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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

DAVID GILMOUR - PORTO ALEGRE, 16 DE DEZEMBRO DE 2015


Fotos: Gika Oliva

Tenho uma visão singular sobre o Pink Floyd — suas canções, álbuns e o conjunto da obra se amplificam após sucessivas audições. É um tipo de som que não enferruja, com uma parte substancial desse material totalmente conectado ao tempo real. Estamos falando de uma banda que estabeleceu padrões, detentora de um conteúdo intelectual absurdo, conceitual — das capas e artes construídas para empacotar sua música, as letras repletas de permanentes dilemas da sociedade. No aspecto visual, o Pink Floyd foi uma das bandas que foi completamente atingida pela aposentadoria forçada do vinil nos anos 1980, pois há um completo domínio do uso de sua imagem e todos os desdobramentos possíveis. De todo o modo, não demorou muito para o Pink Floyd voar alto no novo formato, o Compact Disc (CD) — o que fica fácil constatar ao lembramos da inovação do álbum ao vivo “Pulse” (1995), em que a primeira edição continha um encarte luxuoso e na parte externa da capa (cartonada) uma pequena luz em LED que piscava. Só no Brasil o álbum vendeu mais de cem mil cópias.         

Foto: Gika Oliva

Duas décadas antes, Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason foram os primeiros a usar os estádios como teatro para suas peças musicais. É deles a jogada de utilizar acessórios, objetos voadores, telões, o arrebatamento da experiência quadrafônica — o Pink Floyd reinventou o negócio musical nos anos 1970 — galáxia onde o grupo movia suas peças e conduzia o público pelo seu caleidoscópio espacial. Sob a gerência de Steve O'Rourke, manager dos negócios do grupo, bem como as carreiras solo de Dave Gilmour, Nick Mason e Rick Wright, que se tornaram milionários, principalmente Roger Waters, o principal compositor.  

Pessoalmente, minha geração tinha em “Dark Side of The Moon” o manual prático de como viajar ouvindo um LP — música para a mente, esse é o recado. Já em “Pink Floyd — The Wall”, disco/filme, ampliamos o campo de visão numa cartilha completa. Há um afronte às relações familiares, experiências sociais repressoras, ao renascimento do fascismo, do preconceito contra o diferente e visões do desastre do estrelato, isso quinze anos antes de Kurt Cobain acabar com a própria vida. É o disco de “Confortably Numb”, o solo número 1 de David Gilmour. E se com os Beatles é comum vermos os fãs elencarem seu integrante predileto, no caso do Pink Floyd, apesar de apreciar a digital única da guitarra de David, sempre me declarei um waterista convicto. Gosto do espírito das canções de Roger. Quando o grupo voltou à ativa em 1987, com "A Momentary Lapse of Reason", não foi fácil aceitar aquela formação capenga. A impressão é que o Floyd carecia da visão ácida e emocional de Roger, assim como o baixista, em viagem solo, parecia sentir falta da sutileza da banda que o expurgou. — "Tragam o baixista de volta!". Sensação que foi exorcizada em “The Divison Bell” (1994), um trabalho que ainda hoje expõe uma incrível força criativa, que parece crescer com o passar do tempo, além de revogar a independência de David Gilmour como compositor floydiano, apoiado pelas letras da esposa, a jornalista e escritora Polly Swanson. 

Foto: Gika Oliva


E, assim chegamos a 2015 e a Ratlle That Lock tour de David Gilmour e banda. Depois de assistir Roger Waters três anos antes, dessa vez chegou a vez de seu desafeto. É quando me vejo doido de uísque, envolto numa nuvem de êxtase — culpa de ação gratuita de uma marca de bebida (atitude muito pouco profissional da minha parte, como repórter credenciado).  Assim essa narrativa começa na parte final da apresentação, em pleno transe ao som de “Coming Back to My Life”. Desse modo, ainda trôpego, mas compenetrado ao extremo, quebro minha promessa de deixar o celular no bolso. Levanto o aparelho e faço a única – e tremida — imagem da noite.

Foto: Gila Oliva

Antes disso, vamos ao início. Consagrado pelos fãs antes mesmo de pegar a guitarra, David Gilmour surge no palco semi iluminado e acena para o público. Atrás dele, "Mr Screen" dá sinal de vida, na posição de lua cheia que irrompe a bruma de uma noite sem estrelas. Estamos falando de como foi apelidado o enorme telão circular, espólio tecnológico do Pink Floyd e que também passou a ser uma das atrações da Rattle That Lock Tour. A primeira aparição de Mr. Screen foi durante a turnê de “Dark Side of the Moon”, em 1974, desde então, o equipamento de projeção passou a ser uma presença contínua nas turnês da banda. O apogeu desse protagonismo está eternizado nas digressões de “Momentary Lapse of Reason” e “Division Bell”. E cá estamos nós, em pleno raio de ação do Olho de Hórus da cultura pop mundial. Blue lights and blue notes in “5 A.M”, abertura de seu novo álbum e do atual tour, quase uma peça sinfônica pensada para promover uma ligação íntima com o público. O oratório de vozes introduz “Rattle That Lock”, faixa título que nomeia esse recorte de tempo na vida do guitarrista, e flerte direto com o pop. A plateia canta o refrão, o que arranca sorrisos do orgulhoso compositor.

Foto: Gika Oliva


A caustrofíca “Faces of Stone”, música inspirada na demência de Sylvia Gilmour, sua mãe, expõe uma personagem que vê rostos de pedra pendurados nas árvores. David acaba de lançar um belíssimo audiovisual desse tema, clipe em preto e branco dirigido por Aubrey Powell, velho colaborador do Pink Floyd. Há nesse material o resgate de imagens de um curta experimental da cineasta norte-americana Maya Deren (que também é atriz principal do flme), filmado na década de 1940. Percebo que uma energia estranha irradia dessa música, algo perturbador, alinhado ao audiovisual. Quando David retorna ao coração de sua música, sinto o pulso de “Wish You Where Here”, a começar pelo rádio de pilha que zapeia pelo dial e corta ao meio um trecho da Quarta Sinfonia de Tchaikovsky. Em seguida ouvimos a clássica introdução com violão de doze cordas tocado por Phil Manzanera (Roxy Music), sublinhados por inevitáveis bramidos do público. Mesmo ao vivo, ouço o crepitar de uma fogueira, visão noturna embebida numa visão destorcida da música country. Gilmour reproduz o solo que conhemos tão bem. É uma das peças canônicas do rock em todos os tempos, homenagem a Syd Barret, hino das almas perdidas em asilos voluntários (ou não) — tremenda música sobre saudade, sempre necessária para nós, saudosistas convictos.

Foto: Gika Oliva

Algumas canções do novo disco do guitarrista, apesar de o álbum ter sido lançado há poucos meses, já estão na boca do povo, é o caso de “A Boat Lies Waiting”.  “High Hopes”, obra-prima de “Division Bell” está no panteão das grandes canções do Pink Floyd, onde o compositor faz um balanço das perdas e ganhos da vida. Quando o baterista Stevie DiStanislao (Don Felder Band) bate no metal e percute um fictício ‘sino do coveiro’, há uma simbologia nessa atuação, um rito de passagem que sepulta — mesmo que por instantes — resquícios e sombras do passado.   

Ares de folk rock com “The Blue”, uma das melhores músicas de “On an Island” (2006), seu terceiro álbum solo, o preferido de muitos de seus fãs e da crítica — sinto muito, o meu álbum solo do coração ainda é “About Face” (1984), que infelizmente é carta fora do baralho de seu repertório. 

O som de moedas e caixa registradora antecipa “Money” — uma explosão de alegria toma conta da Arena, saudação a um dos maiores hits do Pink Floyd. “Us and Them” é simplesmente uma definição arquetípica do Pink Floyd e da voz de David Gilmour. É quando ouvimos o saxofonista brasilero João Mello (Razorlight), substituto da lenda Dick Parry, que está com problemas de saúde. Indicado por Phil Manzanera, o músico curitibano que mora na Inglaterra há três anos, acaba de entrar para a banda de Gilmour. Ele ainda é uma presença tímida entre tantas cobras criadas, mas quando surge debaixo de um holofote, reprisa detalhadamente os sopros de Parry. Não há dúvidas sobre o talento do garoto, que vive seu sonho dourado como profissional da música — em outubro ele fez sua estreia no Royal Albert Hall, em Londres, uma das mais lendárias casas de espetáculo do planeta. Um detalhe: João tem apenas 20 anos. 

A floydiana “In Any Tongue”, é mais uma do novo álbum — e ainda tocaria “The Girl in the Yellow Dress” e “Today”, totalizando sete faixas no set de “Rattle That Lock”, o que mostra o poder de fogo de seu quarto trabalho individual. É importante mencionar que os temas mais recentes se infiltram com propriedade nas canções mais conhecidas, e o público não arrefece seu entusiasmo com o ídolo.            

O delírio espacial de "Astronomy Domine”, gênese do rock espacial capitaneado por Syd Barret, ganha um show de cores disparadas pelas luzes e pelas imagens de Mr. Scream. “Shine On You Crazy Diamond” é pura introspecção. O inicio, com o palco escuro, instantâneo onde o velho colaborar do Floyd, Jon Carey (piano, teclados, lap steel, guitarra, voz de paio e voz principal em Time e Comfortably Numb), reprisa toda a climática dos teclados conhecida milimetricamente pelos fãs — 1 minuto e ½ só dele. É simplesmente uma das preparações mais fantásticas do rock. E quando Gilmour começa a solar, numa introdução que não acaba nunca (graças ao criador!), puro blues progressivo, pura imersão no Planeta Pink Floyd. A letra, que novamente resgata o peso da ausência de Syd Barrett, é de uma melancolia insuportável, uma porrada sonora que invade os dois lados de “Wish You Where Here” (1975). João Mello novamente decalca no talo o solo de sax de Dick Parry.  Também estão na estrada com a Ratlle That Lock Tour nomes como Guy Pratt (baixo, voz de apoio e voz principal em Run Like Hell), praticamente um integrante da família floydiana (ele é genro do falecido tecladista Richard Wright); Kevin McAlea (piano, teclados e acordeom); além de Brian Chambers (vozes de apoio, percussão e vocal principal em In Any Tongue) e Lucita Jules (vozes de apoio).           

A balada folk “Fat Old Sun”, de “Atom Heart Mother” (1970), é um oportuno resgate nesse repertório. É um retrato folk de Gilmour, e da maciez de sua interpretação ao descrever uma cena pastoral. Dois dias depois do show, no Facebook oficial de David, foi divulgado um vídeo de uma garota colada a grade cantando:  — “Pick your feet up off the ground / And if you hear as the warm night falls / The silver sound from a time so strange / Sing to me, sing to me”. O vídeo captado por Gavin Elder, só tem 30 segundos, mas é um belo extrato do encantamento que a música do Pink Floyd deflagra nos fãs.

 

Mais adiante, “Sorrow”, de “A Momentary Lapse o Reason” começa a desfazer qualquer cena bucólica, pois temos uma simbologia da trilha sonora perfeita para grandes arenas, onde o solista Gilmour está em evidência. Em seguida, já no primeiro riff de “Run Like Hell”, lembrança da ópera rock “Roger Waters — The Wall”, que passou como um tsunami pelo Rio Grande do Sul em março de 2012, novamente nos impressiona, dessa vez na versão de outro coautor de uma das músicas mais guitarrísticas do Pink Floyd.         

E no final, encore —  com 40 mil vozes encorpam o refrão de “Time”. Inevitável lembrança do minifilme do diretor espanhol Sergi Castella, que transformou uma carta poema do escritor norte-americano Jack Keroauc em “We Were Never Born” (Nós Jamais Nascemos), vídeo de quatro minutos e ½ (feito em 2010) embalado em alguns trechos por “Time” (veja AQUI). E o adeus está em “Confortably Numb”, ponteio dos nossos últimos momentos com o músico britânico — não poderíamos ter melhor companhia. 

Antes de partir para a Argentina, nova etapa do tour sul-americano, nesta quinta-feira (17), o duro e difícil dia seguinte após nosso encontro, em comunicado no seu Facebook, David Gilmour agradece aos fãs e dá detalhes sobre cada apresentação no Brasil: — “A Arena do Grêmio é uma das joias de Porto Alegre”, disse o artista. Eu colocaria essa frase numa placa em letras graúdas e convidaria o guitarrista para a solenidade de descerramento. Como casa de shows, o estádio está devidamente aprovado.  


Setlist Porto Alegre:


5 A.M.
Rattle That Lock
Faces of Stone
Wish You Were Here
A Boat Lies Waiting
The Blue
Money
Us And Them
In Any Tongue
High Hopes
Astronomy Domine
Shine On You Crazy Diamond (Parts I-V)
Fat Old Sun
Coming Back To My Life
The Girl In The Yellow Dress
Today
Sorrow
Run Like Hell

Bis
Time/Breath
Comfortably Numb

Foto: Gika Oliva

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