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| | Foto: Prensa | |
Antes do fim do estado das coisas, o último sopro dos velhos
tempos. The last men standing. Bem sabemos, a fileira das lendas vivas
aos poucos diminui. Os mais fortes, resilientes ou sortudos seguem avançando em
pleno século XXI, tempos em que o modelo adotado pelo rock e pela indústria
musical no século anterior foi implodido. E, partindo desse recorte específico
de época — people are crazy and times are strange —, cá estamos em
Buenos Aires, no Movistar Arena, em uma das capitais mundiais do rock.
A capa do jornal Clarín do dia anterior ao espetáculo
— com duas chamadas relacionadas ao rock — revela um território onde o gênero
ainda é a bola da vez: "Un Stone suelto en Buenos Aires" e "El
Papa, con un Nobel encapuchado". Sim, Ron Wood está na capital argentina. Enquanto isso, o bardo encontrou o Santo Padre. E não há distopia alguma em nenhuma das
notícias.
Se os Rolling Stones não estão na estrada, Ronnie tem a
alforria para girar pelo mundo com o quinhão que lhe pertence. A etapa europeia
da turnê Fearless teve uma dúzia de apresentações entre julho e
setembro. Chegamos a novembro, depois de passar por São Paulo (1°), Buenos Aires recebe mais um
compromisso sul-americano, seguido por Rosário (8) e Santiago (10). A gig pega
carona no álbum duplo Fearless: Anthology 1965–2025 e traça um panorama de seis
décadas da trajetória de Ronnie — baixista no Jeff Beck Group, guitarrista no
Faces e nos Stones e, disparado, uma das figuras mais carismáticas do rock
britânico. Mais do que uma coletânea de sucessos, o disco revisita sua formação
musical até a consagração, passando por sete álbuns solo. Mais do que uma turnê
qualquer, eis a oportunidade de ver um Stone em carreira solo, num espetáculo
que atesta sua notoriedade e talento. EEsta é sua primeira
apresentação solo na Argentina, país onde já desembarcou tantas vezes com a
Nave-Mãe.
O SHOW
Às 20h em ponto, a banda de Juan Sebastián
"Juanse" Gutiérrez, os Ratones Paranoicos, incendeia o público com 35
minutos de clássicos do rock argentino, executados pela mais argentina das
bandas argentinas. O show de abertura acertou o tiro no alvo. "Ceremonia en el hall", "Ya morí",
"Rock del pedazo", "Vicio" e "Rock del gato" soam
como hinos nacionais do cânone cantado em espanhol. Uma curiosidade: para muitos, Pablo
"Sarcófago" Cano (guitarra e vocais de apoio) até lembra fisicamente
Mick Taylor — ou uma estátua de cera barata do ex-guitarrista dos Stones. Foi um
breve e ótimo aquecimento para o que viria em instantes. Os Ratones conhecem
como poucos o dialeto stoneano e, diante de uma plateia que também o domina,
não precisaram de grandes apresentações.
Passados dois minutos das 21h, Ronnie entra dançando e agitando no palco e obviamente é ovacionado. IT'S ONLY ROCK 'N' ROLL (BUT I LIKE IT) é um cartão de visitas biográfico e legítimo. Embora seja um dos maiores clássicos dos Stones, a gênese da música passa diretamente por Wood: a primeira gravação foi feita em sua casa em Londres nos anos 1970, The Wick, antes de Wood ser oficialmente um Rolling Stone. Mick Jagger e Keith Richards participaram das sessões do primeiro LP solo de Ronnie na mesma época. Portanto, o guitarrista pode reivindicar partículas do DNA dessa música sem precisar roubar o sobrenome Jagger-Richards. As letras miúdas dessa história sugerem que "It's Only Rock 'n' Roll" também carrega um pedaço da assinatura de Wood, embora os créditos oficiais digam outra coisa. Nada mais justo que o show comece justamente nesse encontro. O Movistar Arena, lotado, ondula em uníssono no país onde os Stones sempre estiveram em casa.
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| Foto: Martin Bonetto |
TAKE IT EASY, canção de Hopeton Lewis, clássico
jamaicano do rocksteady, reaparece agora em Fearless e casa
perfeitamente com a estética da obra de Ronnie, que canta emulando os trejeitos
jamaicanos, com a boca fofa, como um ancião sem a dentadura, aparentemente
displicente, mas repleto de malandragem. Seu registro nasal, por vezes próximo
ao de Bob Dylan, parece especialmente adequado a esse tipo de repertório. FLYING,
primeiro Faces da noite, joga luz sobre CHANEL HAYNES. A cantora
norte-americana ganhou projeção no trio gospel/R&B Trin-i-tee 5:7 e
interpretou Tina Turner no musical londrino dedicado à cantora. Em 2022,
estreou com os Rolling Stones cantando "Gimme Shelter" na estrada,
retornando à banda na Hackney Diamonds Tour (2024). Chanel é uma cantora
impressionante. Não apenas canta: atua. Tem uma expressão corporal completa no
palco e, mesmo quando está em silêncio, ocupa um espaço dramático como atriz no
percurso do espetáculo.
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| Foto: Martin Bonetto |
Em REMEMBER (WALKING IN THE SAND), releitura das
Shangri-Las, temos uma ótima escolha para costurar o repertório e apresentar
uma atração especial. A introdução parece se estender além do previsto. Ronnie
procura com o olhar, nas laterais do palco, a artista convidada da turnê,
prolonga os primeiros acordes e logo surge a atrasada e sorridente IMELDA MAY. A cantora
irlandesa transita entre rockabilly, blues, jazz e soul. Sua ligação com Ronnie
Wood vem da admiração mútua pelo blues e pelo rock clássico, que os levou a
dividir palcos e gravações. Há uma cumplicidade evidente entre os dois.
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| Foto: Martin Bonetto |
BABY WHAT YOU WANT ME TO DO, clássico de Jimmy Reed,
é um daqueles blues revirados mil vezes por uma legião de artistas e, aqui,
surge com os desenhos vocais de Imelda e Chanel. A interpretação não busca
reinventar a roda, apenas fazê-la girar como nos melhores tempos. É o tipo de
música que explica boa parte da formação musical de Ronnie e de sua geração,
quando um blues vindo do outro lado do Atlântico podia mudar definitivamente a vida
de um adolescente britânico.
MYSTIFIES ME é certamente uma das marcas mais
poderosas da carreira de Ronnie. Ela se distancia do espírito festeiro e
desregrado da persona do guitarrista. É uma canção confessional, marcada por um
sentimento de perplexidade diante do amor — como se Wood, acostumado a lidar
com a confusão de uma vida desregrada, finalmente encontrasse algo que não consegue explicar.
A versão do Movistar Arena ganha ares gospel com os contornos vocais de Chanel
e Imelda, o que empresta um sabor das vozes femininas de Exile on Main St.
(1972). Há certa solenidade nesse momento, um intervalo de delicadeza em meio à
festa. Vejo lágrimas entre os próximos. Logo depois a bola quica mais alto com RIVER DEEP, MOUNTAIN HIGH, o momento
mais impactante de Chanel Haynes, quando ela consegue evocar Tina Turner com
uma eficiência invejável e emocionante. Não se trata apenas de potência vocal,
mas de presença cênica, de saber conduzir uma música monumental sem ser
esmagada por sua própria história.
No início de SHOW ME, Ronnie chega a adiar a entrada
da música porque o público insiste em vocalizar o riff de
"Satisfaction". O guitarrista observa a manifestação, diverte-se e
deixa a torcida cantar. É uma daquelas situações que só acontecem num país onde
o repertório dos Stones adquiriu uma espécie de cidadania própria. "Show
Me" é uma das peças mais perfeitas de sua discografia solo e cai como uma
luva no contexto do espetáculo, reafirmando que existe uma obra relevante de
Ron Wood para além dos grupos que ajudou a construir.
COUNTRY HONK e CAN'T YOU HEAR ME KNOCKING são
Stones anteriores à entrada de Ronnie. Isso é curioso. "Country Honk"
vem de Let It Bleed (1969), e "Can't You Hear Me Knocking", de
Sticky Fingers (1971). Portanto, Wood está tratando o catálogo dos
Stones como parte de sua própria história musical, e não apenas tocando músicas
das quais participou originalmente. Em "Country Honk", o público
argentino assume com entusiasmo o coro da canção, transformando o tema numa
celebração coletiva. Já "Can't You Hear Me Knocking" é um dos grandes
momentos instrumentais da noite. Em vez de tentar reproduzir literalmente a
monumental intervenção de Mick Taylor na gravação original, Ron Wood encontra outro
caminho, abrindo espaço para uma dinâmica de guitarra, ginga e harmônica que
preserva a tensão da música sem transformá-la numa cópia de museu. É o tipo de
escolha que revela inteligência musical e respeito pelo passado.
OOH LA LA, parceria de Ronnie Lane com Wood, é um
extrato precioso do álbum homônimo e uma das músicas que se tornaram símbolos
do Faces. A versão da turnê é mais relaxada, amparada pelos vocais de Chanel e
Imelda e sombreada pelo coro do público argentino. Há uma simplicidade
desarmante nessa canção, uma melancolia escondida sob uma melodia aparentemente
despretensiosa. Talvez seja um dos momentos em que a passagem do tempo se
manifeste de maneira mais sensível: o jovem que cantava sobre a sabedoria dos
velhos agora ocupa, ele próprio, esse lugar. Ronnie a canta com orgulho e num tom devocional.
CHAIN OF FOOLS, clássico do soul consagrado por Aretha Franklin, devolve o protagonismo às vozes femininas, com uma interpretação que combina reverência e vigor. O repertório segue revelando as diferentes camadas da formação de Wood, transitando pelo blues, pelo soul e pelo R&B sem perder o eixo do rock'n'roll. Do mesmo modo referente às suas origens, BOOGIE DISEASE, um blues de pegada boogie, recupera as pedras fundamentais que ajudaram a forjar Ronnie como guitarrista. É o tipo de música que o remete aos primeiros encontros com o blues elétrico, quando o ritmo, a repetição e a sujeira dos amplificadores valiam tanto quanto qualquer virtuosismo.
Em I CAN FEEL THE FIRE, do primeiro álbum solo, o encontro
entre o balanço roqueiro e a influência jamaicana ajuda a explicar como Ronnie
desenvolveu uma linguagem própria, sempre atravessada por músicos e estilos
diferentes. O mesmo espírito aparece em OUTLAWS, um rock de inspiração
chuckberriana, daqueles que recuperam as pedras fundamentais de sua formação
como guitarrista. Wood toca como alguém que conhece a gramática do gênero e, por isso mesmo, pode revirar ao seu modo as páginas dessa cartilha.
No bis, Ron Wood retorna com a camisa da seleção argentina,
apenas ele e a guitarra. Nem é preciso mencionar a reação do público. Nesse recorte final, o guitarrista faz uma espécie de mashup
com riffs e temas de sua história como músico, recuperando timbres e desenhos
que remetem à época do Faces, como em "That's All You Need", para
chamar na chincha DUST MY BROOM, clássico de Elmore James. É quase uma
pequena autobiografia executada nas seis cordas, sem discursos, notas de rodapé ou explicações.
Na sequência, um trecho de GASOLINE ALLEY, de Rod Stewart, recupera outro capítulo
essencial daquela Londres em que rock, folk e blues dividiam o mesmo balcão de
bar.
Coladas uma a outra, o pacote se encerra com toda a banda e as vocalistas em STAY
WITH ME, um dos grandes hinos do Faces, escrito por Ronnie Wood e Rod
Stewart. A execução preserva a identidade original, sua urgência e seus
irresistíveis atropelos rítmicos. ANDY WALLACE, nos teclados, recupera
os desenhos e as viradas que remetem diretamente ao que foi gravado em A Nod Is as Good as a
Wink... to a Blind Horse (1971), o melhor registro de estúdio do Faces. Em
"Stay With Me", todos encontram seu lugar numa celebração coletiva,
com a banda acelerando rumo ao desfecho e o público respondendo à altura.
Ronnie Wood conseguiu transformar a noite desta sexta-feira em uma síntese de sua vida artística, costurando influências, personagens e canções com a naturalidade de quem ainda encontra prazer em cada palhetada na sua guitarra. Buenos Aires, onde o Stone parece sentir-se em casa, ofereceu o cenário perfeito: uma plateia calorosa, uma banda extraordinária e uma daquelas noites em que tudo parece estar no lugar certo. Fica agora a expectativa pelo lançamento de um álbum ao vivo da turnê, que vem sendo devidamente registrada. Afinal, enquanto a fileira das lendas vivas diminui, alguns dos últimos sobreviventes seguem nos lembrando de que o rock ainda encontra público e interesse no Século XXI. Um sopro dos velhos tempos em dias onde tudo soa tão insosso. Grato, Ronnie e Ammo Band!





