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quarta-feira, 20 de maio de 2026

ROBERT PLANT — PORTO ALEGRE, 19 DE MAIO DE 2026

| Por Márcio Grings |

Terça-feira, 19 de maio de 2026. Robert Plant está na cidade. Não há possibilidade de eu não encontrá-lo esta noite. Vale o bordão: "sempre me arrependi dos shows que deixei passar". Não deste. Prova disso é que, meia hora antes do início da apresentação, cá estou, procurando meu lugar no Auditório Araújo Vianna. Quem sabe você e Percy pudessem ter se encontrado antes do show, já que o cantor foi visto passeando pela capital gaúcha. Não desta vez... Apaixonado por futebol, conheceu o Beira-rio, visitou o museu do clube e comprou uma camiseta e um moletom do Internacional. 

Não houve credenciamento para a imprensa independente, por isso as poucas imagens desta resenha foram clicadas pelo meu insuficiente Samsung A13. O ingresso, assim como o dos meus amigos, foi negociado com um cambista. A vida: perdas e ganhos. Mas, de fato, hoje a noite é às ganhas.

A segunda passagem do lendário vocalista do Led Zeppelin por Porto Alegre — antes, esteve no Gigantinho, em outubro de 2012 — leia review AQUI — possui todos os elementos para se consagrar como noite histórica. Contudo, não há escapatória para Robert Plant, pois muitos dos fãs que vieram até aqui estão em busca de outro homem. Quem sobe ao palco hoje, aos 77 anos, definitivamente não sobrevive da lenda que ajudou a mitificar, pois seguiu adiante. Ao longo da apresentação, quando o público insistentemente pede “Rock and Roll”, Plant responde com um sorriso irônico e um bordão: “Tudo o que vocês ouvem aqui é rock and roll”. A faixa 2 do lado A do Led Zeppelin IV não seria tocada; outras duas, sim, além de revisitações aos álbuns Led Zeppelin II e III. Também aparecem no repertório antigas canções de domínio público, folk, gospel, blues e temas da carreira solo do artista inglês e algumas surpresas inesperadas. A escada que nos leva ao céu de Robert Plant não é mais a mesma. E isso revela uma maturidade artística que já vem de longa data.

Saving Grace, banda que o acompanha nos últimos anos e o leva à estrada nesta temporada, está com um disco homônimo circulando há poucos meses. Cada instrumento no palco tem seu momento de brilho, mas eles reluzem mais intensamente juntos: Suzi Dian (voz, acordeon e baixo), Tony Kelsey (guitarra), Matt Worley (banjo, violão e voz de apoio), Barney Morse-Brown (violoncelo) e Oli Jefferson (bateria).

As luzes se apagam às 21h05 e ouvimos um tema incidental do músico egípcio Hamza El Din (1929–2006), cortina orientalista que introduz a miscigenação dos arranjos ouvidos a seguir. O show começa com “The Very Day I’m Gone”, de Nora Brown, um dos novos prodígios da música folk norte-americana. Plant e Suzi cantam em dueto e aqui fica claro: são vozes que se enovelam perfeitamente. Quando harmoniza ou oferece apoio ao cantor, Suzi não canta para a plateia — ela volta os olhos para Robert. Sua postura é solene e discreta. Esse jogo de olhares, com ambos trocando carinhos e toques de mãos, é uma das marcas reverenciais e intimistas da noite. O mesmo ocorre na tradicional “The Cuckoo”, oriunda da tradição oral das antigas baladas inglesas e escocesas. Perceba que a bateria está à direita do palco, deslocada; ao centro, vemos o banjista Matt Worley, um dos destaques dessa banda incrível.

Higher Rock”, de Martha Scanlon, é o primeiro grande momento de Suzi Dian como voz principal, intercalando o protagonismo com Plant, que arrebenta no solo de gaita. “Ramble On” é a primeira pedra zeppeliana na moleira, com Plant trazendo o viés acústico do grupo (paleta de cor dessas escolhas). Suzi ataca no acordeon, apagando do arranjo as guitarras barulhentas de Jimmy Page. Ao fim, o público ruge alto em celebração.

Em dueto, outro traditional surge no setlist, “As I Roved Out”, antiga balada irlandesa. Mas é quando Suzi assume a voz principal de “Orphan Girl”, de Gillian Welch, que chegamos a outro pico da noite, com Plant apenas no apoio da cantora. É uma das músicas mais aplaudidos do show. Na ótima “Let the Four Winds Blow”, do álbum Mighty ReArranger (2005), Suzi toca baixo. Num modelo onde a força elétrica é sublimada pelo acústico, Tony Kelsey faz um solo impecável na sua guitarra.

Four Sticks”, uma das revisitações favoritas de Plant ao repertório de sua ex-banda, soa perfeitamente ajustada à estética do Saving Grace. É uma guinada oriental no ambiente exótico das forças modais. A letra permanece enigmática: “Entre os pinheiros / Onde o sol nunca brilha / Sentimos um calafrio quando o vento frio sopra”.

Foto: Márcio Grings

Contudo, um dos verdadeiros calafrios — de emoção — vem em “It’s a Beautiful Day Today”, da banda californiana Moby Grape, uma das preferidas de Plant e que ganhou um belo clipe de divulgação. Aqui percebe-se uma das grandes virtudes dessa formação: as dinâmicas, o violão de aço soando cristalino — uma guitarra invisível —, instantes de vozes quase à capela e as mãos de Robert e Suzi se tocando como símbolo do carinho entre ambos ao final da canção.

Calling to You” é uma das minhas canções favoritas de um dos meus discos preferidos de Plant: Fate of Nations (1993). O arranjo atual traduz com mais proficiência a intenção do espetáculo, descolando-se da encarnação zeppeliana do álbum onde foi gravada originalmente.

Angel Dance, releitura de Los Lobos regravada no álbum Band of Joy (2010), eleva o astral com seu tempero pop. E eis que chegamos ao momento mais surpreendente da noite: a versão de “For the Turnstiles”, originalmente registrada no álbum mais depressivo de Neil Young, On the Beach (1974). A letra diverge das temáticas anteriores, trazendo um azedume cáustico típico do cantor canadense, um cenário enuviado e deposto de purpurina: “Todos os marinheiros e suas namoradas chatas/ Ouvem as sereias na praia/ Cantando canções para os cafetões/ Que cobram dez dólares a entrada.” 

De todo modo, a versão de Robert Plant e Saving Grace, com Suzi Dian à frente da canção, é arrebatadora. Além disso, o solo de violoncelo de Barney Morse-Brown ressuscita o espírito do arco de violino de Jimmy Page — acreditem — evocando a atmosfera eternizada no filme The Song Remains the Same. Claro, trata-se de uma alegoria, um elemento que empresta os peculiares contrastes de luz e sombra explorados com maestria pelo Led Zeppelin e por um dos representantes deste legado. 

E, falando na besta do hard rock, “Friends”, outra das favoritas de Plant, também soa totalmente ajustada a esse repertório. No bis, “Everybody’s Song”, da banda americana Low, traz um sabor de rock and roll feito para a geração atual. Mas, na contramão de tudo, ao final voltamos aos álbuns Led Zeppelin III e IV, com “Bron-Y-Aur Stomp” — a mais festiva das músicas da fase folk do grupo — sendo mesclada ao clima cinzento de “Black Dog”.

Como um velho eremita, Robert Plant parece ter cada vez menos pressa, assoprando os fantasmas de sua outra encarnação — ora desdenhando-os, ora redesenhando-os com novas feições. É aí que reside a grandeza do artista: Plant não bate mais o martelo com força, mas com um refinamento invejável. Talvez tenhamos assistido ao melhor show internacional de 2026. 

Agradecimento especial a Gustavo Telles, por ter me proporcionado o segundo encontro com um dos meus ídolos maiores.



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