quinta-feira, 14 de março de 2019

SAXON - PORTO ALEGRE, 13 DE MARÇO DE 2019

Foto: Pablito Diego
Review Márcio Grings Fotos Pablito Diego (Há Cena)

Quem gosta de rock e viveu no Planeta Terra no finalzinho dos anos 1970, primeira metade dos anos 1980, certamente sabe a chapoletada que todos nós levamos com o New Wave of British Heavy Metal. Tempos em que bandas como Iron Maiden, Def Leppard, Saxon, entre outras, venderam milhões de álbuns, além de reconfigurarem a cena musical naquele período. Surgida entre o vácuo do movimento punk, na esteira da decadência dos grupos setentistas, o NWOBHM não apenas revigorou o gênero, houve principalmente uma clara evolução do metal como estilo, empréstimos de novas plasticidades, além de uma necessária renovação no cenário musical. Dentro desse contexto, com shows lotados, assédio dos fãs e da imprensa, o Saxon foi um dos pivôs do sucesso forjado pelo gênero naquele período. 

Foto: Pablito Diego
Em cinco anos, cinco álbum foram registrados pelos ingleses, sendo que quatro deles viraram clássicos do rock mundial. Depois de uma estreia equivocada com um álbum homônimo, principalmente por uma produção desalinhada - "Wheels of Steel" (1980), "Strong Arm of the Law" (1980), "Denim and Leather" (1981), "Power & the Glory" (1983) e "Crusader" (1984), tornaram-se LPs indispensáveis em qualquer boa coleção de rock pesado. Milhões de cópias foram vendidas e de lambuja o grupo colocou nas prateleiras um álbum 'live' que quase furou de tanto girar nos toca-discos da molecada. Conheço cada virada de sulco de "The Eagle Has Landed" (1982), primeiro LP ao vivo lançado pela banda. As canções foram gravadas um anos antes de seu lançamento, no lendário Hammersmith Odeon (atual Hammersmith Apollo), em Londres, e encapsulam o Saxon num dos melhores momentos de seus anos iniciais. Trata-se de um disco fundamental para emaranhar-se no espírito musical daquela faixa de tempo. Tão importante, que essa mesma performance ainda baliza parte do que veremos na noite desta quarta-feira (13) em Porto Alegre. 

Foto: Pablito Diego
Em sua sétima passagem pelo Brasil (as anteriores foram em 1997, 1998, 2002, 2011, 2013 e 2018), essa é a primeira vez do grupo no RS. No ano em que o quinteto relembra os 40 anos de seu primeiro álbum, nada melhor do que retornar ao espectro daquele período mágico para celebrar o suprassumo do repertório dos ingleses. Não podemos dizer que o banda inglesa permaneceu fora do caminho do sucesso nas décadas seguintes, mesmo que saibamos que o Saxon desceu a lomba na direção contrário do Iron Maiden, já que com "Powerslave" Steve Harris e seus comandados chegaram ao topo mundial do heavy metal mundial. Quase na mesma época, o Saxon declinou. Mesmo assim, eles sobreviveram!

Foto: Pablito Diego
Balançando com eventuais trocas de personagens e algumas bolas fora, dá pra afirmarmos que no decorrer dessa trajetória houveram muitos acertos e consecutivas reinvenções no corpo sonoro dos álbuns. Entre os destaques pós anos 1980, nos anos 1990 o Saxon crava trincheiras importantes com "Solid Ball of Rock", ganha novos fãs com o excepcional "Dogs of War" (1995), e no final daquela década, "Metalhead" (1999) revela um grupo que teima em continuar conectado ao melhor do rock pesado. Mais recentemente, "Lionheart" (2007), considerado por muitos uma obra digna de figurar ao lado de qualquer disco clássico da banda, é uma sequência evolutiva de "Crusader", #onehitalbum que parcialmente o inspirou.         

Foto: Pablito Diego
Retornando aos dias atuais, "Thunderbolt" (2018) é o trabalho que mantém o Saxon como ponta de lança da velha guarda remanescente no heavy metal atual. E o mais importante: eles estão comendo a bola na estrada - em 2018, foram 83 apresentações. O show no Opinião já é o 16º do ano sob o comando de Biff Byfford (vocal), 68 anos, e Paul Quinn (guitarra), 67 anos, os únicos remanescentes da formação original. Também no time, o baterista Nigel Glockler, nas fileiras da banda desde 1982. Entre idas e vindas, desde 2005 Glockler, 66 anos, fixou território como comandante das baquetas. Já Nibs Carter (baixo), 52 anos, completa exatas duas décadas de atuação no grupo. E por último, Doug Scarratt (guitarra), 59 anos, é membro da banda desde 1995. Em suma, essa é uma das formações mais estáveis do  Saxon.

Foto: Pablito Diego
A APRESENTAÇÃO - 21h em ponto, o show começa com "Thunderbolt", faixa que dá nome ao tour e também demarca o retorno do Saxon ao melhor status da banda - riffs de guitarras, a poderosa voz de Biff proferindo com propriedade o velho heavy metal encardido que os fãs nunca se cansam de ouvir. "Cerberus no submundo / Guarda os portões do inferno", o Saxon retorna a utilizar a consagrada cartilha ao qual o som pesado se debruçou nos seus tempos gloriosos. E dá pra perceber que o tema já está na boca do povo. "Sacrifice" segue na mesma via da clássica abordagem saxônica, com destaque para o agudo final de Biff, uma demonstração de que o frontliner continua afiadíssimo como ícone da resistência no gênero - um velho general que ainda sabe comandar o seu exército.

Foto: Pablito Diego
Talvez alguns não saibam, mas as próximas três músicas que iremos ouvir praticamente definiram o New Wave of British Heavy metal. De todo modo, Biff avisa que lá vem chumbo grosso pela frente. Dough Scarret abre um sorriso, coloca o pé no PA e dispara o riff destruidor de "Wheels of steel", simplesmente um dos maiores hinos do culto a estrada e a velocidade: "Quando coloco meu pé no acelerador / Não há como olhar para trás". O tema sempre foi um dos instantâneos catárticos das apresentações do Saxon, um exemplo de como o som da banda flerta diretamente com o classic rock. Em 2019 'Wheels' ressoa ainda mais pesada (Talking 'bout my wheels of steeeeel!!!). A truculência policial é o tema de "Strong arm of the law", com a camada de guitarras provocando um trovoar impressionante pela parede de amplificadores Marshall que compõem o backline da banda. Craque na arte de arquitetar hinos de louvor ao heavy metal, "Denin & Leather" novamente ganha o coro de cerca de 1.000 espectadores. A levada de bateria de Nigel Glockler é acompanhada por palmas, com o saltitante Nibbs Carter, no baixo, escalando os monitores e incendiando a massa, mas sempre retornando a tempo frente ao microfone, bem no exato instante a colocar seus vocais de apoio nos refrões.

Foto: Pablito Diego
Cultuadores da temática anglo-saxã ligada a idade-média, "Battering ram", faixa do álbum homônimo lançado em 2015 é uma porrada sonora que mostra a força de algumas canções mais recentes do grupo. Um momento esperado (pelo menos para esse fã aqui) é "Rainbow Theme/Frozen Rainbow" e "Backs to the Wall", ases do álbum de estreia da banda lançado a exatos 40 anos. Tudo soa ainda melhor ao vivo, revigoradas por um arranjo que sopra novo viço aos temas. Impressionante assistir o veterano Glocker demolindo as peles e articulando viradas espetaculares com rara habilidade para um músico sexagenário na posição de baterista. 

"They played rock and roll", uma homenagem de Biff ao amigo Lemmy do Motorhead, dropes do trabalho mais recente, poderia ser um instante de baixa da noite, no entanto, sua execução cresce horrores ao vivo. "Power and the Glory" recoloca toda a massa pra sacudir o esqueleto. Trata-se de uma valorosa peça no tabuleiro da banda. Novo show particular de Glockler.

Foto: Pablito Diego
Chega o momento da turnê em que Biff conversa com o público e deixa que a audiência defina a próxima canção a ser executada. A escolhida é "Ride Like the Wind", música que dá nome ao álbum de 1988, uma releitura de Cristopher Cross que se na época soou como bola fora, mas hoje reluz melhor do que nunca. É o próprio público que nos dá essa resposta, cantando o refrão em uníssono. "Broken Heroes" está alinhada nessa mesma via, perfilada no pior dos álbuns do Saxon, "Innocence Is No Excuse" (1986), LP que marca o absurdo declínio da banda após seus anos de glória. É engraçado como o tempo pode jogar a favor de certas canções. Biff canta macio, a banda baixa a crista e a dinâmica de uma semi rock ballad de peso se impõe no palco do Opinião.   

Foto: Pablito Diego
E aí vem "Motorcycle Man", uma das músicas em que a marca registrada dos guitarristas do Saxon é carimbada. Vêm a tona a parceria forte entre Paul Quinn e Doug Scarratt, invariavelmente dividindo base e solos, sempre precisos nas suas construções rítmicas. Um dos maiores hits do Saxon, "747 Strangers in the Night" foi também uma das primeiras músicas a colocar a NWOBHM nas rádios inglesas, o que obviamente sedimentou a afirmação do movimento. Mais pesada e mais rápida, no entanto ainda fiel a original gravada em 1981, dá pra perceber a comoção tomando conta do bar. No intervalo entre uma canção e outra, Biff autografa alguns LPs e novamente estreita o contato com os fãs. Ele é o cara e a cara da banda.

Foto: Pablito Diego
Falando em emoção, quando "The Band Played On" é reconhecida pelo amigo Alfredo Giardin, fã do Saxon há mais de 30 anos, ele não segura a emoção e as lágrimas desabam de seus olhos. A música, com letra escrita por Biff, retrata a comoção do Saxon ao se apresentar pela primeira vez no Festival Monsters of Rock, em Donington Park, Leicestershire, Inglaterra (1980). É também o maior hit da banda em todos os tempos (chegou a 12ª posição nas paradas britânicas) e emana o espírito de irmandade que muitas vezes se forja nos festivais e eventos de rock. Essa mesma vibe foi um sentimento permanente no Opinião, aquele sopro de ar puro de que todos estão torcendo para o mesmo 'time', um tipo de reunião em que a irmandade impera. Poucos eventos conseguem polinizar essa impressão. Bem, nos shows de metal frequentemente tenho essa sensação. Pode chorar Alfredo...

Foto: Pablito Diego
"Lion heart", homenageia Ricardo Coração de Leão,  Rei da Inglaterra conhecido por sua grande reputação como guerreiro e líder militar. Uma canção épica com a autêntico digital saxônica, e que ao vivo, cresce absurdamente. Um fã bem em frente ao palco grita: "Dallas!", em referência a "Dallas 1PM", Biff responde amassando e comendo o setlist. O senso de humor do cantor inglês é um dos pontos altos da noite. Biff está a fim de jogo. Contrariando o pedido, "To Hell and Back Again" é outro dos temas em que a parede de guitarras nos atropela. Biff pisca o olho de pirraça e dá ok para "Dallas 1PM", eterna reflexão sobre a morte de John Kennedy, com destaque para toda a climática inicial da cozinha baixo/batera, além do dramático emaranhado de riffs dos guitarristas.


Foto: Pablito Diego
"Crusader" é Saxon em sua essência mais genuína. "Estamos marchando, para uma terra distante / Ninguém pode garantir se um dia voltaremos para casa / Em nome do Reino Cristão, é hora de nossa vingança contra os pagãos do leste". Assim os anglo-saxões ajudaram a perpetuar o velho tema de saquear e matar em nome de Deus, simbolizado na figura do resignado soldado que está pronto para encarar a morte. Estamos também no momento mais emotivos da apresentação, átimo em que vários fãs teimam em esconder as lágrimas dos olhos. Breve intervalo para receber uma nova ovação do público, o quinteto retorna e rapidamente "Heavy Metal Thunder" explode pelo Opinião. Talvez muitos não saibam, mas o termo heavy metal advém da cultura motociclista norte-americana, terminologia que influenciou o escritor William Burroughs a documentar a expressão em "Naked Lunch", um de seus mais famosos livros. Temos um dos instantâneos mais impressionantes da noite. Se o penteado foi pro saco e o cabelo está encharcado de suor, pelo menos a voz de Biff nunca oscila, sempre no talo, da mesma forma que ouvimos nos discos.

Foto: Pablito Diego
"Never Surrender" é um riff esmagador que simplesmente define o som da banda, a "Não Podemo Se Entregá Pros Home" do metal, um rolo compressor sonoro que nos leva ao melhor do som pesado inglês. Quer um epílogo perfeito? Então libera a autoestrada para "Princess of the Night", ode a vida sobre duas rodas e emblema de uma das maiores paixões do grupo: o culto ao motociclismo. Um show para ficar na história de nossas vidas. Nada pode ser mais rejuvenescedor do que um dia de férias no universo do rock. Que os saxônicos permaneçam por aí, por muito mais tempo. Precisamos de mais doses desse elixir da juventude. Só o heavy metal salva...

Nossos agradecimentos a Abstratti Produtora pelo suporte e credenciamento. Agradecimento especial Homero Pivotto Jr (Abstratti).

Veja a performance de "Princess of the Night". Captação Pablito Diego (Há Cena).     




Setlist Saxon - Porto Alegre

Thunderbolt
Sacrifice
Wheels of Steel
Denin and Leather
Strong Arm of The Law
Battering Ram
Rainbow Theme/Frozen Rainbow
Backs to the Wall
They Played Rock and Roll
Power and The Glory
Ride Like the Wind
Broken Heroes
Motorcycle Man
747 (Strangers in the Night)
And the Band Played On
Lionheart
To Hell and Back Again
Dallas 1PM
Crusader

Bis

Heavy Metal Thunder
Never Surrender
Princess of the Night     


Foto: Pablito Diego

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