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domingo, 29 de abril de 2018

GLENN HUGHES - PORTO ALEGRE, 28 DE ABRIL DE 2018

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Foto: Ton Muller
Por Márcio Grings Fotos Ton Muller

Glenn Hughes viveu - e ainda vive - uma vida de rock'n'roll. Basta olhar para o legado que construiu em quase 50 anos de carreira. Aos 65 anos, o nobre cidadão de Cannok, Staffordshire, cidade localizada nas West Midlands, região centro oeste da Inglaterra, tornou-se um baixista/vocalista/compositor admirado como artista ímpar no gênero. Seja desde os primeiros movimentos como menino prodígio no Trapeze, banda que ajudou a formar com apenas 17 anos, mas principalmente como integrante do Deep Purple entre 1973-76, quando registrou uma digital única nos álbuns "Burn" (1974), "Stormbringer"(1974) e "Come Taste the Band" (1975), e assim, virou um das peças chaves do hard rock naquela década. Após o ocaso do Purple em 1976, forjou parceria com o guitarrista Pat Thrall (Meat Loaf/Asia); gravou com John Lynn Turner; deixou sua marca no Black Sabbath; tocou com Gary Moore; ao lado de Joe Bonamassa brilhou (e ainda brilha) no Black Country Communion; e na companhia de Jason Bonham (filho do homem!), criou o grupo California Breed. Perceberam os laços de Hughes com a tríade sagrada do hard rock nos anos 1970? (Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin). E além de todos os enlaces e projetos, sacolejado por um turbulento espírito leonino - hiperativo - até agora já empilhou catorze álbuns solo distribuídos ao longo das últimas quatro décadas.

Foto: Ton Muller
Antes de aterrizar em Porto Alegre, Glenn Hughes e banda cruzaram por Dinamarca, França, Chile e Argentina, além de seis cidades brasileiras. O atual show, "Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live", não passa de uma profunda reimersão num repertório que demarca o ápice artístico do músico inglês. Depois da ruptura do grupo que o tornou uma lenda do rock, por mais que como ex-integrante do Purple nunca deixasse de tocar as composições que ajudou a escrever, essa é a primeira vez que Hughes entra de corpo e alma no repertório que tão bem conhece. E por que não? Lembre-se, a atual formação do Deep Purple passa longe dessas músicas, além de que desde o seu reagrupamento em 1984, cantar músicas que não escreveu enquanto esteve fora do time é algo que certamente nunca passou pela cabeça de Ian Gillan. E se David Coverdale, à frente do Whitesnake, já pagou tributo a história em comum com Glenn Hughes, num álbum de estúdio, noutro ao vivo e ainda em turnê dedicada ao período em que esteve no Deep Purple, nada mais justo que Glenn Hughes também faça o mesmo. Afinal, quantos veteranos atualmente sentem-se habilitados em cantar oitavas sem precedentes no rock? Que vocalistas dos anos 1960/70 continuam a desafiar os limites do tempo com cordas vocais capazes de reprisar no talo músicas que tornaram mítica essa trajetória?

Foto: Ton Muller
E ainda falando de retornos, tanto Coverdale, quanto Hughes, protagonistas na MK3 e MK4 (siglas que designam a terceira e quarta encarnação do Purple), optaram por diferentes abordagens ao reler esse capítulo de suas carreiras. Coverdale resolveu reinventar os temas e colocar um carimbo com o selo do Whitesnake. Já Glenn Hughes coloca o pé na porta e dá aos fãs exatamente aquilo eles sempre quiseram ouvir. Ou seja, um translúcido espelhamento de como as ações decorriam ao vivo com o Deep Purple durante os anos finais da bandas na década de 70. Estamos falando de álbuns clássicos como "Live in London" e "Made in Europe", cânones e supra-sumo do hard rock nos anos dourados do gênero.

Veja mais fotos de Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live Por Camila Gonçalves 
Veja mais fotos de Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live Por Ton Muller

Foto: Ton Muller
O tour que iniciou no último dia 4, mantém um setlist estável, com 11 e 12 canções distribuídas em cerca de duas horas de apresentação. Antes de Porto Alegre, oito apresentações tiveram o mesmo set. O show mais curto foi em Chauny, na França (apenas 9 temas, sem "Holy Man", "Sail Away" e "This Time Around"). Depois de 2010/15, em sua terceira passagem pela Capital gaúcha, o 'comeback special' de Glenn começa seguindo o protocolo da atual turnê. "Stormbringer", um tema em que o músico apresenta armas e coloca o pau na mesa: "Vindo do nada / Movendo-se como a chuva / Ao som do trovão, novamente dança o Arauto da Tempestade". Sim, ele dança, e como! Já nos instantes iniciais, o que Glenn Hughes faz com seu baixo enquanto canta parece sobre-humano. Ele atua como se fosse um super-herói num HQ fictício do rock.

Foto: Ton Muller
Já em "Might Just Take Your Life", aos poucos podemos perceber a banda que o acompanha no atual tour. O músico dinamarquês Søren Andersen (guitarra) é o responsável por suceder nesse repertório a dois personagens mitológicos no imaginário de cada fã do Purple: Ritchie Blackmore e Tommy Bolim. "Um veterano jogando dados pelas ruas / De alguma forma, tentando ganhar o pão de cada dia / Estou realmente certo de que as coisas vão melhorar". Ao final do tema, em alvoroço, o velho Hughes já circula hiperativo por ambos os extremos do palco distribuindo sorrisos e extratos de sua habilidade como instrumentista. Ele tem m vigor de um garoto. 
   
Foto: Ton Muller
A história em "Sail Away" denota uma banda com sede da estrada. "Mulher de músico é a música", bordão que pode impulsionar o protesto das feministas, ou um até mesmo tenta justificar um comportamento misógino dos artistas ligados ao rock. Na verdade, apenas explicita uma época de excessos, o olimpo do rock na primeira metade dos anos 1970. Mesmo que sejam de cepas diferentes, a temática de "Sail Away" espelha o que Robert Plant evoca em "Going to California", quando o vocalista do Led Zeppelin declara sua saudade dos excessos que uma banda se permite na estrada, relembra o encontro com as groupies e saúda com  alegria as longas noites em claro nos quartos de hotel. "Eu navegarei, é hora de dar um giro por aí / Relembre os dias de chuva / Vou desaparecer, pois a noite está chamando meu nome / Você vai ficar em casa, mas eu singrarei para longe". Num de seus riffs de baixo mais matadores, Hughes parece tão motivado no palco que é impossível esconder esse júbilo, tanto na forma de cantar, quanto na desenvoltura em que empunha seu instrumento. Eis um homem orgulhoso de seu legado.

Foto: Ton Muller

Logo após fazer o sinal da cruz, Glenn distribui elogios ao Brasil e deságua seu carinho e gratidão: "This man loves Porto Alegre". Anderson evoca a lembrança de Blackmore em seu solo de introdução repleto de oitavas, e quando puxa o riff de Mistreated", um dos poderosos hard blues do Purple, em pé, batendo forte nos tons, como se fosse um feiticeiro jogando poções num caldeirão mágico, o baterista Fer Escobedo energiza ainda mais o que já está inflamado. Eis uma música ímproba de desassociar da imagem de Coverdade. Difícil de imaginar antes dessa performance.



A inscrição na contracapa do álbum original já nos alerta: "Todos os vocais são interpretados por David Coverdale e Glenn Hughes, exceto 'Mistreated', cantada apenas por Coverdale". Eis então que na versão de "Mistreated" tocada no Opinião podemos ouvir voz de Hughes frequentar uma zona de conforto modulada sob medida para sua garganta, para no refrão estourar valendo em uníssono com a multidão de fãs que lota a casa. "Caminho só, sinto um estranho frio na alma / Eu procuro por alguém / Foi um golpe duro ter perdido minha mulher / Eu ando fora de mim"E "se a estrada do excesso nos leva a sabedoria", William Blake e todos nós sabemos que sempre há um preço a pagar por toda essa liberdade.

Foto: Ton Muller

O rebote chega em "You Fool No One", uma daquelas peças perfeitas para qualquer boa banda de hard rock pavonear adjetivos. O músico dinamarquês Jesper 'Jay Boe' Hansen (teclados), faz um solo/intro buscando corporizar o espólio deixado por Jon Lord. Numa versão de mais de 20 minutos, exatamente nos moldes do que rolava com o Purple no palco entre 1974/75/76, cheia de idas e vindas, falsos finais, não deixando de abrir espaços para longos momentos individuais. "Você pensou que poderia me convencer? / Melhor correr quando me ver chegando". Talvez esse seja um dos átimos nevrálgicos do show, quando em outro viés, essa mesma lembrança do Deep Purple nos assombra não apenas como uma memória viva. Imagine o que era assistir de perto Coverdade e Hughes juntos, dividindo vocais e atenção dos fãs? Quando Glenn e banda deixam de atuar em favor das canções, ao subtrair o quarteto e apostar em longos solos individuais, fica fácil entender por que é quase impossível ressuscitar palmo a palmo esse espólio grandioso que tematiza o tour. Jay Boe nunca será Jon Lord.   

Foto: Ton Muller
F"E o tempo passa voando", falando no tecladista... Dedicada a Jon Lord, "This Time Around", maior balada de Hughes no Purple é um tema perfeito para sua voz rock'n'soul. É também uma forte lembrança do membro fundador do grupo, co-autor do tema ao lado de Hughes. Na versão original do álbum "Come Taste the Band", Lord toca todos os instrumentos. Mas é a voz de Glenn que nos conduz ao Everest da composição. Fortuitamente imagino que o recém falecido Charles Bradley poderia tê-la reinventado, assim como fez em "Changes" do Black Sabbath: "Essa forma de cantar veio das minhas primeiras influências da música soul - Tamla Motown e Stevie Wonder, principalmente... Então, a veia rock eu busquei no Cream, Beatles, Jimi Hendrix, para depois novamente beber na música negra, falo de roupagens funk que encontrei em artistas como Sly Stone. Eu sempre combinei rock com soul music", disse  o autor de "This Time Around" em entrevista exclusiva ao Memorabilia. Leia AQUI

Outro grande momento está na versão de "Gettin' Tighter", extrato do talento de Hughes como um dos melhores vocalistas dos anos 1970, e também ligada à memória de Tommy Bolim, co-autor e guitarrista do Purple morto em 1976. "Ao cair da noite / Já cruzamos dez mil milhas / E a banda vai recomeçar a tocar".



Da mesma forma que na gravação original no lado A de "Come Taste the Band", o grupo tripudia valendo na parte B instrumental, quando entra em pauta uma breve reprise sombreada por novos ecos da black music, com cruzamentos vocais ao estilo do que Michael Jackson fazia no Jackson Five. A dinâmica da cozinha baixo/bateria é incrível.
     
Foto: Ton Muller

"Smoke on the Water" não pertence ao legado de Hughes no Deep Purple. Não concerne à primeira vista, afinal, onde há um risco de fumaça, também há fogo! "Fumaça no céu / Fogo na água". Como retirar do set um dos maiores sucessos do Purple? Na época, seria um tiro no pé deixar de tocar a ponta de lança que abriu as portas do mercado norte-americano. E assim, a versão MK3/4 para a história do incêndio durante o show de Frank Zappa em Montreaux, Suiça, quando o incidente liquida com o local onde o quinteto gravaria "Machine Head", ganha o enxerto (mash-up) com "Georgia on My Mind"A canção, escrita pelos compositores norte-americanos Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell em 1930, definitivamente está ligada à memória de Ray Charles. Outra vez a genética artística de Glenn Hughes preconiza ares de rock'n'soul. Há também blues no ar: "Não consigo encontrar a paz / Apenas uma velha e doce canção mantém Georgia nos meus pensamentos". Impossível não ficarmos boquiabertos com o frescor e os malabarismos vocais de Glenn Hughes, cantando com a energia de um jovem de 20 e poucos anos (ele tinha apenas 22 quando foi efetivado no Purple). 

Foto: Ton Muller
Nessa altura de sua vida, olhando para o curso do tempo, parece que Glenn continua à procura de algo que ainda não encontrou. Provavelmente, esse retorno ao repertório do Deep Purple seja parte dessa investigação, algo muito pessoal, construído com passos firmes numa profunda intenção de apaziguar velhos fantasmas. E quando o riff do contrabaixo ganha a companhia do chipô de Escobedo, Glenn  sorri com altivez. "You Keep on Moving" não apenas faz o público o ovacioná-lo. Certamente não há música mais indivisível de sua persona artística do que a última faixa do Lado B do derradeiro álbum do Deep Purple nos anos 1970. Certo sabor de final de uma era, e do próprio show que estamos vendo... "Você se prepara para o adeus / Todos os dias, passo a passo, as coisas vão encontrando seu lugar / E assim, a tristeza volta à baila / De todo o modo, a aurora se revela, outro dia renasce / Você me abraça feito um halo em torno do sol / Quando então, cinge as estações rumo ao desconhecido / E desse modo imita o passo dos anjos". Inesquecível versão em Porto Alegre, e o público canta ainda mais alto: "Fly away... Hughes, Andersen, Jay Boe e Escobedo se movimentam para além do foco das luzes, saem do palco e nos deixam com aquela sensação de que a última pérola ainda não foi revelada.

De volta ao centro das ações, sem o contrabaixo à tiracolo. No baixo, vemos seu roadie, Jimmy" Crutchley, membro do Dead Sea Skulls, power trio indie/punk formado em Birmingham, Inglaterra. Apenas com o microfone em suas mãos, Glenn sdetém a relembrar outro clássico de uma era: "Ninguém vai mudar minha cabeça / Estou na estrada outra vez". Não há dúvida disso, pois "Highway Star" também ressuscita os últimos dias do Purple nos anos setenta. Ouça AQUI a versão da banda tocada ao vivo em Long Beach (1976). "Chupa, Ian Gillian", grita um fã próximo a mim.   

Foto: Ton Muller
E então, eis a derradeira pérola. "Burn" é extraída da parte mais nobre do baú das riquezas do Deep Purple. E de uma forma cíclica, já no últimos momentos da apresentação, Glenn Hughes retorna a faixa de abertura do Lado A do primeiro LP da MK3. "Coloquem mais lenha no fogo". Se em setembro de 2016 Porto Alegre assistiu o Whitesnake de David Coverdale mandando brasa na sua versão de "Burn", a releitura de "Glenn Hughes performs Classic Deep Purple Live" joga a bruxa na fogueira e liquida com qualquer memória opaca e difusa.

Balanço geral do set: cinco peças de "Burn", três números de "Come Taste the Band" e mais um tema de "Stormbringer". A licença poética fica por conta da dupla de ases advinda de "Machine Head", composições fora do espectro da passagem fonográfica de Hughes pelo Purple, mas inclusas no repertório ao vivo da época em que esteve no grupo. Em sua nona passagem pelo Brasil, podemos afirmar que dificilmente algum show dessa modalidade tire Glenn Hughes Classic Deep Purple Live do topo do pódio dos melhores shows de 2018. 

Foto: Glenn Hughes
Depois do Opinião, nesse domingo (29) Hughes ainda toca no Circo Voador no Rio, e também em Vila Velha no Espírito Santo (1). No site oficial do músico as datas da turnê seguem até outubro, mas ele afirmou em entrevistas que irá correr o mundo por cerca de dois anos com esse show. Ou seja, ainda há muitas histórias a serem contadas na estrada. As GIGs estão sendo gravadas (incluindo as apresentações no Brasil) para o lançamento de um documentário. Saiba mais AQUI Caso você não tenha visto de perto Glenn Hughes Performs Classic Deep Purple Live, um futuro DVD passa a ser um atenuante - imaginando o lugar do leitor desse review que não pôde assisti-lo ao vivo no país. Agora, se assim como eu, você estava presente em alguma das apresentações, aí é outra história. Comemore, afinal todos somos testemunhas desse espetáculo histórico que passou pelo RS.

Grings - Tours, Produções e eventos agradece especialmente a Homero Pivotto Jr (Abstratti Produtora), assessoria ímpar em todas as etapas do evento.

Glenn Hughes performs Classic deep Purple Live - Setlist Porto Alegre;

Stormbringer
Might Just Take Your Life
Sail Away
Mistreated
You Fool No One
This Time Around
Gettin' Tighter
Smoke on the Water / Georgia on My Mind
You Keep on Moving

Bis:

Burn
Highway Star


Veja também imagens captadas por Camila Gonçalves.

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves

Foto: Camila Gonçalves


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

DEEP PURPLE - CURITIBA, 12 DE DEZEMBRO DE 2017

Fotos: Ton Muller
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Texto Márcio Grings Fotos Ton Muller

Depois da abertura com Tesla, do show empolgante do Cheap Trick, o minifestival Solid Rock fecha a noite da última terça-feira (12) na Pedreira Paulo Leminski com sua principal atração, o grupo inglês Deep Purple. Eles estão se despedindo das grandes turnês, pelo menos esse é o anúncio. Conviver com essa permanente sensação de que nossos ídolos estão pendurando as chuteiras é um bad feeling difícil de se afugentar! Por isso, vejo muita gente passando o rodo em diversos shows internacionais que cruzam pelo país (me coloque nesse saco de gatos). Acredito que para muitos dessa casta artística  que beira os 70 anos, a decisão de parar é um mantra que ressoa como o sino do coveiro. Ou quem sabe, o orgulho próprio caminhe de mãos dadas com a impressão de dever cumprido. O que posso afirmar é que assistir ao Deep Purple pela segunda vez, apenas três anos após a última passagem deles pelo Brasil, ainda é algo impressionante. Mesmo com amargo sabor de adeus, devido a essa despedida anunciada, por enquanto o que sabemos é que a 'The Long Goodbye Tour" segue até julho de 2018. Bem, alguns de nós tivemos a sorte de presenciá-la. 

Vale lembrar que depois de anos empilhando álbuns com carimbos protocolares, eis que o Deep Purple novamente lança um disco digno da sua grandeza. "inFinite" tem a marca do som que consagrou o quinteto na primeira metade dos anos 1970. Basta ouvir canções como "Time For Bedlan" e "Hip Boots" para sacarmos o calibre do álbum. Ouça os teclados de Don Airey - eles nunca soaram tão viscerais; já Steve Morse, como de costume engaveta qualquer lembrança de Ritchie Blackmore (se é que isso é possível para os fãs  mais ferrenhos). 

Com fotos de Fabiano Dallmeyer, LEIA a resenha do show do Deep Purple em 2014 (Porto Alegre) 

Foto: Ton Muller
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De todo o modo, mesmo que o grupo tenha colocado no setlist até mesmo cinco canções de "InFinite" em alguns do shows desse ano na Europa, isso não acontece em Curitiba, quando apenas "Birds of Prey" surge como representante do novo álbum. Quem se importa? 

A noite púrpura começa com o implacável compasso 5/4 de " Mars, the Bringer  of War", trilha incidental composta pelo compositor erudito inglês Gustav Holst, peça sinfônica análoga aos planetas do Sistema Solar. E já que estamos falando do Cosmo, nada melhor que uma estrela cadente riscar o céu curitibano. "Highway Star", abre alas de "Machine Head", é também o pontapé inicial da maioria dos shows do Purple. Segundo o site setlist.fm, essa foi a execução de nº 1.718 da canção lançada originalmente em 1972. A primeira vez que "Highway Star" surgiu em uma apresentação foi em 6 de Fevereiro de 1971, em Shefield, na Inglaterra. 45  anos depois, ver Gillan, Glover e Paice (três compositores originais) impondo respeito com um dos principais brasões do rock em todos os tempos, ainda nos impressiona. De igual forma, "Pictures of Home" é também uma marca registrada do som do Purple, ainda que agora um norte-americano, o guitarrista Steve Morse, substitua com louvores o criador original do riff, Mr. Ritchie Blackmore. E se Gillan conseguiu se livrar de Blackmore (as brigas entre o ex-guitarrista e o vocalista sempre foram lendárias), em "Bloodsucker" ele mostra como ainda consegue dar conta do recado, e com louvores, numa das faixas mais 'gueludas' de "In Rock" (1970). Esse Gillan amaciado pelo tempo também distribui carinho e mantém uma constante troca de olhares com seu guitarrista, e assim, o clima no palco é o melhor possível.  

Foto: Ton Muller
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Logo depois, "Strange Kind of Woman", o mais radiofônico dos hits forjado na era Blackmore/Gillan/Glover/Lord/Paice, funciona como uma canção novinha em folha. No solo, Morse desconstrói a linha original para deixar a sonoridade mais ao seu estilo. Depois de engatar quatro músicas emendadas uma a outra, só então Gillan saúda o público na Pedreira. Uncommon Man", de "Now What!?" (2013), é dedicada ao lendário tecladista e membro fundador do grupo, Jon Lord, falecido em 2012. Uma música aonde percebe-se com facilidade as reverências - e referências - ao legado de Lord como um dos maiores nomes do teclado no rock. "Lazy" pode soar diferente de uma noite para a outra, pois a marca do improviso está diluída em sua gema. Temos até o blues na gaita de boca de Gillan; já Glover crava um walking bass jazzístico em uma das bases de improvisação; no entanto, o ponto alto da performance certamente está permanente diálogo entre Don Airey e Steve Morse.      

Foto: Ton Muller
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"Birds of Prey", insígnia representativa de "inFinite", possui o espírito das velhas canções do grupo, porém é uma vinha extraída da colheita mais recente do Purple. Dá pra perceber que Gillan busca reforço no teleprompter para não tropeçar na letra. De todo modo, essa nova peça no repertório é também um reflexo de que essa formação, a mais estável na história do Purple (são 15 anos gravando e tocando juntos), também revela faixas dignas de evidência no tour. Se tem um disco que mora nos corações dos fãs da banda, esse álbum chama-se "Perfect Strangers" (1984), trabalho que marcou o retorno do grupo após um hiato de 8 anos inativo. Quando ouço ao vivo "Knocking at Your Back Door", um número com sutil referências a sexo anal (tema confirmado por Gillan em uma entrevista), a canção ainda soa poderosa como a gravação original. Mesmo que rearranjada, mais lenta e num tom confortável para equalizar as limitações de um vocalista que já passou dos 72 anos, podemos destacá-la como um dos grandes momentos do espetáculo. Eu, mais uma vez voltei aos 14.

Foto: Ton Muller
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Como notáveis instrumentistas, não são Ian Paice ou Steve Morse a estrelar momentos individuais no atual show do Purple. Nada de longos solos solitários de bateria ou guitarra. Esse momento solo fica a cargo do tecladista Don Airey, que após passar por bandas como Rainbow e Whitesnake, estabilizou no Purple como um dos melhores representes da escola de Jon Lord (os dois eram amigos). Entre acentos sinfônicos, eruditos, hammonds ora raivosos, ora fantasmagóricos, o músico ainda homenageia grandes compositores brasileiros como Zequinha de Abreu (Tico-Tico no Fubá) e Ari Barroso (Aquarela do Brasil), para no final sampar o mais celebrado dos riffs de teclado do seu predecessor no Purple. "Perfect Strangers" não ganha o quilate de 'clássico' por acaso. Trata-se de uma das canções mais importantes da história do grupo, porque além de marcar seu renascimento como banda de primeiríssima grandeza, a música passou a ser um tema impossível de ser riscada de qualquer setlist da banda. Nenhuma letra foi cantada mais alto na primeira edição do Solid Rock em Curitiba. E se "Space Truckin" nos leva de volta ao espírito dos shows ao vivo do Purple nos anos 1970, quando tudo soava ainda melhor ao vivo, "Smoke on the Water", umas das sequências de acordes mais repetidas de todos os tempos por qualquer moleque que algum dia pegou uma guitarra na mão, nos leva ao topo do Olimpo de hard rock mundial. É como se estivéssemos assistindo de camarote a uma final de Copa do Mundo.

Foto: Ton Muller
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E sem tentar inventar a roda, mas fazendo o mais previsível bis que o Deep Purple pode nos apresentar (quem disse que um bom clichê não pode ser repetido?), "Hush" clássico de Joe South que o grupo surrupiou para si (os medíocres copiam, os gênios roubam), mesmo assim podemos nos surpreender com uma introdução de "Peter Gunn  Theme" (ao estilo dos Blues Brothers), como também o último capítulo da noite, "Black Night", single ancestral lançado em 1970, é adesivado por enxertos de "How Many More Times" do Led Zeppelin.       

Se esse foi o fim, só saberemos nos próximos meses. O que podemos afirmar é que se o adeus está consumado, então tivemos uma despedida digna dos monstros sagrados da música. E só alguém muito estúpido para não sacar o tamanho do Deep Purple dentro do espectro do rock mundial.   
                
Setlist DP no SR em Curitiba

Intro: Mars, the Bringer of War (Holst)
Highway Star
Pictures of Home
Bloodsucker
Strange Kind of Woman
Uncommon Man
Lazy
Birds of Prey
Knocking at Your Back Door
Perfect Strangers
Space Truckin'
Smoke on the Water

Encore:

Hush   
Black Night

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muler

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller

Foto: Ton Muller


domingo, 16 de novembro de 2014

DEEP PURPLE - PORTO ALEGRE, 15 DE NOVEMBRO DE 2014

Fotos: Fabiano Dallmeyer
Texto Márcio Grings Fotos Fabiano Dallmeyer

Em 1984, o Deep Purple voltava à ativa depois de uma parada de oito anos. O disco que marcou esse retorno foi “Perfect Strangers”, e eu, enquanto moleque de 14 anos, pude acompanhar esse lançamento em Santa Maria, cidade onde cresci. Só que nos anos 1980, numa cidade do interior do RS, apesar de termos boas lojas na City, para qualquer iniciante no mundo do rock, o terreno era bem mais inóspito que nos dias atuais. Naquele tempo, já possuía na minha prateleira dois LPs do Purple: “Fireball” e “Machine Head”, e aquela espera por um material novo me consumia. E o pior: não encontrava o disco à venda. Até que depois de girar em todos os lugares possíveis, finalmente achei uma fita cassete do álbum na extinta Loja Incosul da Rua do Acampamento, bem no centro da cidade.

Fotos: Fabiano Dallmeyer
Se naqueles dias alguém me dissesse que eu os veria frente a frente tocando uma música como “Perfect Strangers”, eu juro que não acreditaria. Por isso, assistir uma banda como o Purple ao vivo, bem de perto como aconteceu nesse último sábado (15), num local fenomenal como o Auditório Araújo Vianna, é como se eu pudesse resgatar do meu próprio passado aquele garoto entusiasmado e inocente que um dia eu fui.



O SHOW - 20h e 57 minutos, ao som de “Mars, the Bringer of War”, tema do compositor inglês Gustav Holst, somos avisados que a quinta passagem do grupo na capital gaúcha, está prestes a começar. Pra começo de conversa, temos três integrantes da formação clássica da banda no palco. Se Ian Gillan não tem mais a potência vocal dos velhos tempos, o vocalista usa muito bem os atalhos para cantar temas como “Highway Star”, chave que promove o tilintar da ficha caindo: “sim, você está num show do Deep Purple!”. E as saídas estratégicas do palco ou o posicionamento no lado de trás dos holofotes não passa de uma de suas habituais características de atuação ao longo da trajetória do grupo. Ele entra e sai de cena a medida que o instrumental o avisa que o pandeiro e o mini gongo podem entrar em ação.

Fotos: Fabiano Dallmeyer
GLOVER - Roger Glover não foi o mais técnico dos baixistas a passar pelo grupo, mas sem dúvida, é um dos músicos que mais casou com a concepção do gênero. “Into the Fire”, possui traços característicos de uma sonoridade que ajudou a forjar o som pesado, aliando simplicidade, peso e competência para segurar uma das cozinhas rítmicas mais celebradas do hard rock.

Fotos: Fabiano Dallmeyer
PAICE - Ian Paice, desde sempre, é um dos meus bateristas favoritos, e o peso dos anos parece não ter causado nenhum dano ao veterano. Seu desempenho compenetrado e a forma característica de tocar (que conhecemos de dezenas de vídeos) podem ser facilmente identificados em “Hard Lovin’ Man”. E se existem solos de bateria nos shows de rock, como vimos em “The Mule”, é porque caras como Bonzo e Paice colocaram suas digitais nesse recorte dentro dos concertos de rock.

“NOW WHAT?!” NO SET - Ao som de “Strange Kind Woman”, olho para trás e percebo que o Araújo Vianna está completamente lotado. Praticamente ninguém ocupa os assentos, pois grande parte das cerca de 3.500 pessoas presentes assistem ao show em pé. Afinal, a noite é de festa, ou não é?



Se muitos julgam que o Purple é uma banda que apenas faz cover de si, canções recentes como “Vincent Price” e “Uncommon Man” claramente mostram que o grupo não tem medo da reinvenção, isso mesmo após mais de quatro décadas de estrada. Inclusive, “Hell to Pay”, faixa que fecha a trinca de escolhidas para figurar no setlist de “Now What?!”, álbum lançado em 2013, é uma espécie de hit instantâneo que coloca a massa pra cantar.

Foto: Fabiano Dallmeyer
MORSE - E eis que nos deparamos com Steve Morse. O guitarrista norte-americano que entrou na banda em 1994, em substituição a Richie Blackmore, toca os riffs de seu antecessor com reverência e irreverência. Na verdade, da mesma forma em que Morse reprisa, ele também desconstrói as frases manjadas de Blackmore, como em “Smoke on the Water”, fazendo dessa uma de suas marcas registradas que revitalizam o Purple a cada nova noite. Em anexo ainda ouvimos temas do músico no grupo como “The Well-Dressed Guitar” e “Contact Lost”, novas tintas rejuvenescedoras propostas através de sua incursão no time.

Foto: Fabiano Dallmeyer
AIREY - E que falar do homem que substitui Jon Lord? Don Airey já tocou com Ozzy Osbourne, Dio e dezenas de outros gigantes do gênero. Com doze anos de Purple, Airey é sem dúvida uma dos responsáveis pela massa sonora que vaza do palco. Em seus solos, revisita parte da sua própria trajetória como músico. É o que acontece em “Lazy”, quando reprisa a intro de “Mr Crowley”, clássico de Ozzy, ou até mesmo ao reverenciar o Rio Grande do Sul. Sim, quando alguém contar que o tecladista executou o hino  dos gaúchos antes de “Perfect Strangers”, pode dizer que isso realmente aconteceu.

Foto: Fabiano Dallmeyer
No bis, “Goin’ Down” de Freddie King é miscigenada com a releitura de “Hush”, de Billy Joe Royal. Infelizmente, bons sonhos tem hora pra acabar, e “Black Night” ganha o coro reverencial da audiência, além de citações de Morse a “How Many More Times” do Led Zeppelin e “Third Stone From the Sun”, de Jimi Hendrix.


10h 50 min. Finish.





HARDEIRA - Quem toca rock na noite santa-mariense conhece um famoso bordão dos músicos locais: “compromisso com a hardeira”, uma onomatopeia de “hard”, de hard rock. Isso na verdade não passa de uma justificativa dessa rapaziada em afirmar de que todo o modo, nos bons e maus momentos, o rock and roll nunca será abandonado. A expressão também faz referência a um estilo de vida que pode oscilar na corda bamba, e assim, muitas vezes declinando a deslizes e excessos. Todavia, nada de desistir, meu caro!  E o Deep Purple talvez seja uma das poucas bandas dos velhos tempos que ainda firma efetivamente esse compromisso com o gênero, e isso de uma das formas mais genuínas e relevantes. Eles são verdadeiros heróis da música.

Fotos: Fabiano Dallmeyer

Fotos: Fabiano Dallmeyer

Fotos: Fabiano Dallmeyer

Fotos: Fabiano Dallmeyer

Fotos: Fabiano Dallmeyer

Fotos: Fabiano Dallmeyer



ÚLTIMA COBERTURA:

ROBERT PLANT — PORTO ALEGRE, 19 DE MAIO DE 2026

| Por Márcio Grings | Terça-feira, 19 de maio de 2026. Robert Plant está na cidade. Não há possibilidade de eu não encontrá-lo esta noite....