quarta-feira, 31 de outubro de 2018

ROGER WATERS - PORTO ALEGRE, 30 DE OUTUBRO DE 2018

Fotos: Fábio Codevila
Review Márcio Grings Fotos Fábio Codevilla

Não há lembrança, pelos menos nos últimos anos, de um tour mundial em curso pelo país que tenha gerado tamanha discussão e repercussão, principalmente fora do espectro artístico. Durante grande parte do mês de outubro, Roger Waters incursionou pelo olho do furacão da controvérsia política. E como estava aqui, batendo cartão pelo nosso quintal e atento aos acontecimentos, quase numa posição de 'analista internacional', o músico britânico pôde vivenciar o clima de polarização na disputa eleitoral para a Presidência da República. E não apenas isso, como habitual nas suas práticas de militância, ele não se omitiu, e novamente hasteou bandeiras de protesto. A turnê Us + Them começou por São Paulo (7), e encerrou três semanas depois, exatamente no show em Porto Alegre (30), pouco mais de 48h após o término do pleito eleitoral. Além de uma data extra da capital paulista, o ex-Pink Floyd ainda tocou em outras seis metrópoles. Por importantes fatores extra-musicais, antes de falarmos do último show da perna brasileira da turnê, é necessário um breve resumo das ações até a derradeira apresentação na capital gaúcha.

Relembre a passagem anterior de Roger Waters pelo RS - Beira-Rio, 25/03/12

Foto: Fábio Codevilla
US + THEM EM CURSO PELO PAÍS - Na atual digressão, que teve início em 21 de Maio de 2017, em Kansas City (EUA), Roger Waters propõe uma mistura entre clássicos da banda que o tornou um dos grandes ícones da música  mundial, com a soma de temas de "Is this the life we really want?" (2017), seu álbum mais recente. Porém, para quem conhece o ativismo político do artista, e sua permanente flâmula pela garantia dos Direitos Humanos, sabe que as apresentações do músico inglês nunca foram apenas um evento musical dedicado ao inofensivo entretenimento da massa. "Acho surpreendente que alguém possa ter ouvido minhas músicas por 50 anos sem entender [meu posicionamento]", respondeu. Inclusive, o baixista dá uma alternativa aos fãs que não concordam com seu ponto de vista: "Vejam o show da Katy Perry (...) Eu não me importo".  Desse modo, uma das pertinentes flamas ideológicas da turnê Us + Them é o alerta contra a permanente ameaça do fascismo em diferentes partes do mundo. Um exemplo dessa ação no escopo do evento está simbolizada nas duras críticas ao governo de Donald Trump. 

Foto: Fábio Codebilla
Aqui no Brasil, Roger Waters colocou no telão frontal do palco, o nome do até então candidato, e hoje presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, numa lista de fascistas mundiais. Assim, dividiu opiniões. Além do mais, exibiu a hastag #elenão, um dos principais emblemas oposicionistas ao candidato do PSL. Ganhou mais vaias do que aplausos. Em Salvador, homenageou Mestre Moa do Katendê, morto numa discussão política; no Rio de Janeiro, recebeu no palco a filha, a irmã e a viúva de Marielle Franco, vereadora carioca assassinada em março desse ano. E, também, manteve seu posicionamento fora do palco, em entrevistas a importantes veículos de comunicação do país.

Foto: Fábio Codevilla
Num encontro registrado em vídeo, debateu com Caetano Veloso e categoricamente reafirmou seu temor pela escolha do novo governante do maior país da América Latina: "Tudo o que posso dizer [aos eleitores de Bolsonaro] é que eles deveriam se lembrar de 1933. Eu tenho certeza de que pessoas boas também votaram em Adolf Hitler. E foram eleições democráticas. E quando Hitler chegou ao poder, os alemães assistiram ao incêndio do Reichstag e de repente tudo mudou. (...) Só havia os uniformes marrons e vingança!", alertou na entrevista ao Canal Mídia Ninja.   

Foto: Fábio Codevilla
Em Curitiba, um dia antes do segundo turno das eleições, a Justiça Eleitoral do Paraná mandou advertir a produção do evento sobre as restrições eleitorais que passariam a valer a partir das 22h, exatamente 1h após o início da apresentação no Estádio Couto Pereira. O que aconteceu? 21h59min, uma mensagem surge no telão: "Temos 30 segundos. É nossa última chance de resistirmos ao fascismo antes de Domingo. Ele não! São 10h, obedeçam a lei". Nada como a irreverência inglesa. De todo o modo, Bolsonaro foi eleito, e o show em Porto Alegre passou a ganhar todas as atenções por ser o último show do tour em terras brasileiras, e o único fora do pleito eleitoral. Restava saber como seria o comportamento do músico. 

NÓS E ROGER WATERS / O SHOW EM PORTO ALEGRE - A apresentação em Porto Alegre começa pontualmente às 21h, e acabaria 2h25 depois, sendo a mais curta das oito que Waters fez no país. Tudo é impressionante na estrutura do evento. Para começar, um palco de 750m²; porcos voadores; réplicas das chaminés da termoelétrica de Battersea, em Londres; projeções que usam tecnologia de ponta; 17 projetores de 30K; cinco projetores de 7K para as monstruosas chaminés e mais uma imensa tela de LED de 6k alimentada por 6 feeds; o mair telão frontal HD que você já viu na vida com resolução de 32 Mpixels, ou seja - uma parafernália tecnológica que deixa o público de queixo caído, além de potencializar todas as sensações de estar frente a um dos repertórios mais celebrados do rock em todos os tempos. Só para o porco voador, 48 câmeras e 12 Copernics seguem e iluminam um dos momentos mais esperados do evento. O animal inflável sobrevoa a plateia utilizando a tecnologia de um drone, materializando assim uma recriação da capa de "Animals" (1977). 

Logo nos segundo iniciais, com a introdução de "Speak to me", temos a certeza de que avançamos a passos largos rumo ao território floydiano: - som de relógios e máquina registradora; retalhos de falas e risadas; batidas de coração simuladas por um loop do bumbo de Nick Mason - efeitos sonoros com pontos de áudio espalhados por todo estádio, experiência quadrafônica que antecipa "Breath", sequência de abertura de "Dark side of the moon" (1973). Por mais que todos os olhos se voltem para o protagonista, não há como não mencionar os acompanhantes de Roger Waters. No grupo base, o velho colaborador Jon Carin (piano, teclados, programações, guitarra e vocais); David Kilminster - guitarra e baixo; Gus Seyffert - guitarra, baixo e vocais; Jonathan Wilson - guitarra, baixo e vocais; Bo Koster - piano e teclados;   Ian Ritchie - saxofone; Joey Waronker - bateria; além de Jess Wolfe e Doris Laessig (vocais de apoio e percussão). 

Foto: Fábio Codevilla
A massa sonora empurrada por esse super-time emula o espírito de um Pink Floyd na ponta dos cascos. É o que vemos em "Time", antecipada pelos badalos, despertadores e o compassado tiquetaquear de um relógio, DNA típico do quarteto Waters/Gilmour/Wright/Mason. Se você leu em algum lugar manchetes do tipo "Roger Waters mergulha em política e se esconde em banda cover de Pink Floyd", não se engane. É muito mais do que isso. Além de todo o aparato tecnológico, o que realmente importa é o somatório da proficiência técnica, com um dos melhores shows da atualidade no rock, um repertório emocionante e a sensação de que um DVD está sendo filmado ao vivo frente aos nossos olhos incrédulos.

Foto: Fábio Codevilla
A versão de "The great gig in the sky", um dueto entre as vocalistas de apoio da banda, traz novo sopro a versão original de Clare Torry. As canções do novo álbum solo, "Is this the life we really want?" dialogam perfeitamente com o vernáculo emocional de seus clássicos. Temas como "Déjà Vu", "The Last Refugee", "Picture That" e "Smell the roses" se entrelaçam esteticamente aos standards do Pink.       

Conforme o cronograma habitual da turnê Us + Them, as principais manifestações políticas se detiveram as menções a Donald Trump e pedidos por resistência e ativismo. Num dos importantes momentos da noite, em "Another Brick in the Wall, Part 2", doze crianças do projeto Ouviravida (Porto Alegre), encapuzadas sobem ao palco com macacões laranjas, e durante o refrão da música, retiram o capuz para logo depois exibirem camisetas pretas com a palavra "Resist". Não houve menções diretas/indiretas a Bolsonaro, nem mesmo a hashtag #elenão surgiu no telão, dessa vez Waters resolveu diluir sua linha de protesto dentro do caldeirão geral. Para bom entendedor... Uma curiosidade: na capital gaúcha, Jair Bolsonaro teve 56,85% dos votos válidos, contra 43,15% de Fernando Haddad, mesmo assim, entre os 44 mil espectadores presentes, foram os gritos de "ele não" que soaram mais fortes no Beira-Rio.

Foto: Fábio Codevilla
Durante o intervalo de 15 minutos, o telão nos mantém conectados ao palco através de mensagens de alerta a violações de direitos humanos. De súbito, a usina termelétrica de Battersea surge imponente com chaminés fumegantes, ao mesmo tempo em que uma chuva fina traça riscos em frente as luzes do palco. Trata-se do momento mais político da noite, com "Dogs" e "Pigs", explícitas missivas endereçadas a Trump. Enquanto isso, o porco voador com as palavras 'Stay Human/Seja Humano' sobrevoa a pista em frente ao palco, imagens que nos levam de volta ao álbum "Animals" (1977). "Money" e "Us and Them" revelam o talento de Jonathan Wilson, que além de reprisar várias das guitarras de David Gilmour, também é o responsável por incorporar o estilo de sua interpretação. Os dois temas ainda contam com o saxofone de Ian Ritchie.

Chegando a ponta de baixo do set, o show chega aos seus instantes finais com o epílogo de "Dark side of the moon", o medley "Brain Damage/Eclipe". A chuva se intensifica, a equipe do tour cobre os equipamentos e arma pequenos toldos para proteger os músicos. Desse modo, a chuva encurta a apresentação. Roger anuncia que por cautela, algumas músicas precisam sair do o set. Assim, deixamos de ouvir "Mother" (ou "Two suns in the sunset"). "Confortably Numb", um dos temas símbolo de "The Wall" é o ato conclusivo da apresentação. "De coração, obrigado! Cuidem uns dos outros. And good night". 

Durante "Money", talvez muitos não tenham percebido, o telão exibiu a frase: "Vocês não venceram, no seu mundo nunca há vencedores, só perdedores, e todos perdemos", uma mensagem que talvez tenha passado rápido demais para maus entendedores. Saio do Beira-Rio com a sensação de que acabo de assistir um dos melhores shows da minha existência. Um temporal despenca pelas ruas da capital. Tomo um depurativo banho de chuva a caminho do ônibus que me levará de volta para Santa Maria. Literalmente, de alma lavada com o Outubro Vermelho, pois temos a consciência tranquila de que fizemos nossa parte. E Roger estava do nosso lado. Fica a certeza de que toda luta é válida, que a derrota sempre nos ensina a ficarmos ainda mais fortes, que há convicção quando estamos alinhados a valores que nunca nos envergonharão.   

A turnê conclui sua perna sul-americana no Uruguai (3), Argentina (6 e 9), Chile (14), Peru (17) e Colômbia (21). O último show em 2018 está agendado para o dia 8 de dezembro, em Monterrey, no México. Ainda sobre o show de Roger Waters em Porto Alegre, nossos agradecimentos a Jéssica Barcellos e Cátia Tedesco (Agência Cigana) pelo suporte e credenciamento.       



Set 1:

Speak to Me
Breathe
One of These Days
Time
Breathe (Reprise)
The Great Gig in the Sky
Welcome to the Machine
Déjà Vu
The Last Refugee
Picture That
Wish You Were Here
The Happiest Days of Our Lives
Another Brick in the Wall Part 2
Another Brick in the Wall Part 3

Set 2:

Dogs
Pigs (Three Different Ones)
Money
Us and Them
Smell the Roses
Brain Damage
Eclipse
Comfortably Numb


Veja mais fotos de Fábio Codevilla.

Foto: Fábio Codevilla

Foto: Fábio Codevilla

Foto: Fábio Codevilla

Foto: Fábio Codevilla

Foto: Fábio Codevilla

Foto: Fábio Codevilla

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

NICK CAVE - SÃO PAULO, 14 DE OUTUBRO DE 2018

Foto: Edi Fortini
Por Cristiano Radtke Fotos Edi Fortini

 “Todos os artistas são decepcionantes ao vivo após assistirmos Nick Cave”. Esse poderia ser o título desta resenha, mas na verdade já foi utilizado em um artigo que a revista britânica GQ publicou em seu site em junho deste ano, se referindo a um show que ele fez no Victoria Park londrino.

Veja o álbum de fotos do show de Nick Cave no Espaço das Américas - SP. Por Edi Fortini   

Apoteótico, catártico, epifânico, inesquecível e avassalador foram alguns dos adjetivos que foram ouvidos ao final do show de Nick Cave and the Bad Seeds no Espaço das Américas em São Paulo, na noite do último domingo (14), corroborando a manchete acima citada, utilizada pela revista inglesa. A apresentação fez parte da turnê latino-americana do excelente disco Skeleton Tree, lançado em 2016, e foi o único da banda no Brasil, após ter passado pela Cidade do México, Santiago, Montevidéu e Buenos Aires. 

Foto: Edi Fortini
Aos 61 anos, Nick Cave é um dos mais prolíficos artistas de sua geração, com uma carreira sólida que inclui também livros (o mais recente, “The Sick Bag Song”, espécie de diário poético de sua turnê nos EUA em 2015 foi lançado oficialmente no Brasil na noite do show), participações em filmes (Asas do Desejo, de Wim Wenders e O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford são alguns deles) e parcerias e duetos com nomes como Marianne Faithfull, PJ Harvey (com quem manteve um relacionamento entre 1996 e 1997) e Johnny Cash, além de compor trilhas sonoras com seu mais fiel escudeiro dentre os atuais Bad Seeds, banda que o acompanha há mais de 30 anos: Warren Ellis, com quem ele compartilha a autoria das trilhas sonoras de filmes como "The Proposition" e "Hell or High Water". 

Foto: Edi Fortini
Após mais de 20 anos sem vir ao Brasil (uma das últimas vezes em que pisou em um palco brasileiro foi em Porto Alegre, em 1993, o show na capital paulista marca um retorno à cidade que foi seu lar no começo dos anos 90 (saiba mais AQUI), e foi tratado merecidamente como um dos grandes acontecimentos do ano. Às 18h, abertos os portões do Espaço das Américas, os ansiosos fãs que formavam uma grande fila desde meados da tarde correram para poder ficar mais próximos ao palco, pois é conhecida a interação de Nick com esse público mais aguerrido, que não poupa esforços para estar mais próximo a seu ídolo. 

Foto: Edi Fortini
À medida em que se aproxima o começo do show, a música ambiente dá lugar a uma bela versão de "Streets of Laredo" e no telão central surge uma foto de Conway Savage, ex-tecladista dos Bad Seeds e recentemente falecido. Quando soube da morte do amigo, Nick postou uma bela história em seu site oficial (leia AQUI), justificando a escolha dessa música como tributo a Conway antes do show: “bêbados, por volta das 4 da manhã no bar de um hotel em Colônia, Conway cantou 'Streets of Laredo' ao piano para nós em seu doce e melancólico estilo, e o mundo parou por um instante”. Poucos minutos depois, as luzes se apagam e a banda entra no palco sem qualquer anúncio. 

Martyn Casey (baixo) Jim Sclavunos (percussão, bateria, vibrafone, piano) George Vjestica (guitarra e violão) Larry Mullins (bateria e percussão) Dave Sherman  (teclado e piano) tomam seus lugares e por último aparece Warren Ellis (violino, guitarra tenor, piano, sintetizadores e loops), que por ser talvez o membro mais conhecido da banda é o mais aplaudido deles, seguido de Nick Cave, que aparece pouco depois, elegantemente vestido com um terno preto e um sapato verniz preto, dando início ao show. 

Foto: Edi Fortini
Como de costume nesta turnê, Nick abriu com “Jesus Alone”, seguida de “Magneto”, ambas de seu último disco, "Skeleton Tree". Na verdade, os setlists de seus shows na América Latina são quase todos idênticos, com músicas pinçadas de seus principais discos e dando destaque às de "Skeleton Tree". A exceção surpreendente do show de São Paulo foi “Jack the Ripper”, que ainda não havia sido tocada neste ano. 

Ao vivo, as canções se transformam de tal maneira que o magnetismo exercido por Nick é impossível de passar despercebido e contagia de imediato o público, hipnotizado com sua performance, que por vezes parece emular Jim Morrison e em outras Elvis na fase Las Vegas, ora jogando o microfone longe ou chutando o pedestal, ora postando-se no palco como se estivesse possuído por todos os espíritos do mundo. É como se Nick estivesse exorcizando seus demônios interiores e ao mesmo tempo nos ajudasse a fazer o mesmo.  

Foto: Edi Fortini
Embora no palco Nick pareça estar às vezes em um mundo só seu, durante o show ele demonstra uma interação com o público poucas vezes vista em apresentações de outros artistas. Logo após “Do You Love Me?” (cujo clip original foi gravado em SP), Nick ouve uma fã chamá-lo, procura-a na plateia e pede para que ela se aproxime do palco para em seguida emendar com a frase com que ele habitualmente abre “From Her to Eternity”: “I wanna tell you ‘bout a girl”, empolgando o público." Em outro momento de interação, Nick assina a capa do LP "Tender Prey" para um fã que o segurava com um cartaz escrito “Nick sign”.

Levando em consideração que Nick não é muito afeito a manifestações políticas, a ponto de declarar em uma coletiva de imprensa dias antes do show em SP que “não tentamos resolver os problemas mundiais, eu deixo esse trabalho para o Roger Waters” (veja AQUI), o momento de incerteza por que passa o Brasil serviu para que um coro inicialmente tímido de “ele não!”, em princípio meio ignorado por Nick, que pareceu não dar muita atenção a isso, passasse aos poucos a dominar o show.  

Foto: Edi Fortini
Um coro exagerado por parte da plateia foi o pedido para que Nick tocasse “Foi na Cruz”, do disco "The Good Son", gravado no Brasil. Após insistentes pedidos, Nick fez uma tentativa frustrada, chegando a ser acompanhado pela banda por alguns segundos para em seguida interrompê-la e dizer que não lembrava da letra, para então emendar “The Ship Song”, do mesmo disco. Ainda assim, o coro de “Foi na Cruz” foi ouvido várias vezes depois disso. 

“Esta é uma oração para o Brasil”, anuncia Nick, antes de tocar "Into my Arms", canção emblemática de “Boatman’s Call”, um dos seus discos mais celebrados. Nessa altura, o show já estava praticamente na metade (foi a nona das vinte músicas do set) e a apresentação já havia sido tomada pelo forte viés político, marcado pelos gritos de “ele não!”, que se no começo do show eram ainda tímidos, no decorrer da noite ganharam força, surgindo não apenas entre uma música e outra mas também durante elas. 

Foto: Edi Fortini
Talvez por isso, o verso “eu acredito no amor” tenha soado de maneira extremamente significativa para o público, que o aplaudiu fervorosamente nesse momento, parecendo como se Nick estivesse se solidarizando com as expectativas de seus fãs. 

 O ápice desse momento político veio em “Weeping Song”, em que Nick desceu do palco e tal qual um Moisés cruzando o mar Vermelho, abriu caminho entre os fãs até chegar a um púlpito montado no meio da plateia, onde subiu e regeu o público, que o acompanhava nas palmas, mas chegando ao ponto de não apenas estimulá-los discretamente a gritar “ele não!” como também de participar brevemente do coro, para delírio dos fãs. VEJA 

Foto: Edi Fortini
Outra prova do magnetismo de Nick foi durante "Stagger Lee", em que aproximadamente 40 pessoas subiram ao palco. Se fosse com outro artista, talvez isso pudesse não acabar bem, mas o domínio que Nick tem sobre os convidados ao palco é tamanho que tudo transcorre de maneira normal, apesar da insistência de alguns fãs em tirar selfies com ele, que pede para que guardem seus celulares. Durante “Push the Sky Away”, a canção seguinte, os fãs permanecem no palco e Nick os rege assim como aconteceu com o coro original da versão de estúdio, cantado por crianças.  

As cerca de 8 mil pessoas presentes no Espaço das Américas testemunharam mais do que um simples show, mas um verdadeiro culto em que seu líder era Nick, de maneira quase messiânica, comportamento raras vezes visto entre os rockstars, e no qual apenas um grupo muito seleto poderia ser incluído.  

Foto: Edi Fortini
Após duas horas e meia de verdadeira catarse, Nick e os Bad Seeds saem do palco, encerrando um show mais que apoteótico. Pode-se afirmar sem sombra de dúvida que todos os presentes voltaram para suas casas reconfortados pelas palavras e pela empatia de Nick, com a esperança de um futuro menos sombrio. Se isso será conseguido, não sabemos, mas momentos como o dessa noite nos dão ainda mais forças para lutar. E saber que um dos melhores compositores e frontmen de todos os tempos está ao nosso lado torna tudo ainda melhor.  

Setlist

Jesus Alone (de Skeleton Tree)
Magneto (de Skeleton Tree) 
Higgs Boson Blues (de Push the Sky Away)
Do You Love Me? (de Let Love In)
From Her to Eternity (de From Her to Eternity)
Loverman (de Let Love In)
Red Right Hand (de Let Love In) 
The Ship Song (de The Good Son)
Into My Arms (de The Boatman’s Call)
Shoot Me Down (lado B de Bring it On)
Girl in Amber (de Skeleton Tree)
Tupelo (de The Firstborn is Dead)
Jubilee Street (de Push the Sky Away)
The Weeping Song (de The Good Son)
Stagger Lee (de Murder Ballads)
Push the Sky Away (de Push the Sky Away)

Bis:

City of Refuge (de Tender Prey)
The Mercy Seat (de Tender Prey)
Jack the Ripper (de Henry’s Dream)
Rings of Saturn (de Skeleton Tree)

Foto: Edi Fortini

domingo, 30 de setembro de 2018

THIRTY SECONDS TO MARS - PORTO ALEGRE, 29 DE SETEMBRO DE 2018

Foto: Glauco Malta
Review: Ana Bittencourt Fotos: Glauco Malta 

Eu sobrevivi ao apocalipse. Essa era a minha sensação quando saí do Pepsi On Stage na noite de sábado (29). Para mim e provavelmente para grande parte dos presentes no evento, o princípio do hecatombe pop que tomou a capital gaúcha, com Thirty Seconds to Mars e seu The Monolith Tour. Em uma apresentação enxuta – inicia pontualmente às 21h e encerra uma hora e 20 minutos depois – os irmãos Leto mostram porque a banda está em sua melhor fase.

Durante o show, bem conduzido e brilhantemente executado, ninguém percebe que o vocalista Jared Leto esta resfriado, conforme anunciou em seu Instagram no dia anterior. A não ser pelo tempo de apresentação, sem o tradicional retorno ao palco para o bis, ninguém diria que a noite passou rápida demais. Jared e o irmão, Shannon Leto, alimentam a platéia com músicas do novo álbum, “America”, e também com clássicos de discos anteriores, como “The Kill (Bury Me)” e “From Yesterday”. No total, 16 canções foram entregues à platéia, seguindo o mesmo setlist tocado em São Paulo, na última quinta-feira (27). Em Porto Alegre, apenas a música “Do or Die” fica de fora do setlist.

Foto: Glauco Malta
Jared Leto merece um parágrafo à parte. Simpático e eficiente nos vocais, o vocalista premiado com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação em “Clube de Compras Dallas” (2013) – sim, Jared tem uma carreira consolidada no cinema – entra no palco vestindo um caftan (espécie de kimono colorido, vestimenta tradicional no Oriente Médio). À vontade diante da platéia, formada por fãs de todas as idades, Leto é sedutor e retém todas as atenções, mas não esquece de deixar que seu irmão, Shannon Leto, também ganhe destaque, tanto na execução das músicas, quanto no momento em que o baterista larga as baquetas para cantar “Remedy” à frente do palco. Jared Leto é um showman: canta, encanta, diverte, interage com o público e o mais importante: sente prazer em estar no palco.

Foto: Glauco Malta
Na minha visão de jornalista que não apenas observa um espetáculo para registrá-lo na memória, mas também para documentá-lo num Review, o público presente no Pepsi On Stage é uma surpresa que precisa ser mencionada. Saí de casa esperando uma plateia formada basicamente por adolescentes, mas me enganei ao encontrar uma legião heterogênea de fãs. Ao meu lado, o amigo, radialista e músico Paulo Inchauspe, veio para ver o show, mas fez questão de trazer o primogênito João para estrear em seu primeiro show, aos 15 anos, justamente com a Thirty Seconds to Mars. Nada mal começar a vida nessa cachaça de assistir shows diante dessa banda apocalíptica.

Por fim, com todas as expectativas superadas, os irmãos Leto me deixam com a sensação de que vale a pena enfrentar uma noite de tempestade para estar no olho do furacão. Com uma promessa de voltar à Porto Alegre, Jared Leto me conquistou e já me convenceu: estarei novamente na plateia, com absoluta certeza.

Foto: Glauco Malta
Grings - Tours, Produções e eventos agradece especialmente a Jéssica Barcelos Salgado-Martins (Agência Cigana), pelo suporte e assessoria. A próxima apresentação do TSTM é em Curitiba, neste domingo (30), no Teatro Positivo. 

Foto: Glauco Malta

Confira o setlist:

Monolith
Up in the Air
Kings and Queens
This Is War
Dangerous Night
From Yesterday
Love Is Madness
Hail to the Victor
Live Like a Dream
City of Angels
Rescue Me
Hurricane
Remedy
The Kill (Bury Me)
Walk on Water
Closer to the Edge

domingo, 29 de abril de 2018

GLENN HUGHES - PORTO ALEGRE, 28 DE ABRIL DE 2018

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Foto: Ton Muller
Por Márcio Grings Fotos Ton Muller

Glenn Hughes viveu - e ainda vive - uma vida de rock'n'roll. Basta olhar para o legado que construiu em quase 50 anos de carreira. Aos 65 anos, o nobre cidadão de Cannok, Staffordshire, cidade localizada nas West Midlands, região centro oeste da Inglaterra, tornou-se um baixista/vocalista/compositor admirado como artista ímpar no gênero. Seja desde os primeiros movimentos como menino prodígio no Trapeze, banda que ajudou a formar com apenas 17 anos, mas principalmente como integrante do Deep Purple entre 1973-76, quando registrou uma digital única nos álbuns "Burn" (1974), "Stormbringer"(1974) e "Come Taste the Band" (1975), e assim, virou um das peças chaves do hard rock naquela década. Após o ocaso do Purple em 1976, forjou parceria com o guitarrista Pat Thrall (Meat Loaf/Asia); gravou com John Lynn Turner; deixou sua marca no Black Sabbath; tocou com Gary Moore; ao lado de Joe Bonamassa brilhou (e ainda brilha) no Black Country Communion; e na companhia de Jason Bonham (filho do homem!), criou o grupo California Breed. Perceberam os laços de Hughes com a tríade sagrada do hard rock nos anos 1970? (Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin). E além de todos os enlaces e projetos, sacolejado por um turbulento espírito leonino - hiperativo - até agora já empilhou catorze álbuns solo distribuídos ao longo das últimas quatro décadas.

Foto: Ton Muller
Antes de aterrizar em Porto Alegre, Glenn Hughes e banda cruzaram por Dinamarca, França, Chile e Argentina, além de seis cidades brasileiras. O atual show, "Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live", não passa de uma profunda reimersão num repertório que demarca o ápice artístico do músico inglês. Depois da ruptura do grupo que o tornou uma lenda do rock, por mais que como ex-integrante do Purple nunca deixasse de tocar as composições que ajudou a escrever, essa é a primeira vez que Hughes entra de corpo e alma no repertório que tão bem conhece. E por que não? Lembre-se, a atual formação do Deep Purple passa longe dessas músicas, além de que desde o seu reagrupamento em 1984, cantar músicas que não escreveu enquanto esteve fora do time é algo que certamente nunca passou pela cabeça de Ian Gillan. E se David Coverdale, à frente do Whitesnake, já pagou tributo a história em comum com Glenn Hughes, num álbum de estúdio, noutro ao vivo e ainda em turnê dedicada ao período em que esteve no Deep Purple, nada mais justo que Glenn Hughes também faça o mesmo. Afinal, quantos veteranos atualmente sentem-se habilitados em cantar oitavas sem precedentes no rock? Que vocalistas dos anos 1960/70 continuam a desafiar os limites do tempo com cordas vocais capazes de reprisar no talo músicas que tornaram mítica essa trajetória?

Foto: Ton Muller
E ainda falando de retornos, tanto Coverdale, quanto Hughes, protagonistas na MK3 e MK4 (siglas que designam a terceira e quarta encarnação do Purple), optaram por diferentes abordagens ao reler esse capítulo de suas carreiras. Coverdale resolveu reinventar os temas e colocar um carimbo com o selo do Whitesnake. Já Glenn Hughes coloca o pé na porta e dá aos fãs exatamente aquilo eles sempre quiseram ouvir. Ou seja, um translúcido espelhamento de como as ações decorriam ao vivo com o Deep Purple durante os anos finais da bandas na década de 70. Estamos falando de álbuns clássicos como "Live in London" e "Made in Europe", cânones e supra-sumo do hard rock nos anos dourados do gênero.

Veja mais fotos de Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live Por Camila Gonçalves 
Veja mais fotos de Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live Por Ton Muller

Foto: Ton Muller
O tour que iniciou no último dia 4, mantém um setlist estável, com 11 e 12 canções distribuídas em cerca de duas horas de apresentação. Antes de Porto Alegre, oito apresentações tiveram o mesmo set. O show mais curto foi em Chauny, na França (apenas 9 temas, sem "Holy Man", "Sail Away" e "This Time Around"). Depois de 2010/15, em sua terceira passagem pela Capital gaúcha, o 'comeback special' de Glenn começa seguindo o protocolo da atual turnê. "Stormbringer", um tema em que o músico apresenta armas e coloca o pau na mesa: "Vindo do nada / Movendo-se como a chuva / Ao som do trovão, novamente dança o Arauto da Tempestade". Sim, ele dança, e como! Já nos instantes iniciais, o que Glenn Hughes faz com seu baixo enquanto canta parece sobre-humano. Ele atua como se fosse um super-herói num HQ fictício do rock.

Foto: Ton Muller
Já em "Might Just Take Your Life", aos poucos podemos perceber a banda que o acompanha no atual tour. O músico dinamarquês Søren Andersen (guitarra) é o responsável por suceder nesse repertório a dois personagens mitológicos no imaginário de cada fã do Purple: Ritchie Blackmore e Tommy Bolim. "Um veterano jogando dados pelas ruas / De alguma forma, tentando ganhar o pão de cada dia / Estou realmente certo de que as coisas vão melhorar". Ao final do tema, em alvoroço, o velho Hughes já circula hiperativo por ambos os extremos do palco distribuindo sorrisos e extratos de sua habilidade como instrumentista. Ele tem m vigor de um garoto. 
   
Foto: Ton Muller
A história em "Sail Away" denota uma banda com sede da estrada. "Mulher de músico é a música", bordão que pode impulsionar o protesto das feministas, ou um até mesmo tenta justificar um comportamento misógino dos artistas ligados ao rock. Na verdade, apenas explicita uma época de excessos, o olimpo do rock na primeira metade dos anos 1970. Mesmo que sejam de cepas diferentes, a temática de "Sail Away" espelha o que Robert Plant evoca em "Going to California", quando o vocalista do Led Zeppelin declara sua saudade dos excessos que uma banda se permite na estrada, relembra o encontro com as groupies e saúda com  alegria as longas noites em claro nos quartos de hotel. "Eu navegarei, é hora de dar um giro por aí / Relembre os dias de chuva / Vou desaparecer, pois a noite está chamando meu nome / Você vai ficar em casa, mas eu singrarei para longe". Num de seus riffs de baixo mais matadores, Hughes parece tão motivado no palco que é impossível esconder esse júbilo, tanto na forma de cantar, quanto na desenvoltura em que empunha seu instrumento. Eis um homem orgulhoso de seu legado.

Foto: Ton Muller

Logo após fazer o sinal da cruz, Glenn distribui elogios ao Brasil e deságua seu carinho e gratidão: "This man loves Porto Alegre". Anderson evoca a lembrança de Blackmore em seu solo de introdução repleto de oitavas, e quando puxa o riff de Mistreated", um dos poderosos hard blues do Purple, em pé, batendo forte nos tons, como se fosse um feiticeiro jogando poções num caldeirão mágico, o baterista Fer Escobedo energiza ainda mais o que já está inflamado. Eis uma música ímproba de desassociar da imagem de Coverdade. Difícil de imaginar antes dessa performance.



A inscrição na contracapa do álbum original já nos alerta: "Todos os vocais são interpretados por David Coverdale e Glenn Hughes, exceto 'Mistreated', cantada apenas por Coverdale". Eis então que na versão de "Mistreated" tocada no Opinião podemos ouvir voz de Hughes frequentar uma zona de conforto modulada sob medida para sua garganta, para no refrão estourar valendo em uníssono com a multidão de fãs que lota a casa. "Caminho só, sinto um estranho frio na alma / Eu procuro por alguém / Foi um golpe duro ter perdido minha mulher / Eu ando fora de mim"E "se a estrada do excesso nos leva a sabedoria", William Blake e todos nós sabemos que sempre há um preço a pagar por toda essa liberdade.

Foto: Ton Muller

O rebote chega em "You Fool No One", uma daquelas peças perfeitas para qualquer boa banda de hard rock pavonear adjetivos. O músico dinamarquês Jesper 'Jay Boe' Hansen (teclados), faz um solo/intro buscando corporizar o espólio deixado por Jon Lord. Numa versão de mais de 20 minutos, exatamente nos moldes do que rolava com o Purple no palco entre 1974/75/76, cheia de idas e vindas, falsos finais, não deixando de abrir espaços para longos momentos individuais. "Você pensou que poderia me convencer? / Melhor correr quando me ver chegando". Talvez esse seja um dos átimos nevrálgicos do show, quando em outro viés, essa mesma lembrança do Deep Purple nos assombra não apenas como uma memória viva. Imagine o que era assistir de perto Coverdade e Hughes juntos, dividindo vocais e atenção dos fãs? Quando Glenn e banda deixam de atuar em favor das canções, ao subtrair o quarteto e apostar em longos solos individuais, fica fácil entender por que é quase impossível ressuscitar palmo a palmo esse espólio grandioso que tematiza o tour. Jay Boe nunca será Jon Lord.   

Foto: Ton Muller
F"E o tempo passa voando", falando no tecladista... Dedicada a Jon Lord, "This Time Around", maior balada de Hughes no Purple é um tema perfeito para sua voz rock'n'soul. É também uma forte lembrança do membro fundador do grupo, co-autor do tema ao lado de Hughes. Na versão original do álbum "Come Taste the Band", Lord toca todos os instrumentos. Mas é a voz de Glenn que nos conduz ao Everest da composição. Fortuitamente imagino que o recém falecido Charles Bradley poderia tê-la reinventado, assim como fez em "Changes" do Black Sabbath: "Essa forma de cantar veio das minhas primeiras influências da música soul - Tamla Motown e Stevie Wonder, principalmente... Então, a veia rock eu busquei no Cream, Beatles, Jimi Hendrix, para depois novamente beber na música negra, falo de roupagens funk que encontrei em artistas como Sly Stone. Eu sempre combinei rock com soul music", disse  o autor de "This Time Around" em entrevista exclusiva ao Memorabilia. Leia AQUI

Outro grande momento está na versão de "Gettin' Tighter", extrato do talento de Hughes como um dos melhores vocalistas dos anos 1970, e também ligada à memória de Tommy Bolim, co-autor e guitarrista do Purple morto em 1976. "Ao cair da noite / Já cruzamos dez mil milhas / E a banda vai recomeçar a tocar".



Da mesma forma que na gravação original no lado A de "Come Taste the Band", o grupo tripudia valendo na parte B instrumental, quando entra em pauta uma breve reprise sombreada por novos ecos da black music, com cruzamentos vocais ao estilo do que Michael Jackson fazia no Jackson Five. A dinâmica da cozinha baixo/bateria é incrível.
     
Foto: Ton Muller

"Smoke on the Water" não pertence ao legado de Hughes no Deep Purple. Não concerne à primeira vista, afinal, onde há um risco de fumaça, também há fogo! "Fumaça no céu / Fogo na água". Como retirar do set um dos maiores sucessos do Purple? Na época, seria um tiro no pé deixar de tocar a ponta de lança que abriu as portas do mercado norte-americano. E assim, a versão MK3/4 para a história do incêndio durante o show de Frank Zappa em Montreaux, Suiça, quando o incidente liquida com o local onde o quinteto gravaria "Machine Head", ganha o enxerto (mash-up) com "Georgia on My Mind"A canção, escrita pelos compositores norte-americanos Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell em 1930, definitivamente está ligada à memória de Ray Charles. Outra vez a genética artística de Glenn Hughes preconiza ares de rock'n'soul. Há também blues no ar: "Não consigo encontrar a paz / Apenas uma velha e doce canção mantém Georgia nos meus pensamentos". Impossível não ficarmos boquiabertos com o frescor e os malabarismos vocais de Glenn Hughes, cantando com a energia de um jovem de 20 e poucos anos (ele tinha apenas 22 quando foi efetivado no Purple). 

Foto: Ton Muller
Nessa altura de sua vida, olhando para o curso do tempo, parece que Glenn continua à procura de algo que ainda não encontrou. Provavelmente, esse retorno ao repertório do Deep Purple seja parte dessa investigação, algo muito pessoal, construído com passos firmes numa profunda intenção de apaziguar velhos fantasmas. E quando o riff do contrabaixo ganha a companhia do chipô de Escobedo, Glenn  sorri com altivez. "You Keep on Moving" não apenas faz o público o ovacioná-lo. Certamente não há música mais indivisível de sua persona artística do que a última faixa do Lado B do derradeiro álbum do Deep Purple nos anos 1970. Certo sabor de final de uma era, e do próprio show que estamos vendo... "Você se prepara para o adeus / Todos os dias, passo a passo, as coisas vão encontrando seu lugar / E assim, a tristeza volta à baila / De todo o modo, a aurora se revela, outro dia renasce / Você me abraça feito um halo em torno do sol / Quando então, cinge as estações rumo ao desconhecido / E desse modo imita o passo dos anjos". Inesquecível versão em Porto Alegre, e o público canta ainda mais alto: "Fly away... Hughes, Andersen, Jay Boe e Escobedo se movimentam para além do foco das luzes, saem do palco e nos deixam com aquela sensação de que a última pérola ainda não foi revelada.

De volta ao centro das ações, sem o contrabaixo à tiracolo. No baixo, vemos seu roadie, Jimmy" Crutchley, membro do Dead Sea Skulls, power trio indie/punk formado em Birmingham, Inglaterra. Apenas com o microfone em suas mãos, Glenn sdetém a relembrar outro clássico de uma era: "Ninguém vai mudar minha cabeça / Estou na estrada outra vez". Não há dúvida disso, pois "Highway Star" também ressuscita os últimos dias do Purple nos anos setenta. Ouça AQUI a versão da banda tocada ao vivo em Long Beach (1976). "Chupa, Ian Gillian", grita um fã próximo a mim.   

Foto: Ton Muller
E então, eis a derradeira pérola. "Burn" é extraída da parte mais nobre do baú das riquezas do Deep Purple. E de uma forma cíclica, já no últimos momentos da apresentação, Glenn Hughes retorna a faixa de abertura do Lado A do primeiro LP da MK3. "Coloquem mais lenha no fogo". Se em setembro de 2016 Porto Alegre assistiu o Whitesnake de David Coverdale mandando brasa na sua versão de "Burn", a releitura de "Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live" joga a bruxa na fogueira e liquida com qualquer memória opaca e difusa.

Balanço geral do set: cinco peças de "Burn", três números de "Come Taste the Band" e mais um tema de "Stormbringer". A licença poética fica por conta da dupla de ases advinda de "Machine Head", composições fora do espectro da passagem fonográfica de Hughes pelo Purple, mas inclusas no repertório ao vivo da época em que esteve no grupo. Em sua nona passagem pelo Brasil, podemos afirmar que dificilmente algum show dessa modalidade tire Glenn Hughes Classic Deep Purple Live do topo do pódio dos melhores shows de 2018. 

Foto: Glenn Hughes
Depois do Opinião, nesse domingo (29) Hughes ainda toca no Circo Voador no Rio, e também em Vila Velha no Espírito Santo (1). No site oficial do músico as datas da turnê seguem até outubro, mas ele afirmou em entrevistas que irá correr o mundo por cerca de dois anos com esse show. Ou seja, ainda há muitas histórias a serem contadas na estrada. As GIGs estão sendo gravadas (incluindo as apresentações no Brasil) para o lançamento de um documentário. Saiba mais AQUI Caso você não tenha visto de perto Glenn Hughes Performs Classic Deep Purple Live, um futuro DVD passa a ser um atenuante - imaginando o lugar do leitor desse review que não pôde assisti-lo ao vivo no país. Agora, se assim como eu, você estava presente em alguma das apresentações, aí é outra história. Comemore, afinal todos somos testemunhas desse espetáculo histórico que passou pelo RS.

Grings - Tours, Produções e eventos agradece especialmente a Homero Pivotto Jr (Abstratti Produtora), assessoria ímpar em todas as etapas do evento.

Glenn Hughes performs Classic deep Purple Live - Setlist Porto Alegre;

Stormbringer
Might Just Take Your Life
Sail Away
Mistreated
You Fool No One
This Time Around
Gettin' Tighter
Smoke on the Water / Georgia on My Mind
You Keep on Moving

Bis:

Burn
Highway Star


Veja também imagens captadas por Camila Gonçalves.

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

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Foto: Camila Gonçalves


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