domingo, 16 de novembro de 2014

DEEP PURPLE - PORTO ALEGRE, 15 DE NOVEMBRO DE 2014

Fotos: Fabiano Dallmeyer
Em 1984, o Deep Purple voltava à ativa depois de uma parada de oito anos. O disco que marcou esse retorno foi “Perfect Strangers”, e eu, enquanto moleque de 14 anos, pude acompanhar esse lançamento em Santa Maria, cidade onde cresci. Só que nos anos 80, o terreno era bem mais inóspito. Naquele tempo, já possuía na minha prateleira dois LPs do Purple: “Fireball” e “Machine Head”, e aquela espera por um material novo me consumia. E o pior: não encontrava o disco à venda. Até que depois de girar em todos os lugares possíveis, finalmente achei uma fita cassete do álbum na extinta Loja Incosul da Rua do Acampamento, bem no centro da cidade.

Fotos: Fabiano Dallmeyer
Se naqueles dias alguém me dissesse que eu os veria frente a frente tocando uma música como “Perfect Strangers”, eu juro que não acreditaria. Por isso, assistir uma banda como o Purple ao vivo, bem de perto como aconteceu nesse último sábado (15), num local fenomenal como o Auditório Araújo Vianna, é como se eu pudesse resgatar do meu próprio passado aquele garoto entusiasmado e inocente que um dia eu fui.



O SHOW - 20h e 57 minutos, ao som de “Mars, the Bringer of War”, tema do compositor inglês Gustav Holst, somos avisados que a quinta passagem do grupo na capital gaúcha, está prestes a começar. Pra começo de conversa, temos três integrantes da formação clássica da banda no palco. Se Ian Gillan não tem mais a potência vocal dos velhos tempos, o vocalista usa muito bem os atalhos para cantar temas como “Highway Star”, chave que promove o tilintar da ficha caindo: “sim, você está num show do Deep Purple!”. E as saídas estratégicas do palco ou o posicionamento no lado de trás dos holofotes não passa de uma de suas habituais características de atuação ao longo da trajetória do grupo. Ele entra e sai de cena a medida que o instrumental o avisa que o pandeiro e o mini gongo podem entrar em ação.

Fotos: Fabiano Dallmeyer
GLOVER - Roger Glover não foi o mais técnico dos baixistas a passar pelo grupo, mas sem dúvida, é um dos músicos que mais casou com a concepção do gênero. “Into the Fire”, possui traços característicos de uma sonoridade que ajudou a forjar o som pesado, aliando simplicidade, peso e competência para segurar uma das cozinhas rítmicas mais celebradas do hard rock.

Fotos: Fabiano Dallmeyer
PAICE - Ian Paice, desde sempre, é um dos meus bateristas favoritos, e o peso dos anos parece não ter causado nenhum dano ao veterano. Seu desempenho compenetrado e a forma característica de tocar (que conhecemos de dezenas de vídeos) podem ser facilmente identificados em “Hard Lovin’ Man”. E se existem solos de bateria nos shows de rock, como vimos em “The Mule”, é porque caras como Bonzo e Paice colocaram suas digitais nesse recorte dentro dos concertos de rock.

“NOW WHAT?!” NO SET - Ao som de “Strange Kind Woman”, olho para trás e percebo que o Araújo Vianna está completamente lotado. Praticamente ninguém ocupa os assentos, pois grande parte das cerca de 3.500 pessoas presentes assistem ao show em pé. Afinal, a noite é de festa, ou não é?



Se muitos julgam que o Purple é uma banda que apenas faz cover de si, canções recentes como “Vincent Price” e “Uncommon Man” claramente mostram que o grupo não tem medo da reinvenção, isso mesmo após mais de quatro décadas de estrada. Inclusive, “Hell to Pay”, faixa que fecha a trinca de escolhidas para figurar no setlist de “Now What?!”, álbum lançado em 2013, é uma espécie de hit instantâneo que coloca a massa pra cantar.

Foto: Fabiano Dallmeyer
MORSE - E eis que nos deparamos com Steve Morse. O guitarrista norte-americano que entrou na banda em 1994, em substituição a Richie Blackmore, toca os riffs de seu antecessor com reverência e irreverência. Na verdade, da mesma forma em que Morse reprisa, ele também desconstrói as frases manjadas de Blackmore, como em “Smoke on the Water”, fazendo dessa uma de suas marcas registradas que revitalizam o Purple a cada nova noite. Em anexo ainda ouvimos temas do músico no grupo como “The Well-Dressed Guitar” e “Contact Lost”, novas tintas rejuvenescedoras propostas através de sua incursão no time.

Foto: Fabiano Dallmeyer
AIREY - E que falar do homem que substitui Jon Lord? Don Airey já tocou com Ozzy Osbourne, Dio e dezenas de outros gigantes do gênero. Com doze anos de Purple, Airey é sem dúvida uma dos responsáveis pela massa sonora que vaza do palco. Em seus solos, revisita parte da sua própria trajetória como músico. É o que acontece em “Lazy”, quando reprisa a intro de “Mr Crowley”, clássico de Ozzy, ou até mesmo ao reverenciar o Rio Grande do Sul. Sim, quando alguém contar que o tecladista executou o hino  dos gaúchos antes de “Perfect Strangers”, pode dizer que isso realmente aconteceu.

Foto: Fabiano Dallmeyer
No bis, “Goin’ Down” de Freddie King é miscigenada com a releitura de “Hush”, de Billy Joe Royal. Infelizmente, bons sonhos tem hora pra acabar, e “Black Night” ganha o coro reverencial da audiência, além de citações de Morse a “How Many More Times” do Led Zeppelin e “Third Stone From the Sun”, de Jimi Hendrix.


10h 50 min. Finish.





HARDEIRA - Quem toca rock na noite santa-mariense conhece um famoso bordão dos músicos locais: “compromisso com a hardeira”, uma onomatopeia de “hard”, de hard rock. Isso na verdade não passa de uma justificativa dessa rapaziada em afirmar de que todo o modo, nos bons e maus momentos, o rock and roll nunca será abandonado. A expressão também faz referência a um estilo de vida que pode oscilar na corda bamba, e assim, muitas vezes declinando a deslizes e excessos. Todavia, nada de desistir, meu caro!  E o Deep Purple talvez seja uma das poucas bandas dos velhos tempos que ainda firma efetivamente esse compromisso com o gênero, e isso de uma das formas mais genuínas e relevantes. Eles são verdadeiros heróis da música.

Fotos: Fabiano Dallmeyer

Fotos: Fabiano Dallmeyer

Fotos: Fabiano Dallmeyer

Fotos: Fabiano Dallmeyer

Fotos: Fabiano Dallmeyer

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