quarta-feira, 31 de outubro de 2018

ROGER WATERS - PORTO ALEGRE, 30 DE OUTUBRO DE 2018

Fotos: Fábio Codevila
Review Márcio Grings Fotos Fábio Codevilla

Não há lembrança, pelos menos nos últimos anos, de um tour mundial em curso pelo país que tenha gerado tamanha discussão e repercussão, principalmente fora do espectro artístico. Durante grande parte do mês de outubro, Roger Waters incursionou pelo olho do furacão da controvérsia política. E como estava aqui, batendo cartão pelo nosso quintal e atento aos acontecimentos, quase numa posição de 'analista internacional', o músico britânico pôde vivenciar o clima de polarização na disputa eleitoral para a Presidência da República. E não apenas isso, como habitual nas suas práticas de militância, ele não se omitiu, e novamente hasteou bandeiras de protesto. A turnê Us + Them começou por São Paulo (7), e encerrou três semanas depois, exatamente no show em Porto Alegre (30), pouco mais de 48h após o término do pleito eleitoral. Além de uma data extra da capital paulista, o ex-Pink Floyd ainda tocou em outras seis metrópoles. Por importantes fatores extra-musicais, antes de falarmos do último show da perna brasileira da turnê, é necessário um breve resumo das ações até a derradeira apresentação na capital gaúcha.

Relembre a passagem anterior de Roger Waters pelo RS - Beira-Rio, 25/03/12

Foto: Fábio Codevilla
US + THEM EM CURSO PELO PAÍS - Na atual digressão, que teve início em 21 de Maio de 2017, em Kansas City (EUA), Roger Waters propõe uma mistura entre clássicos da banda que o tornou um dos grandes ícones da música  mundial, com a soma de temas de "Is this the life we really want?" (2017), seu álbum mais recente. Porém, para quem conhece o ativismo político do artista, e sua permanente flâmula pela garantia dos Direitos Humanos, sabe que as apresentações do músico inglês nunca foram apenas um evento musical dedicado ao inofensivo entretenimento da massa. "Acho surpreendente que alguém possa ter ouvido minhas músicas por 50 anos sem entender [meu posicionamento]", respondeu. Inclusive, o baixista dá uma alternativa aos fãs que não concordam com seu ponto de vista: "Vejam o show da Katy Perry (...) Eu não me importo".  Desse modo, uma das pertinentes flamas ideológicas da turnê Us + Them é o alerta contra a permanente ameaça do fascismo em diferentes partes do mundo. Um exemplo dessa ação no escopo do evento está simbolizada nas duras críticas ao governo de Donald Trump. 

Foto: Fábio Codebilla
Aqui no Brasil, Roger Waters colocou no telão frontal do palco, o nome do até então candidato, e hoje presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, numa lista de fascistas mundiais. Assim, dividiu opiniões. Além do mais, exibiu a hastag #elenão, um dos principais emblemas oposicionistas ao candidato do PSL. Ganhou mais vaias do que aplausos. Em Salvador, homenageou Mestre Moa do Katendê, morto numa discussão política; no Rio de Janeiro, recebeu no palco a filha, a irmã e a viúva de Marielle Franco, vereadora carioca assassinada em março desse ano. E, também, manteve seu posicionamento fora do palco, em entrevistas a importantes veículos de comunicação do país.

Foto: Fábio Codevilla
Num encontro registrado em vídeo, debateu com Caetano Veloso e categoricamente reafirmou seu temor pela escolha do novo governante do maior país da América Latina: "Tudo o que posso dizer [aos eleitores de Bolsonaro] é que eles deveriam se lembrar de 1933. Eu tenho certeza de que pessoas boas também votaram em Adolf Hitler. E foram eleições democráticas. E quando Hitler chegou ao poder, os alemães assistiram ao incêndio do Reichstag e de repente tudo mudou. (...) Só havia os uniformes marrons e vingança!", alertou na entrevista ao Canal Mídia Ninja.   

Foto: Fábio Codevilla
Em Curitiba, um dia antes do segundo turno das eleições, a Justiça Eleitoral do Paraná mandou advertir a produção do evento sobre as restrições eleitorais que passariam a valer a partir das 22h, exatamente 1h após o início da apresentação no Estádio Couto Pereira. O que aconteceu? 21h59min, uma mensagem surge no telão: "Temos 30 segundos. É nossa última chance de resistirmos ao fascismo antes de Domingo. Ele não! São 10h, obedeçam a lei". Nada como a irreverência inglesa. De todo o modo, Bolsonaro foi eleito, e o show em Porto Alegre passou a ganhar todas as atenções por ser o último show do tour em terras brasileiras, e o único fora do pleito eleitoral. Restava saber como seria o comportamento do músico. 

NÓS E ROGER WATERS / O SHOW EM PORTO ALEGRE - A apresentação em Porto Alegre começa pontualmente às 21h, e acabaria 2h25 depois, sendo a mais curta das oito que Waters fez no país. Tudo é impressionante na estrutura do evento. Para começar, um palco de 750m²; porcos voadores; réplicas das chaminés da termoelétrica de Battersea, em Londres; projeções que usam tecnologia de ponta; 17 projetores de 30K; cinco projetores de 7K para as monstruosas chaminés e mais uma imensa tela de LED de 6k alimentada por 6 feeds; o mair telão frontal HD que você já viu na vida com resolução de 32 Mpixels, ou seja - uma parafernália tecnológica que deixa o público de queixo caído, além de potencializar todas as sensações de estar frente a um dos repertórios mais celebrados do rock em todos os tempos. Só para o porco voador, 48 câmeras e 12 Copernics seguem e iluminam um dos momentos mais esperados do evento. O animal inflável sobrevoa a plateia utilizando a tecnologia de um drone, materializando assim uma recriação da capa de "Animals" (1977). 

Logo nos segundo iniciais, com a introdução de "Speak to me", temos a certeza de que avançamos a passos largos rumo ao território floydiano: - som de relógios e máquina registradora; retalhos de falas e risadas; batidas de coração simuladas por um loop do bumbo de Nick Mason - efeitos sonoros com pontos de áudio espalhados por todo estádio, experiência quadrafônica que antecipa "Breath", sequência de abertura de "Dark side of the moon" (1973). Por mais que todos os olhos se voltem para o protagonista, não há como não mencionar os acompanhantes de Roger Waters. No grupo base, o velho colaborador Jon Carin (piano, teclados, programações, guitarra e vocais); David Kilminster - guitarra e baixo; Gus Seyffert - guitarra, baixo e vocais; Jonathan Wilson - guitarra, baixo e vocais; Bo Koster - piano e teclados;   Ian Ritchie - saxofone; Joey Waronker - bateria; além de Jess Wolfe e Doris Laessig (vocais de apoio e percussão). 

Foto: Fábio Codevilla
A massa sonora empurrada por esse super-time emula o espírito de um Pink Floyd na ponta dos cascos. É o que vemos em "Time", antecipada pelos badalos, despertadores e o compassado tiquetaquear de um relógio, DNA típico do quarteto Waters/Gilmour/Wright/Mason. Se você leu em algum lugar manchetes do tipo "Roger Waters mergulha em política e se esconde em banda cover de Pink Floyd", não se engane. É muito mais do que isso. Além de todo o aparato tecnológico, o que realmente importa é o somatório da proficiência técnica, com um dos melhores shows da atualidade no rock, um repertório emocionante e a sensação de que um DVD está sendo filmado ao vivo frente aos nossos olhos incrédulos.

Foto: Fábio Codevilla
A versão de "The great gig in the sky", um dueto entre as vocalistas de apoio da banda, traz novo sopro a versão original de Clare Torry. As canções do novo álbum solo, "Is this the life we really want?" dialogam perfeitamente com o vernáculo emocional de seus clássicos. Temas como "Déjà Vu", "The Last Refugee", "Picture That" e "Smell the roses" se entrelaçam esteticamente aos standards do Pink.       

Conforme o cronograma habitual da turnê Us + Them, as principais manifestações políticas se detiveram as menções a Donald Trump e pedidos por resistência e ativismo. Num dos importantes momentos da noite, em "Another Brick in the Wall, Part 2", doze crianças do projeto Ouviravida (Porto Alegre), encapuzadas sobem ao palco com macacões laranjas, e durante o refrão da música, retiram o capuz para logo depois exibirem camisetas pretas com a palavra "Resist". Não houve menções diretas/indiretas a Bolsonaro, nem mesmo a hashtag #elenão surgiu no telão, dessa vez Waters resolveu diluir sua linha de protesto dentro do caldeirão geral. Para bom entendedor... Uma curiosidade: na capital gaúcha, Jair Bolsonaro teve 56,85% dos votos válidos, contra 43,15% de Fernando Haddad, mesmo assim, entre os 44 mil espectadores presentes, foram os gritos de "ele não" que soaram mais fortes no Beira-Rio.

Foto: Fábio Codevilla
Durante o intervalo de 15 minutos, o telão nos mantém conectados ao palco através de mensagens de alerta a violações de direitos humanos. De súbito, a usina termelétrica de Battersea surge imponente com chaminés fumegantes, ao mesmo tempo em que uma chuva fina traça riscos em frente as luzes do palco. Trata-se do momento mais político da noite, com "Dogs" e "Pigs", explícitas missivas endereçadas a Trump. Enquanto isso, o porco voador com as palavras 'Stay Human/Seja Humano' sobrevoa a pista em frente ao palco, imagens que nos levam de volta ao álbum "Animals" (1977). "Money" e "Us and Them" revelam o talento de Jonathan Wilson, que além de reprisar várias das guitarras de David Gilmour, também é o responsável por incorporar o estilo de sua interpretação. Os dois temas ainda contam com o saxofone de Ian Ritchie.

Chegando a ponta de baixo do set, o show chega aos seus instantes finais com o epílogo de "Dark side of the moon", o medley "Brain Damage/Eclipe". A chuva se intensifica, a equipe do tour cobre os equipamentos e arma pequenos toldos para proteger os músicos. Desse modo, a chuva encurta a apresentação. Roger anuncia que por cautela, algumas músicas precisam sair do o set. Assim, deixamos de ouvir "Mother" (ou "Two suns in the sunset"). "Confortably Numb", um dos temas símbolo de "The Wall" é o ato conclusivo da apresentação. "De coração, obrigado! Cuidem uns dos outros. And good night". 

Durante "Money", talvez muitos não tenham percebido, o telão exibiu a frase: "Vocês não venceram, no seu mundo nunca há vencedores, só perdedores, e todos perdemos", uma mensagem que talvez tenha passado rápido demais para maus entendedores. Saio do Beira-Rio com a sensação de que acabo de assistir um dos melhores shows da minha existência. Um temporal despenca pelas ruas da capital. Tomo um depurativo banho de chuva a caminho do ônibus que me levará de volta para Santa Maria. Literalmente, de alma lavada com o Outubro Vermelho, pois temos a consciência tranquila de que fizemos nossa parte. E Roger estava do nosso lado. Fica a certeza de que toda luta é válida, que a derrota sempre nos ensina a ficarmos ainda mais fortes, que há convicção quando estamos alinhados a valores que nunca nos envergonharão.   

A turnê conclui sua perna sul-americana no Uruguai (3), Argentina (6 e 9), Chile (14), Peru (17) e Colômbia (21). O último show em 2018 está agendado para o dia 8 de dezembro, em Monterrey, no México. Ainda sobre o show de Roger Waters em Porto Alegre, nossos agradecimentos a Jéssica Barcellos e Cátia Tedesco (Agência Cigana) pelo suporte e credenciamento.       



Set 1:

Speak to Me
Breathe
One of These Days
Time
Breathe (Reprise)
The Great Gig in the Sky
Welcome to the Machine
Déjà Vu
The Last Refugee
Picture That
Wish You Were Here
The Happiest Days of Our Lives
Another Brick in the Wall Part 2
Another Brick in the Wall Part 3

Set 2:

Dogs
Pigs (Three Different Ones)
Money
Us and Them
Smell the Roses
Brain Damage
Eclipse
Comfortably Numb


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2 comentários:

  1. Excelente resenha! Foi tudo isso mesmo e muito mais! Ressalto que, em Money, foram exibidas as frases (mais ou menos assim, ao que lembro): "Vocês não venceram, no seu mundo nunca há vencedores, só perdedores, e todos perdemos"! Como você ressaltou, "para bom entendedor..."

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