sexta-feira, 11 de outubro de 2019

IRON MAIDEN - PORTO ALEGRE, 9 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Ton Müller
Review Márcio Grings Fotos Ton Müller

Poucos dias antes do Iron Maiden pisar no palco da Arena do Grêmio (Porto Alegre), e apenas algumas horas após a apresentação do grupo inglês no estádio do Morumbi (São Paulo), li uma interessante matéria do amigo Ricardo Seelig. O texto não apenas fala da nova passagem do sexteto inglês pelo Brasil, jogando luz na apresentação no Rock in Rio, na verdade, a matéria também propõe uma reflexão. O comandante do Collectors Room levanta a lebre sobre a ação do tempo na atividade dos músicos ligados ao rock'n'roll - "Ao contrário de outros gêneros musicais como o blues e o jazz, onde o ato de envelhecer parece enobrecer o artista, no rock a passagem do tempo não é muito bem vista por uma parcela do público e, principalmente, por grande parte da crítica. Ainda se associa o transcorrer dos anos com a decadência (...), o que é uma tremenda bobagem". Em contraponto, acredito que nem sempre estejamos falando bobagem nessa constatação/associação, pois há diversos exemplos de deterioração causados pelo confronto entre passagem do tempo e performance artística. Prova disso é que facilmente podemos encontrar artistas veteranos soando como arremedo de si próprios. Principalmente se tomarmos por base nomes ligados às cenas advindas dos anos 1960/70/80 - é inegável, estamos vivendo o fim de uma era. 

Foto: Ton Müller
Numa outra via, lembro de frase pinçada de uma entrevista cedida por Mick Jagger no início dos anos 1980 - "Não pretendo chegar aos 40 anos cantando Satisfaction", afirmou o líder dos Stones. E disse mais, e aqui faço um link direto com o texto de Seelig - "Gostaria de envelhecer com a dignidade dos músicos de jazz". Hoje sabemos, aos 76, Mick errou feio, pois continua cantando "Satisfaction". Contudo, seu segundo desejo foi atendido, visto que ele realmente conseguiu envelhecer com a dignidade de muitos músicos de jazz, porque certamente estamos falando de um dos mais respeitáveis cantores do rock ainda em atividade.

Foto: Ton Müller
Começo misturando alho com bugalhos para engatar nesse 9 de outubro de 2019, agradável quarta-feira de primavera que demarca a terceira passagem do grupo britânico Iron Maiden pelo RS. E assim como Jagger, o vocalista do Maiden é outro fenômeno a ser referenciado. Mesmo 15 anos mais jovem, aos 61 anos, Bruce Dickinson ainda é um dos maiores prodígios vocais do heavy metal. À frente do grupo, em mais de 40 anos de estrada, o sexteto se completa com seu criador e mentor intelectual, Steve Harris (baixo), mais Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra) e Nicko McBrain (bateria). 

Foto: Ton Müller
Cerca de 40 mil pessoas foram até a Arena do Grêmio em Porto Alegre, um exército de camisetas com a logotipia clássica da banda, e certamente ninguém estava lá para ver o show de abertura. O quinteto inglês The Raven Age conta com o guitarrista George Harris, filho do baixista do Iron - “Meu pai sempre quer ouvir nossas músicas e dá sua opinião. Na verdade, ele é bastante rígido e diz o que precisamos mudar ou o que já está bom", revelou George ao site Uol. Ainda no grupo - Tony Maue (guitarra), Matt Cox (baixo), Jai Patel (bateria) e Matt James (vocal). Eles acabam de lançar “Conspiracy”, álbum que rapidamente deve cair no esquecimento. Já a atração principal teve mais sorte (ou talento), pois mora no inconsciente coletivo do rock.   

Foto: Ton Müller
Às 21h, ao som de “Tranylvania”, numa explosão de imagens no telão, com cenas de Legacy of the Beast, game que inspirou o atual setlist, o público começa a se alvoroçar. Logo depois o sistema de som detona “Doctor Doctor”, hino do UFO que se tornou também um perfeito hinário para acelerar os batimentos cardíacos dos fãs de Iron Maiden, visto que é a canção escolhida para as preliminares finais antes dos músicos pisarem no palco. A festa está decretada...  

Foto: Ton Müller
O setlist de Porto Alegre é o mesmo que foi tocado no Rock in Rio e São Paulo, num show cronometrado e planejado para beirar a perfeição. Pense numa abertura espetacular, tipicamente inglesa, um brado que evoca o legado dos Baby Boomers (como são chamados os nascidos logo após o final da Segunda Guerra Mundial). No telão, cenas em P&B da Segunda Guerra e o trecho de um lendário discurso do primeiro-ministro britânico Winston Churchill. "Aces High" é o maior dos chutes na porta que o Iron Maiden poderia escolher para abrir suas apresentações. Uma réplica de um avião Supermarine Spitfire sobrevoa a banda, impressionante imagem que amplifica o impacto sonoro de um tema que remete aos idos da clássica World Slavery Tour (1984/85). Não é uma música fácil de ser cantada antes das cordais vocais de qualquer vocalista estarem completamente aquecidas. Não se trata de uma simples performance, é um teste de fogo para Bruce! 

Foto: Ton Müller
As guitarras continuam emparedadas em “Where Eagles Dare", outra música incomum nos sets deste século, mais do que bem-vinda nesse tour. “To Minutes do Midnight” é a primeira a ganhar um coro monstruoso do público, isso após Bruce Dickinson bater o primeiro papo com a audiência, para logo depois bradar antes do refrão: “Scream to me Porto Alegre”. E o exército dos 40 mil gritou muito alto. "The Clansman” traz Bruce cantando uma música da época que esteve fora do grupo (1994/99), tema que conhecemos de “Virtual XI” (1998), com Blaze Bayley a frente dos mics (talvez a melhor faixa de Blaze do Iron). No palco, Bruce traz a tona outra de suas paixões, a esgrima. Mesmo que o florete seja trocado por uma réplica de espada medieval, o vocalista elegantemente coreografa e se movimenta de um lado para o outro do palco desenhando rabiscos no ar com seu alegórico sabre.  

Foto: Ton Müller
Sempre encontrei em “The Trooper” um dos maiores símbolos do conteúdo intelectual implícito nas letras do Iron Maiden. Nesse quesito, o grupo também foi um dos pioneiros, saindo de uma temática engessada, muitas vezes sem conteúdo relevante, para sobreviver ao teste do tempo. Com músicas como essa o Maiden simplesmente colocou o heavy metal em outro patamar. A temática é baseada num evento histórico da cavalaria britânica do século 19, durante a Guerra da Crimeia. O bardo inglês Alfred Tennyson escreveu um célebre texto sobre o evento, "The Charge of The Light Brigade", relato poético que impulsionou Steve Harris, o Tolstói do metal, a compor “The Trooper”. O resultado dessa inspiração até hoje nos mantém boquiabertos, pois estamos falando de um autêntico apresentar-armas para o quilate da banda que está no palco – trata-se de uma espécie de tema-síntese do som do Iron Maiden. 

Foto: Ton Müller
Uma curiosidade: antes do show conheço Bento Dickel, um garoto de apenas 9 anos que nessa terça-feira teve sua estreia em shows internacionais. Quando pergunto ao jovem fã qual sua canção preferida, ele não reluta: “The Tropper”. Vários pais levaram seus filhos até a Arena, muitas crianças e adolescentes. No entanto, a faixa etária predominante do público certamente pode ser cravada na faixa dos 30/40. E para alegria de Bento, durante sua canção favorita, tivemos ainda a primeira e única aparição do morto-vivo mais famoso do rock, Eddie the Head.  

Foto: Ton Müller
Em “Revelations”, o palco muda, vitral azul ao fundo, candelabros laranjas despencam do alto do teto. Eis mais uma peça de “Piece of Mind” (1983), o álbum que contribui com a maior parte das canções (4), seguido de (3) “The Number of the Beast” (1982) e (2) “Powerslave” (1984), ou seja, mais da metade do set comtempla a época de ouro do grupo. Um amigo jornalista me diz que essa escolha dos temas também leva em conta os views do grupo em seu canal oficial no YouTube.

Foto: Ton Müller
Tratando-se de uma fã de Iron Maiden que abandonou a banda no contestado “Somewhere in Time” (1986), um LP que particularmente está entre meus preferidos do grupo, músicas como “For the Greater Good of God” (2005), “The Wicker Man” (2000) e “Sign of the Cross” (1995), mais uma da breve era Blaze Bayley, simplesmente não conseguem capturar minha atenção - “Eu tenho o maior respeito por Blaze, pois ele entrou na banda em um momento muito difícil (…) Ele é uma ótima pessoa”, revelou Dickinson ao programa de rádio inglês Do You Know Jack? Eu sei, possivelmente seja execrado por essa declaração, é inegável que há valores nesses temas, principalmente em "Sign of the Cross", uma espécie de "Kashmir" do Iron Maiden, música que Bruce tomou para si. Porém, essa mesma trinca ainda reforça uma teoria própria de que a ideia de som do Iron já está esgotada, e que no final das contas, salvo exceções, assim como acontece com os Stones (novamente uma comparação entre bandas incomparáveis), afora algum novo tema interessante aqui e acolá, o que grande parte do público realmente quer ouvir são os clássicos dos anos 1980/90. O próprio desenho do setlist reforça esse sentimento. No entanto, esse refresco na emoção também é o instante que ganho tempo para perceber o vigor e o talento do incansável Nicko McBrain, um rolo compressor que bate da peles com a precisão de um cirurgião.      

Foto: Ton Müller
Por mais que eu também ache um exagero pirotécnico Bruce Dickinson ostentar um lança-chamas em “Flight of the Icarus”, retornamos finalmente ao eixo central da obra maideniana, na companhia de um gigantesco Ícaro gigante no fundo do palco. "Fear of the Dark” é potencializada pela comoção geral da Arena, e é impressionante perceber - no olho do furacão - a força que canções como essa transformam os fãs numa estrondosa e uníssiona massa sonora - "O público aqui [América do Sul], mas especialmente o Brasil, é incrível, são os melhores do mundo. Eu evito dizer isso, porque acho que as pessoas vão ficar com ciúmes, mas é verdade", disse Dickinson em entrevista a RBS TV.

Foto: Ton Müller
E o que dizer de “The Number of the Beast”? A lembrança de um Eddie titereiro maquinando os movimentos de uma figura satânica acorda o menino em mim, um garoto assombrado pela imagem de uma das capas mais significativas do rock. Em "Iron Maiden", música que dá nome a banda, extraída dos primórdios da década de 1980, o guitarrista Jenick Gers faz seu tradicional malabarismo com a guitarra, algo que me soa extremamente desnecessário. A imagem de Janick pipocando de um lado ao outro do palco é a presença mais irritante da noite. Enquanto isso, Dave e Adrian fazem o trabalho sujo...

Foto: Ton Müller
Após um breve intervalo, o quinteto retorna ao palco com “The Evil That Man Do”, e com uma dobradinha do álbum “The Number of The Beast” - “Hallowed Be Thy Name” e “Run to the Hills”. Para nós que não os tínhamos no RS há 11 anos, ver um show do Iron Maiden condensado em apenas 2h, ao vivo, é chance única de sentir de perto a dimensão de como o heavy metal ainda pode ser relevante, grandioso e apoteótico. E o pior, todos sabemos, não existem peças de reposição no tabuleiro da música mundial para preencher a horrorosa lacuna que ficará escancarada quando Bruce, Steve,  Dave, Adrian, *Janick e Nicko não mais caminharem juntos como uma banda(o) pela terra. Na verdade, tivemos a sorte de novamente revê-los por aqui numa grande performance - "O melhor momento do grupo ao vivo depois do retorno de Bruce Dickinson", sugere o maior dos fãs que conheço, o amigo Roberto Lenz (Sesc). Sim, aos 44 anos, o Iron Maiden envelheceu sem perder o viço.

Detalhe negativo: muitas pessoas mais afastadas do palco reclamram da qualidade do som que chegava até elas, espectro sonoro que parece ter oscilado bastante ao longo das duas horas de apresentação. 

Confira a galeria de fotos do fotógrafo Ton Müller    

Ao final do show, me dou por conta de que estou assistindo Iron Maiden pela primeira vez no mesmo ano em que também vi Saxon (leia review AQUI), dois importantes nomes do New Wave of British Heavy Metal, movimento musical inglês que se espalhou pela Europa e pelo mundo propagando o metal inclusive aqui no Brasil. Tive sorte de viver esse tempo. I feel blessed...  

Foto: Ton Müller
O show do Iron Maiden em Porto Alegre marcou a despedida do minitour “The Legacy of the Beast” pelo Brasil. O Maiden segue sua jornada com apresentação no próximo sábado (12) no Estádio do Velez, em Buenos Aires, para logo depois encerrar sua nova passagem pelo continente sul-americano com dois shows no Moviestar Arena, em Santiago, no Chile (14 e 15). Já estamos com saudades...    

Setlist Iron Maiden PoA

Aces High
Where Eagles Dare
2 Minutes to Midnight
The Clansman
The Trooper
Revelations
For the Greater Good of God
The Wicker Man
Sign of the Cross
Flight of Icarus
Fear of the Dark
The Number of the Beast
Iron Maiden

Encore:

The Evil That Men Do
Hallowed Be Thy Name
Run to the Hills  

Foto: Ton Müller

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

SCORPIONS - PORTO ALEGRE, 1° DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Ton Muller
Review Márcio Grings Fotos Ton Müller (exceto indicadas)

Novamente evoco a Máquina do Tempo... o escorpião germânico inicialmente se apossou do coração de um menino de 14/15 anos, um moleque que ainda dava seus primeiros passos no rock, sonhando acordado com meia dúzia de discos manjados girando num toca-discos novinho em folha. No caso, voltamos ao início dos anos 1980, quando o Scorpions, inclusive, engatou um faixa na trilha sonora de uma novela da Globo. Ou seja - até mesmo por aqui, eles estavam na boca do povo! Quem no planeta terra não ouviu em algum momento de sua vida a balada/heavy "Still Loving You", música que tomou de assalto as rádios no biênio 1984/85? Possivelmente a garotada de hoje não entenda o furacão provocado por essa música.

Foto: Ton Muller
Falando em furacão, e o que dizer de uma época em que "Rock You Like A Hurricane" era arroz de festa nas FMs do Brasil? Outros tempos. E a primeira passagem do grupo pelo país veio na esteira do lançamento do álbum "Love at First Sting" (1984), um dos maiores sucessos comerciais da banda, com milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. Com essa credenciais, no 1° Rock in Rio, o Scorpions merecidamente estrelou duas noites no evento, apresentações que ajudaram a sedimentar uma legião de fãs por aqui. 

Matthias Jabbs. Foto: Ton Muller
Meu primeiro LP do Scorpions foi "In Trance" (1975), discaço da época em que o guitarrista Uli Jon Roth ainda era endeuzado como uma espécie de Hendrix alemão. Na capa do vinil, a imagem de uma jovem loira, manuseando com aparente delicadeza uma Fender Stratocaster. A rapaziada mais esperta da época levantou a lebre de que na verdade a garota estaria tendo um affair com o mágico instrumento. Grande parte das capas do Scorpions sempre tiveram certa conotação sexual, é uma das marcas do grupo. 

Foto: Camila Gonçalves
Se os Scorpions já ocupou um lugar no coração de um menino, hoje esse garoto se tornou um veterano que bate da casa dos 50. Contudo, a lembrança daqueles dias ainda paira sobre esse primeiro encontro ao vivo com os alemães. 21h50, depois de Helloween e Whitesnake, segue a maratona do Rock ao Vivo, evento que leva 8 mil pessoas até o Gigantinho. Na abertura, ao cair da cortina azul com a imagem símbolo da "Crazy World Tour", já em "Goin Out With a Bang", fica fácil perceber que o Scopions retorna ao Brasil vestido de gala para essa festa, com show completo em termos de aparatos tecnológicos e um impressionante telão com imagens adicionais preparadas especialmente para a turnê. A formação atual conta com dois remanescentes da linhagem original - Rudolf Schenker (guitarra) e Klaus Meine (vocal). Há quatro décadas Matthias Jabs (guitarra) se tornou um dos responsáveis pelo som do Scorpions. Completam o bando, o músico polonês Pawel Maciwoda (baixo) e Mikkey Dee (bateria).

Foto: Ton Muller
Um pouco adiante, em "The Zoo", entra em jogo o talk box de Mathias Jabs. O aparelho produz uma amplificação que direciona o som da guitarra através de um tubo, posicionado ao lado do microfone, de maneira que ele fique próximo ou na boca do músico. O talk box já foi utilizado em célebres canções do rock - "Show me the Way" (Peter Frampton), "Sweet Emotion" (Aerosmith), "Hair of the Dog (Nazareth), "Living on a Prayer" (Bon Jovi), "Man in the Box (Alice in Chains), entre outras. Coloque "The Zoo" nesse hall das talk box songs. É um dos grande temas do Scorpions, indispensável no set de suas apresentações.

Rudolph Schenker. Foto: Ton Muller
Na instrumental "Coast to Coast", a força das guitarras novamente é destaque, tema instrumental que ganha ainda o elemento figurativo do vocalista Klaus Meine empunhando uma Fender. O medley formado por "Top of the Bill/Speedy's Coming/Steamrock Fever/Catch Your Train" nos leva de volta ao Scorpions pré-mainstream, uma lembrança de "Tokyo Tapes" (1979), o grande álbum ao vivo do grupo nos anos 1970. Basta o riff de "Top of the Bill", um dos grandes hits de "In Trance", para cravar essa sensação saudosista. É indiscutivelmente um dos grandes momentos do show para os verdadeiros fãs do Scorpions. O público, que parece mais frio durante a primeira metade de apresentação, desperta interativo em "We Bulty This House", um dos temas de "Return to Forever", último álbum do grupo, de 2015, e uma das músicas mais interesantes da leva atual. "Delicate Dance", a segunda trilha instrumental da noite, conta com participação de Ingo Powitzer, roadie/técnico de Matthias Jabs, e regra-três no banco de reservas dos guitarristas da equipe. Nos últimos cinco anos ele pode ser ouvido em três álbuns do Scorpions - "Unbreakable" (2014), "Get Your Sting & Blackout" (2011) e "MTV Unplugged in Athens". No palco, Ingo é só felicidade.

Foto: Ton Muller
Aí chegamos nas baladas, dois números que definitivamente acordam até mesmo a plateia chapa branca, e  momento de maior interação da noite. Estamos falando dos roqueiros de ocasião, aquele tipo de público que conhece Scorpions apenas por tabela. E quem nunca ouviu "Send Me An Angel" e principalmente o megahit "Wind of Change"? Eis um dos ápices do grupo nas FMs do mundo nos anos 1990, principalmente "Wind of Change",  letra de Klaus Meine que versa sobre os ventos da mudança que atingiam a Europa, demarcando o ocaso da Guerra Fria e da União Soviética, assim como a queda do Muro de Berlim. Vale lembrar que o Scorpions foi uma das bandas/artistas pioneiras em se apresentar na ex-União Soviética, tudo registrado no DVD "To Russia With Love & Other Savage Amusements" (1988).

Mikkey Dee. Foto: Ton Muller
Em "Tease Me Please Me", Mikkey Dee ganha o seu recorte de destaque no show. Esse músico sueco que atuou em bandas como King Diamond, Dokken e Thin Lizzy, se tornou realmente conhecido como baterista do Motorhead, grupo ao qual gravou 13 álbuns de estúdio, em mais de 20 anos de colaboração. Só abandonou o barco após a morte do baixista, em 2015. O Scorpions é sua nova banda, e Mikki é valorizado no espetáculo, com destaque para constantes imagens do baterista nos telões, e até mesmo pela sua posição em cena - instalado numa grande elevação do palco. E o solo de bateria faz parte desse misancene, condecorando um daqueles instantes clássicos num show de metal.

Chegando a parte final, temas como "Blackout" e "Big City Nights" exibem aquilo que tornou o Scorpions assíduo nas grandes arenas do rock, e com justica, os alemães ainda são roconhecidos por serem responsáveis em tornar o heavy metal um dos gêneros mais amados nos anos 1980/90. E por mais que o flerte com o pop tenha afastado os fãs mais ferrenhos, quando chega o refrão de "Big City Nights" é impossível não nos juntarmos ao coro. Ao vivo, também fica fácil perceber como Jabbs e Shenker gostam de intercalar solos e bases. Curiosidade: no palco, dois guitarristas de uma banda de rock sem tatuagens nos braços, algo raro nos dias atuais. Matthias, mais introspectivo, muitas vezes parecendo concentrado, focado em sua atuação. Rudolph joga para a torcida o tempo todo - seja relembrando o windmill de Pete Townshend, trocando de instrumento a cada música, fazendo caras e bocas para os fotógrafos/público e principalmente correndo de um lado ao ao outro do palco. 

Pawel Maciwoda. Foto: Ton Muller

No bis, uma balada - "Still Loving You" e um tijolaço scorpiano - "Rock You Like a Hurricane" - "Elas são as favoritas dos fãs e são uma boa combinação. Gostamos das duas. As pessoas curtem a atmosfera e 'Rock You Like A Hurricane' é uma ótima canção para fechar as apresentações", disse Matthias Jabs em entrevista ao site G1. Impossível contestar o óbvio.

Próxima parada do Scorpions é na sexta-feira (4), quando fechará a noite do quinto dia do Rock in Rio. Antes, também no Palco Mundo, ainda se apresentam Sepultura, Helloween e Iron Maiden. Como assim? Iron Maiden tocando antes do Scorpions? - "Eu sei, é claro, que o Iron Maiden é a atração principal. Mas eles preferem tocar mais cedo e pediram que tocássemos mais tarde. Aceitamos, não tem problema", explicou Jabbs na mesma entrevista ao G1. Depois do ensaio geral em Porto Alegre, o Scorpions está azeitado para  novamente fazer história no Rock in Rio.               

Foto: Divulgação Facebook Scorpions



Setlist Scorpions - Rock ao Vivo/PoA

Going Out With a Bang
Make It Real
The Zoo
Coast to Coast
Medley: Top of the Bill / Steamrock Fever / Speedy's Coming / Catch Your Train
We Built This House
Delicate Dance
Send Me an Angel
Wind of Change
Tease Me Please Me
Blackout
Big City Nights

Encore

Still Loving You
Rock You Like a Hurricane


Foto: Ton Muller


WHITESNAKE - PORTO ALEGRE, 1º DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Ton Muller
Review Márcio Grings Fotos Ton Müller (exceto indicadas)

Há várias temporadas o Whitesnake já é habitué no país. Como esquecer a memorável participação do grupo na primeira edição do Rock in Rio? A banda liderada por David Coverdale foi responsável pelo debute internacional no lendário festival, divisor de águas para eventos desse porte na América do Sul. Aos que não estavam lá, no mesmo instante em que o grupo pisava no palco brasileiro, houve uma segunda chance - o Whitesnake surgiu na TV aberta (numa época em que só havia essa opção), em pleno horário nobre, na noite da sexta-feira 11 de janeiro de 1985, logo após mais um capítulo inédito da novela "Corpo a Corpo" da Rede Globo (Veja o show completo AQUI). Eu tinha apenas 14 anos, e em termos musicais, por um certo tempo, após essa noite, poucas experiências musicais seriam fora do circuito do rock.

Foto: Ton Muller
A geração que surgiu pareada àquele Rock in Rio - o primeiro e o mais original de todos - inevitavelmente nasceu roqueira, não haveria escapatória. Outros tempos. A presença alienígena de David Coverdale pelas ondas da telinha em terras brazucas antecipou o rolo compressor que chegaria logo após, ainda naquela mesma noite - Iron Maiden e Queen. Mas aí já é covardia... E também é outra história. O Whitesnake ainda tocaria em mais uma noite do festival, dividindo o palco com AC/DC, Scorpions e Ozzy Osbourne. 

O Coverdade de 1985 tinha apenas 33 anos, e uma década após juntar os cacos restantes do ocaso do Deep Purple, o jovem músico inglês havia conseguido reconstruir sua carreira com o Whitesnake. "Slide It In" (1984),  sexto disco de estúdio do grupo, vendeu milhões de cópias. E mesmo que o Whitesnake tenha entrada pela porta dos fundos do Rock in Rio, após o cancelamento do Def Leppard, isso apenas 11 dias antes do início do festival, Coverdale e os seus tiraram a sorte grande naquele início de verão carioca. Pra encurtar a história, meu primeiro encontro ao vivo com o Whitesnake aconteceria apenas 31 anos depois daquele show em que estava com o rosto grudado no ecrã. E não houve chance para decepção naquele 20 de setembro de 2016 (leia review AQUI).   

Foto: Ton Muller
Quis o destino que apenas três anos depois, cá estivesse eu, novamente frente a David Coverdale e os seus. A banda que o acompanha é a mesma de 2016, uma das formações mais estáveis do Whitesnake, pelo menos nesse século - nas guitarras Reb Beach (Winger, Dokken e Alice Cooper) e Joel Hoekstra (integrante do musical da Broadway Rock of Ages); no baixo, Michael Devin (Lynch Mob) e na bateria, um veterano de muitas guerras, o norte-americano Tommy Aldridge (Black Oak Arkansas e Ozzy Osbourne). O tecladista Michele Luppi completa o bando, músico italiano que ocupa uma posição ingrata: - ele senta na mesma cadeira ocupada anteriormente por dois tecladistas do Deep Purple - Jon Lord e Don Airey. 

Joel Hoekstra. Foto: Ton Muller
Após o início com Helloween, pontualmente às 20h o Whitesnake surge no palco do Gigantinho. A novidade que separa esses três anos entre um show e outro é  "Flesh & Blood", novo álbum do Whitesnake que pontua três temas no atual setlist - "Trouble Is Your Middle Name", a fraquinha "Shut up and kiss me", e a melhor delas - "Hey You (You Make Me Rock)", tema com o DNA daquilo que conhecemos de melhor do grupo. Assim como em 2016, o repertório básico está compreendido entre (1982-1987), mesa posta com hits absolutos - "Slide It In", "Love Ain't No Stranger", "Is This Love", "Here I Go Again" e "Gimme All Your Love". 

O solo de bateria de Tommy Aldridge é realmente impressionante - e aqui escreve alguém que detesta performances exibicionistas de qualquer instrumentista - mas quando o vemos largar as baquetas e esbofetear os pratos com as pontas dos dedos, a forma como toca bateria é realmente impressionante. Impossível não lembrar de John Bonham.

Na parte final do show, fica visível que a voz de Coverdale está longe de seus melhores dias, e é nesse momento que os vocais de apoio da banda, principalmente a voz sombra de Michele Luppi, assim como o próprio público, reforçam os refrões. No entanto, a presença cênica do sorridente vocalista continua imponente, assim como vê-lo de perto é como poder retornar a uma das épocas mais celebradas do rock mundial. O melhor exemplo desse amparo está na despedida, em "Burn", clássico absoluto da formação MK4 do Deep Purple. O guitarrista Reb Beach quebra o galho na parte cantada originalmente por Glenn Hughes, com Coverdade caminhando de um lado ao outro do palco, fazendo caras e bocas para o público.

Reb Beach. Foto: Ton Muller
Aos 69 anos, o David Coverdale de 2019, continua orgulhoso de seu espólio, e quem não estaria? Sobre uma expectativa de aposentadoria, em entrevista a Rolling Stone Brasil, o vocalista afirmou que não tem planos de pendurar as chuteiras - "Minha banda é ótima, minha plateia é ótima. Eu não tenho nenhuma reclamação, e nenhum plano de me aposentar. Nenhum, mesmo. Ser eu, no momento, é maravilhoso.” Após o show em Porto Alegre, último no Brasil, o Whitesnake ainda se apresenta em Buenos Aires (4), Santiago (7) e Bogotá (10).

Whitesnake - Rock ao Vivo/PoA

Bad Boys
Slide It In
Love ain't no stranger
Hey You (You Make Me Rock)
Slow & Easy
Trouble Is Your Middle Name
Shut up and kiss me
Is This Love
Gimme All Your Love
Here I Go Again
Still of the Night
Burn   
Foto: Ton Muller



Foto: Ton Muller



Michael Devin. Foto: Ton Muller

Tommy Aldridge; Foto: Ton Muller

Foto: Twitter David Coverdale
Reb Beach. Foto: Twitter David Coverdale

HELLOWEEN - PORTO ALEGRE, 1° DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Divulgação Facebook Helloween 
Review Márcio Grings Fotos Edu Deferrari/Opus (exceto indicadas)

A vinda do Helloween ao Brasil em 2019 não estava no script, ou seja, vê-los em Porto Alegre nesse dia 1° de outubro foi um golpe do destino. Quando recebeu o convite de última hora em junho passado, o septeto estava em estúdio. Portanto, a nova incursão pelos palcos brasileiro se deve ao cancelamento da vinda do Megadeth, banda que suspendeu o novo tour logo após Dave Mustaine ser diagnosticado com câncer. Atualmente em tratamento, o guitarrista ainda está afastado dos palcos. 

Desde 2016 o Helloween conta com uma formação inusitada. Depois que o vocalista Michael Kiske e o guitarrista Kai Hansen resolveram suas diferenças com os antigos colegas e voltaram à banda de power metal, o retorno não se configurou na exclusão dos músicos que os substituíram. Tanto que Kiske hoje divide os vocais com Andi Deris, que se juntou ao Helloween em 1994, justamente para ocupar o lugar de seu predecessor. A banda ainda conta com Sascha Gerstner e Michael Weikath (guitarras), Markus Grosskopf (baixo), além de Dani Löble (bateria), 

Foto: Opus promoções/Edu Deferrari
O PUMPKINS UNITED WORLD TOUR circulou por três continentes, passando por 32 países, somando 69 shows para mais de um milhão de pessoas. A turnê terminou em dezembro de 2018, e de certo modo, ganha sobrevida nessa início de primavera no RS. Inicialmente programado para se realizado ao ar livre, na Arena do Grêmio, Rock ao Vivo, evento que ainda recebe Whitesnake e Scorpions, configura-se numa abafada maratona de shows na abóbada escaldante de 40º graus que se tornou o Gigantinho nessa primeira terça-feira de outubro. Nada que não tire a empolgação do público, carente de espetáculos do gênero. Além do calor, a acústica do local funcionou perfeitamente - som de primeira linha no redescoberto Gigantinho. 

Foto: Opus promoções/Edu Deferrari
Às 18h25, justamente no instante em que o calor parece atingir seu ápice, o grupo alemão sobe ao palco. Em poucos minutos, Kiske e Deris suam como se estivessem no sol a pino, derretando sob às luzes, dividindo os vocais e a atenção em "I'm Alive". Na necessidade de suprimir o setlist em pouco mais de 1h de apresentação, tomando por base a história do Helloween, com 15 álbuns de estúdio lançados, apenas três deles são responsáveis por 80% do set - "Walls of Jericho" (1985), além da dobradinha mágica construída nos temáticos "Keeper of the Seven Keys, Part I" (1987) e "Keeper of the Seven Keys, Part II (1988), ou seja - temos um comeback special da produção do grupo na segunda metade dos anos 1980, época em que o Helloween firmou território como uma das importantes bandas daquele período. E como sabemos, os alemães seguiram adiante...

Foto: Opus Promoções/Edu Diferrari/
É fácil constatar que o septeto conseguiu algo que parecia muito difícil: transformar esse reagrupamento num dos mais divertidos shows do rock atual. No palco, em deferência a individualidade, todos jogam para o time, como em "Dr. Stein", quando Gerstner, Weikath e Hansen  dividem base e solos num impressionante enlace de guitarras. Se você tem dois vocalistas de ponta, chance de rodar o pião e mostrar ao público esse fantástico cartel de vozes - em "Eagle Fly Free", destaque para Michael Kiske, front leader dos anos inicias do Helooween. Já em "Perfect Gentleman", Andi Deris, de blazer prateado, cartola e bengala, não apenas compõe com 'perfeição' o elemento cênico, mas também revela vários traços de seu talento com performer - "Eu não sou Freddie Mercury, mas pelo menos estou vivo", diz a plateia. O jogo das guitarras permanece em "Ride the Sky", com destaque para o vocal de Kai Hansen, terceira força vocal do Helloween.

Deris volta a brilhar na única balada da noite, "A Tale That Wasn't Right", um dos sons que inicialmente me conectou ao Helloween, e que inevitavelmente se trasnforma num dos grandes mementos da noite. Quando chegamos nos instantes finais, em "I Want Out", balões laranjas sobrevoam as cabeças do público.

Foto: Adriel Douglas
Totalmente em clima de festa, quando com punho cerrado tento acertar um dos balões, acabo por virar um copo de cerveja no meu próprio peito. Esse é o clima do show do Helloween no Gigantinho, um espetáculo para ser apreciado com o coração aberto, em tom de celebração. Show com cheiro de ensaio geral para o Rock in Rio. E no mesmo dia de sua patricipação no festival (4), o Heloween lança "United Alive", DVD/Blu-RAY e "United Alive in Madrid", em dois formatos, CD/Vinyl. Alguém tem dúvida de que o Helloween vive um dos melhores momentos de sua carreira? 

Setlist - Rock ao Vivo/PoA

I'm Alive
Dr. Stein
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segunda-feira, 29 de julho de 2019

ANTHONY 'BIG A' SHERROD - SANTA MARIA, 27 DE JULHO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Por mais que haja um romantismo literário na palavra bluesman, alguns oportunistas acabam se apropriando ilegitimamente desse epíteto. E na verdade, nem sempre trata-se de uma questão de predileção ou de um simples carimbo tatuado na persona artística, o certificado de autenticidade muitas vezes não é visualizado numa simples passada de olhos. Vinícius de Moraes escreveu: “O samba nasceu lá na Bahia/ E se hoje ele é branco na poesia/ Ele é negro demais no coração.” E se o samba primeiramente surgiu na Bahia, como sabemos, o blues de uma forma iconográfica e efetiva também nasceu negro no Mississippi. Mas nem todo homem ou mulher que aflorou no território baiano é sambista, e  necessariamente não temos um bluesman em cada afro-americano concebido no Mississippi. Contudo, quando essa associação entre o mapeamento geográfico e ancestralidade comungam na mesma cartilha, muitas vezes é deflagrado o milagre - eis o instante mágico em que 'o trovão soa'... 

Foto: Pablito Diego
Depois de Wee Willie Walker (USA), Witney Shay (USA), Tom Worrell (USA) e Luciano Leães & The Big Chiefs (BRA), o Memorabilia Blues no Plataforma 85 recebe sua quarta atração norte-americana, o guitarrista Anthony "Big A" Sherrod. O músico nasceu em Clarksdale, no Mississippi, uma das cidades mais míticas do blues, berço de importantes nomes da música negra como Eddie Boyd, Jackie Brenston, Willie Brown, Sam Cooke, John Lee Hooker, Son House, Ike Turner, Robert "Bilbo" Walker Jr, entre outros. É também em Clarksdale que a Highway 61 encontra a Highway 49, encruzilhada onde supostamente Robert Johnson fundamentou seu pacto com o lado oculto da força.

Foto: Pablito Diego
Anthony toca blues desde uma idade muito jovem. Filho do cantor gospel E.J. Johnson, encontrou inspiração e instrução num dos grandes educadores sobre a geografia musical do Delta do Mississippi, Johnnie Billington, com quem conviveu e se tornou um discípulo - "Mais do que ensinar a tocar blues, Billington orientava a crianças como eu sobre a importância de se manter fora de problemas. Eram aulas de sobrevivência para as dificuldades que a vida iria nos apresentar mais tarde", explicou Big A ao jornalista Andrei Andrade do Jornal Pioneiro de Caxias do Sul. O guitarrista também é apresentado com destaque no documentário musical "We Juke Up In Here” (2012) - veja trailer AQUI, um mergulho na atual cena do blues em sua Terra Natal. A música tema do filme é dele.

Foto: Pablito Diego
E antes de chegarmos na Blues Special Band, trio que acompanha o norte-americano, vamos falar do músico/produtor argentino Adrian Flores. Residindo há 15 anos no Brasil (Navegantes - SC), Adrian certamente é uma das figuras mais emblemáticas do blues sul-americano. Como pesquisador e amante do blues, são quase 40 anos de imersão, somando 27 anos na produção efetiva de shows, tendo articulado a vinda de 52 artistas internacionais, isso somente de afro-americanos ligados ao blues. É ele o responsável por trazer Big A pela segunda vez ao Brasil. O resultado dessa atividade alcança a incrível marca de quase 700 shows pelo continente! Além disso, Adrian Flores ainda atua como baterista e diretor musical nos eventos musicais que promove, recrutando músicos argentinos/brasileiros para acompanhar os gringos.

Foto: Pablito Diego
Assim, no palco ele movimenta as baquetas e dirige o time que acompanha Sherrod - Santiago Tomy Esposito (guitarra) e Nico Fami (baixo), argentinos como ele. Quando não estão tocando como banda base de fora, o trio atende por Los Gringos. Porém, ao lado de personagens do blues internacional, seja em tours pela América Latina, América Central ou Europa, chame-os de Blues Special Band, em mais uma de suas encarnações.

Foto: Pablito Diego
O show começa pontualmente ás 22h30, com "Everyday I Have The Blues", abrindo alas com a maior das referências de Sherrod - "Meu ídolo é BB King. Fui criado tocando a música dele", disse a Camila Gonçalves, repórter do Diário de Santa Maria. Vê-lo ao vivo nos permite presenciar um músico com a cara do blues. A manha, a ginga, o sotaque, o senso de humor, o tom provocativo, a constante troca e interação com o público - inúmeros trejeitos decodificados e remontados num único artista. Entre uma música e outra, como um boxeador ao soar do sino que encerra um round, ele recorre a uma toalha para secar o suor de seu rosto. E como toca sem setlist, a vibração de cada apresentação é sempre exclusiva - "Eu nunca sei o que vou tocar. Eu toco de acordo com o que eu sei e como eu me sinto, e o que percebo na vibe do público", explicou na mesma reportagem do Diário.

Foto: Pablito Diego

Showman convicto, meneia guitarra sem um cabo conectado ao amplificador (via transmissor sem fio), promovendo um dos grandes momentos de suas apresentações - longos passeios performando em meio ao público. Por quatro vezes, durante o show, o músico explora praticamente todos os espaços do bar, encantando a audiência com seus carisma, talento e simpatia. No repertório, vários momentos de pico, reconfigurando clássicos como "Hoochie Coochie Man" (Willie Dixon), "I Got Woman" (Ray Charles), "Lucille" (Little Richard), "Mustang Sally" (Mack Rice) e "Got My Mojo Working" (Preston Foster), entre outros. No momento em que parece citar o riff inicial de "Feel's Like a Rain" (Buddy Guy), emenda uma monumental versão de "Frankie and Johnny" (Sam Cooke), um dos instantâneos mágicos da noite, revelando sua capacidade se apropriar dos temas que o inspiram, imprimindo uma digital própria nessa reinvenção.

Foto: Pablito Diego
O baterista local, Ninu Ilha (Kingsize Blues), um dos cicerones de Sherrod e banda na cidade, participa de dois temas, ganhando merecido destaque no evento, ele que há mais de 25 anos é um dos grandes músicos ligados ao blues em Santa Maria - "O sentimento era de que eu poderia tocar a noite toda, estava muito confortável naquele palco", fala Ninu ao final de sua participação - "Anthony me disse que toco com alma", conclui com uma sensação de dever cumprido.               

Foto: Pablito Diego



Uma das grandes revelações em assistir a apresentação de Big A é que estamos presenciando uma renovação aonde a renovação é escassa. Aos 35 anos, Anthony Sherrod é um daqueles artistas que parecem compreender com legitimidade as bençãos e maledicências dessa trajetória. Através dele, importantes nomes que já partiram, lendas como B.B. King, Little Milton, Albert Collins, Big Jack Johnson (seu padrinho musical como guitarrista) sobrevivem a cada nova apresentação - "Quero continuar ensinando, compondo e tocando blues por diferentes cidades e países. Desejo seguir divertindo as pessoas, assim como eu também me divirto fazendo meu trabalho", conclui o músico ciente de seu ativismo e predestinação artística "Sou grato a todo esse legado que construiu o gênero e que permanentemente continua agindo sobre minha música".    

O Memorabilia Blues no Plataforma 85 é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio: Radiadores Schiavini, Uglione, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial: Santa Madre. Apoio: Cabeça Arte, Gasoline Barber e Diário de Santa Maria. Técnica de som: Diego Fiorenza. Apoio de logística: Ninu Ilha. Captação de áudio: Anderson Bittencourt. Desenho de luz e operação: Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa: Alfredo Giardin e Taís Streit. Comunicação e cobertura fotográfica: Há Cena Cultural. Realização: Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos, em parceria com a Blues Special Produções.

Próxima atração, Luana Pacheco, em 16 de agosto.

Foto: Pablito Diego

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