quinta-feira, 9 de julho de 2009

WILLIE 'BIG EYES' SMITH - SANTA MARIA, 8 DE JULHO DE 2009


Foto: Fabiano Dallmayer
Review Márcio Grings Fotos Fabiano Dallmeyer

Caça-niqueis. Você já ouviu essa expressão ligada a tours de artistas da música internacional. A atividade de amaciar botas novas na estrada, muitas vezes sublima a qualidade artística e coloca outras prioridades na pauta. Quando o sucesso ou as vendagens dos discos prescrutam por uma indesejada curva descendente, por conseguinte, sempre fica mais difícil pagar as contas. Óbvio, isso já aconteceu centenas de vezes. Afinal, a vicissitude é uma das características da vida de cada um de nós. Relembrando apenas um lendário caso no rock mundial, após oficializar o divórcio com sua primeira esposa, Bob Dylan fez exatamente isso em 1978 - saiu numa turnê caça-niqueis para pagar as contas. E quando colocamos um outro ingrediente nessa reflexão, olhando para aquela turma que atua fora da primeira divisão do mainstream, há um interessante detalhe associado as inúmeras vindas de artistas de fora rumo a América do Sul: - a decadência. 

Foto: Fabiano Dallmeyer
Desde a segunda metade dos anos 1980, antes esquecidos do roteiro de shows, países como Brasil, Argentina e Chile passaram a frequentar o cronograma dessas digressões. E assim, segundo a visão de muitos, o declínio artístico denota uma amplitude ainda maior dessa migração. É fato, em muitos casos, é exatamente isso o que acontece. A antes despreparada América do Sul, de repente começou a oferecer condições para eventos musicais de pequeno, médio e grande porte. E se a fonte secou nas terras do leite e do mel, nada como descer o continente e entender como as coisas funcionam fora do american way of life. Foi o que fizeram dezenas de bluesman norte americanos. Alguns em baixa na carreira, outros não.    

Foto: Fabiano Dallmeyer
E mesmo distante centenas de quilômetros das grandes metrópoles do país, o projeto Na Rota do Blues, traz a Santa Maria Willie ‘Big Eyes’ Smith, músico norte-americano que desceu até o RS para mostrar o seu trabalho. O veterano de 73 anos está em sua primeira visita ao Brasil. Na agenda pelo Estado, ele também faz apresentações em Porto Alegre e Caxias do Sul. 

Divulgação Rota 1 
Alguém pode se perguntar, 'mas afinal, quem é esse tal de Big Eyes?'. Com mais de meio século de estrada, Willie 'Big Eyes' Smith já tocou com nomes consagrados do gênero. Nos anos 1960, entrou para a banda de Muddy Waters, onde atuou como baterista até praticamente o final da vida de uma das maiores lendas do blues em todos os tempos. Com ele gravou "They Call Me Muddy Waters" (1970), Hard Again (1977), I'm Ready (1978) e o álbum ao vivo "Muddy "Mississippi" Waters" (1981). Porém, bem antes disso, longe do chapéu de Muddy, Big Eyes já tinha rodado um bocado. Aos 17 anos começou a tocar profissionalmente harmônica. E ao passar dos anos, performou ao lado de grandes artistas, lendas como Bo Diddley, entre tantos outros. Em 1980, participou do filme "The Blues Brothers", onde aparece tocando bateria na banda de John Lee Hooker. Veja AQUI

Inquieto, aproveitando o hiato entre uma session e outra, Big Eyes ainda formou sua própria banda, a “The Legendary Blues Band”. No elenco, "Pinetop" Perkins, Louis Myers, Calvin Jones e Jerry Portnoy. O sucesso dessa reunião fez com que o grupo partipasse de vários tours abrindo apresentações para gigantes da música internacional, como Rolling Stones e Eric Clapton. E em que estágio de sua carreira chega Willie 'Big Eyes' Smith até Santa Maria? O músico acaba de gravar "Born in Arkansas" (2008), seu sexto álbum solo, e base do show que acontecerá no Rota 1 (rótula da Ângelo Bolson). Como baterista, Big Eyes levou 10 vezes o Blues Music Awards, principal prêmio do gênero nos Estados Unidos. Já foi capa da revista Living Blues, mesma publicação que o coloca na atual relação dos melhores gaitistas de 2009. O nome do vencedor sai no próximo mês. Fato: Big Eyes está longe ser um dos nomes decadentes do gênero, pelo contrário, se reinventou, novamente está produzindo álbuns e agora toca em frente uma interessante numa carreira solo.

Willie Big Eyes no Rota 1 em SM. Veja um trecho da apresentação: "Read way back" (Muddy Waters).


E o inverno santa-mariense nos dá de presente um 8 de Julho cinza e úmido, mas apesar disso, um ótimo público prestigia a apresentação. Big Eyes tem a companhia da Blues Special Band - Cristiano Ferreira (guitarra), Leonardo Dignar (baixo) e Adrian Flores (bateria). Participação especial de Gaspo Harmônica (gaita de boca). No setlist, além de suas canções solo, standards repassados de geração para geração, temas como "Don't say that no more" (Jimmy Reed),  "Don't start me talking (Sonny Boy Williamson) e "Read way back" (Muddy Waters). Destaque para canções de lida própria, faixas como "When I left", "Ain't that shame", "Dreamin'", "Woman's world", e a espetacular "Sitting here drinking", números que revelam uma definitiva imersão pelo Chicago blues, relatos sonoros que o tornaram um autêntico representante de um dos cenários mais importantes do gênero.

Veja uma trecho da apresentação - "Long distance call" (Muddy Waters).  Captação: Fabiano Dallmeyer.



Big Eyes canta com uma voz impressionante, sopra sua gaita de boca na mesma linhagem dos grandes mestres desse instrumento símbolo do blues e ainda toca bateria ao final da apresentação. E quando ele segura as baquetas em "Got my mojo working" e "Hoochie coochie man", brota nesse desempenho toda a ginga de um artista escolado, um profissional que atuou como sideman de importantes artistas do nosso tempo. É como se ele materializasse a epifania de representar o revival dos antigos bluesman. Frente aos nossos olhos, fantasmas de seus antepassados artísticos sobrevoam o palco e nossas cabeças. Tenho a nítida percepção de essa é a primeira noite em que encaro olhos nos olhos toda a crueza mítica do gênero. A figura de Big Eyes e seus movimentos em frente à bateria imprimem uma perfeita lembrança da autenticidade de toda essa jornada musical.   

O sorriso de Big Eyes poucos minutos antes do show em Santa Maria. Foto: Fabiano Dallmeyer
Antes do início do show, em conversa informal no camarim do bar, Willie nos conta que está finalizando um álbum inédito com Pinetop Perkins, com lançamento previsto para o mês de agosto. Aguardemos os próximos capítulos dessa trajetória fantástica! Na Rota do Blues é uma promoção do Diário de Santa Maria e Itapema FM. A realização é do Rota 1 Bar e Restaurante. O próximo nome gringo a pisar no estado é o guitarrista John Primer. O norte-americano aporta no RS no próximo mês de setembro. 

Big Eyes com o Grammy
Atualização (setembro de 2011): Willie "Big Eyes" Smith morreu em 16 se Setembro de 2011, aos 75 anos, em decorrência de um derrame. Ele deixou 11 filhos e a esposa Ilene. Pinetop Perkins, com quem gravou o álbum "Joined at the hip", já havia nos deixado seis meses antes, aos 97 anos. O tal álbum em parceria feito entre dois ex-integrantes da banda de Muddy Waters, o disco que Big Eyes nos relatou nos bastidores do evento em Santa Maria, realmente é lançado no mês seguinte. Tornou-se o maior sucesso comercial de sua carreira, pois apenas sete meses após o show no Rota 1, "Joined at the hip" ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Blues de 2010. "Para dizer a verdade, neste momento estou me sentindo um dos homens mais felizes do mundo", declarou o velho bluesmam, poucos instantes após receber uma das maiores láureas da música mundial. 

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