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quarta-feira, 7 de maio de 2025

SAXON — PORTO ALEGRE, 6 DE MAIO DE 2025

| Foto: Laura Aldana |
Review Márcio Grings Fotos Laura Aldana |

Há quatro décadas e meia, a banda inglesa que chegou a Porto Alegre nesta terça-feira (6) se tornou um dos pilares do som pesado. A atual turnê, a 9ª em terras brasileiras, com um novo show no Opinião — leia a resenha da passagem anterior (2019) AQUI —, é a última data no país da Hell, Fire & Steel Tour. Vindo de uma miniturnê pelo Japão, onde fez três apresentações (duas em Tóquio e uma em Osaka), no Brasil, antes da capital gaúcha, o Saxon ainda passou por São Paulo (3), como uma das atrações principais no festival Bangers Open Aire, e Belo Horizonte (4), onde se apresentou no Mister Rock.

Formado em Barnsley, South Yorkshire, na Inglaterra, há um símbolo indivisível na persona do grupo: o Saxon surgiu sincrônico ao nascimento do New Wave of British Heavy Metal, subgênero com termologia cunhada em 1979 por Alan Lewis, editor da revista britânica Sounds. O NWOBHM deu o play exatamente quando o punk entrou em declínio e, entre os principais expoentes dessa safra do som pesado, além do Saxon, bandas como Iron Maiden, Def Leppard e Motörhead também surfaram na mesma onda. No entanto, só em 1997 o Saxon visitaria o Brasil, com shows em Santos e São Paulo. Na época, como um quinteto reestruturado e já fora da crista da onda, a aterrissagem fazia sentido, pois não só por aqui — mas em toda a América do Sul — havia uma base sólida de fãs, forjada principalmente nos anos 1980, sedentos por esse encontro. Em tempo: até aquele período, todos os LPs do grupo ganharam edições no país via RGE e EMI, o que justifica sua popularidade.

Foto: Laura Aldana

Quase cinco décadas depois, muitos dos egressos no NWOBHM ainda permanecem no cenário, apesar de poucos terem seguido em frente com ousadia e inovação, não apenas regurgitando um espólio saudosista. Na linha do tempo, o erro estratégico do Saxon está fixado na segunda parte dos anos 1980 (a partir de 1985, principalmente) quando o grupo americanizou o som, amaciando a 'britanicidade' e o peso. Já o Iron Maiden, mais bem orientado pelos seus managers, parece nunca ter superdimensionado o mercado norte-americano e, mesmo assim, se tornou grande nos dois lados do Atlântico, sem abandonar seus propósitos, permanecendo tão britânico quanto o chá das cinco.

Por outro lado, hoje, nos trabalhos deste século, é fácil identificarmos desmedidas repetições de uma fórmula já esgotada na banda de Bruce Dickinson e Steve Harris. Quanto ao Saxon, mesmo tendo diminuído de estatura frente ao Iron Maiden (nos anos 1980, por um breve período, ambos igualaram forças), salvo algum equívoco ou outro, o grupo liderado pelo vocalista Biff Byford, segue conquistando crítica e renovando seu público, repaginando a ordem das coisas e cravando — ano após ano — ótimos discos, como é o caso do elogiado "Hell, Fire and Damnation" (2024).

Doug Scarrat. Foto: Laura Aldana
A FORMAÇÃO

Para entendermos a atual composição que chega até Porto Alegre e a troca de cadeiras em relação à era jurássica, inicialmente comecemos por Nibbs Carter (59 anos), na banda desde 1989. Ele começou sua história no Saxon gravando o baixo no álbum ao vivo "Rock 'n' Roll Gypsies", substituindo um integrante da formação original, Steve Dawson. Antes disso, em 1982, Nigel Glockler (72 anos) ocupou a lacuna deixada por Pete Gill, homem das baquetas nos quatro primeiros LPs. Nigel entrou quebrando tudo no álbum "The Eagle Has Landed" (1982), o mais poderoso registro ao vivo do grupo em qualquer década. Deste modo, juntando-se ao vocalista, o velho general Biff Byford (74 anos), comandante geral das operações, eis o trio que segura a bronca há mais tempo.

Nibbs Carter. Foto: Laura Aldana

Na década seguinte, em 1997, Doug Scarrat (65 anos) substituiu Graham Oliver e foi um dos guitarristas que participou do primeiro tour pelo país. E, por último, quando Paul Quinn decidiu pendurar as chuteiras em março de 2023 (ele esteve em Porto Alegre em 2019), o Saxon anunciou o substituto, Brian Tatler (64 anos), presença legítima no NWOBHM, já que o músico fez história como guitarrista do Diamond Head.

Laura Guldemond, vocalista do Burning Witches. Foto: Laura Aldana
ABERTURA: URDZA E BURNING WITCHES

Antes do Saxon, duas ótimas atrações aqueceram o público. Direto de Santos, a Urdza, que acaba de lançar o seu álbum de estreia, "A War With Myself” (2024), fez um show curto e encaixado. A banda paulista está pronta para alçar voos maiores, guardem esse nome.  Logo depois, a grande surpresa (pelo menos para mim) da noite se deu com a Burning Witches. Essa banda de garotas vinda da Suíça, com cinco álbuns de estúdio lançados, aposta no power e heavy metal dos anos 1980, mas também traz sangue novo e originalidade ao gênero, com destaque para a vocalista Laura Guldemond, uma cantora e performer de mão cheia. Completam o time Romana Kalkuhl (guitarra e voz de apoio), Courtney Cox (guitarra), Jeanine Grob (baixo) e Lala Frischknecht (bateria e voz de apoio). Músicas como "Unleash the Beat", "Dance With the Devil", "The Spell of Skulls" e "Lucid Nightmare" são cartões de visita que dão o tom do calibre das meninas. Voltem logo, já estamos com saudades!

E COMO VEM A ATRAÇÃO PRINCIPAL?

Dividido em duas partes distintas, a Hell, Fire & Steel Tour já passou por 11 países em três continentes, pulverizando uma fusão de novas músicas e sons 'da antiga', além da execução na íntegra de "Wheels of Steel" (1980), álbum que colocou o Saxon na primeira divisão do metal nos primeiros dias de sua década mais fértil. A apresentação em Porto Alegre é a 30ª desse ano, numa agenda que se encerra em novembro. Até o final de 2025, o Saxon fará no mínimo mais 30 shows, o que posiciona a passagem pela capital gaúcha como o meio do caminho da atual turnê.

Nigel Glockler. Foto: Laura Aldana
O SHOW

Em primeiro lugar, parabéns à Opinião Produtora por novamente oportunizar ao público local a assistir aos ingleses ao vivo. Particularmente, se o Saxon virou uma banda de nicho, se não lota mais estádios (não estamos falando de festivais, onde o grupo tem cadeira cativa nos line-ups da Europa), o fato de se apresentar em lugares menores, de poder reunir mais de 1000 head bangers apaixonados numa casa de espetáculo com o peso do Opinião, felizardos de nós que aqui estamos.

Após a introdução com "PROFECY”, quando ouvimos em off a voz marcante do ator britânico Brian Blessed, o Vultan em "Flash Gord" (1980) e Boss Nass em "Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma" (1999), proferindo ditames de antigas profecias e da eterna disputa entre o bem e o mal, um a um, os membros do grupo se posicionam e são ovacionados nos segundos iniciais. O pontapé com a banda tête-à-tête se dá com “HELL, FIRE AND DAMNATION”, um balaço do álbum mais recente. O padrão dos shows atuais é alto, muitas bandas tombaram pelo caminho ou soam como arremedos de si próprias, mas o Saxon permanece em pé, sólido, ainda se conectando com o público no intercâmbio e paixão pelo emblema do metal. Prova disso é ver a alegria de Biff ao perceber que o refrão de "Hell, Fire and Damnation" já está na boca do povo. O ataque das guitarras de Scarratt e Tatler (um volume ensurdecedor), os lanceiros do time, abrem caminho para Biff brandir a espada saxônica. "POWER AND THE GLORY" impressiona, continua candente e ainda mais viva no palco. Já podemos sentir que Tatler está em casa no Saxon, como se tocasse no grupo desde sempre. Antes de "BACKS TO THE WALL", tema do álbum de abertura do primeiro LP do grupo, Biff brinca dizendo que muitos na plateia certamente não tinham nascido em 1979. E esse é um bom exemplo de como as velhas canções soam novas em folha, imantadas por uma energia incrível (tocada mais rápida) e com um arranjo que deixa a gravação original no chinelo. 

Brian Tatler. Foto: Laura Aldana

As novas músicas trazem uma mistura de metal clássico com uma atmosfera mais moderna, como na ótima “MADAME GUILLOTINE”. "HEAVY METAL THUNDER" não apenas tem epítome de hino, como de fato é, assim como é incrível ver a banda em ação com a pegada dos velhos tempos intacta. Sem respiro entre uma música e outra, o sempre empolgado Carter dispara o baixo pulsante de “DALLAS 1 PM”, relato da morte de John Kennedy, que inclui a transmissão de rádio no meio da música. Hit. Também na agenda gaúcha temos um dos clássicos absolutos, "STRONG ARM OF THE LAW", uma amostra de que o Saxon intercala temáticas, podendo falar de truculência policial (é uma das preferidas dos fãs), grudada em "1066", mais uma das boas canções da nova safra, um épico histriônico que trespassa a narrativa de uma batalha saxônica. "THE EAGLE HAS LANDED" é a música que fecha um dos melhores álbuns do Saxon (e essa primeira parte do show), "Power and the Glory" (1983), esteve ausente no setlist de 2019, traz ares reflexivos intercalando dedilhados e riffs poderosos. Tatler e Scarret novamente mostram sintonia, tanto na divisão dos solos quanto na dobra dos riffs, honrando a tradição guitarrística do grupo. Se você gosta de som de guitarra pesada, esse é o seu show!

Biff Byford. Foto: Laura Aldana
WHEELS OF STEEL, O ÁLBUM

Na pole position, entre os álbuns mais representativos do Saxon — aqui está forjado o seu DNA —, o LP lançado em 3 de abril de 1980 colocou o grupo na primeira divisão e na história do heavy metal. Enfurnados em um refúgio rural no País de Gales, uma série de canções foram escritas, duas delas definiram tudo a partir dali: "Wheels of Steel" e "747 (Strangers in the Night)". O disco pega as guitarras de Graham Oliver e Pete Gill (dupla de músicos da formação clássica) e as coloca na linha de frente. Quando ouvimos o álbum, percebemos que elas circulam pelo lado esquerdo e direito das caixas de som, muitas vezes dobradas, até mesmo centralizadas, potencializando a sensação cêntrica dessa escolha. No show  a sensação é semelhante. As músicas são rápidas e as canções trazem letras sobre dirigir em alta velocidade ou do tipo "não deixem que os desgraçados te derrubem". Com isso, "Wheels of Steel" não foi apenas a origem do sucesso do Saxon, aqui o mundo teve o sinal de alerta de que a Grã-Bretanha estava pronta para lançar um ataque sem precedentes, pois, como sabemos, o heavy metal se tornaria um dos gêneros dominantes daquela década.

Assim, a peça central do set da atual turnê traz a íntegra de "Wheel's of Steel", uma das marcas dessa nova gira.

Foto: Laura Aldana
WHEELS OF STEEL, AO VIVO NO OPINIÃO

Antes de tocar o álbum na ordem em que o conhecemos, Biff faz um longo discurso relembrando o público de como era o mundo em 1980: "sem celulares, CDs e streaming. Com LPs, fitas cassete e revistas de música", um discurso saudosista, mas também parece um relato de uma banda sobrevivente. "Não vivemos no passado. Trazemos, sim, o passado de volta quando tocamos ao vivo, mas não vivemos lá", disse Biff a Martin Popoff, um dos biógrafos do grupo. Essa sensação (sobre um passado pulsante) se impõe no público quando o som das motocicletas introduz “MOTORCYCLE MAN”, testemunho sobre o prazer de pilotar uma máquina potente. Para muitos, é o início de uma viagem pela estrada da memória, mas também é possível ver fãs mais jovens curtindo. Poucas bandas congregam essa grandeza, ter músicas em seu portfólio que conectam gerações. É o passado que está de volta. E o séquito do Saxon não se importa de continuar morando por lá. Biff simula estar segurando no guidão de uma moto e acelera a adrenalina do público.

Foto: Laura Aldana

As guitarras ensopadas de phazer em "STAND UP AND BE COUNTED", uma música que versa sobre a busca por um lugar no mundo, dá seguimento na escalada do álbum, na exata sequência do LP. "747 (STRANGERS IN THE NIGHT)" é um dos Montes Rushmore da discografia do grupo (minha preferida, pop e pesada). O tema se baseia num blecaute que aconteceu em Nova York, com pessoas presas no metrô e nos elevadores, quando até as luzes da pista do aeroporto J.F. Kennedy se apagaram. Ainda hoje reverbera a lenda de que nove meses após o apagão (ocorrido em 1965), houve um baby boom. Na letra, Biff até menciona um voo real — o 911, da Scandinavian Airlines — envolvido no apagão, que obteve êxito no seu pouso na Big Apple graças à lua cheia. História digna de um filme... e de uma boa música. Romantizada por Biff, trechos de tudo isso estão na letra, pegando o mote de estranhos se esbarrando à noite durante o blecaute histórico. Sempre gostei do início de '747', que começa pelo solo, uma sensação de que pegamos o bonde andando, com o riff das guitarras atingindo o ouvinte de surpresa. O volume do show e a intensidade do público chega a um dos seus ápices.

Foto: Laura Aldana

Bem, talvez ainda não. A faixa-título, “WHEELS OF STEEL”, crisol alquímico e síntese dos propósitos do Saxon, tem como desculpa temática falar sobre uma competição automobilística e, com isso, promove uma das catarses previsíveis de um show do grupo: o público se une a Biff em uníssono durante o refrão. É também o momento em que o vocalista pega seu celular e filma a plateia ondulando no embalo da cozinha de Nigel e Nibbs (veja AQUI). Virando o lado do LP, praticamente sem brechas entre uma e outra execução, "FREEWAY MAD", "SEE THE LIGHT SHINING" e “STREET FIGHTING MAN” soam como rescaldo após o tufão de um megahit, ponte eficiente e borda áspera que nos leva até "SUZIE HOLD ON", um riff de baixo que atropela tudo, mas que empresta ares de balada marmorizados na voz melodiosa de Biff. Carter toca seu baixo empoleirado no praticável da bateria (ele simplesmente não para um segundo). O tufão volta a ondular em "MACHINE GUN", empurradas pelo efeito do tremolo com a alavanca da guitarra de Scarrat que leva parte do público no Opinião a sacudir a cabeça até quase quebrar o pescoço (eu não tenho a mínima condição de fazer algo parecido). Os sons da explosão ao final da música passam o recado de que tudo pode ter acabado nessa noite... Mas, a audiência clama pela volta do grupo.

Foto: Laura Aldana

Em 2019, poucos meses após a sua primeira vinda ao RS, Biff passou por uma cirurgia de revascularização, o que causou preocupação nos fãs. Seis anos depois, em nenhum momento do show identifico evidências de fragilidade no velho general. O Biff bufão, com a barriga proeminente de um sábio ancião, que joga água no público e ainda agita a massa como poucos (e canta muito, não esqueçam disso!), mostra porque é uma lenda viva. A energia física e a potência de sua voz impressionam. E, após a jogada ensaiada dos apelos do público para que o Saxon retorne ao palco (e a audiência realmente fez barulho), o grupo monta sua despedida com uma quadra de ases — primeiro, a mais pedida da noite, “CRUSADER”; o hino dos hinos; “DENIM & LEATHER” foi cantada em uníssono com o baterista Nigel Glockler arrepiando; “AND THE BANDS PLAYED ON”, outro alvoroço, é uma música símbolo de identificação das letras que falam do homem comum e faz um retrato da simbiose com o público nos shows, e “PRINCESS OF THE NIGHT”, fecha o serviço nessa sarrafada de clássicos do songbook metal. Parecia que o show estava recomeçando, vide a integração entre a banda e seus fãs e, com ambos pulsando em alta rotação, mas assim se despediu do Brasil a Hell, Fire & Steel Tour. De Porto Alegre o Saxon segue para Buenos Aires (8), Montevideo (9) e Santiago (11).

O Saxon é uma banda que se recusa à acomodação, embora obviamente — como dezenas de outros confrades — ainda dependa dos clássicos para manter os fãs envolvidos. Contudo, passados quase cinquenta anos, ela se reaviva, ano após ano, e o show que acabo de assistir é a prova de que, do ponto de vista de uma apresentação, o grupo inglês consegue entregar material novo em nível similar, além de reverenciar um passado glorioso.

Cobertura: Grings Tours | Quando o Som Bate no Peito. Review: Márcio Grings. Fotos: Laura Aldana. Agradecimento: Paulo Finatto (Opinião Produtora), credenciamento, suporte e assessoria.

Foto: Laura Aldana
Foto: Laura Aldana


quinta-feira, 14 de março de 2019

SAXON - PORTO ALEGRE, 13 DE MARÇO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Quem gosta de rock e viveu no Planeta Terra no finalzinho dos anos 1970, primeira metade dos anos 1980, certamente sabe a chapoletada que todos nós levamos com o New Wave of British Heavy Metal. Tempos em que bandas como Iron Maiden, Def Leppard, Saxon, entre outras, venderam milhões de álbuns, além de reconfigurarem a cena musical naquele período. Surgida entre o vácuo do movimento punk, na esteira da decadência dos grupos setentistas, o NWOBHM não apenas revigorou o gênero, houve principalmente uma clara evolução do metal como estilo, empréstimos de novas plasticidades, além de uma necessária renovação no cenário musical. Dentro desse contexto, com shows lotados, assédio dos fãs e da imprensa, o Saxon foi um dos pivôs do sucesso forjado pelo gênero naquele período. 

Foto: Pablito Diego
Em cinco anos, cinco LPs foram registrados pelos ingleses, sendo que quatro deles viraram clássicos do rock mundial. Depois de uma estreia equivocada com um álbum homônimo, principalmente por uma produção desalinhada - "Wheels of Steel" (1980), "Strong Arm of the Law" (1980), "Denim and Leather" (1981), "Power & the Glory" (1983) e "Crusader" (1984), tornaram-se peças indispensáveis em qualquer boa coleção de rock pesado. Milhões de cópias foram vendidas e de lambuja o grupo colocou nas prateleiras um álbum 'live' que quase furou de tanto girar nos toca-discos da molecada. Conheço cada virada de sulco de "The Eagle Has Landed" (1982), primeiro LP ao vivo lançado pela banda. As canções foram gravadas um anos antes de seu lançamento, no lendário Hammersmith Odeon (atual Hammersmith Apollo), em Londres, e encapsulam o Saxon num dos melhores momentos de seus anos iniciais. Trata-se de um disco fundamental para emaranhar-se no espírito musical daquela faixa de tempo. Tão importante, que essa mesma performance ainda baliza parte do que veremos na noite desta quarta-feira (13) em Porto Alegre. 

Foto: Pablito Diego
Em sua sétima passagem pelo Brasil (as anteriores foram em 1997, 1998, 2002, 2011, 2013 e 2018), essa é a primeira vez do grupo no RS. No ano em que o quinteto relembra os 40 anos de seu primeiro álbum, nada melhor do que retornar ao espectro daquele período mágico para celebrar o suprassumo do repertório dos ingleses. Não podemos dizer que o banda inglesa permaneceu fora do caminho do sucesso nas décadas seguintes, mesmo que saibamos que o Saxon desceu a lomba na direção contrário do Iron Maiden, já que com "Powerslave" Steve Harris e seus comandados chegaram ao topo mundial do heavy metal mundial. Quase na mesma época, o Saxon declinou. Mesmo assim, eles sobreviveram!

Foto: Pablito Diego
Balançando com eventuais trocas de personagens e algumas bolas fora, dá pra afirmarmos que no decorrer dessa trajetória houveram muitos acertos e consecutivas reinvenções no corpo sonoro dos álbuns. Entre os destaques pós anos 1980, nos anos 1990 o Saxon crava trincheiras importantes com "Solid Ball of Rock", ganha novos fãs com o excepcional "Dogs of War" (1995), e no final daquela década, "Metalhead" (1999) revela um grupo que teima em continuar conectado ao melhor do rock pesado. Mais recentemente, "Lionheart" (2007), considerado por muitos uma obra digna de figurar ao lado de qualquer disco clássico da banda, é uma sequência evolutiva de "Crusader", #onehitalbum que parcialmente o inspirou.         

Foto: Pablito Diego
Retornando aos dias atuais, "Thunderbolt" (2018) é o trabalho que mantém o Saxon como ponta de lança da velha guarda remanescente no heavy metal atual. E o mais importante: eles estão comendo a bola na estrada - em 2018, foram 83 apresentações. O show no Opinião já é o 16º do ano sob o comando de Biff Byfford (vocal), 68 anos, e Paul Quinn (guitarra), 67 anos, os únicos remanescentes da formação original. Também no time, o baterista Nigel Glockler, nas fileiras da banda desde 1982. Entre idas e vindas, desde 2005 Glockler, 66 anos, fixou território como comandante das baquetas. Já Nibs Carter (baixo), 52 anos, completa exatas duas décadas de atuação no grupo. E por último, Doug Scarratt (guitarra), 59 anos, é membro da banda desde 1995. Em suma, essa é uma das formações mais estáveis do  Saxon.

Foto: Pablito Diego
A APRESENTAÇÃO - 21h em ponto, o show começa com "Thunderbolt", faixa que dá nome ao tour e também demarca o retorno do Saxon ao melhor status da banda - riffs de guitarras, a poderosa voz de Biff proferindo com propriedade o velho heavy metal encardido que os fãs nunca se cansam de ouvir. "Cerberus no submundo / Guarda os portões do inferno", o Saxon retorna a utilizar a consagrada cartilha ao qual o som pesado se debruçou nos seus tempos gloriosos. E dá pra perceber que o tema já está na boca do povo. "Sacrifice" segue na mesma via da clássica abordagem saxônica, com destaque para o agudo final de Biff, uma demonstração de que o frontliner continua afiadíssimo como ícone da resistência no gênero - um velho general que ainda sabe comandar o seu exército.

Foto: Pablito Diego
Talvez alguns não saibam, mas as próximas três músicas que iremos ouvir praticamente definiram o New Wave of British Heavy metal. De todo modo, Biff avisa que lá vem chumbo grosso pela frente. Dough Scarret abre um sorriso, coloca o pé no PA e dispara o riff destruidor de "Wheels of steel", simplesmente um dos maiores hinos do culto a estrada e a velocidade: "Quando coloco meu pé no acelerador / Não há como olhar para trás". O tema sempre foi um dos instantâneos catárticos das apresentações do Saxon, um exemplo de como o som da banda flerta diretamente com o classic rock. Em 2019 'Wheels' ressoa ainda mais pesada (Talking 'bout my wheels of steeeeel!!!). A truculência policial é o tema de "Strong arm of the law", com a camada de guitarras provocando um trovoar impressionante pela parede de amplificadores Marshall que compõem o backline da banda. Craque na arte de arquitetar hinos de louvor ao heavy metal, "Denin & Leather" novamente ganha o coro de cerca de 1.000 espectadores. A levada de bateria de Nigel Glockler é acompanhada por palmas, com o saltitante Nibbs Carter, no baixo, escalando os monitores e incendiando a massa, mas sempre retornando a tempo frente ao microfone, bem no exato instante a colocar seus vocais de apoio nos refrões.

Foto: Pablito Diego
Cultuadores da temática anglo-saxã ligada a idade-média, "Battering ram", faixa do álbum homônimo lançado em 2015 é uma porrada sonora que mostra a força de algumas canções mais recentes do grupo. Um momento esperado (pelo menos para esse fã aqui) é "Rainbow Theme/Frozen Rainbow" e "Backs to the Wall", ases do álbum de estreia da banda lançado a exatos 40 anos. Tudo soa ainda melhor ao vivo, revigoradas por um arranjo que sopra novo viço aos temas. Impressionante assistir o veterano Glocker demolindo as peles e articulando viradas espetaculares com rara habilidade para um músico sexagenário na posição de baterista.

"They played rock and roll", uma homenagem de Biff ao amigo Lemmy do Motorhead, dropes do trabalho mais recente, poderia ser um instante de baixa da noite, no entanto, sua execução cresce horrores ao vivo. "Power and the Glory" recoloca toda a massa pra sacudir o esqueleto. Trata-se de uma valorosa peça no tabuleiro da banda. Novo show particular de Glockler.

Foto: Pablito Diego
Chega o momento da turnê em que Biff conversa com o público e deixa que a audiência defina a próxima canção a ser executada. A escolhida é "Ride Like the Wind", música que dá nome ao álbum de 1988, uma releitura de Cristopher Cross que se na época soou como bola fora, mas hoje reluz melhor do que nunca. É o próprio público que nos dá essa resposta, cantando o refrão em uníssono. "Broken Heroes" está alinhada nessa mesma via, perfilada no pior dos álbuns do Saxon, "Innocence Is No Excuse" (1986), LP que marca o absurdo declínio da banda após seus anos de glória. É engraçado como o tempo pode jogar a favor de certas canções. Biff canta macio, a banda baixa a crista e a dinâmica de uma semi rock ballad de peso se impõe no palco do Opinião.   

Foto: Pablito Diego
E aí vem "Motorcycle Man", uma das músicas em que a marca registrada dos guitarristas do Saxon é carimbada. Vêm a tona a parceria forte entre Paul Quinn e Doug Scarratt, invariavelmente dividindo base e solos, sempre precisos nas suas construções rítmicas. Um dos maiores hits do Saxon, "747 Strangers in the Night" foi também uma das primeiras músicas a colocar a NWOBHM nas rádios inglesas, o que obviamente sedimentou a afirmação do movimento. Mais pesada e mais rápida, no entanto ainda fiel a original gravada em 1981, dá pra perceber a comoção tomando conta do bar. No intervalo entre uma canção e outra, Biff autografa alguns LPs e novamente estreita o contato com os fãs. Ele é o cara e a cara da banda.

Foto: Pablito Diego
Falando em emoção, quando "The Band Played On" é reconhecida pelo amigo Alfredo Giardin, fã do Saxon há mais de 30 anos, ele não segura a emoção e as lágrimas desabam de seus olhos. A música, com letra escrita por Biff, retrata a comoção do Saxon ao se apresentar pela primeira vez no Festival Monsters of Rock, em Donington Park, Leicestershire, Inglaterra (1980). É também o maior hit da banda em todos os tempos (chegou a 12ª posição nas paradas britânicas) e emana o espírito de irmandade que muitas vezes se forja nos festivais e eventos de rock. Essa mesma vibe foi um sentimento permanente no Opinião, aquele sopro de ar puro de que todos estão torcendo para o mesmo 'time', um tipo de reunião em que a irmandade impera. Poucos eventos conseguem polinizar essa impressão. Bem, nos shows de metal frequentemente tenho essa sensação. Pode chorar Alfredo...

Foto: Pablito Diego
"Lion heart", homenageia Ricardo Coração de Leão,  Rei da Inglaterra conhecido por sua grande reputação como guerreiro e líder militar. Uma canção épica com a autêntico digital saxônica, e que ao vivo, cresce absurdamente. Um fã bem em frente ao palco grita: "Dallas!", em referência a "Dallas 1PM", Biff responde amassando e comendo o setlist. O senso de humor do cantor inglês é um dos pontos altos da noite. Biff está a fim de jogo. Contrariando o pedido, "To Hell and Back Again" é outro dos temas em que a parede de guitarras nos atropela. Biff pisca o olho de pirraça e dá ok para "Dallas 1PM", eterna reflexão sobre a morte de John Kennedy, com destaque para toda a climática inicial da cozinha baixo/batera, além do dramático emaranhado de riffs dos guitarristas.

Foto: Pablito Diego
"Crusader" é Saxon em sua essência mais genuína. "Estamos marchando, para uma terra distante / Ninguém pode garantir se um dia voltaremos para casa / Em nome do Reino Cristão, é hora de nossa vingança contra os pagãos do leste". Assim os anglo-saxões ajudaram a perpetuar o velho tema de saquear e matar em nome de Deus, simbolizado na figura do resignado soldado que está pronto para encarar a morte. Estamos também no momento mais emotivos da apresentação, átimo em que vários fãs teimam em esconder as lágrimas dos olhos. Breve intervalo para receber uma nova ovação do público, o quinteto retorna e rapidamente "Heavy Metal Thunder" explode pelo Opinião. Talvez muitos não saibam, mas o termo heavy metal advém da cultura motociclista norte-americana, terminologia que influenciou o escritor William Burroughs a documentar a expressão em "Naked Lunch", um de seus mais famosos livros. Temos um dos instantâneos mais impressionantes da noite. Se o penteado foi pro saco e o cabelo está encharcado de suor, pelo menos a voz de Biff nunca oscila, sempre no talo, da mesma forma que ouvimos nos discos.

Foto: Pablito Diego
"Never Surrender" é um riff esmagador que simplesmente define o som da banda, a "Não Podemo Se Entregá Pros Home" do metal, um rolo compressor sonoro que nos leva ao melhor do som pesado inglês. Quer um epílogo perfeito? Então libera a autoestrada para "Princess of the Night", ode a vida sobre duas rodas e emblema de uma das maiores paixões do grupo: o culto ao motociclismo. Um show para ficar na história de nossas vidas. Nada pode ser mais rejuvenescedor do que um dia de férias no universo do rock. Que os saxônicos permaneçam por aí, por muito mais tempo. Precisamos de mais doses desse elixir da juventude. Só o heavy metal salva...

Nossos agradecimentos a Abstratti Produtora pelo suporte e credenciamento. Agradecimento especial Homero Pivotto Jr (Abstratti).

Veja a performance de "Princess of the Night". Captação Pablito Diego (Há Cena).     




Setlist Saxon - Porto Alegre

Thunderbolt
Sacrifice
Wheels of Steel
Denin and Leather
Strong Arm of The Law
Battering Ram
Rainbow Theme/Frozen Rainbow
Backs to the Wall
They Played Rock and Roll
Power and The Glory
Ride Like the Wind
Broken Heroes
Motorcycle Man
747 (Strangers in the Night)
And the Band Played On
Lionheart
To Hell and Back Again
Dallas 1PM
Crusader

Bis

Heavy Metal Thunder
Never Surrender
Princess of the Night     


Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

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