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domingo, 29 de maio de 2022

CERISSA McQUEEN — RECANTO MAESTRO, 28 DE MAIO DE 2022

Foto: Pablito Diego

Por
Márcio Grings Fotos Pablito Diego

Sábado chuvoso na Região Central do Rio Grande do Sul, um ótimo motivo para culpar o mal tempo e ficar enfurnado dentro de casa vendo TV. No meu caso, exatos dois anos e meio após o último evento internacional de blues por aqui — Gene 'Birdlegg' Pittman em 22 de novembro de 2019, no Plataforma 85 (maldita pandemia!), cá estou: seria impossível perder o show da cantora norte-americana Cerissa McQueen. O Palco Bell’Anima foi idealizado pelo músico Vagner Cunha e pelo empresário Claudio Carrara, que cedeu parte do terreno da própria casa para a construção do local, com capacidade para acolher até 450 espectadores. Com investimento de R$ 2,5 milhões, o arquiteto italiano Enrico Torrice é quem assina o projeto do ambiente com cem metros quadrados, em formato de meia-lua, ao estilo dos anfiteatros gregos. São 7,5 metros de pé direito e, à sua frente, uma sequência de degraus em pedra que viram arquibancada para receber o público. Localizado no Recanto Maestro, município de São João de Polêsine, o recém inaugurado Bell'Anima fica a cerca de 40 km de Santa Maria. É neste ambiente que Cerissa McQueen se apresentaria neste sábado 28 de maio. "Eu construí um anfiteatro supondo que nunca choveria durante meus eventos", disse Carrara ao público. Assim, em virtude da instabilidade, o plano B foi posto em prática — a própria sala do proprietário tornou-se palco, um espaço generoso que inclui um segundo piso utilizado como mezanino, onde foi criado um ambiente charmosíssimo que reuniu pouco mais de 100 pessoas.  

Foto: Pablito Diego

Na abertura da noite, uma grata surpresa. Utilizando como matriz um clássico de Screamin' Jay" Hawkins, "I Put Spell on You", uma jovem cantora chamada Amanda Vontobel se apresentou acompanhada por um harmônio indiano, instrumento de fole (semelhante ao do acordeão) tocado por Vagner Cunha. O resultado dessa versão é impactante, bruxuleante, num arranjo que promove um enlace inusitado entre a música negra norte-americana e o orientalismo.

Após a surpresa inicial, Igor Prado (guitarra), Edu Meirelles (baixo) e Roni Martinez (bateria) assumem seus lugares e tocam um tema instrumental de abertura inspirado na vibe da música de Freddie King. O alto astral aquece o público para a entrada triunfal da noite com "Chain of Fools", já com a presença da cantora Cerissa McQueen no palco. Cerissa advém do gospel, e essa incursão pelo blues e soul ainda é recente na sua carreira. Em um caminho semelhante a uma de suas principais referências, Aretha Franklin, ela confere legitimidade a esse desafio. Metade do repertório da noite revisita Aretha, um território ao qual Cerissa nos prova ser detentora de uma voz digna das grandes divas da música internacional. 

Foto: Pablito Diego

A ambiência e a proximidade com o público oferecem dinâmicas que não são permissíveis em espaços maiores. A exemplo de "Use Me", de Bill Withers, quando a banda sobe e desce o volume, numa demonstração da possibilidade de integração acústica, como se não houvesse fronteiras entre palco e público. E não há. Ao estilo do que Rick Nielsen, guitarrista do Cheap Trick, Igor Prado é o showman da noite — faz acrobacias com a guitarra, brinca o tempo todo com Cerissa, com os músicos e o público, alterna velocidade e sutileza e, acima de tudo — diverte a plateia com seu talento e senso de humor. Um dos cães da casa observa de perto seus dedos desenhando as escalas enquanto o guitarrista se aproxima do animal. Caso você não saiba, Igor Prado é um dos grandes guitarrista de blues da atualidade. Em 2015, com sua Igor Prado Band, gravou o álbum "Way Down South", que tornou-se o 1º álbum de um músico sul-americano a atingir o topo da parada de blues nos EUA.  

Foto: Pablito Diego

No medley "I Wish/ Superstition", a cozinha baixo/bateria produz aquele molho característico do balanço das canções de Stevie Wonder nos anos 1970. Em temas como "(You Make me Feel Like) a Natural Woman" e "I'd Rather Go Blind" Cerissa parece encapsular todas as artistas em uma, trazendo a tona sua raiz gospel, mas espelhando todo o talento e responsabilidade que uma cantora deve mostrar nesse repertório. Em "Stand by Me", uma música mil vezes tocada e quase sempre apresentada sem novidades, Cerissa relê o clássico de Ben E. King com inventividade e inflexões que tornam a música algo seu. O público a ovaciona. 

Foto: Pablito Diego

Entre os destaques da noite, sem a presença do trio de músicos que formam sua banda base e, acompanhada apenas pelo piano, tocado pelo proprietário do Bell Anima, Cláudio Carrara, Cerissa McQueen canta "A Song for You", de Leon Russell. Curiosidade: Carrara aprendeu os acordes da música durante a passagem de som. Já ao balanço de "Rock Steady", a banda e a cantora vibram como um único organismo. "C'mon, Ronie!" diz Cerissa e o baterista faz um breve solo enquanto ela dança graciosamente no embalo do funk de Aretha Franklin. Ao final, Igor coreografa suas picardias e arranca gargalhadas da cantora. Numa parte de "Mercy", surpreendente versão do jovem cantor canadense Shawn Mendes, Cerissa canta (quase à capela), apenas com o acompanhamento de Igor. Logo depois, o guitarrista puxa a primeira sequência de um riff, toma um gole de vinho, segue de onde parou e Cerissa dá uma nova gargalhada, para logo depois incorporar o espírito de "Dr. Feelgood". É uma música digna das grandes damas do blues, invocando o espírito e a tradição de Bessie Smith e Ma Rainey, bate no cânone das canções sobre mulheres libertas pela sua sexualidade. Cerissa e os bends da guitarra gemem, a ambiência desse blues e o acaloramento da voz da cantora nos levam ao êxtase de um dos momentos mais incríveis da noite. Cerissa McQueen se despede, o público novamente a ovaciona e só para de chamar seu nome quando a vê no caminho de retorno para o palco. O bis é com "Crazy", de Gnals Barkey, novamente numa versão só dela, com a banda fazendo a cama para seu voo solo de despedida.

Para aqueles que tiveram como desculpa o mal tempo, uma pena dizer que todo o arrependimento é merecido. Se você, assim como eu, assistiu Cerissa e sua banda no Bell'Anima, vivenciou uma noite única. Entre nós, lá estava a cantora se apresentando na sala de uma casa, ao estilo de uma festa particular, com todos felizes pelo retorno aos shows presenciais, celebrando a vida. 

Congratulações Branco Produções pela programação e montagem de palco. Parabéns, Bell'Anima e equipe, que venham mais eventos. Obrigado Jéssica Barcellos pelo suporte e credenciamento.  


SETLIST

Instrumental — Freddie King influence

Chain of Fools

Use Me

(You Make me Feel Like) a Natural Woman

I Wish/ Superstition

I'd Rather Go Blind

Stand by Me

Song for You

Rock Steady

Mercy

Dr. Feelgood


Bis

Crazy

Foto: Pablito Diego


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