sexta-feira, 11 de outubro de 2019

IRON MAIDEN - PORTO ALEGRE, 9 DE OUTUBRO DE 2019

Foto: Ton Müller
Review Márcio Grings Fotos Ton Müller

Poucos dias antes do Iron Maiden pisar no palco da Arena do Grêmio (Porto Alegre), e apenas algumas horas após a apresentação do grupo inglês no estádio do Morumbi (São Paulo), li uma interessante matéria do amigo Ricardo Seelig. O texto não apenas fala da nova passagem do sexteto inglês pelo Brasil, jogando luz na apresentação no Rock in Rio, na verdade, a matéria também propõe uma reflexão. O comandante do Collectors Room levanta a lebre sobre a ação do tempo na atividade dos músicos ligados ao rock'n'roll - "Ao contrário de outros gêneros musicais como o blues e o jazz, onde o ato de envelhecer parece enobrecer o artista, no rock a passagem do tempo não é muito bem vista por uma parcela do público e, principalmente, por grande parte da crítica. Ainda se associa o transcorrer dos anos com a decadência (...), o que é uma tremenda bobagem". Em contraponto, acredito que nem sempre estejamos falando bobagem nessa constatação/associação, pois há diversos exemplos de deterioração causados pelo confronto entre passagem do tempo e performance artística. Prova disso é que facilmente podemos encontrar artistas veteranos soando como arremedo de si próprios. Principalmente se tomarmos por base nomes ligados às cenas advindas dos anos 1960/70/80 - é inegável, estamos vivendo o fim de uma era. 

Foto: Ton Müller
Numa outra via, lembro de frase pinçada de uma entrevista cedida por Mick Jagger no início dos anos 1980 - "Não pretendo chegar aos 40 anos cantando Satisfaction", afirmou o líder dos Stones. E disse mais, e aqui faço um link direto com o texto de Seelig - "Gostaria de envelhecer com a dignidade dos músicos de jazz". Hoje sabemos, aos 76, Mick errou feio, pois continua cantando "Satisfaction". Contudo, seu segundo desejo foi atendido, visto que ele realmente conseguiu envelhecer com a dignidade de muitos músicos de jazz, porque certamente estamos falando de um dos mais respeitáveis cantores do rock ainda em atividade.

Foto: Ton Müller
Começo misturando alho com bugalhos para engatar nesse 9 de outubro de 2019, agradável quarta-feira de primavera que demarca a terceira passagem do grupo britânico Iron Maiden pelo RS. E assim como Jagger, o vocalista do Maiden é outro fenômeno a ser referenciado. Mesmo 15 anos mais jovem, aos 61 anos, Bruce Dickinson ainda é um dos maiores prodígios vocais do heavy metal. À frente do grupo, em mais de 40 anos de estrada, o sexteto se completa com seu criador e mentor intelectual, Steve Harris (baixo), mais Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra) e Nicko McBrain (bateria). 

Foto: Ton Müller
Cerca de 40 mil pessoas foram até a Arena do Grêmio em Porto Alegre, um exército de camisetas com a logotipia clássica da banda, e certamente ninguém estava lá para ver o show de abertura. O quinteto inglês The Raven Age conta com o guitarrista George Harris, filho do baixista do Iron - “Meu pai sempre quer ouvir nossas músicas e dá sua opinião. Na verdade, ele é bastante rígido e diz o que precisamos mudar ou o que já está bom", revelou George ao site Uol. Ainda no grupo - Tony Maue (guitarra), Matt Cox (baixo), Jai Patel (bateria) e Matt James (vocal). Eles acabam de lançar “Conspiracy”, álbum que rapidamente deve cair no esquecimento. Já a atração principal teve mais sorte (ou talento), pois mora no inconsciente coletivo do rock.   

Foto: Ton Müller
Às 21h, ao som de “Tranylvania”, numa explosão de imagens no telão, com cenas de Legacy of the Beast, game que inspirou o atual setlist, o público começa a se alvoroçar. Logo depois o sistema de som detona “Doctor Doctor”, hino do UFO que se tornou também um perfeito hinário para acelerar os batimentos cardíacos dos fãs de Iron Maiden, visto que é a canção escolhida para as preliminares finais antes dos músicos pisarem no palco. A festa está decretada...  

Foto: Ton Müller
O setlist de Porto Alegre é o mesmo que foi tocado no Rock in Rio e São Paulo, num show cronometrado e planejado para beirar a perfeição. Pense numa abertura espetacular, tipicamente inglesa, um brado que evoca o legado dos Baby Boomers (como são chamados os nascidos logo após o final da Segunda Guerra Mundial). No telão, cenas em P&B da Segunda Guerra e o trecho de um lendário discurso do primeiro-ministro britânico Winston Churchill. "Aces High" é o maior dos chutes na porta que o Iron Maiden poderia escolher para abrir suas apresentações. Uma réplica de um avião Supermarine Spitfire sobrevoa a banda, impressionante imagem que amplifica o impacto sonoro de um tema que remete aos idos da clássica World Slavery Tour (1984/85). Não é uma música fácil de ser cantada antes das cordais vocais de qualquer vocalista estarem completamente aquecidas. Não se trata de uma simples performance, é um teste de fogo para Bruce! 

Foto: Ton Müller
As guitarras continuam emparedadas em “Where Eagles Dare", outra música incomum nos sets deste século, mais do que bem-vinda nesse tour. “To Minutes do Midnight” é a primeira a ganhar um coro monstruoso do público, isso após Bruce Dickinson bater o primeiro papo com a audiência, para logo depois bradar antes do refrão: “Scream to me Porto Alegre”. E o exército dos 40 mil gritou muito alto. "The Clansman” traz Bruce cantando uma música da época que esteve fora do grupo (1994/99), tema que conhecemos de “Virtual XI” (1998), com Blaze Bayley a frente dos mics (talvez a melhor faixa de Blaze do Iron). No palco, Bruce traz a tona outra de suas paixões, a esgrima. Mesmo que o florete seja trocado por uma réplica de espada medieval, o vocalista elegantemente coreografa e se movimenta de um lado para o outro do palco desenhando rabiscos no ar com seu alegórico sabre.  

Foto: Ton Müller
Sempre encontrei em “The Trooper” um dos maiores símbolos do conteúdo intelectual implícito nas letras do Iron Maiden. Nesse quesito, o grupo também foi um dos pioneiros, saindo de uma temática engessada, muitas vezes sem conteúdo relevante, para sobreviver ao teste do tempo. Com músicas como essa o Maiden simplesmente colocou o heavy metal em outro patamar. A temática é baseada num evento histórico da cavalaria britânica do século 19, durante a Guerra da Crimeia. O bardo inglês Alfred Tennyson escreveu um célebre texto sobre o evento, "The Charge of The Light Brigade", relato poético que impulsionou Steve Harris, o Tolstói do metal, a compor “The Trooper”. O resultado dessa inspiração até hoje nos mantém boquiabertos, pois estamos falando de um autêntico apresentar-armas para o quilate da banda que está no palco – trata-se de uma espécie de tema-síntese do som do Iron Maiden. 

Foto: Ton Müller
Uma curiosidade: antes do show conheço Bento Dickel, um garoto de apenas 9 anos que nessa terça-feira teve sua estreia em shows internacionais. Quando pergunto ao jovem fã qual sua canção preferida, ele não reluta: “The Tropper”. Vários pais levaram seus filhos até a Arena, muitas crianças e adolescentes. No entanto, a faixa etária predominante do público certamente pode ser cravada na faixa dos 30/40. E para alegria de Bento, durante sua canção favorita, tivemos ainda a primeira e única aparição do morto-vivo mais famoso do rock, Eddie the Head.  

Foto: Ton Müller
Em “Revelations”, o palco muda, vitral azul ao fundo, candelabros laranjas despencam do alto do teto. Eis mais uma peça de “Piece of Mind” (1983), o álbum que contribui com a maior parte das canções (4), seguido de (3) “The Number of the Beast” (1982) e (2) “Powerslave” (1984), ou seja, mais da metade do set comtempla a época de ouro do grupo. Um amigo jornalista me diz que essa escolha dos temas também leva em conta os views do grupo em seu canal oficial no YouTube.

Foto: Ton Müller
Tratando-se de uma fã de Iron Maiden que abandonou a banda no contestado “Somewhere in Time” (1986), um LP que particularmente está entre meus preferidos do grupo, músicas como “For the Greater Good of God” (2005), “The Wicker Man” (2000) e “Sign of the Cross” (1995), mais uma da breve era Blaze Bayley, simplesmente não conseguem capturar minha atenção - “Eu tenho o maior respeito por Blaze, pois ele entrou na banda em um momento muito difícil (…) Ele é uma ótima pessoa”, revelou Dickinson ao programa de rádio inglês Do You Know Jack? Eu sei, possivelmente seja execrado por essa declaração, é inegável que há valores nesses temas, principalmente em "Sign of the Cross", uma espécie de "Kashmir" do Iron Maiden, música que Bruce tomou para si. Porém, essa mesma trinca ainda reforça uma teoria própria de que a ideia de som do Iron já está esgotada, e que no final das contas, salvo exceções, assim como acontece com os Stones (novamente uma comparação entre bandas incomparáveis), afora algum novo tema interessante aqui e acolá, o que grande parte do público realmente quer ouvir são os clássicos dos anos 1980/90. O próprio desenho do setlist reforça esse sentimento. No entanto, esse refresco na emoção também é o instante que ganho tempo para perceber o vigor e o talento do incansável Nicko McBrain, um rolo compressor que bate da peles com a precisão de um cirurgião.      

Foto: Ton Müller
Por mais que eu também ache um exagero pirotécnico Bruce Dickinson ostentar um lança-chamas em “Flight of the Icarus”, retornamos finalmente ao eixo central da obra maideniana, na companhia de um gigantesco Ícaro gigante no fundo do palco. "Fear of the Dark” é potencializada pela comoção geral da Arena, e é impressionante perceber - no olho do furacão - a força que canções como essa transformam os fãs numa estrondosa e uníssiona massa sonora - "O público aqui [América do Sul], mas especialmente o Brasil, é incrível, são os melhores do mundo. Eu evito dizer isso, porque acho que as pessoas vão ficar com ciúmes, mas é verdade", disse Dickinson em entrevista a RBS TV.

Foto: Ton Müller
E o que dizer de “The Number of the Beast”? A lembrança de um Eddie titereiro maquinando os movimentos de uma figura satânica acorda o menino em mim, um garoto assombrado pela imagem de uma das capas mais significativas do rock. Em "Iron Maiden", música que dá nome a banda, extraída dos primórdios da década de 1980, o guitarrista Jenick Gers faz seu tradicional malabarismo com a guitarra, algo que me soa extremamente desnecessário. A imagem de Janick pipocando de um lado ao outro do palco é a presença mais irritante da noite. Enquanto isso, Dave e Adrian fazem o trabalho sujo...

Foto: Ton Müller
Após um breve intervalo, o quinteto retorna ao palco com “The Evil That Man Do”, e com uma dobradinha do álbum “The Number of The Beast” - “Hallowed Be Thy Name” e “Run to the Hills”. Para nós que não os tínhamos no RS há 11 anos, ver um show do Iron Maiden condensado em apenas 2h, ao vivo, é chance única de sentir de perto a dimensão de como o heavy metal ainda pode ser relevante, grandioso e apoteótico. E o pior, todos sabemos, não existem peças de reposição no tabuleiro da música mundial para preencher a horrorosa lacuna que ficará escancarada quando Bruce, Steve,  Dave, Adrian, *Janick e Nicko não mais caminharem juntos como uma banda(o) pela terra. Na verdade, tivemos a sorte de novamente revê-los por aqui numa grande performance - "O melhor momento do grupo ao vivo depois do retorno de Bruce Dickinson", sugere o maior dos fãs que conheço, o amigo Roberto Lenz (Sesc). Sim, aos 44 anos, o Iron Maiden envelheceu sem perder o viço.

Detalhe negativo: muitas pessoas mais afastadas do palco reclamram da qualidade do som que chegava até elas, espectro sonoro que parece ter oscilado bastante ao longo das duas horas de apresentação. 

Confira a galeria de fotos do fotógrafo Ton Müller    

Ao final do show, me dou por conta de que estou assistindo Iron Maiden pela primeira vez no mesmo ano em que também vi Saxon (leia review AQUI), dois importantes nomes do New Wave of British Heavy Metal, movimento musical inglês que se espalhou pela Europa e pelo mundo propagando o metal inclusive aqui no Brasil. Tive sorte de viver esse tempo. I feel blessed...  

Foto: Ton Müller
O show do Iron Maiden em Porto Alegre marcou a despedida do minitour “The Legacy of the Beast” pelo Brasil. O Maiden segue sua jornada com apresentação no próximo sábado (12) no Estádio do Velez, em Buenos Aires, para logo depois encerrar sua nova passagem pelo continente sul-americano com dois shows no Moviestar Arena, em Santiago, no Chile (14 e 15). Já estamos com saudades...    

Setlist Iron Maiden PoA

Aces High
Where Eagles Dare
2 Minutes to Midnight
The Clansman
The Trooper
Revelations
For the Greater Good of God
The Wicker Man
Sign of the Cross
Flight of Icarus
Fear of the Dark
The Number of the Beast
Iron Maiden

Encore:

The Evil That Men Do
Hallowed Be Thy Name
Run to the Hills  

Foto: Ton Müller

Um comentário:

  1. Eu estava nas cadeiras gold , o som estava simplesmente horroroso , foi o pior show que vi na vida ( com relação a qualidade de áudio ) . Conversei com outras pessoas que estavam na pista e me relataram a mesma coisa .... uma grande pena ver uma banda do porte do Iron tocar com um som de tão baixa qualidade .... decepção !

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