sua careira. Quer um exemplo? No Reino Unido, o álbum “Divide” (2017) respondeu por mais de 10% das vendas de CDs, isso apenas durante o período de seu lançamento. Outro dado impressionante é que 25% dos compradores não haviam adquirido um único CD no ano anterior. A mais lucrativa das pérolas da Asylum Records, não foi apenas responsável por mobilizar 250 mil consumidores a retornarem ao mercado da mídia física. Ed ainda se dá muito bem na estrada... Segundo o instituto Pollstar, o “Divide Tour” é também a mais lucrativa digressão dos últimos trinta anos na história da música pop. Apenas por esses dois fatos ele já mereceria nossa atenção.
    
Foto: Ton Muller
E como fruto de uma geração acostumada a joysticks, smarthphones e jogos tecnológicos, no palco, o cantor abusa de seus pedais de efeito e loops, quando mostra uma invejável habilidade em gravá-los instantaneamente, sincroniza-los, e assim, fabricar no ato inúmeras camadas sonoras e vocais. Como escudo instrumental, Sheeran precisa de apenas um violão ou guitarra. Acima, lateralmente e atrás dele, os telões, distribuem cores e imagens que lembram filtros do Instagram.  Se daqui alguns anos os sidemen (músicos que acompanham os artistas no palco) forem dispensados de seus serviços, a culpa é de Ed Sheeran, esse jovem demônio individualista que multiplica riffs, ritmos e vozes.   

Foto: Ton Muller
É inegável, apesar de muito jovem, e inicialmente sugerir uma enganosa timidez, o inglês já pode ser considerado um artista experiente, acostumado as luzes e badalação. Tanto que, aos poucos, podemos perceber que ele fica cada vez mais a vontade em frente ao público. E sobram hits. A cada nova canção, um ensurdecedor delírio com acento feminino toma conta da Arena. O interessante é que quase metade do set retém canções do último álbum, mostra da força exercida na sua recente produção autoral. Temas como “Castle on the Hill”, “Dive”, “Eraser”, “Galway Girl”, “Nancy Mulligan”, “Perfect” e “Shape of You”, são marcas desse sucesso.  Algumas antigas, como no caso de “The A Team”, levam ao êxtase milhares de fãs. Antiga? Engraçado, constatação de que no Planeta Sheeran, dez anos podem parecer bem mais tempo. Outro destaque está “Love Yourself”, versão para uma música do muito menos talentoso Justin Bieber.

Foto: Ton Muller
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Aos fãs que nunca participaram de uma festa de aniversário com tantos convidados, a cereja do bolo fica por conta de um “Happy Birthday To You, Ed”, marca que certamente ficará impressa na lembrança do músico e de seus fãs. Próxima quarta-feira (20) o "Divide Tour" aporta em Montevidéu. Grings - Tours, Produções e Eventos agradece a LS8 Consultoria de Imprensa pelo suporte e credenciamento.

Setlist

Castle on the Hill
Eraser
The A Team
Don't / New Man
Dive
Bloodstream
Love Yourself
Tenerife Sea
Kiss Me / Hearts Don't Break Around Here / Give Me Love
Galway Girl
Wayfaring Stranger / I See Fire
Thinking Out Loud
One / Photograph
Perfect
Nancy Mulligan
Sing

Bis

Shape of You
You Need Me, I Don't Need You


Foto: Ton Muller

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WHITNEY SHAY, 18 DE ABRIL DE 2019

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