domingo, 2 de dezembro de 2018

BILL HOWL-N-MADD PERRY - SANTA MARIA, 1 DE DEZEMBRO DE 2018

Foto: Camila Gonçalves
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Por Márcio Grings Fotos Camila Gonçalves

Depois de assistir dois shows de Bill Hown-N-Mad Perry no Mississippi Delta Blues Festival, nos últimos dias 22 e 24 de Novembro, exatamente uma semana após o término do tradicional festival na Serra gaúcha, novamente cá estamos, bem em frente ao guitarrista do Norte do Mississippi. "Eu não sou seu típico bluesman", disse Perry a um entrevistador. "Sou casado há muitos anos, então eu não canto sobre amores perdidos e coisas do gênero. Todos aqueles sons que Muddy Waters e Charlie Patton tiravam de seus instrumentos, busco um pouco dessa influência e adiciono a marca da minha experiência como guitarrista". Ele colaborou com diversos artistas do gênero, e tardiamente acabou ganhando reconhecimento, igual a dezenas de seus conterrâneos e compatriotas. Nascido em Lafayette County, condado do Norte do Mississippi, o veterano atualmente vive em Abbeville, uma cidade com cerca de 400 habitantes. Hownl-N-Madd cresceu em uma família que já era e ainda é muito musical - a esposa, Pauline, e seus dois filhos, Bill Perry Jr e Shy perry, também são músicos. 

Foto: Camila Gonçalves
Bill Howl-N-Madd Perry não tem relação direta com o som acústico do Delta ou com a tradicional escola elétrica de Chicago, por mais que eventualmente os revisite em seus shows. Sua música subiu do Delta para as Colinas do Mississippi, revelando ao mundo nomes como R.L. Burnside, T-Model Ford e Junior Kimbrough, com quem diviu o palco há quase trinta anos. Buddy Guy, a maior lenda viva do gênero, compôs um álbum em homenagem a esse legado, o excepcional "Sweet Tea" (2001).

O North Mississippi Sound migrou para o rock e nos deu bandas como Black Keys e White Stripes, filhotinhos diretos dessa estirpe musical. Assim, ao vivo, o som de Perry é mais sujo, aparentemente mais tosco, não menos interessante que a linhagem mais popular do blues. A marca principal de sua guitarra não está nos solos ou em virtuoses, pois o músico aposta principalmente na potência dos riffs e no hipnotismo de seus grooves. E na sua garganta, é claro! Além de fazer shows solo, com banda ou mesmo com a família, "Howl N' Madd" também é professor de guitarra para crianças no Museu do Blues em Clarksdale, Mississippi. Há exatos 10 anos foi incluído no Blues Hall of Fame.

A banda que o amparou em seus shows no Brasil (Caxias do Sul, Porto Alegre e Lajeado) conta com os argentinos Nico Fami (guitarra) e Adrian Flores (bateria), além de sua filha, Shy Perry (teclado, na função do baixo), mesmo trio que vem ao Centro do RS. O show em Santa Maria é no Moto Garage, um dos bares da cidade que apostam na dobradinha rock/blues.

Confira review do show de Bill Howl-N-Madd Perry na primeira noite de MDBF
Confira review do show de Bill Howl-N-Madd Perry na terceira noite de MDBF
Confira review do show de Shye Perry na segunda noite de MDBF

   
Foto: Camila Gonçaves
Na verdade a apresentação entrega dois shows num único pacote. Além de ouvirmos músicas dos três álbuns gravados por Bill Perry, "The Way Of Blues" (2009), "Blues is Not Exclusive" (2011) e "The Clarksdale Sessions" (2012), Shy Perry, acaba de lançar "Brand New Day", e o temas de seu álbum solo de estreia consequentemente também estão no repertório da noite. No setlist de Papai Perry, números que definem seu som - "The way of blues", "Back to the crossroad", "Jack, Johnny or Jim", "I got the blues", "Five dollar and a dime", "Delta women", entre outros.

E quando o guitarrista se aventura pelas releituras de seus coirmãos, a versão de "Oh pretty woman" (Albert King) está entre os melhores momentos da noite, assim como "Love in vain" (Robert Johnson), uma das canções símbolos dos anos iniciais do blues e presença frequente no revival do gênero nos anos 1960. As vozes de pai e filha emprestam um charme especial ao refrão. As revisitações de "The sky is crying" (Elmore James) e "Catfish blues" (Robert Petway) se encaixam perfeitamente na voz catarrenta de Perry, com destaque para as ótimas intervenções de Nico Fami, sempre preciso nos solos.

Além de Adrian Flores claramente se divertir na sua função de palco, há um permanente sorriso no rosto do argentino e uma constante troca de olhares com Fami. Esse foi o terceiro show que assisti da formação, e fica óbvio que o entrosamento do quarteto evoluiu ao longo desse minitour pelo RS. Já Shy Perry coloca a casa abaixo com "Wang dang doodle" (Willie Dixon), emulando a potência vocal de uma de suas inspirações, Koko Taylor. Ela também relembra "You got me running" (Jimmy Reed) e "Rock me baby", quando divide os vocais com o pai no clássico de BB King. Em quase duas horas de espetáculo, o público santa-mariense (que prestigiou num bom número de pagantes), presenciou um autêntica noite de blues com os Perry.

Foto: Camila Gonçalves
Que venham mais shows, Santa Maria é uma cidade que gosta de blues. No final dos anos 1990, início dos anos 2000, vivemos um autêntico boom dessa influência, época em que bandas/artistas formados aqui como Celso Streit, Alex Lappan, Daniel Rosa, Paulo Noronha, Hightime, Red House, Artur Aguiar, Lenha Seca, entre outros, frequentemente podiam ser vistos em bares e casas de espetáculo da Região Central. O ápice dessa efervescência musical aconteceu em shows no Theatro Treze de Maio, no projeto Terça Blues (Coyote Bar) e principalmente no Cesma in Blues, festival que por nove edições disseminou o gênero para além das fronteiras santa-marienses. Outra lembrança passa pelo projeto 'Na Rota do Blues', realizado no extinto Rota 1, eventos que trouxeram a Santa Maria os bluesmen norte-americanos Eddie C. Campbell, Phill Guy e Willie 'Big Eyes' Smith, shows que deixaram uma marca de sucesso na noite local. Que venham mais apresentações como essa de Bill Howl-N-Madd Perry. Quem viver verá.
 
Shy Perry. Foto: Camila Gonçalves
               
Nico Fami, Bill Howl-N-Mad-Perry, Adrian Flores e Shy Perry. Foto: Camila Gonçalves 
Foto: Camila Gonçalves

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