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segunda-feira, 18 de julho de 2022

THE JOE PERRY PROJECT PORTO ALEGRE, 15 DE JULHO DE 2022

Foto: Pablito Diego

Por Márcio Grings Fotos Pablito Diego

Aos 71 anos, Joe Perry sabe: uma vida dedicada ao rock and roll não é algo tão fácil quanto parece. A linha tênue entre o glamour e a sarjeta podem estar bem próximas. A estrada dos tijolos amarelos que conduz até o estrelato pode até trazer carrilhões de dinheiro, mas, na vida real, nem sempre dá salvaguarda dos malefícios da existência. Ao final do show, quando a purpurina escorre pelo rosto, as marcas dos excessos ficam mais visíveis, as rugas denunciam o  retrato de uma  imparável e indefectível mortalidade. Em 2016, apenas três meses antes da apresentação do Aerosmith em Porto Alegre, Perry tinha sofrido um infarto, isso logo depois de tocar com os Hollywood Vampires, banda que formou ao lado dos amigos Alice Cooper e Johnny Depp. Mesmo assim, pouco tempo já havia retornado à estrada. Em 2018, teve um segundo ataque do coração, dessa vez durante uma participação num show de Billy Joel. Joe é casca dura, em seis meses estava de volta. Recentemente, o outra metade dos Toxic Twins, Steven Tyler, 74 anos, teve uma recaída após usar remédios para dor em recuperação de uma cirurgia. Ele está em tratamento de reabilitação e, por isso, a turnê do Aerosmith precisou ser remarcada — a previsão de retorno é para setembro deste ano. 

Foto: Pablito Diego

Assim, na tentativa de burlar esse hiato, o guitarrista do coração de ferro resolveu remontar um de seus projetos mais antigos. Além do Hollywood Vampires, o The Joe Perry Project é uma das marcas biográficas onde ele mostra suas visões musicais. Joe gravou três álbuns nesse modelo, sempre utilizando várias formações nos palcos e gravações. "A essa altura nós estaríamos encerrando uma temporada em Las Vegas com o Aerosmith", lembra Perry. "Olhei para o calendário e pensei: bom, é a vida. Mas recebemos a ligação para ir ao Brasil. Fomos atrás dos músicos que estavam disponíveis e tudo foi se encaixando, foi meio como se os astros estivessem todos alinhados", disse o guitarrista em entrevista ao Estadão. 

Foto: Pablito Diego

Para essa vinda ao Brasil, como não poderia ser diferente, Joe Perry escalou um timaço para participar do Samsung Best of Blues and Rock — Gary Cherone (Extreme, Van Halen) vocalista, Buck Johnson (Aerosmith) teclados, Chris Wyse (Hollywood Vampires) baixo e Jason Sutter (Marilyn Manson, Foreigner), bateria. O setlist não apenas traz à tona algumas joias escondidas da discografia do Aerosmith, mas também revisita suas próprias influências, além de pagar tributo ao rock and roll setentista, principal rubrica do padrinho de muitos guitarristas surgidos na esteira do Aerosmith — nomes como Slash do Guns N’ Roses, para citarmos apenas um deles —, ratificação de sua importância dentro do gênero.  

Foto: Pablito Diego

Olhando para Joe Perry no palco, seu chapéu amassado, o rosto rugoso, a guitarra lanhada, os penduricalhos no pescoço, o cabelo com uma mecha branca a lá Pepé Le Pew — um Lobo da Estepe, a  ostentação ambulante da patifaria romantizada por vários anti-heróis problemáticos que o rock adora nos vender, como um fora-da-lei no cartaz de um filme de faroeste. Já Gary Cherone, 60 anos, corpinho de 30, magérrimo como um bailarino do Balé Bolshoi, o cantor que ocupa todos os espaços do palco e canta tão bem quanto Steven Tyler — o outro Smith. A tessitura de sua voz é perfeita para o som que ouvimos (o timbre é semelhante ao de Tyler), apesar da bandana démodé e do cabelo curto nos afastar dessa lembrança, os backings do tecladista Buck Johnson nos aproximam dessa mesma memória, pois esse é seu papel na atual formação do Aerosmith. No início, Cherone parece um pouco nervoso, levemente desencaixado com a banda. Ainda no início da apresentação, retira o ponto do ouvido, faz sinal para alguém da equipe e sai de cena. Parece incomodado. Porém, logo depois retorna voando baixo e dessa vez tudo parece perfeitamente encaixado. 

Foto: Pablito Diego

A apresentação começa com os motores roncando alto, pois “Let the Music Do the Talking”, o início de tudo para Joe Perry fora do Aerosmith, é a música que batiza o primeiro álbum de seu novo grupo — isso em 1980 —, massa sonora que patrola os ouvidos dos desavisados com o slide característico do guitarrista, uma de suas principais virtudes como instrumentista. Canções como “Toys in the Attic” e “My Fist You Face”, hoje, não fariam parte de um setlist do Aerosmith, mas essas escolhas nos mostram como Perry traz à tona à lembrança de sua banda sem emular um cover de si mesmo: elas soam diferentes do usual e ajustadas ao contesto do set.  

Foto: Pablito Diego

E se o evento tem blues no nome, temas como “Walking the Dog”, “Stepping Out” e “Stop Messin’ Round” explodem qualquer miragem de que temos um estranho no ninho. Afinal, desde os primórdios do Aerosmith o blues foi um dos combustíveis fundamentais da máquina azeitada que o Joe e Steven colocariam na Highway do rock nos anos 1970. “Quake”, single gravado em 2018 por Perry, é um senhor rock and roll, pedra fundamental da parceria com Cherone. Já  “Spanish Sushi” e “Wooden Chips” revelam sua incursão com propriedade no rock instrumental, quando temos uma ênfase ainda maior na guitarra, os timbre quentes de seus riffs e solos. A parte final do show, o rock and roll apita como se fosse uma locomotiva pedindo passagem. A versão de “Walk This Way” com Joe no talk box  é um dos grandes momentos da noite, ainda mais quando ele cola um mash-up de “Whole Lotta Love” do Led Zeppelin (para delírio do púbico). Ao final, “Sweet Emotion” é a consagração do melhor do Aerosmith, poderoso estrato das excepcionalidades que guitarrista já nos entregou e ainda pode nos entregar. 

No bis, “The Train Kept A-Rollin'”, conhecida incialmente pela versão dos Yardbyrds, assim como a releitura de “Someone's Gonna Get Their Head Kicked In Tonite” (Fleetwood Mac), evocam não apenas as origens do rock and roll (e do blues rock), como ainda acaloram os momentos finais da noite e dissipam qualquer dúvida na iniciativa de de ter ido até lá, enfrentando o mau tempo da última sexta-feira (não caiu uma gota d'água durante as apresentações do evento). É necessário  mencionar o show de abertura de Yohan Kisser e sua banda, indo do frevo ao erudito, trazendo versões surpreendentes da música nacional e internacional — do Som Imaginário a Pink Floyd, com destaque para a incrível versão de "YYZ" do Rush. 

Agradecimentos a Thaís Huguenin e Stella Sanches (Trovoa Comunicação) pelo suporte e credenciamento e Tiago Rodrigues (Planalto Transportes). 

Veja o show completo (crédito Aero Remember). 

     

Setlist

Rumble in the Jungle 

Let the Music Do the Talking 

Toys in the Attic 

Walkin' The Dog

Fortunate One 

Steppin' Out 

Stop Messin' Around 

My Fist Your Face 

Quake 

Chip Away the Stone 

Spanish Sushi 

Wooden Ships 

Walk This Way 

Whole Lotta Love 

Rockin' Train 

Sweet Emotion 

Bis

The Train Kept A-Rollin'

Someone's Gonna Get Their Head Kicked In Tonite

Foto: Pablito Diego
Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

Foto: Pablito Diego

3 comentários:

  1. Sensacional! Descrição em alta octanagem, como nós faz imaginar (para quem não assistiu) como foi um espetáculo este show! 🤘🏻

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  2. ...baita texto + fotos, Dom MG + Dom PD!!

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