segunda-feira, 18 de setembro de 2017

THE CULT - PORTO ALEGRE, 17 DE SETEMBRO DE 2017

Foto: Rafael Cony

“Mr. Tambourine Man”, lendária canção de Bob Dylan gravada na primeira metade dos anos 1960, foi uma música que sobrevoou os meus pensamentos na noite deste domingo, 17 de setembro, dia de show do Cult em Porto Alegre. Não, o grupo não tocou o tema do bardo norte-americano, inclusive desconheço se alguma vez a faixa foi executada pela banda (é provável que não, não há conexão alguma com o repertório), e até mesmo na noite em questão, nenhum fragmento de seus acordes foi articulado pelas guitarras. “Oh, cara do pandeiro! Toca um som pra mim! Estou sem sono e esse é o único lugar da city onde eu poderia estar”. Sim, estávamos no lugar certo: Bar Opinião, Capital gaúcha, noite de ver Ian Astbury e seus companheiros pela segunda vez no RS. No entanto, senhoras e senhores, o cara do pandeiro estava a fim de fazer barulho!

A pandeirola ou meia lua, semicírculo de plástico maciço (ou material similar) com pares de penduricalhos de metal, é um instrumento musical de percussão, espécie de primo próximo do pandeiro. Volto a “Mr. Tambourine Man” pelo fato de que Astbury, líder do Cult e um dos grandes vocalistas do rock surgidos nos anos 1980, deu aula de como fazer malabarismos com uma pandeirola, e o mais importante: mostrou que ainda sabe se colocar no papel de 'encantador de serpentes' e de um grande performer de rock.

Foto: Rafael Cony
Na formação atual, além de Astbury,  outro remanescente da linhagem original é o baixinho Bily Duffy (guitarra). Completa o grupo Grant Fitizpatrick (baixo) e John Tempesta (bateria), além de Damon Fox (teclados, voz de apoio e guitarra base), músico que acompanha o Cult durante os tours. Opinião lotado, “Wild Flower”, um dos números de mágica favorito do grupo, abre a noite com ares de celebração. O setlist ordena a nata do Cult, pois mais da metade do show é alicerçado por apenas dois álbuns fantásticos: “Love” (1985) e “Electric” (1987), ou seja – só correr pra torcida, gol de placa. Temas como “Rain”, Peace Dog”, Lil’ Devil” e “King Contrary Man” deixam o Opinião em ponto de bala. Do novo disco, o bom “Hidden City”, lançado em 2016, a primeira a surgir é “Dark Energy”, riff quebrado que nos reconecta aos pós-punk. Já “Birds of Paradise” carrega o DNA do Cult, minha faixa favorita de "Hidden City", uma oração gótico/apocalíptica para adentrar a escuridão dos dias atuais, com direito a breve homenagem a Chris Cornell.  

Foto: Rafael Cony
“Eu mudei meu nome, agora me chamo Eisenbahn", disse Astbury, arregaçando as mangas da jaqueta e ajustando os óculos escuros com um sorriso mefistofélico, anunciando que o aquecimento no camarim foi regado pela cerveja da referida marca. Ao ver os trejeitos do vocalista no palco, impossível não se lembrar da figura de Jim Morrison, até por que Ian parece não se importar com essa associação, tendo inclusive cantado ao lado de Ray Manzarek e Robby Krieger, isso numa remontagem no início dos anos 2000. Corroborando a esse cruzamento de personas, num dos breves intervalos entre as músicas, Duffy chega a arranhar o riff de "Love Me Two Times" do Doors, e também é preciso mencionar uma citação a "Bohemian Rapsody" do Queen em um dos diálogos com a plateia (Thunderbolt and lightning very very frightening me). 

Foto: Rafael Cony
Entre os melhores momentos da noite, dá-lhe coro da audiência em “Sweet Soul Sister” e “She Sells Sancturary”, além do encerramento avassalador com “Love Removal Machine”. Voltando ao xamã da noite, a pandeirola na mão de Ian Astbury pode ser espancada, arremessada ao público, chutada como se fosse uma bola de futebol, pressionada contra os quadris em autoflagelo, jogada ao chão e até mesmo tocada com maestria.  E o mais importante: a voz do vocalista do Cult continua irretocável.

Ao final, 1h25min de apresentação, tudo pode ser definido como 'manual prático de como se fazer um show de rock'. Antes de sair de cena, Ian se estica na ponta do palco entre a multidão e presenteia uma garota sortuda com mais uma de suas pandeirolas. Assim, o homem do pandeiro e os seus deixam o palco, mas o encantamento permanece. "Hey! Mr. Tambourine man, play a song for me". Não foi apenas uma, foram 15 para ser mais exato. Confira o setlist completo:

The Cult - Setlist Opinião

Wild Flower
Rain
Dark Energy
Peace Dog
Lil' Devil
Nirvana
Birds of Paradise
Deeply Ordered Chaos
The Phoenix
Rise
Sweet Soul Sister
She Sells Sanctuary
Fire Woman

Bis

King Contrary Man
Love Removal Machine   

Foto: Rafael Cony

2 comentários:

  1. Texto memorável, como sempre. E que baita culto!

    ResponderExcluir
  2. Gracias, brother! Gracias pelas imagens do Homem do Pandeiro.

    ResponderExcluir

ÚLTIMA COBERTURA:

NICK CAVE - SÃO PAULO, 14 DE OUTUBRO DE 2018

Foto: Edi Fortini Por Cristiano Radtke Fotos Edi Fortini  “Todos os artistas são decepcionantes ao vivo após assistirmos Nick Ca...