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sexta-feira, 17 de março de 2023

THE BLACK CROWES — BUENOS AIRES, 16 DE MARÇO DE 2023

Fotos: Maximiliano Luna (Silencio/ Telam)
| Por Márcio Grings |

Se assim como eu, você também é dado a saudosismos, então temos bons motivos para comemorar a vinda à América do Sul dos Black Crowes. Deslocado no tempo, o grupo formado nos anos 1980 pelos irmãos Chris e Rich Robinson ainda respira ares embolorados, um sopro dissonante de grande parte das bandas/ artistas forjados até o início dos anos 1990. Lembre-se, naquele período vivíamos tempos em que o heavy metal ainda tinha status de ser um grande negócio e o rock alternativo ascendia como a bola da vez. Em caráter de apresentação: ainda hoje, é como se suas músicas — e a atuação dos Corvos — materializasse com originalidade a cafajestagem dos Stones, os ares vira-latas do Faces e a picardia do Humble Pie. Corroborando a esse viés, além do repertório autoral, eles já fizeram dezenas de apresentações dedicadas a revisitar suas referências, sempre ancoradas no som dos anos 1960/70. Tanto que "1972", recente EP lançado em maio de 2022, confirma essa natureza, pois relê clássicos do T-Rex, Rod Stewart, Little Feat, David Bowie, Temptations e Rolling Stones. Mesmo surgido anos depois do apogeu do rock and roll daquela década, o Black Crowes é considerado uma banda setentista, e essa âncora temporal é indissociável de sua trajetória.  

Chris e Rich Robinson. Fotos: Maximiliano Luna (Silencio/ Telam)
Além dos membros da formação clássica — Chris (voz) e Rich (guitarra e voz de apoio), mais Sven Pipien (baixo e voz de apoio), no palco estão Erik Deutsch (teclados), Brian Griffin (bateria) e o músico argentino Nico Bereciartúa (guitarra). Completam o bando as cantoras de apoio Lesley Grant e Mackenzie Adams. Voltando a Nico, 41 anos, um sul-americano entre os Corvos, ele é filho de Vitico Bereciartúa, baixista do Riff, grupo liderado pelo saudoso Norberto Napolitano, aka Pappo, lenda argentina do blues rock. O guitarrista portenho foi anunciado como novo músico de apoio dos Black Crowes em fevereiro, num show em Las Vegas. Por isso, vê-los em Buenos Aires, uma das capitais mundiais do rock, com um 'hermano' no palco, meio redimensionou a turnê sul-americana, especificamente para este show, terra natal do músico. Em tempo: Nico Bereciartúa já havia tocado com Rich Robinson (2016/17) no The Magpie Salute, projeto paralelo do guitarrista do Crowes.

Num breve retrospecto até aqui, é importante dizer que apesar de manterem a cabeça voltada no passado, os Black Crowes passaram com folga no teste do tempo. Meu álbum preferido é "By Your Side" (1999), para muitos um dos ápices discográficos da banda. Após alguma irregularidade artística, em 2015 houve uma pausa nas atividades do grupo, possivelmente motivada pelas constantes brigas entre os irmãos. Seria o fim? O ambiente pesado entre ambos é descrito em “Hard To Handle” (2019), livro de memórias de um cofundador do grupo, o baterista Steve Gorman: "Um bom dia nos Black Crowes foi apenas um dia que não foi tão mau". Apesar do clima irascível, a química dessa parceria musical profunda deixou oito álbuns de estúdio. Já entre os vários registros ao vivo, o mais célebre deles, "Live At Greek" (2000), revê temas do Led Zeppelin com a participação ilustríssima do senhor Jimmy Page. Nesse meio tempo, Chris e Rich encabeçaram projetos como o Magpie Salute e Chris Robinson Brotherhood, mas nada chegou próximo do arrebatamento e da marca registrada que os tornou reconhecidos no mundo do rock. 

Chris Robinson. Foto: Maximiliano Luna (Silencio/ Telam))
Então, inesperadamente, após um hiato de quase cinco anos sem conversarem um com o outro, os irmãos abandonam as machadinhas de guerra e se reconciliaram. Assim, remontaram os Crowes e saíram em turnê celebrando os 30 anos de "Shake Your Money Maker" (1990), álbum de estreia do grupo que vendeu 5 milhões de cópias. Contudo... em março de 2020 foram barrados no baile pelo cartão vermelho da pandemia do Covid-19, fato que literalmente fechou as portas do mundo. Nesse meio tempo, lançaram um box com as versões originais de "Shake Your Money Maker", mais outtakes e demos. O pacote ainda incluiu um concerto em Atlanta, capital do estado natal dos fundadores, a Georgia. Passado o período mais crítico da 'peste', retornaram ao palcos em julho de 2021 e, até agora, já realizaram mais de 100 shows entre Estados Unidos, Canadá, Europa, Japão, Austrália e América do Sul. 

"Shake You Money Maker" está longe de ser o maior feito deles, mas é uma estreia corajosa, pois traduz o som de uma banda jovem e ligada às raízes do rock & roll. Por tudo isso, esse retorno joga luz na efeméride com todos os méritos. Lançados como singles, músicas como "Jealous Again", "Hard to Handle" (Otis Redding) e "She Talks to Angels" desfilaram nas FMs e chegaram ao topo das paradas. No espírito televisivo dos anos 1990, quatro videoclipes do disco tomaram de assalto a geração MTV. O show que veio até a América do Sul — The Black Crowes present: Shake Your Money Maker — apresenta o tracklist completo e na ordem do álbum, e como bônus traz na parte final do espetáculo um greatest hits ao vivo dos grandes momentos da banda. Alguns shows foram registrados e no início de março eles anunciaram o álbum ao vivo "The Black Crowes: Shake Your Money Maker Live", incluindo dois bonus tracks: “It’s Only Rock ’n’ Roll (But I Like It)”, dos Rolling Stones, e “Rock and Roll”, do Velvet Underground. 

Nico Bereciartúa. Foto: Maximiliano Luna (Silencio/ Telam)
E vamos lá — é satisfatório conviver sincronicamente com uma banda do nosso tempo (ligada ao espírito do rock clássico), e não apenas reprisarmos lembranças impossíveis de serem resgatadas além da memória, dos vídeos e dos LPs. Afinal, eles estão aí, na pista, se apresentando pelos quatro cantos do mundo... e às vezes até bem próximos de nós. "A cumplicidade dos irmãos Robinson é evidente hoje, após os rompimentos do passado, eles novamente estão se divertindo no palco", disse o jornalista Lúcio Brancato, que os viu no Teatro Caupolicán, no Chile. Assim, depois de Santiago (11) e São Paulo (14), cerca de 8 mil pessoas se amontoam para assisti-los na sua segunda passagem pela capital argentina. E cá estamos, no olho do furacão desse redemoinho de gente num dos corações culturais de Buenos Aires, o Luna Park (Av. Eduardo Madero, 470). A abertura da casa trouxe o excelente Ike Parodi y Los Picantes, apresentando canções de "Sin Gravedad"(2002), com destaque para a ótima versão em espanhol de "Heart of Gold", rebatizada de "Corazón de Oro". 

O que só iríamos saber depois é que houve um atraso inesperado, pois o equipamento do grupo não chegou a tempo para a apresentação na capital argentina. Contudo... com um músico argentino entre eles, nada poderia dar errado. Nico Bereciartúa ligou para vários de seus amigos e assim foi montado um novo backline com material emprestado pelos músicos locais.  

Rich Robinson. Foto: Maximiliano Luna (Silencio/ Telam)
O SHOW

As luzes se apagam e a técnica da banda tasca "Are You Ready" nos alto-falantes do Luna Park, um dos clássicos do Grand Funk Railroad. O público se ouriça, pois mesmo com as luzes a meio pau já podemos perceber que cada músico começa a se posicionar no seu lugar de atuação. Às 21h30, os holofotes se acendem e Rich Robinson dispara o riff em sol maior de "Twice as Hard". A audiência solfeja em uníssono aquilo que a guitarra toca nos segundos iniciais, turbinando a intensidade rítmica da música, uma tradição nos shows de rock na cidade. Logo depois, inicialmente de costas, Chris Robinson se vira e surge pipocando e coreografando do mesmo jeito que o vemos nos vídeos. Em ambos os extremos do palco, os guitarristas apresentam armas: Rich, sério, praticamente sem interagir com o restante do grupo e Nico, compenetrado, cabeça baixa e olhando de soslaio para seu parceiro de instrumento. Sven Pipien, casado com uma argentina, também parece estar em casa. Diferente do Chile, por exemplo, quando a primeira parte do show teve pouco papo e as músicas enfileiradas praticamente sem intervalo e, durante a apresentação no Luna Park, veremos que o vocalista se mostrará disposto a conversar com a plateia. 

"Jealous Again" é simplesmente o som zipado do Black Crowes, cartão de visitas e primeiro single de "Shake Your Money Maker". O encrenqueiro ciumento da letra lida com sua impulsividade e turbina a necessidade de sentir o cheiro de estrada ("Smell the gasoline burning"). O público entra em ebulição, se movimenta como uma turba prestes a explodir, e essa ondulação pode te derrubar. Eu levo um pisão no pé e um banho de cerveja, o que me faz procurar um outro lugar na pista. Uma voz vindo sei lá de onde me diz: "Bem-vindo a Buenos Aires, terra de róquanrôu". Vejam o vídeo abaixo e entendam o espírito da coisa. 

Antes de anunciar o próximo número, Chris diz: "Welcome to The Black Crowes' 'Shake Your Money Maker'". Novamente a afinação em sol maior de Rich Robinson grassa na falsa-balada "Sister Luck". Lembro que Chuck Levell (The Allman Bros/ Stones) é o homem das teclas no som que ouvimos no disco. Alguns ainda citam a influência de "Sway" em "Sticky Fingers" (1971) —  principalmente na passagem do solo — , o que não me parece um exagero. Além das comparações à la 'Rolling Clones' (até nas escolhas dos nomes dos temas: Sister Luck = Sister Morphine?), a verdade é que os Crowes forjaram uma identidade própria em canções como essa, mas por muitas vezes passível de espelhamentos e comparações. 

O fim da inocência é um dos temas de "Could I've Been So Blind". E aqui, Chris apresenta sua melhor versão Rod the Mod, ocupando os espaços e se divertindo com o público. A alma sulista de Muscle Shoals ecoa em "Seeing Things". Os vocais de apoio das 'Corvetes'  — Lesley Grant e Mackenzie Adams — surgem mais intensos nessa canção, tocada de forma mais lenta. "Hard to Handle" é que a música foi roubada de Otis pelos irmãos Robinson, pois os Crowes tornaram esse clássico do soul em algo seu. Com uma pegada rockficada eles a ampliaram como experiência musical, ao estilo do que o Aerosmith fez com "Train Kept A-Rollin'" do Yardbirds. Se você colocar "Hard to Handle" no Google, é a versão dos Black Crowes que surge na primeira linha, e isso revela como eles se apropriaram dessa joia da música negra. Durante o refrão, Chris joga a bola para a plateia do Luna Park e não há decepções: a massa canta o refrão e arranca sorrisos do vocalista. Nico faz o solo e agora já parece mais relaxado, rindo das dancinhas de Chris enquanto ele saltita por ambos os lados

"Eu disse que era um show de rock and roll, então vamos agitar", avisa o vocalista. É impossível nos mantermos impassíveis frente ao ritmo acelerado de "Thick'N'Thin", um hard rápido com piano boogie woogie que faz nossos pés se mexerem em arremedo aos passos de Chris no tablado, uma batida sonora ao estilo 'Humble Pie encontra Faces', só que mais acelerada. O som das guitarras é altíssimo e impressionante. O vocalista está suando em bicas, rios desaguam de seu corpo enquanto sacoleja e gesticula como um boneco de molas. Chris Robinson escreveu "She Talks to Angels" inspirado numa desconhecida “garota gótica” de Atlanta — maquiada como Siouxsie Sioux ("she paints her eyes as black as night now") — que ele encontrou numa de suas noitadas pela cidade. Baseado nessa aparição, o vocalista descreve a biografia fictícia imaginando como seria a vida dessa menina. É até hoje um dos maiores hits do grupo. O violão de aço soa um pouco embolado, mas nada que quebre o clima ecumênico/ profano que essa canção evoca. O homem que quase nunca sorri e nem demonstra emoções troca breves olhares com seu irmão. Na posição inversa, Nico está na guitarra, e os riffs de slide que joga entre os espaços pinta cores diferentes do take original. 

Sven Pipien e Chris Robinson. Foto: Maximiliano Luna (Silencio/ Telam)
De filler em "Shake Your Money Maker", "Struttin' Blues", poucas vezes presente nos sets ao vivo, ressurge em nova encarnação: "Eu realmente gosto dessa, porque raramente a tocávamos antes", disse Rich Robinson em entrevista ao site Tenho Mais Discos do Que Amigos. Contudo, assim como em “Stare It Cold”, com seu riff meio que roubado de "Soul Survivor" dos Stones, apesar de todo o empenho de Rich em rearranjá-las, as duas faixas mais fracas de "Shake Your Money Maker" tornam esse o recorte específico o menos brilhante do show.

Às 22h22, após tocado o álbum na íntegra e no tracklist original, a esperada repescagem (com músicas de outros discos, releituras e mais improvisos) nos salva de qualquer queda de rendimento. É como se o botão turbo fosse acionado ou como se uma tecla de F5 atualizasse todo o vigor inicial já em "No Speak No Slave". A música é um dos grandes momentos do álbum "The Southern Harmony and Musical Companion" (1992) e, ao vivo, surge como um bombardeiro sonoro focado no som das guitarras. Os ouvidos zunem, afinal, quem nunca saiu com a cabeça latejando frente a tanto volume? Os Crowes estão a fim de jogo, como se a noite estivesse apenas começando, mas estamos só passando da metade do show. “Wiser Time”, uma falsa balada com refrão explosivo, mantém a bola quicando alto, com Rich e Nico dividindo os solos e trocando olhares em lados opostos do palco. Há parceria e cumplicidade na dupla de guitarristas.

"Thorn in My Pride", uma das minhas favoritas, é esticada na parte central, com abertura que traz solos de Hammond e até a gaita de boca tocada por Chris Robinson. Eles juntam tudo num mash-up blues desconstruindo tudo aquilo que conhecemos, para logo depois retornarem à música na forma como ela foi gravada. Já “Remedy” é pura FM rock dos anos 1990, o que nos relembra o quanto já vivemos dias melhores, mas que também nos induz a pensar no quanto tudo soa muito atual no som dos Crowes. As meninas dos vocais de apoio cantam, dançam e tocam instrumentos de percussão. A festa está próxima do fim...  

Antes do bis, Nico volta ao palco vestindo uma camiseta do Riff, grupo onde começou sua trajetória como instrumentista. Ele traduz as falas de Chris e revela ao público que o equipamento dos Corvos não havia chegado a tempo do Brasil para o show no Luna Park. Com isso o grupo passou por sérios apuros horas antes do show, pois absolutamente todo o backline — desde guitarras, consoles, microfones e até a roupa dos integrantes, ficaram encalhados na alfândega. Em nome de todos, Nico agradeceu aos "amigos músicos que cederam seus instrumentos". Sim, os Crowes tocaram sem o backline original, com equipamento e instrumentos emprestados, sem até mesmo o logo da banda no bumbo (as iniciais TBC foram coladas com post its) e mesmo assim, entregaram sua alma ao público do Luna Park, sem demonstrar o mínimo traço de aborrecimento (a não ser o sempre aborrecido Rich).

Alguém tinha dúvida de que na terra dos Rolingas (como são chamados os fãs de Stones na Argentina) o Black Crowes teria alguma chance de não encerrar a apresentação com um clássico de Jagger/ Richards? “Rocks Off” é acionada e a festa chega a seu momento de despedida com uma canção que faz o auditório ondular como uma massa única. Após a catarse, ao final, a banda se cumprimenta num clima de amizade e camaradagem. Nico dá um abraço forte no baixista Sven Pipien e logo depois, um a um, todos se cumprimentam e distribuem sorrisos (inclusive Rich!) enquanto saem por uma lateral do palco, acenando para o público.

Próxima parada: dia 19, no Foro Sol | Vive Latino, na Cidade do México. Depois os Corvos seguem para Nashville, onde eles começam a gravar seu próximo álbum de inéditas. Essa é uma ótima notícia, afinal, precisamos que bandas como o Black Crowes continuem segurando essa tocha do rock and roll, uma luz que continua brilhante entre eles. 

  

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Setlist Black Crowes | Luna Park/ BA

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Twice as Hard

Jealous Again

Sister Luck

Could I've Been So Blind

Seeing Things

Hard to Handle

Thick n' Thin

She Talks to Angels

Struttin' Blues

Stare It Cold

No Speak No Slave

Go Faster

Wiser Time

Thorn in My Pride

Remedy

Bis

Rocks Off

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