domingo, 29 de abril de 2018

GLENN HUGHES - PORTO ALEGRE, 28 DE ABRIL DE 2018

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Foto: Ton Muller
Por Márcio Grings Fotos Ton Muller

Glenn Hughes viveu - e ainda vive - uma vida de rock'n'roll. Basta olhar para o legado que construiu em quase 50 anos de carreira. Aos 66 anos, o nobre cidadão de Cannok, Staffordshire, cidade localizada nas West Midlands, região centro oeste da Inglaterra, tornou-se um baixista/vocalista/compositor admirado como artista ímpar no gênero. Seja desde os primeiros movimentos como menino prodígio no Trapeze, banda que ajudou a formar com apenas 17 anos, mas principalmente como integrante do Deep Purple entre 1973-76, quando registrou uma digital única nos álbuns "Burn" (1974), "Stormbringer"(1974) e "Come Taste the Band" (1975), e assim, virou um das peças chaves do hard rock naquela década. Após o ocaso do Purple em 1976, forjou parceria com o guitarrista Pat Thrall (Meat Loaf/Asia); gravou com John Lynn Turner; deixou sua marca no Black Sabbath; tocou com Gary Moore; ao lado de Joe Bonamassa brilhou (e ainda brilha) no Black Country Communion; e na companhia de Jason Bonham (filho do homem!), criou o grupo California Breed. Perceberam os laços de Hughes com a tríade sagrada do hard rock nos anos 1970? (Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin). E além de todos os enlaces e projetos, sacolejado por um turbulento espírito leonino - hiperativo - até agora já empilhou catorze álbuns solo distribuídos ao longo das últimas quatro décadas.

Foto: Ton Muller
Antes de aterrizar em Porto Alegre, Glenn Hughes e banda cruzaram por Dinamarca, França, Chile e Argentina, além de seis cidades brasileiras. O atual show, "Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live", não passa de uma profunda reimersão num repertório que demarca o ápice artístico do músico inglês. Depois da ruptura do grupo que o tornou uma lenda do rock, por mais que como ex-integrante do Purple nunca deixasse de tocar as composições que ajudou a escrever, essa é a primeira vez que Hughes entra de corpo e alma no repertório que tão bem conhece. E por que não? Lembre-se, a atual formação do Deep Purple passa longe dessas músicas, além de que desde o seu reagrupamento em 1984, cantar músicas que não escreveu enquanto esteve fora do time é algo que certamente nunca passou pela cabeça de Ian Gillan. E se David Coverdale, à frente do Whitesnake, já pagou tributo a história em comum com Glenn Hughes, num álbum de estúdio, noutro ao vivo e ainda em turnê dedicada ao período em que esteve no Deep Purple, nada mais justo que Glenn Hughes também faça o mesmo. Afinal, quantos veteranos atualmente sentem-se habilitados em cantar oitavas sem precedentes no rock? Que vocalistas dos anos 1960/70 continuam a desafiar os limites do tempo com cordas vocais capazes de reprisar no talo músicas que tornaram mítica essa trajetória?

Foto: Ton Muller
E ainda falando de retornos, tanto Coverdale, quanto Hughes, protagonistas na MK3 e MK4 (siglas que designam a terceira e quarta encarnação do Purple), optaram por diferentes abordagens ao reler esse capítulo de suas carreiras. Coverdale resolveu reinventar os temas e colocar um carimbo com o selo do Whitesnake. Já Glenn Hughes coloca o pé na porta e dá aos fãs exatamente aquilo eles sempre quiseram ouvir. Ou seja, um translúcido espelhamento de como as ações decorriam ao vivo com o Deep Purple durante os anos finais da bandas na década de 70. Estamos falando de álbuns clássicos como "Live in London" e "Made in Europe", cânones e supra-sumo do hard rock nos anos dourados do gênero.

Veja mais fotos de Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live Por Camila Gonçalves 
Veja mais fotos de Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live Por Ton Muller

Foto: Ton Muller
O tour que iniciou no último dia 4, mantém um setlist estável, com 11 e 12 canções distribuídas em cerca de duas horas de apresentação. Antes de Porto Alegre, oito apresentações tiveram o mesmo set. O show mais curto foi em Chauny, na França (apenas 9 temas, sem "Holy Man", "Sail Away" e "This Time Around"). Depois de 2010/15, em sua terceira passagem pela Capital gaúcha, o 'comeback special' de Glenn começa seguindo o protocolo da atual turnê. "Stormbringer", um tema em que o músico apresenta armas e coloca o pau na mesa: "Vindo do nada / Movendo-se como a chuva / Ao som do trovão, novamente dança o Arauto da Tempestade". Sim, ele dança, e como! Já nos instantes iniciais, o que Glenn Hughes faz com seu baixo enquanto canta parece sobre-humano. Ele atua como se fosse um super-herói num HQ fictício do rock.

Foto: Ton Muller
Já em "Might Just Take Your Life", aos poucos podemos perceber a banda que o acompanha no atual tour. O músico dinamarquês Søren Andersen (guitarra) é o responsável por suceder nesse repertório a dois personagens mitológicos no imaginário de cada fã do Purple: Ritchie Blackmore e Tommy Bolim. "Um veterano jogando dados pelas ruas / De alguma forma, tentando ganhar o pão de cada dia / Estou realmente certo de que as coisas vão melhorar". Ao final do tema, em alvoroço, o velho Hughes já circula hiperativo por ambos os extremos do palco distribuindo sorrisos e extratos de sua habilidade como instrumentista. Ele tem m vigor de um garoto. 
   
Foto: Ton Muller
A história em "Sail Away" denota uma banda com sede da estrada. "Mulher de músico é a música", bordão que pode impulsionar o protesto das feministas, ou um até mesmo tenta justificar um comportamento misógino dos artistas ligados ao rock. Na verdade, apenas explicita uma época de excessos, o olimpo do rock na primeira metade dos anos 1970. Mesmo que sejam de cepas diferentes, a temática de "Sail Away" espelha o que Robert Plant evoca em "Going to California", quando o vocalista do Led Zeppelin declara sua saudade dos excessos que uma banda se permite na estrada, relembra o encontro com as groupies e saúda com  alegria as longas noites em claro nos quartos de hotel. "Eu navegarei, é hora de dar um giro por aí / Relembre os dias de chuva / Vou desaparecer, pois a noite está chamando meu nome / Você vai ficar em casa, mas eu singrarei para longe". Num de seus riffs de baixo mais matadores, Hughes parece tão motivado no palco que é impossível esconder esse júbilo, tanto na forma de cantar, quanto na desenvoltura em que empunha seu instrumento. Eis um homem orgulhoso de seu legado.

Foto: Ton Muller

Logo após fazer o sinal da cruz, Glenn distribui elogios ao Brasil e deságua seu carinho e gratidão: "This man loves Porto Alegre". Anderson evoca a lembrança de Blackmore em seu solo de introdução repleto de oitavas, e quando puxa o riff de Mistreated", um dos poderosos hard blues do Purple, em pé, batendo forte nos tons, como se fosse um feiticeiro jogando poções num caldeirão mágico, o baterista Fer Escobedo energiza ainda mais o que já está inflamado. Eis uma música ímproba de desassociar da imagem de Coverdade. Difícil de imaginar antes dessa performance.



A inscrição na contracapa do álbum original já nos alerta: "Todos os vocais são interpretados por David Coverdale e Glenn Hughes, exceto 'Mistreated', cantada apenas por Coverdale". Eis então que na versão de "Mistreated" tocada no Opinião podemos ouvir voz de Hughes frequentar uma zona de conforto modulada sob medida para sua garganta, para no refrão estourar valendo em uníssono com a multidão de fãs que lota a casa. "Caminho só, sinto um estranho frio na alma / Eu procuro por alguém / Foi um golpe duro ter perdido minha mulher / Eu ando fora de mim"E "se a estrada do excesso nos leva a sabedoria", William Blake e todos nós sabemos que sempre há um preço a pagar por toda essa liberdade.

Foto: Ton Muller

O rebote chega em "You Fool No One", uma daquelas peças perfeitas para qualquer boa banda de hard rock pavonear adjetivos. O músico dinamarquês Jesper 'Jay Boe' Hansen (teclados), faz um solo/intro buscando corporizar o espólio deixado por Jon Lord. Numa versão de mais de 20 minutos, exatamente nos moldes do que rolava com o Purple no palco entre 1974/75/76, cheia de idas e vindas, falsos finais, não deixando de abrir espaços para longos momentos individuais. "Você pensou que poderia me convencer? / Melhor correr quando me ver chegando". Talvez esse seja um dos átimos nevrálgicos do show, quando em outro viés, essa mesma lembrança do Deep Purple nos assombra não apenas como uma memória viva. Imagine o que era assistir de perto Coverdade e Hughes juntos, dividindo vocais e atenção dos fãs? Quando Glenn e banda deixam de atuar em favor das canções, ao subtrair o quarteto e apostar em longos solos individuais, fica fácil entender por que é quase impossível ressuscitar palmo a palmo esse espólio grandioso que tematiza o tour. Jay Boe nunca será Jon Lord.   

Foto: Ton Muller
F"E o tempo passa voando", falando no tecladista... Dedicada a Jon Lord, "This Time Around", maior balada de Hughes no Purple é um tema perfeito para sua voz rock'n'soul. É também uma forte lembrança do membro fundador do grupo, co-autor do tema ao lado de Hughes. Na versão original do álbum "Come Taste the Band", Lord toca todos os instrumentos. Mas é a voz de Glenn que nos conduz ao Everest da composição. Fortuitamente imagino que o recém falecido Charles Bradley poderia tê-la reinventado, assim como fez em "Changes" do Black Sabbath: "Essa forma de cantar veio das minhas primeiras influências da música soul - Tamla Motown e Stevie Wonder, principalmente... Então, a veia rock eu busquei no Cream, Beatles, Jimi Hendrix, para depois novamente beber na música negra, falo de roupagens funk que encontrei em artistas como Sly Stone. Eu sempre combinei rock com soul music", disse  o autor de "This Time Around" em entrevista exclusiva ao Memorabilia. Leia AQUI

Outro grande momento está na versão de "Gettin' Tighter", extrato do talento de Hughes como um dos melhores vocalistas dos anos 1970, e também ligada à memória de Tommy Bolim, co-autor e guitarrista do Purple morto em 1976. "Ao cair da noite / Já cruzamos dez mil milhas / E a banda vai recomeçar a tocar".



Da mesma forma que na gravação original no lado A de "Come Taste the Band", o grupo tripudia valendo na parte B instrumental, quando entra em pauta uma breve reprise sombreada por novos ecos da black music, com cruzamentos vocais ao estilo do que Michael Jackson fazia no Jackson Five. A dinâmica da cozinha baixo/bateria é incrível.
     
Foto: Ton Muller

"Smoke on the Water" não pertence ao legado de Hughes no Deep Purple. Não concerne à primeira vista, afinal, onde há um risco de fumaça, também há fogo! "Fumaça no céu / Fogo na água". Como retirar do set um dos maiores sucessos do Purple? Na época, seria um tiro no pé deixar de tocar a ponta de lança que abriu as portas do mercado norte-americano. E assim, a versão MK3/4 para a história do incêndio durante o show de Frank Zappa em Montreaux, Suiça, quando o incidente liquida com o local onde o quinteto gravaria "Machine Head", ganha o enxerto (mash-up) com "Georgia on My Mind"A canção, escrita pelos compositores norte-americanos Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell em 1930, definitivamente está ligada à memória de Ray Charles. Outra vez a genética artística de Glenn Hughes preconiza ares de rock'n'soul. Há também blues no ar: "Não consigo encontrar a paz / Apenas uma velha e doce canção mantém Georgia nos meus pensamentos". Impossível não ficarmos boquiabertos com o frescor e os malabarismos vocais de Glenn Hughes, cantando com a energia de um jovem de 20 e poucos anos (ele tinha apenas 22 quando foi efetivado no Purple). 

Foto: Ton Muller
Nessa altura de sua vida, olhando para o curso do tempo, parece que Glenn continua à procura de algo que ainda não encontrou. Provavelmente, esse retorno ao repertório do Deep Purple seja parte dessa investigação, algo muito pessoal, construído com passos firmes numa profunda intenção de apaziguar velhos fantasmas. E quando o riff do contrabaixo ganha a companhia do chipô de Escobedo, Glenn  sorri com altivez. "You Keep on Moving" não apenas faz o público o ovacioná-lo. Certamente não há música mais indivisível de sua persona artística do que a última faixa do Lado B do derradeiro álbum do Deep Purple nos anos 1970. Certo sabor de final de uma era, e do próprio show que estamos vendo... "Você se prepara para o adeus / Todos os dias, passo a passo, as coisas vão encontrando seu lugar / E assim, a tristeza volta à baila / De todo o modo, a aurora se revela, outro dia renasce / Você me abraça feito um halo em torno do sol / Quando então, cinge as estações rumo ao desconhecido / E desse modo imita o passo dos anjos". Inesquecível versão em Porto Alegre, e o público canta ainda mais alto: "Fly away... Hughes, Andersen, Jay Boe e Escobedo se movimentam para além do foco das luzes, saem do palco e nos deixam com aquela sensação de que a última pérola ainda não foi revelada.

De volta ao centro das ações, sem o contrabaixo à tiracolo. No baixo, vemos seu roadie, Jimmy" Crutchley, membro do Dead Sea Skulls, power trio indie/punk formado em Birmingham, Inglaterra. Apenas com o microfone em suas mãos, Glenn sdetém a relembrar outro clássico de uma era: "Ninguém vai mudar minha cabeça / Estou na estrada outra vez". Não há dúvida disso, pois "Highway Star" também ressuscita os últimos dias do Purple nos anos setenta. Ouça AQUI a versão da banda tocada ao vivo em Long Beach (1976). "Chupa, Ian Gillian", grita um fã próximo a mim.   

Foto: Ton Muller
E então, eis a derradeira pérola. "Burn" é extraída da parte mais nobre do baú das riquezas do Deep Purple. E de uma forma cíclica, já no últimos momentos da apresentação, Glenn Hughes retorna a faixa de abertura do Lado A do primeiro LP da MK3. "Coloquem mais lenha no fogo". Se em setembro de 2016 Porto Alegre assistiu o Whitesnake de David Coverdale mandando brasa na sua versão de "Burn", a releitura de "Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live" joga a bruxa na fogueira e liquida com qualquer memória opaca e difusa.

Balanço geral do set: cinco peças de "Burn", três números de "Come Taste the Band" e mais um tema de "Stormbringer". A licença poética fica por conta da dupla de ases advinda de "Machine Head", composições fora do espectro da passagem fonográfica de Hughes pelo Purple, mas inclusas no repertório ao vivo da época em que esteve no grupo. Em sua nona passagem pelo Brasil, podemos afirmar que dificilmente algum show dessa modalidade tire Glenn Hughes Classic Deep Purple Live do topo do pódio dos melhores shows de 2018. 

Foto: Glenn Hughes
Depois do Opinião, nesse domingo (29) Hughes ainda toca no Circo Voador no Rio, e também em Vila Velha no Espírito Santo (1). No site oficial do músico as datas da turnê seguem até outubro, mas ele afirmou em entrevistas que irá correr o mundo por cerca de dois anos com esse show. Ou seja, ainda há muitas histórias a serem contadas na estrada. As GIGs estão sendo gravadas (incluindo as apresentações no Brasil) para o lançamento de um documentário. Saiba mais AQUI Caso você não tenha visto de perto Glenn Hughes Performs Classic Deep Purple Live, um futuro DVD passa a ser um atenuante - imaginando o lugar do leitor desse review que não pôde assisti-lo ao vivo no país. Agora, se assim como eu, você estava presente em alguma das apresentações, aí é outra história. Comemore, afinal todos somos testemunhas desse espetáculo histórico que passou pelo RS.

Grings - Tours, Produções e eventos agradece especialmente a Homero Pivotto Jr (Abstratti Produtora), assessoria ímpar em todas as etapas do evento.

Glenn Hughes performs Classic deep Purple Live - Setlist Porto Alegre;

Stormbringer
Might Just Take Your Life
Sail Away
Mistreated
You Fool No One
This Time Around
Gettin' Tighter
Smoke on the Water / Georgia on My Mind
You Keep on Moving

Bis:

Burn
Highway Star


Veja também imagens captadas por Camila Gonçalves.

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves


sexta-feira, 23 de março de 2018

DAVID BYRNE - PORTO ALEGRE, 22 MARÇO DE 2018

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Foto: Cristiano Radtke (iPhone 4s)
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Texto e fotos Cristiano Radtke 


Como líder do Talking Heads, David Byrne deixou seu nome na história do rock. Em oito álbuns lançados, o autor de hits absolutos como “And She Was” e “Psycho Kiler”, também colocou no mercado onze discos solo, sendo que o mais recente "American Utopia", foi lançado há poucos dias. Byrne ainda escreveu nove livros, incluindo "Diários de Bicicleta" (2009), que o tornou reconhecido como ativista das bikes. Inclusive, no dia do show na Capital gaúcha, o baixista Bobby Wooten postou uma foto dele e de David passeando de bicicleta pela orla do Guaíba. Vinda de Buenos Aires, a “David Byrne: American Utopia World Tour” chega a Porto Alegre como parte dos side shows do Lollapalooza Brasil, concertos mais intimistas fora do palco principal do evento em São Paulo. E se alguém imagina ver um show de grandes sucessos do Talking Heads, o andar da carruagem revelaria uma outra jornada... 

Antes do show principal, as apresentações de abertura ficaram a cargo de Antonio Villeroy (conhecido cantautor gaúcho) e Karina Zeviani (ainda não tão conhecida no Brasil apesar de ter uma sólida carreira internacional, com participações em grupos como Nouvelle Vague e Thievery Corporation). Ao terminar sua ótima participação, Karina avisa ao público que o 'mestre David Byrne', de acordo com suas próprias palavras, em seguida faria seu show e que estava emocionante, segundo ela, que disse ter assistido à passagem de som e ficado arrepiada com o que viu.

Foto: Cristiano Radtke

Alguns minutos depois, uma surpresa: em vez de vermos instrumentos, amplificadores ou microfones no palco, que é extremamente minimalista, rodeado de cortinas formadas por correntes de ferro, vemos ao centro apenas uma cadeira e uma mesa simples, em cima da qual repousa a réplica de um cérebro. Minutos depois entra Byrne, elegantemente vestido com um terno cinza e camisa da mesma cor, com os pés descalços, e senta-se à mesa começando o show com “Here”, faixa que encerra seu mais novo disco, o bom “American Utopia”, enquanto a banda toca atrás das cortinas de ferro, dando início a um dos shows mais incomuns já vistos no Pepsi . 

A partir de “Lazy” a banda com 11 integrantes entra aos poucos no palco, um por um e vestidos de maneira idêntica a Byrne. Em vez de um kit de bateria tocado por apenas um músico, o que se vê são seis percussionistas no palco, cada um com uma peça de bateria presa por um suporte encaixado ao corpo, assim como o tecladista, o que lhes dá total liberdade de movimentos. Isso permite, por exemplo, que eles deixem Byrne sozinho no palco durante “Doing the Right Thing” enquanto tocam atrás da cortina, com seus instrumentos à mostra, e até que eles simulem uma partida de futebol enquanto tocam “The Great Curve”. Um curiosidade: entre os percussionistas está brasileiro Mauro Refosco, músico formado pela UFSM e que também toca nos tours com o Red Hot Chili Peppers (ele se apresenta com o RHCP nesta sexta-feira em São Paulo).  

Foto: Cristiano Radtke
Pode-se dizer que mais do que um simples show, o que o público assistiu foi a uma verdadeira instalação artística, em que os efeitos de luz e a movimentação da banda no palco mudavam a todo instante, criando um incrível efeito visual que combinava perfeitamente com cada música tocada. Em “I Should Watch TV”, por exemplo, a banda se posiciona completamente à esquerda do palco, enquanto Byrne está no extremo oposto parado em frente à cortina de ferro, por trás da qual a iluminação é feita de modo a dar um efeito semelhante à luz irradiada de uma TV. Byrne já havia declarado não se prender ao passado (leia entrevista), e das vinte e uma músicas do setlist, sete vêm de seu disco novo, oito são da carreira dos Talking Heads, e as outras seis passeiam entre covers e outros projetos de David Byrne, como “Toe Jam”, composta por ele e creditada à The Brighton Port Authority, colaboração entre ele e Dizzee Rascal. Apesar de alguns insistentes pedidos para que ele tocasse “Psycho Killer”, uma das músicas mais conhecidas dos Talking Heads, os hits da banda se resumem nesse show a “Once in a Lifetime” e “Burning Down the House”, provando mais uma vez a inquietação do músico escocês. 

Foto: Cristiano Radtke
Antes de tocar a última música do show, “Hell You Halmbout” (cuja versão original é de Janelle Monáe), Byrne avisa que fez uma releitura especial para os shows no Brasil, e logo percebemos o porquê. Na versão original, os nomes de vários negros norte-americanos que foram assassinados por policiais ou por preconceito racial são citados ao longo da canção. Na versão de Byrne, são citados os nomes de ativistas e outros brasileiros assassinados, com destaque para Marielle Franco (vereadora recentemente executada no RJ), o que motiva aplausos gerais da plateia. Num momento turbulento em que muitos artistas daqui não assumem posição alguma, procurando se distanciar dos acontecimentos, Byrne merece todos os elogios possíveis ao mostrar que está antenado com o que acontece no Brasil e prova que é possível utilizar sua arte para fazer uma manifestação política, sem cair no lugar comum que tais discussões costumam gerar. 

Antes de vir ao país, Byrne declarou em entrevista estar ciente da “bagunça completa” no Brasil (ele tem bons informantes, pois três músicos de sua banda são brasileiros), causada pela corrupção, e disse ter fé nas “pessoas que fazem coisas incríveis”. E Byrne é uma delas. O que se viu em Porto Alegre nessa noite no Pepsi on Stage foi mais do que um simples show: foi uma verdadeira e instigante obra de arte, que as pessoas que tiveram a oportunidade de assistir jamais irão esquecer. Nossos agradecimentos a Jéssica Barcellos (Agência Cigana) pelo suporte e credenciamento. 

Setlist David Byrne Porto Alegre:

Here
Lazy
I Zimbra
Slippery People
I Should Watch TV
Dog's Mind
Everybody's Coming to My House
This Must Be the Place (Naive Melody)
Once in a Lifetime
Doing the Right Thing
Toe Jam
Born Under Punches (The Heat Goes On)
I Dance Like This
Bullet
Every Day Is a Miracle
Like Humans Do
Blind
Burning Down the House

Bis 1:

Dancing Together
The Great Curve

Bis 2:

Hell You Talmbout

Veja dois trechos do show. Captação: Lúcio Brancato.


quarta-feira, 21 de março de 2018

STEVE HACKETT - PORTO ALEGRE, 20 DE MARÇO DE 2018


Foto: Camila Gonçalves
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Por Márcio Grings Fotos Camila Gonçalves

No dia 11 de maio de 1977, um jovem casal de namorados pegou um ônibus em Santa Maria rumo a Porto Alegre. O destino final demarcava um fato incomum naqueles tempos: assistir um show internacional na capital gaúcha. Anos luz antes do RS estar alinhado ao corredor dos grandes eventos do gênero na América do Sul, tal iniciativa não era apenas um acontecimento atípico a ser celebrado: em primeiro lugar, deveria ser prestigiado por qualquer fiel fã de rock! Por isso, para dois amantes da boa música internacional, não havia chances deles não estarem presentes na primeira passagem do grupo britânico Genesis pelo Brasil. E lá estavam Paulo e Vânia - frente à frente com Phil Collins, Steve Hackett, Mike Rutheford, Tony Banks e o baterista convidado Chester Thompson, homens responsáveis pela "After the Wind & Wuthering tour", digressão que já antecipava alguns temas do até então ainda inédito novo álbum da banda, "Wind & Wuthering", lançado em dezembro daquele mesmo ano.

Era uma quarta-feira de outono no Estado, e a segunda noite de show do Genesis no Gigantinho. Entre expectativa, êxtase e realização de um sonho, uma curiosidade: "A duração do show foi mais curta porque Mike Rutherford sentiu-se mal, teve uma espécie de mal súbito. Além disso, nessa segunda noite, o raio-laser deu pau. Em resumo: quem esteve na primeira noite se deu melhor", lembra Paulo Cozer. Sim, além do problema com as luzes, a apresentação teve apenas uma hora e quinze de show, aproximadamente. Cerca de sessenta minutos a menos do que a noite anterior (e não apenas 12 minutos como noticiaram alguns jornais na época). Segundo o livro "Lembra do Transasom", escrito por Pedro Sirotski, o verdadeiro motivo do mal súbito do baixista foi um coquetel de vodca com chocolate quente em Gramado. Mike foi a nocaute. O irmão de Paulo, Francisco Coser, fez algumas fotos do show no Gigantinho. Veja AQUI  

Foto: Camila Gonçalves
Mais de 40 anos depois, o mesmo casal retorna a Porto Alegre com a memória incandescente daqueles dias. Afinal, ainda estamos falando do espólio do Genesis, já que grande parte do tesouro da discografia do grupo voltara à baila na noite desta terça-feira 20 de março de 2018...

Principalmente ao que compete ao prolífico período em que o vocalista Peter Gabriel e o guitarrista Steve Hacket dividiram  estúdios e palcos. Em retrospectiva, Gabriel saiu em 1975, e Hackett deixaria o Genesis apenas cinco meses após a passagem pelo Brasil, em outubro de 1977. Pra encurtar a história, o Genesis sobreviveu muito bem sem os dois, aproximou-se de vez das rádios, distanciando-se do viés progressivo, além de tornar Collins seu principal protagonista.

Foto: Camila Gonçalves
Voltando a 2018, se Peter Gabriel não olha para o passado e raramente retorna ao repertório que o consagrou nos anos 1970 (há quatro anos ele não faz shows), se Phil Collins partiu para o lado iluminado da força ao se tornar uma estrela reconhecida pelo seu trabalho solo, coube ao paladino Steve Hackett empunhar a espada de Último Jedi a defender esse legado que misturava rock, teatro e literatura. Por isso, essa nova turnê de Hackett - "Genesis Revisited, Solo Gems & GTR 2018 Tour de Force", passa a ser um evento imperdível para qualquer fã de rock progressivo, principalmente quando falamos da fase áurea do Genesis. "Estamos presenciando os últimos escombros da era clássica do rock", me diz Lauro Hack, um dos fãs mais entusiasmados que encontro minutos antes do início da apresentação.


Primeira noite de outono, Auditório Araújo Vianna, o show de Hackett começa religiosamente no horário programado, às 21h. O guitarrista volta ao início de sua carreira solo apresentando temas como "Please Don't Touch Me" e "Every Day". Na sequência, três dos seus frutos prediletos na estrada atualmente - e colhidos na safra mais recente, o ótimo álbum "The Night Siren" (2017". "Behind the Smoke, por exemplo, é disparado um dos melhores temas que já compôs (veja o clipe AQUI). Os orientalismos alternados com peso, o vocal seguro do guitarrista, somado a recortes instrumentais onde guitarra e teclados se enredam numa sinfonia metal, fazem do tema um dos grandes momentos da apresentação. A instrumentais "El Nino" também bebe em fonte semelhante, com destaque para a atuação  do baterista Gary O' Toole, responsável ainda por ótimos vocais de apoio ao longo da apresentação. De igual identidade, como se permanecêssemos em solo marroquino, o rock e os orientalismos prosseguem em "In The Skeleton Galery", quando Rob Townsend mostra seu talento ao saxofone, além de ainda atuar como flautista, tecladista e percussionista.  Já Steve Hacket tira as mãos da cordas de seu instrumento por alguns instantes para sacar do bolso uma harmônica diatônica e mostrar que o blues também está impregnado de leve em sua genética.

Foto: Camila Gonçalves

Quando o GTR é invocado, supergrupo que Hackett montou ao lado de Steve Howe do Yes, "When the Heart Rules the Mind" é a canção escolhida para remontar o espírito das rock songs que transitaram pelas FMs nos anos 1980. Se "Icarus Ascending" me sugere que chegou o momento de buscar uma bebida para arejar a garganta, a fantasmagórica "Shadow of the Hierophant" parece ser formada da mesma cepa de canções ancestrais europeias, cenário perfeito para o rock progressivo e para recolher as cortinas da primeira parte do espetáculo.           

Foto (Sansung J5): Camila Gonçalves

























É quando o Genesis entra no set. É também o momento do vocalista Nad Sylvan, não apenas uma voz que reprisa a forma de Peter Gabriel interpretar as canções que ajudou a compor, ele se porta como um autêntico performer, um ator advindo do Vaudeville, ou dependendo do ponto de vista, a mistura de vários cantores em um. Da maneira cênica como toca a pandeirola, ao olhar congelado num ponto invisível, sua androgenia e movimentos corporais nos convencem dessa atuação. "Nédi, Nédi!!", um fã que nunca abaixa os braços estraga todas minhas fotos e grita ao mundo sua admiração pelo vocalista. Em "Dancing With the Moonlit Knight" entra em pauta um dos álbuns favoritos dos fãs do Genesis - "Selling England by the Pound". Logo depois, Sylvan emula Phil Collins em "One for the Wine", uma música de transição nas apresentações do Genesis em 1977 no Brasil, apresentada na época como novidade no set. Em "Inside and Out", um dos melhores momentos dessa segunda parte, Jonas Reingold toca um instrumento de dois braços que o coloca na posição de acumular funções como baixista e guitarrista base, dependendo da circunstância e necessidade.   

Luz direta no tecladista Roger King, um dos protagonistas nessa mudança de humores e ambiência com o repertório do Genesis. "The Fountain of Saumacis", tema que fecha o álbum "Nursery Cryme", é remontado como uma suíte perdida no tempo, uma peça perfeita que ilustra o quão merecido foi para o grupo inglês ter rompido a fronteira do anonimato o adentrado de forma triunfal a primeira divisão do rock internacional, e consequentemente, ser reconhecido como uma das agremiações mais respeitadas do gênero. 

Foto: Camila Gonçalves
A seguir, algumas sínteses do prog rock em "Firth of Fifty" - instrumentos em uníssono, dinâmicas alternadas, a lembrança do erudito sobreposto a energia dos riffs de Hackett, somados a leveza da interpretação de Nad Sylvan, além da suavidade a modular os instrumentos de sopro, melodias que nos fazem fechar os olhos e lembrar o quanto o rock já viveu dias melhores. Esse sentimento persiste em "The Musical Box", um dos melhores takes de Sylvan no palco, postura inicial de boneco de cera impassível, para depois reagir como um fantoche manipulado por títeres invisíveis. "Um profissional versátil. Sabe muito bem dosar a interpretação (necessária para qualquer vocalista de banda progressiva) com vocais que lembram (e muito) as vozes do Peter Gabriel e Phil Collins. Ou seja. Ideal para o posto onde está", conclui o jornalista Lúcio Brancato.

Foto: Lúcio Brancato
Chegando ao final das ações, Hackett surge com seu violão de 12 cordas em "Super's Ready", quando a memória de Peter Gabriel sobrepõe a realidade e materializo aquele maluco cantando e se contorcendo no palco. No auge de sua força criativa, enquanto esteve no Genesis, Gabriel era imbatível. É o que dirão todas as viúvas que ainda derramam lágrimas após décadas de sua saída... Mas Hackett está lá, guardião de todo esse legado. Após um breve apagar de luzes, "Los Endos" é o coringa em forma de bis, tema que nos nos dá uma última dose de toda essa gama de emoções encapsuladas em 2h30 de apresentação.

Após assistir ao vivo Steve Hackett e banda no espetáculo "Genesis Revisited, Solo Gems & GTR 2018 Tour de Force", sinto-me como se tivesse renovado minha carteirinha Progger. "We are the  Proggers", como diz o amigo Lúcio. Sim, todos nós - ele, eu, Paulo, Vânia, Lauro, e tantos outros, assim como Alan Garcia, músico que viajou oito horas pra assistir o espetáculo: "Era um sonho ver esse show e esse repertório", reforça o morador de São Luiz Gonzaga,  nas Missões. Todos nós, sócios remidos do clube, passaportes atualizados e sorrisos largos na saída do Araújo. Próximo encontro Progger: CARL PALMER'S ELP LEGACY. Garanta seu tíquete AQUI

Grings - Tours, Produções e Eventos agradece a Eduardo Elias (Branco Produções), pela assessoria, suporte e credenciamento.   


Setlist SH PoA

I - Solo Gems & GTR

Please Don't Touch  
Every Day 
Behind the Smoke 
El Niño  
In the Skeleton Gallery 
When the Heart Rules the Mind 
Icarus Ascending
Shadow of the Hierophant 

II - Genesis 

Dancing With the Moonlit Knight 
One for the Vine 
Inside and Out
The Fountain of Salmacis 
Firth Of Fifth 
The Musical Box
Supper's Ready

Bis

Los Endos 

Veja mais fotos de Camila Gonçalves.

Foto: Camila Gonçalves


Foto: Camila Gonçalves


Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves



Foto: Camila Gonçalves
Foto: Camila Gonçalves (Sansung J5)

quinta-feira, 15 de março de 2018

KATY PERRY - PORTO ALEGRE, 14 DE MARÇO DE 2018

Fotos: Talles Kunzler
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Por Márcio Grings Fotos Talles Kunzler

Katy Perry é um fenômeno pop. Alguém tem dúvida disso? Extraordinária em seus feitos, os números de sua trajetória artística são superlativos. Em apenas dez anos de carreira, a namorada do ator Orlando Bloom tem mais de 100 milhões de seguidores no Twitter e mais de 100 milhões de álbuns vendidos, isso em apenas cinco trabalhos de estúdio! É apenas a maior vendedora de álbuns desse século. Em sua quarta grande digressão mundial, depois de passar por Chile e Argentina, Katy chega a Porto Alegre, cidade em que começa a perna brasileira da sua "The Whitness: The Tour", 55º apresentação da turnê, exatamente metade do percurso. O primeiro show de sua quarta GIG mundial foi no dia 19 de Setembro de 2017, em Montreal, no Canadá, e só para de correr o mundo no dia 21 de agosto, após 11 meses e 110 apresentações pelos quatro cantos do planeta.

Foto Talles Kunzler
Arena do Grêmio em configuração de Anfiteatro, antes de Katy, às 19h20, com propriedade e talento, a cantora trans porto-alegrense Valéria abre os trabalhos. Seu EP de estreia "Sexo Frágil?", que já está em pré-produção, contará com canções assinadas por ela e também por Cláudio Lins, Paulo Renato Nardell, Marcel Varzea e Paulinho Mendonça (letrista da banda Secos e Molhados), além de parcerias com Filipe Catto e Lan Lahn. Em 40 minutos de apresentação, destaque para "Esmalte Velho", tema composto por uma trans piauiense, a cantora Benício Bem. Na despedida, Valéria mostra suas versões de "I Will Always Love You", tema que ficou famoso na voz de Whitney Houston, além da versão em francês de "I Will Survive". de Gloria Gaynor. Já às 20h15, a nova-iorquina Bebe Rexha promove sua estreia em palcos tupiniquins. E ela faz questão de valorizar esse momento, parece se emocionar com o público que faz coro a canções como "Me, Myself & I", "Bad Bitch", "Meant to Be" e "I Got You", um de seus maiores sucessos. Aos 28 anos e com apenas dois EPs lançados, seu álbum de estreia deve chegar às prateleiras nos próximos meses. Ela deve fazer barulho...

Foto: Talles Kunzler
Para alegria do público de 19 mil pessoas, com 20 minutos de atraso, às 21h50, a estrela da noite surge imponente num modelito rubro, com gola, capuz e óculos de sol. A direção do espetáculo é de um especialista em efeitos visuais, o cineasta Tim Sekiguchi. As apresentações da "Whitness; The Tour" estão divididas em cinco atos, e como se fosse Alice no País das Maravilhas, Katy Perry escorrega pelo buraco do coelho o tempo todo: são várias trocas de figurino, dezenas de mudanças de adereços e alternâncias de cenário. Tudo observado pelo onipresente e gigantesco olho/telão/galáxia, um caleidoscópio que compõe o pano de fundo do campo de ações de toda a apresentação. A impressão é que estamos assistindo ao vivo uma peça da Broadway, um clipe filmado ao vivo ou um desfile temático em plena Marquês de Sapucaí. Não! Não estamos presenciando uma montagem teatral, uma filmagem engessada ou conferindo a passagem de uma escola de samba. É música pop, estamos na Arena do Grêmio, mas vários elementos artísticos se misturam, compondo uma explosão de som e cores  que eclodem em frente nossos olhos/ouvidos. 

Foto: Talles Kunzler
Além de uma banda base e duas vocalistas de apoio situados nos extremos laterais, o centro do palco é totalmente utilizado pelas oito dançarinas, e também por fuzileiros em forma de flamingos; vespas e bonecos com cabeça televisiva; um tubarão de formas humanas ou um bailarino que faz pole dancing na extensão que avança até o meio da pista. Quanto ao repertório, Katy realmente aposta no novo álbum: são oito temas de "Whitness". Em contraponto, ela também prestigia os fãs com sete músicas de "Teenage Dream" (2010), álbum que a colocou no Everest do pop mundial. Completam o cerco a seu repertório, 3 sons de "One of These Boys" (2008) e mais dolis de "Prism" (2013).

Foto: Talles Kunzler
Com a ajuda do público e sempre muito simpática e carinhosa, Katy se comunica em português, interage constantemente com o público e ganha o coro de milhares de fãs em sucessos como "Hot N' Cold", "Last Friday Night", além de cânones de seu setlist como "I Kissed a Girl" e a balada "Thinking of You". Depois de Porto Alegre, Katy Perry ainda se apresenta em São Paulo (17), no Allianz Parque; e no Rio de Janeiro (18), na Praça da Apoteose. Quanto ao show na Capital gaúcha, nossos agradecimentos a Agência cigana pelo suporte e credenciamento. 

Setlist KP PoA:

Act 1 - "In The Space" (Video introduction)

Witness
Roulette
Dark Horse
Chained to the Rhythm

Act 2 - Act My Age (video interlude)

Teenage Dream
Hot N Cold
Last Friday Night (T.G.I.F.)
California Gurls
I Kissed a Girl

Act 3 - Celestial Body (video interlude)

Déjà Vu
Tsunami
E.T.
Bon Appétit

Act 4 - Mind Maze (video interlude)

Wide Awake
Thinking of You
Power

Act 5 - Vídeo Game (video interlude)

Part of Me
Swish Swish
Roar

Bis:

Firework

Foto: Talles Kunzler


segunda-feira, 5 de março de 2018

FOO FIGHTERS - PORTO ALEGRE, 4 DE MARÇO DE 2018


Fotos: Diego Castanho/FF Brasil
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Texto Márcio Grings Fotos Diego Castanho

Dave Grohl é um predestinado. Imagine você ser coadjuvante de uma das bandas mais importantes do rock mundial. Dave era o baterista. Imagine que o líder e mentor intelectual dessa banda liquida com a própria vida ao dar um tiro de espingarda nos cornos?  Assim, após o fim trágico do Nirvana, esse poderia ser também o fim do baterista. Com o baixista Krist Novoselic aconteceu exatamente isso. Tanto que, artisticamente Novoselic não fez praticamente nada! Quem sabe seria diferente se não recusasse o convite do amigo Dave Grohl para integrar uma nova banda que havia formado para retomar a carreira: - um tal de Foo Fighters.  

Foto: Diego Castanho
Uma década e meia depois desse reinício, Grohl, 49 anos, é um dos principais nomes do rock mundial. Além de lotar arenas e estádios, como performer, agora ele é cantor/guitarrista/compositor (baterista eventual), e consequentemente transformou-se num dos astros mais amados e imbatíveis em orquestrar multidões ao redor do planeta. Prova disso é que a passagem da "Concret and Gold tour" pela capital gaúcha entrega ao público exatamente aquilo que a massa espera ouvir. E assim, por mais previsível que o set possa parecer, como reclamar? A sensação que saímos do show é de que Dave olha para o seu passado no FF com a mesma reverência que a audiência o percebe: o músico norte-americano construiu um punhado de hits que solidificam a trajetória da banda. Ele não apenas virou o jogo, Dave Grohl trilhou um novo e iluminado caminho. Quantos em situações adversas conseguiram reverter a esse desafio de uma maneira vitoriosa? Certamente muito poucos...

Foto: Diego Castanho
21h, Foo Fighters no palco com "Run". Eles só irão sair dali depois de 2h40min. O show começa com uma energia tão formidável,  pois já em "Learn to Fly" Dave Grohl está completamente tomado pelo suor e  o público vibra em uníssono. Cá entre nós, pergunte para uma 'puta velha' qual a sua opinião sobre o Foo Fighters, a resposta será sempre muito parecida. Foo Fighters não é a melhor banda que Dave participou. Será que isso importa? Ao vivo, o que realmente faz a diferença é o espírito 'old school' do rock arena que permanece azeitado sob a tutela de Dave Grohl e seus comandados.

Foto: Diego Castanho
Tanto que, um dos melhores momentos do show nem é uma canção deles: trata-se da releitura de "Under Pressure", clássico do Queen com participação de David Bowie. Quem canta é o baterista Taylor Hawkins, músico que ajuda a construir a imagem de grupo do Foo Fighters não apenas ancorado a figura de Dave Grohl. Durante a apresentação dos integrantes, o guitarrista Pat Smear ressuscita Ramones, Chris Shiflett faz o mesmo com Alice Cooper, Rami Jaffee (lembra do Wallflowers?) toca imagine ao piano e Grohl canta "Jump" do Val Halen, num extranho mash-up que até funciona. Dave é sempre muito generoso ao apresentar seus colegas. Ele é uma figura simpática, como não gostar de Dave Grohl?   

Foto: Diego Castanho
E claro, dá-lhe hits como "My Hero", "Times Like These", "Big Me", "Monkey Wrech", entre outros. Bons momentos com "The Sky Is a Neighborhood" e "Sunday Rain", representantes de "Concret and Gold", álbum que também dá nome ao tour. O Foo Fighters ainda estica demais certas canções, abusando dos falsos finais, assim como Dave recorre a um dos grandes erros de Paul McCartney em sua turnês - contar a mesma piada muitas vezes. Em contraponto, divertidíssima a sacada de encenação (via telões) no backstage como se a banda estivesse decidindo se volta ou não volta para o bis. É claro que eles voltam, para alegria dos 30 mil presentes no Beira-rio. Se em janeiro de 2015 a escolha da Fiergs deixou muitos fãs descontentes com o local utilizado para a primeira vinda do grupo a Porto Alegre, três anos depois o Beira-Rio cada vez mais firma-se como o melhor  dos espaços para a realização de shows internacionais na capital gaúcha.  

Foto: Diego Castanho
De todo o modo, quando vejo Maria Eduarda Fialho Minussi (veja foto abaixo), uma garotinha de apenas 14 anos segurando um cartaz bem em frente ao palco em seu primeiro show internacional, aí podemos entender uma das principais virtudes do Foo Fighters: não deixar as bandas de rock e a guitarra saiam da linha de frente do cenário da música mundial. E isso promove também uma manutenção de público. E quando, trêmula,  ela me mostra o setlist que ganhou de um dos integrantes da equipe técnica da banda, a mando de Dave Grohl em carne e osso, com um sorriso aberto no rosto, Maria Eduarda certamente representa parte do sangue novo dessa renovação. Pessoalmente, se me perguntarem o que realmente achei do show do Foo Figherts, a resposta é apenas uma: um grande show de entretenimento em que o rock ainda é a matéria prima principal. Todas as láureas para o grupo.      

Foto: Diego Castanho
Da capital gaúcha, FF e QOTSA seguem para Buenos Aires, onde se apresentam no dia 7, próxima quarta-feira no Estádio do Velez. A Concret and Gold Tour" segue até setembro de 2018, por apresentações nos Estados Unidos e Canadá.  


Maria Eduarda e seu cartaz. Foto: Camila Gonçalves
Setlist FF PoA

Run
All My Life
Learn to Fly
The Pretender
The Sky Is a Neighborhood
Rope
Sunday Rain
My Hero
These Days
Walk
Breakout
Under My Wheels
Imagine /Jump / Blitzkrieg Bop / Love of My Life
Under Pressure
Monkey Wrench
Times Like These
Generator
Big Me
Best of You

 Bis:

Dirty Water
This Is a Call
Everlong


Foto: Diego Castanho

Foto: Diego Castanho

Foto: Diego Castanho

ÚLTIMA COBERTURA:

GLENN HUGHES - PORTO ALEGRE, 28 DE ABRIL DE 2018

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