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domingo, 29 de maio de 2022

CERISSA McQUEEN — RECANTO MAESTRO, 28 DE MAIO DE 2022

Foto: Pablito Diego

Por
Márcio Grings Fotos Pablito Diego

Sábado chuvoso na Região Central do Rio Grande do Sul, um ótimo motivo para culpar o mal tempo e ficar enfurnado dentro de casa vendo TV. No meu caso, exatos dois anos e meio após o último evento internacional de blues por aqui — Gene 'Birdlegg' Pittman em 22 de novembro de 2019, no Plataforma 85 (maldita pandemia!), cá estou: seria impossível perder o show da cantora norte-americana Cerissa McQueen. O Palco Bell’Anima foi idealizado pelo músico Vagner Cunha e pelo empresário Claudio Carrara, que cedeu parte do terreno da própria casa para a construção do local, com capacidade para acolher até 450 espectadores. Com investimento de R$ 2,5 milhões, o arquiteto italiano Enrico Torrice é quem assina o projeto do ambiente com cem metros quadrados, em formato de meia-lua, ao estilo dos anfiteatros gregos. São 7,5 metros de pé direito e, à sua frente, uma sequência de degraus em pedra que viram arquibancada para receber o público. Localizado no Recanto Maestro, município de São João de Polêsine, o recém inaugurado Bell'Anima fica a cerca de 40 km de Santa Maria. É neste ambiente que Cerissa McQueen se apresentaria neste sábado 28 de maio. "Eu construí um anfiteatro supondo que nunca choveria durante meus eventos", disse Carrara ao público. Assim, em virtude da instabilidade, o plano B foi posto em prática — a própria sala do proprietário tornou-se palco, um espaço generoso que inclui um segundo piso utilizado como mezanino, onde foi criado um ambiente charmosíssimo que reuniu pouco mais de 100 pessoas.  

Foto: Pablito Diego

Na abertura da noite, uma grata surpresa. Utilizando como matriz um clássico de Screamin' Jay" Hawkins, "I Put Spell on You", uma jovem cantora chamada Amanda Vontobel se apresentou acompanhada por um harmônio indiano, instrumento de fole (semelhante ao do acordeão) tocado por Vagner Cunha. O resultado dessa versão é impactante, bruxuleante, num arranjo que promove um enlace inusitado entre a música negra norte-americana e o orientalismo.

Após a surpresa inicial, Igor Prado (guitarra), Edu Meirelles (baixo) e Roni Martinez (bateria) assumem seus lugares e tocam um tema instrumental de abertura inspirado na vibe da música de Freddie King. O alto astral aquece o público para a entrada triunfal da noite com "Chain of Fools", já com a presença da cantora Cerissa McQueen no palco. Cerissa advém do gospel, e essa incursão pelo blues e soul ainda é recente na sua carreira. Em um caminho semelhante a uma de suas principais referências, Aretha Franklin, ela confere legitimidade a esse desafio. Metade do repertório da noite revisita Aretha, um território ao qual Cerissa nos prova ser detentora de uma voz digna das grandes divas da música internacional. 

Foto: Pablito Diego

A ambiência e a proximidade com o público oferecem dinâmicas que não são permissíveis em espaços maiores. A exemplo de "Use Me", de Bill Withers, quando a banda sobe e desce o volume, numa demonstração da possibilidade de integração acústica, como se não houvesse fronteiras entre palco e público. E não há. Ao estilo do que Rick Nielsen, guitarrista do Cheap Trick, Igor Prado é o showman da noite — faz acrobacias com a guitarra, brinca o tempo todo com Cerissa, com os músicos e o público, alterna velocidade e sutileza e, acima de tudo — diverte a plateia com seu talento e senso de humor. Um dos cães da casa observa de perto seus dedos desenhando as escalas enquanto o guitarrista se aproxima do animal. Caso você não saiba, Igor Prado é um dos grandes guitarrista de blues da atualidade. Em 2015, com sua Igor Prado Band, gravou o álbum "Way Down South", que tornou-se o 1º álbum de um músico sul-americano a atingir o topo da parada de blues nos EUA.  

Foto: Pablito Diego

No medley "I Wish/ Superstition", a cozinha baixo/bateria produz aquele molho característico do balanço das canções de Stevie Wonder nos anos 1970. Em temas como "(You Make me Feel Like) a Natural Woman" e "I'd Rather Go Blind" Cerissa parece encapsular todas as artistas em uma, trazendo a tona sua raiz gospel, mas espelhando todo o talento e responsabilidade que uma cantora deve mostrar nesse repertório. Em "Stand by Me", uma música mil vezes tocada e quase sempre apresentada sem novidades, Cerissa relê o clássico de Ben E. King com inventividade e inflexões que tornam a música algo seu. O público a ovaciona. 

Foto: Pablito Diego

Entre os destaques da noite, sem a presença do trio de músicos que formam sua banda base e, acompanhada apenas pelo piano, tocado pelo proprietário do Bell Anima, Cláudio Carrara, Cerissa McQueen canta "A Song for You", de Leon Russell. Curiosidade: Carrara aprendeu os acordes da música durante a passagem de som. Já ao balanço de "Rock Steady", a banda e a cantora vibram como um único organismo. "C'mon, Ronie!" diz Cerissa e o baterista faz um breve solo enquanto ela dança graciosamente no embalo do funk de Aretha Franklin. Ao final, Igor coreografa suas picardias e arranca gargalhadas da cantora. Numa parte de "Mercy", surpreendente versão do jovem cantor canadense Shawn Mendes, Cerissa canta (quase à capela), apenas com o acompanhamento de Igor. Logo depois, o guitarrista puxa a primeira sequência de um riff, toma um gole de vinho, segue de onde parou e Cerissa dá uma nova gargalhada, para logo depois incorporar o espírito de "Dr. Feelgood". É uma música digna das grandes damas do blues, invocando o espírito e a tradição de Bessie Smith e Ma Rainey, bate no cânone das canções sobre mulheres libertas pela sua sexualidade. Cerissa e os bends da guitarra gemem, a ambiência desse blues e o acaloramento da voz da cantora nos levam ao êxtase de um dos momentos mais incríveis da noite. Cerissa McQueen se despede, o público novamente a ovaciona e só para de chamar seu nome quando a vê no caminho de retorno para o palco. O bis é com "Crazy", de Gnals Barkey, novamente numa versão só dela, com a banda fazendo a cama para seu voo solo de despedida.

Para aqueles que tiveram como desculpa o mal tempo, uma pena dizer que todo o arrependimento é merecido. Se você, assim como eu, assistiu Cerissa e sua banda no Bell'Anima, vivenciou uma noite única. Entre nós, lá estava a cantora se apresentando na sala de uma casa, ao estilo de uma festa particular, com todos felizes pelo retorno aos shows presenciais, celebrando a vida. 

Congratulações Branco Produções pela programação e montagem de palco. Parabéns, Bell'Anima e equipe, que venham mais eventos. Obrigado Jéssica Barcellos pelo suporte e credenciamento.  


SETLIST

Instrumental — Freddie King influence

Chain of Fools

Use Me

(You Make me Feel Like) a Natural Woman

I Wish/ Superstition

I'd Rather Go Blind

Stand by Me

Song for You

Rock Steady

Mercy

Dr. Feelgood


Bis

Crazy

Foto: Pablito Diego


Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego


quarta-feira, 27 de abril de 2022

KISS — PORTO ALEGRE, 26 DE ABRIL DE 2022

Gene Simmons.Foto: Zé Carlos de Andrade
Por Márcio Grings Fotos Ton Müller | Zé Carlos de Andrade 

"Você está em um circo psicopata, e eu digo bem-vindo ao show! diz o guitarrista Paul Stanley, no refrão de Psycho Circus. Retirada de contexto, a sentença — uma tradução livre do original em inglês—, a letra nos dá um panorama dos tempos de hoje: guerra, inflação, negacionismo, polarização, pandemia e, pelo lado positivo, a retomada dos eventos culturais de maneira presencial e, praticamente, sem restrições. Entre os exemplos deste último item estão as apresentações musicais ao vivo, como é o caso da derradeira turnê do quarteto mascarado mais famoso do showbusines, batizada apropriadamente como End Of The Road Tour". O texto do jornalista Homero Pivotto Jr, publicado no Scream & Yell dá o tom dessa volta aos grandes shows, fala do cenário atual e ainda anuncia a grande atração da semana no Rio Grande do Sul. 
 
Paul Stanley. Foto: Zé Carlos de Andrade

Dois anos, cinco meses e quatro dias após o último show assistido — Gene Birdlegg Pittman, em 22 de novembro de 2019, no Plataforma 85, em Santa Maria/RS e, dois anos, seis meses e dezessete dias depois de um último megaevento ligado ao rock internacional em Porto Alegre — Iron Maiden, 9 de outubro de 2019, no Beira-Rio, eis que os tempos pandêmicos (aparentemente) ficam para trás, pois cá estou  prestes a ver o KISS subir no palco montado na Arena do Grêmio.

O pouso forçado rumo ao ostracismo não estava nos planos de ninguém e, assim, todos sentimos o impacto desse interminável e horroroso hiato, uma bolha ao qual ficamos aprisionados e afastados da prazerosa sensação do som batendo no peito. Prova disso está no próprio show que marca esse retorno. O KISS inicialmente se apresentaria em maio de 2020, mas teve sua data remarcada para novembro daquele ano e, após vários vai e vens, finalmente cravou sua bandeira neste tão esperado 26 de abril de 2022. 


Eric Singer. Foto: Ton Müller 

Se estávamos saudosos de assistir as lendas do rock mundial, a sensação de despedida paira sobre a End of the Road Tour, anunciado Canto do Cisne de uma das bandas mais idolatradas da história. Na atual formação, além dos membros formadores Paul Stanley (voz e guitarra) e Gene Simmons (voz e baixo), cá estão Tommy Thayer (guitarra e voz de apoio) e Eric Singer (bateria e voz), quarteto que faz às honras e dá adeus com um repertório repleto de clássicos. Após passagens por Santiago (CHI) e Buenos Aires (ARG), o KISS começa a perna brasileira da turnê pela capital gaúcha. 

Foto: Ton Müller

E se esperávamos pompa e circunstância, o KISS não nos decepciona. Quando a cortina cai, logo após ouvirmos o playback de "Rock and Roll" do Led Zeppelin, os músicos descem do alto do palco em pequenas plataformas voadoras e, ao vê-los, a impressão é de estarmos de volta aos anos 1970. Eis um dos grandes méritos das máscaras — atrás do disfarce kabuki, eles continuam eternamente jovens, congelados no tempo, mas sempre dispostos a nos incitar ao prazer da diversão. Direto da máquina do tempo, mesmo sem a presença dos renegados — Peter Criss e Ace Frehley —  a magia se materializa e o circo se ilumina com muito foguetório e explosões. 
 
Tommy Thayer. Foto: Ton Müller

Pense numa abertura perfeita... "Detroit Rock City" é uma das músicas que alargou as fronteiras do KISS. Quatro entidades brilham no palco: The Starchild, The Demon, Spaceman e The Catman. seu cartão de visitas é a abertura de "Destroyer", um dos responsáveis por colocar o grupo em outro patamar. Não por acaso, cinco temas do atual setlist são pinçados deste disco. Se você olhar para o público, há um exército de mascarados misturados à multidão, milhares de sorrisos multiplicados aos 20 mil que compareceram nessa festa de despedida. "Detroit Rock City" é a gasolina de avião que deixa o público voando baixo rumo a "Shout It Out Loud". Inspirada incialmente na letra de uma canção inofensiva dos Hollies, "I Wanna Shout It Out Loud", transformou-se num dos pilares das apresentações do grupo. O início não poderia ser melhor, pois a régua está alinhada por uma das obras-primas do rock mundial.

Gene Simmons. Foto:Ton Müller

Não por acaso, centenas de vezes "Deuce" foi utilizada como abertura nos shows e, de tão emblemática, eventualmente virou figurinha repetida no bis. Nesse retrospecto de várias épocas do KISS, Paul Stanley dança, faz pose para as câmeras, ecoa (como um mantra)  o nome da cidade dezenas de vezes (Pôrta Alegrue!) e atua como se estivesse filmando um videoclipe ao vivo. "War Machine" é pura potência, um rolo compressor que nos atropela como uma massa sonora. Igual um personagem das HQs, a figura demoníaca de Gene Simmons desfila com sua fábrica de clichês responsáveis por transformá-lo numa lenda: língua de fora, olhar ameaçador, cusparadas, a postura de um gladiador do rock que trata seu baixo como se fosse um machado na mão de um carrasco, pronto a decepar uma cabeça. 

Gene Simmons e Thommy Thayer. Foto: Zé Carlos de Andrade

Quem viveu os anos 1980 certamente nunca esquecerá da onda glam metal e, "Heaven’s On Fire", por exemplo, pode ser facilmente incluída nesse caldeirão. Se a voz de Stanley não é mais a mesma, os vocais de apoio sustentam a base e dão equilíbrio no refrão. Além das duas vozes principais, Eric Singer e Tommy Thayer produzem uma camada de backings afinadíssima, digna da tradição do KISS. Gene Simmons disse a seus biógrafos que o riff de guitarra de "I Love It Loud" foi inspirado de "My Generation" do Who, mas foi transmutada em outra coisa. Contudo, é a levada de bateria que traz a marca registrada do tema de "Creatures of the Night" (1982). O público grita alto o refrão, mas quem brilha em todas as pontas é o baixista,  celebrando os acordes finais com um cusparada de fogo para o alto que acende uma lança. Os fãs o ovacionam enquanto ele crava o objeto incendiário num alvo em frente ao palco.        

Foto: Zé Carlos de Andrade

"Say Yeah"
é uma das poucas faixas aproveitáveis de "Sonic Boom" (2009) e, entra muito bem neste modelo de show, como retrospecto, mas é uma música menor. Já "Cold Gin" tem a marca dos anos iniciais do KISS, característica reforçada pelo telão central que reproduz imagens em preto & branco do show, uma captação trêmula que simula vídeos antigos e amplia essa sensação de que o tempo não passou (ou que fomos transportados para o passado). Tommy Thayer brilha no palco, e ancorado apenas pela bateria e por imagens espaciais de ficção nos telões, faz um solo digno de espelhar o material de grandes guitarristas que passaram pelo KISS, nomes como Ace Frehley, não apenas um celebrado guitar hero do seu tempo, mas o Spaceman original. 

"Lick It Up" é lembrada pelo seu videoclipe (que hoje soa engraçado e caricato), mas também simboliza como o KISS se moldou aos anos 1980, num dos audiovisuais mais icônicos daquele período — sem as máscaras, quando para muitos, o mistério e o fascínio do grupo já havia evanescido. Ao vivo, hoje, representa uma fração legítima do espólio do quarteto — sucesso absoluto quando bate no coração dos fãs. O jogo das guitarras de Paul e Thommy é um dos destaques dessa versão ao vivo, com dinâmicas que proporcionam outras camadas ao original de estúdio, incluindo uma citação a "Won't Get Fooled Again", do The Who. "Calling Dr. Love" é um atestado da cafajestagem das letras de Gene Simmons — "Garota, eu sei qual é o seu problema/ O primeiro passo da cura é um beijo". Aos 72 anos, ainda é incrível de vê-lo tão perto e com tanta energia. "Tears Are Falling" teve inspiração em "Would I Like to You" do Eurythmics, mas também bebe em "Uptight" de Stevie Wonder. Thommy faz um dos melhores solos de guitarra da noite e o quarteto canta em uníssono o refrão. A vibração do público atesta que o show está rumo ao pico.         
Gene e Paul. Foto: Ton Müller

Puro comeback special do final do século XX, "Psycho Circus" é a volta do KISS às origens na batida de tempos apocalípticos. O telão ilumina o palco com cores vivas e nos relembra a turnê homônima de 1999, com passagem pelo Rio Grande do Sul. É uma das músicas mais potentes desses anos finais do grupo, um triunfo que reluz ao vivo e na garganta dos fãs. Logo depois, Eric Singer mostra seus dotes e a bateria flutua e sobe num elevador até o alto do palco. De volta ao primeiro álbum, "100,000 Years" prepara o terreno para o momento mais sacrílego da noite.   

Composta por Paul Stanley, "God Of Thunder" ironicamente se tornou uma das marcas de Gene Simmons. O solo de baixo que antecipa a música, faz as vezes da trilha-sonora de um filme de terror, sonoridades que emulam espíritos, monstros, pesadelos. Olho para o rosto de Gene e ele parece o personagem de Gary Oldman em "Drácula de Bram Stoker" (1992), principalmente quando o sangue (de brincadeira) escorre pela sua boca. Seria assustador, caso essa imagem invadisse o seu sonho. Ali, no púlpito, tudo é circo e diversão. O baixista canta do alto do palco, suspenso por uma plataforma, como se fosse um totem maligno observando os meros mortais. Girando a bola, Paul Stanley pega carona num 'teleférico' e voa por uma tirolesa até o meio da pista para delírio de outros setores do estádio, pois o ídolo se aproxima de locais mais distantes do centro dos acontecimentos. Lá, no meio da massa, ele canta "Love Gun", uma das essências musicais do Kiss e marca registrada da ligação com o imaginário do rock setentista norte-americano. Na mesma posição, ainda com o publico virado de costas para o palco central, Starchild segue conquistando nossos corações. Se na era da discoteca os Stones nos ofereceram "I Miss You" — como uma música digna de figurar nas pistas de dança —, o KISS nos deu "I Was Made For Lovin’ You", sucesso absoluto de público na Arena, instante em que o estádio treme em alto e bom som. "Black Diamond" revela que o talento de Eric 'Singer' vai além das baquetas e faz jus ao seu nome. Todos somos sacudidos em mais um número com o DNA inimitável dos mascarados. Enquanto isso, o telão relembra imagens do grupo nos anos 1970 — lá estão Paul, Gene, Ace e Peter, o que empresta um sabor de adeus e ainda mais saudosismo a essa despedida anunciada.     

Foto: Zé Carlos de Andrade

No bis, Eric segue em destaque, solitário, à frente de um piano no centro do palco. Quando vemos os vídeos dos anos áureos do KISS, com Peter Criss cantando "Beth", canção que compôs (com uma ajuda providencial de Bob Ezrin), eis um dos momentos em que a visão do atual baterista cantando, nos induz a pensar que estamos frente a uma banda cover. Mas Eric consegue dar um sabor especial a essa reprise, pois trata-se de uma das baladas mais amadas de um tempo que insiste em permanecer conosco, mesmo quase 50 anos depois. "Do You Love Me", parceria de Paul Stanley com Kim Fowley (o homem por trás das Runaways), é a glorificação do rock, apoteose de capítulo final de "Destroyer". Da melhor forma possível, é o tema que nos leva à serpentina, quando balões gigantes com o logo do grupo começam a despencar sobre todos nós e nos damos conta que o fim da festa se aproxima. "Rock And Roll All Nite" é tudo que precisávamos depois de tanto tempo longe dos shows, um superdose de adrenalina no coração dos amantes do rock and roll. 

Quando penso que aquela narração que ouvimos  no início do espetáculo, o que foi vivido há pouco confirma qualquer suposição de que tudo poderia ser conversa fiada ou apenas uma frase de efeito: “You wanted the best, You’ve got the best". Quem não quer o melhor? O KISS novamente nos entregou o seu melhor show. Quem esteve na Arena não tem a mínima dúvida disso. Que a fera descanse em paz... 

Foto: Zé Carlos de Andrade

Louvores a banda de abertura, Hit the Noise, que entregou um ótimo show e apresentou credenciais de maturidade, preparando o terreno para o KISS. Nossa gratidão aos fotógrafos (Ton Müller e Zé Carlos de Andrade) + agradecimento especial pelo suporte, assessoria e credenciamento a Cátia Tedesco (Agência Cigana).

Setlist 

Detroit Rock City
Shout It Out Loud
Deuce
War Machine
Heaven's on Fire
I Love It Loud
Say Yeah
Cold Gin
Lick It Up 
Calling Dr. Love
Tears Are Falling
Psycho Circus
100,000 Years
God of Thunder
Love Gun
I Was Made for Lovin' You
Black Diamond

Bis —

Beth
Do You Love Me
Rock and Roll All Nite

sábado, 23 de novembro de 2019

GENE 'BIRDLEGG' PITTMAN - SANTA MARIA, 22 DE NOVEMBRO DE 2019


Foto: Pablito Diego

Depois de Wee Willie Walker (USA), Witney Shay (USA), Tom Worrell (USA), Luciano Leães & The Big Chiefs (BRA), Anthony 'Big A' Sherrod (USA), Luana Pacheco (BRA), Gonzalo Araya + Just Blues (CHI) e Oly Jr (BRA)o Memorabilia Blues recebe a última atração internacional do projeto em 2019, o gaitista norte-americano Gene 'Birdlegg' Pittman. O músico ainda fez shows em Itajaí - SC e Porto Alegre - RS, finalizando sua terceira passagem pelo Brasil em Santa Maria.   

Nascido em Harrisburg, na Pensilvânia, em 1947, Birdlegg começou a carreira tardiamente: aos 26 anos. Sem nunca ter tido aulas de música, entrou em uma loja e comprou sua primeira harmônica. Como músico autodidata, mudou-se para Oakland, na Califórnia, em 1975, onde passou a tocar nos clubes de blues ao lado de nomes como Sonny Rhodes, Massala Talbert, Haskell "Cool Papa" Sadler e Mississippi Johnny Waters. Em 1980, formou o grupo The Tight Fit Blues Band. 

Foto: Pablito Diego
Ao longo dos anos, depois de se apresentar com várias estrelas do blues, Birdlegg lançou um disco com sua banda em 2007, "Meet Me on the Corner". Em 2010, mudou-se para Austin, TX, onde fixou residência e continua a trocar figurinhas com diversos nomes da cena local do blues. Afora shows e gravações, passou a ensinar e se apresentar em escolas, além de promover seminários musicais. Dentre suas conquistas, integrou o lendário time do Mississippi Delta Blues Band (por onde acabou retornando outras três vezes), participando de diversos tours na Europa. Seu mais recente álbum é "Extra Mayo" (2016), trabalho produzido na Suécia.

Foto: Pablito Deigo
Birdlegg e sua banda chegaram na Gare em torno das 16h30. Ao entrar no bar, mesmo antes de pisar no palco para a passagem de som, o músico caminha por toda e extensão do pub, intenção de observar a casa e reconhecer o espaço em que ele irá circular com seu microfone sem fio. Nos vídeos, o vemos cantando entre o público, diretamente interagindo com a audiência - essa que é uma de suas marcas registradas. Logo iríamos entender que o músico realmente não se detém apenas ao quadrado convencional de uma atuação. O bluesman provém de uma geração que gosta do contato mais próximo, não se priva de interação. Inclusive, esse é um dos pontos cardeais que o norteiam. Desse modo, a iluminação do salão principal do Plataforma foi redesenhada, tanto para melhor apreciação do público quanto para facilitar sua movimentação. E claro, para que os registros ganhassem maior qualidade. Assim, um garçom foi designado para acompanhá-lo com uma luz seguidora.

Foto: Pablito Diego
sound-check é realizado em 10 minutos (o mais rápido da história do Memorabilia Blues). Para beber, Gene pede sua bebida favorita — Fanta Laranja. Ao sair do pub, acende um inseparável cigarro Marlboro, observa os verdejantes montes santa-marienses, bate um papo animado com o fotógrafo Pablito Diego (se tornaram melhores amigos) e não economiza em registrar imagens com o celular. Ele circula curioso entre os destroços da saudosa linha férrea, ainda assombrada pelo fantasma do abandono, apesar da louvável revitalização do Mercado da Vila Belga, espaço em frente à Estação onde o Plataforma está instalado. Minutos depois, Adrian Flores (produtor e baterista da turnê) o chama e o grupo parte numa Fiat Doblò rumo ao hotel.  

Foto: Pablito Diego
Às 22h30, a promissora Cheeba Cheeba, banda local de abertura esquenta o público com seu repertório azeitado pelo neo-soul, funk, rock, traços de psicodelia, além de passeios informais pelo território do blues. Destaque para a versão de "Nem Vem Que Não Tem" (Wilson Simonal), além de "Licença Poética", estreia autoral do quinteto santa-mariense. 

Em torno das 23h30, a banda de apoio que dá suporte ao minitour de Birdlegg começa os trabalhos. No palco, além do já mencionado Adrian Flores (bateria e vocal), temos a presença sempre bem-vinda de Solon Fishbone (guitarra) e Fernando Peters (baixo). O trio relê "Everyday I Have The Blues" (Pinetop Sparks) e "Living In My Neighborhood'' (Magic Slim), com a marca do vocal 'howlinwolfiano' de Adrian. Muitos estão lá também para ver Solon, um dos mais respeitados guitarristas do blues feito aqui.   

Foto: Pablito Diego
Quando Birlegg pisa no palco, vestido a caráter - chapéu, camisa e sapatos brancos, gravata cerúlea, colete e terno risca de giz, parte da audiência talvez imagine que esse senhor de 72 anos exerça uma presença cênica mais recatada. Ledo engano, a partir de então, o que assistimos é um retrato da hiperatividade artística. Gene busca uma constante interação com o público — conta histórias, flerta com as mulheres e indubitamente — o tempo todo — passeia entre as mesas. Ele é o espetáculo! Um acrobata, um ginasta em constante espacato - um tornado do blues texano. Se você está sentado numa mesa em frente ao palco, não significa que sua posição é a melhor da noite. Em instantes o cantor está no fundo do bar galanteando outra garota. Ele tira o chapéu e amistosamente a corteja. Um rio de suor despenca sobre a moça — "Sorry", diz o músico. Tudo certo, Gene ainda está sentado em seu colo. 

Foto: Pablito Diego
Outro aspecto dessa atuação passa pela sua direção musical, principalmente quando comanda as dinâmicas da banda, regendo os ups and downs do blues. As vezes parece digladiar-se consigo mesmo, erra o tom de uma de suas gaitas, atira uma delas no palco, cobra andamentos diferentes nas levadas de Adrian Flores. Muitas vezes Gene parece brigar com demônios interiores. Sob a ótica dos músicos, tocar com Birdlegg é como caminhar na corda-bamba - em certos momentos você pode cair. Sem problemas, há redes de segurança. E há um bocado de diversão quando você pega o jeito. Uma delas é a própria informalidade e senso de improviso do gênero. Assim é o blues, cada noite diferente da outra.  

Foto: Pablito Diego
As escolhas de repertório relembram temas célebres como "Don't Start Me Talking" (Sonny Boy Williamson), "The Things That I Used to Do" (Guitar Slim), "You Don't Have to Go" (Jimmy Reed) e "Statesboro Blues" (Blind Willie McTell), além de composições de sua autoria — "San Pablo Avenue""Draw In Your Lip""Maria" e a vibrante "Meet Me at the Corner". Destaque absoluto para "I'm A Man" (Bo Diddley), instante em que o Plataforma Pub se transforma num autêntico Clube de Blues, uma massa uníssona vibrando na mesma frequência. Gene é um grande gaitista, ele bebe nas melhoras escolas da harmônica estadunidense, falo da linhagem dos Sonny, por exemplo - Boy Wiliamson e Terry. Não há firulas na forma como toca, não ouço excessos, percebo que o som da gaita diatônica cristaliza um desenho definitivo de como um instrumento deve soar. 

Veja a performance de "I'm A Man". Captação Pablito Diego.    



Nos minutos finais da apresentação, Birdlegg faz questão de cumprimentar individualmente várias pessoas, demonstrando aquela simplicidade nata dos grandes artistas, fidalguia intrínseca na natureza dos autênticos homens do blues — "Eu não preciso colocar óculos escuros para parecer um bluesman". Perguntado pela produção local se gostaria de jantar antes do início do show, Gene responde — "Gosto de tocar com fome". E essa fome de blues foi o principal cardápio de mais uma noite histórica do Memorabilia Blues.    

Foto: Pablito Diego
Próxima parada — Kingsize Blues, no dia 12 de dezembro, com exposição fotográfica dos cliques memoráveis registrados por Pablito Diego nos 10 eventos deste ano. Um retrospecto do evento em imagens, além de outras surpresas... Nos vemos por lá.



O Memorabilia Blues é apresentado por Ortsac, Brita Pinhal e KL Seguros. Patrocínio: Radiadores Schiavini, Minami, Neo Autoposto e Ortcons. Cerveja Oficial: Santa Madre. Apoio: Cabeça Arte, Gasoline Barber e Diário de Santa Maria. Técnica de som: Anderson Bittencourt. Desenho de luz e operação: Vanessa Giovanella. Coordenação administrativa: Alfredo Giardin e Taís Streit. Comunicação e cobertura fotográfica: Há Cena Cultural. Realização: Plataforma 85 e Grings - Tours, Produções e Eventos, em parceria com a Blues Special Produções.


Foto: Pablito Diego



Foto: Pablito Diego


Foto: Pablito Diego


Foto: Pablito Diego


Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

domingo, 27 de outubro de 2019

ZAKK WYLDE - PORTO ALEGRE, 26 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Por Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Zakk Wylde é um dos heróis modernos da guitarra. Estamos falando de um artista extremamente ligado ao seu instrumento de ofício. Eles são indivisíveis. Afinal, por puro merecimento, associações como essa o tornaram guitarrista de Ozzy Osbourne, um operário a serviço da lenda do rock mundial, batendo cartão em cinco álbuns de estúdio, discografia construída em duas décadas como sideman do Príncipe das Trevas. Nem seria necessário mencionar que se trata de um posto desejado por muitos músicos. E não é só isso - como líder de sua banda, o Black Label Society, deixou sua marca em treze álbuns, além de dois discos solo. E ainda precisamos mencionar o Pride & Glory, grupo formado na década de 1990.  

Pablito Diego
Entre suas facetas e escolhas, o show que novamente o traz a Porto Alegre evidencia uma aproximação com o southern rock e o lado clássico do hard rock feito nos anos 1970. E já que estamos falando do headliner no evento Samsung Best of Blues, a insígnia do blues também carimba breves instantes da apresentação do músico norte-americano no Anfiteatro Pôr do Sol. Será mesmo?

Foto: Pablito Diego 
Na trilha incidental que nos prepara para receber os músicos, as preliminares começam com um mashup de "War Pigs" (Black Sabbath) e "Whole Lotta Love" (Led Zeppelin), perfeita preliminar que antecipa a presença da estrela principal da noite, vestido com uma saia escocesa zebrada (combinando com sua Flying Z). No palco,  além de Zakk, Dario Lorina (guitarra), John DeServio (baixo) e Jeff Fabb (bateria), atual formação do Black Label Society. Há sete meses distante dos palcos, o show especialmente preparado para o Brasil aponta para grandes espaços instrumentais. O potente riff do baixo de DeServio (com cordas verdes e amarelas) anuncia a versão do quarteto para "Whipping Post" (The Allman Brothers Band), e apenas 35 minutos depois teremos uma pausa. O longo medley ainda repassa "The Ocean" (Led Zeppelin), "Machine Gun Man" (Pride & Glory) e "Crossroads" (Robert Johnson), para ao final retornar até o início com o tema do Allman.

Foto: Pablito Diego
A releitura de "Still Got the Blues" (Gary Moore) amplifica a empolgação de parte do público, deflagrando intermináveis solos do guitarrista que o distanciam da linguagem usual do blues, e até mesmo do blues rock, batendo na porta do metal. Essa subversão continua em mais um medley deflagrado por "Red House" (Jimi Hendrix), além de uma nova série de enxertos e pequenos trechos de músicas coladas umas as outras, entre elas temas como "Bridge of Sighs" (Robin Trower) e "All Along the Watchtower" (Bob Dylan). No final, a famosa sirene de alerta de um provável ataque aéreo soa como um chamado para nos convocar ao epílogo da noite, prólogo de um novo mashup engendrado por canções do Black Sabbath e  Led Zeppelin (War Pigs e Dazed and Confused). É claro, a massa entra em estado de total ebulição.

Foto: Pablito Diego
Alguém pode perguntar, mas afinal, aonde está o blues? Ora bolas, o blues é apenas uma desculpa para reunir os fãs de Zakk Wylde e Black Label Society, centenas deles tomaram posse das posições mais próximas a grade que separa o público do palco (a estimativa é de que cerca de 40 mil pessoas estiveram no evento). Se o blues ganhar sobrevida através de estradas viscinais como as de Zakk Wylde, é preciso dar crédito ao guitarrista. Afinal, ainda temos os velhos discos para celebrar o autêntico blues que um dia, inclusive, deflagrou um dos maiores movimentos musicais do nosso tempo - esse tal de rock and roll.     

Em evento patrocinado pela Samsung, numa parceria com o Ministério da Cidadania, a realização do Samsung Best of Blues é da Dançar Marketing. Agradecimento especial para Jéssica Barcellos Comunicação - suporte e credenciamento.  

Setlist Zakk Wylde - Samsung Best of Blues

- Intro 
War Pigs/Whole Lotta Love

- Medley: 
Whipping Post
Machine Gun Man
The Ocean
Crossroads

- Still Got the Blues

- Medley:
Redhouse
Bridge of Sighs
All Along the Watchtower

- Medley:,
War Pigs
Dazed and Confused  

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