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sábado, 7 de novembro de 2026

RONNIE WOOD — BUENOS AIRES, 6 DE NOVEMBRO DE 2026

| Foto: Prensa |
| De Buenos Aires, Márcio Grings |

Antes do fim do estado das coisas, o último sopro dos velhos tempos. The last men standing. Bem sabemos, a fileira das lendas vivas aos poucos diminui. Os mais fortes, resilientes ou sortudos seguem avançando em pleno século XXI, tempos em que o modelo adotado pelo rock e pela indústria musical no século anterior foi implodido. E, partindo desse recorte específico de época — people are crazy and times are strange —, cá estamos em Buenos Aires, no Movistar Arena, em uma das capitais mundiais do rock.

A capa do jornal Clarín do dia anterior ao espetáculo — com duas chamadas relacionadas ao rock — revela um território onde o gênero ainda é a bola da vez: "Un Stone suelto en Buenos Aires" e "El Papa, con un Nobel encapuchado". Sim, Ron Wood está na capital argentina. Enquanto isso, o bardo encontrou o Santo Padre. E não há distopia alguma em nenhuma das notícias.

Se os Rolling Stones não estão na estrada, Ronnie tem a alforria para girar pelo mundo com o quinhão que lhe pertence. A etapa europeia da turnê Fearless teve uma dúzia de apresentações entre julho e setembro. Chegamos a novembro, depois de passar por São Paulo (1°), Buenos Aires recebe mais um compromisso sul-americano, seguido por Rosário (8) e Santiago (10). A gig pega carona no álbum duplo Fearless: Anthology 1965–2025 e traça um panorama de seis décadas da trajetória de Ronnie — baixista no Jeff Beck Group, guitarrista no Faces e nos Stones e, disparado, uma das figuras mais carismáticas do rock britânico. Mais do que uma coletânea de sucessos, o disco revisita sua formação musical até a consagração, passando por sete álbuns solo. Mais do que uma turnê qualquer, eis a oportunidade de ver um Stone em carreira solo, num espetáculo que atesta sua notoriedade e talento. EEsta é sua primeira apresentação solo na Argentina, país onde já desembarcou tantas vezes com a Nave-Mãe.


O SHOW

Às 20h em ponto, a banda de Juan Sebastián "Juanse" Gutiérrez, os Ratones Paranoicos, incendeia o público com 35 minutos de clássicos do rock argentino, executados pela mais argentina das bandas argentinas. O show de abertura acertou o tiro no alvo. "Ceremonia en el hall", "Ya morí", "Rock del pedazo", "Vicio" e "Rock del gato" soam como hinos nacionais do cânone cantado em espanhol. Uma curiosidade: para muitos, Pablo "Sarcófago" Cano (guitarra e vocais de apoio) até lembra fisicamente Mick Taylor — ou uma estátua de cera barata do ex-guitarrista dos Stones. Foi um breve e ótimo aquecimento para o que viria em instantes. Os Ratones conhecem como poucos o dialeto stoneano e, diante de uma plateia que também o domina, não precisaram de grandes apresentações.

Passados dois minutos das 21h, Ronnie entra dançando e agitando no palco e obviamente é ovacionado. IT'S ONLY ROCK 'N' ROLL (BUT I LIKE IT) é um cartão de visitas biográfico e legítimo. Embora seja um dos maiores clássicos dos Stones, a gênese da música passa diretamente por Wood: a primeira gravação foi feita em sua casa em Londres nos anos 1970, The Wick, antes de Wood ser oficialmente um Rolling Stone. Mick Jagger e Keith Richards participaram das sessões do primeiro LP solo de Ronnie na mesma época. Portanto, o guitarrista pode reivindicar partículas do DNA dessa música sem precisar roubar o sobrenome Jagger-Richards. As letras miúdas dessa história sugerem que "It's Only Rock 'n' Roll" também carrega um pedaço da assinatura de Wood, embora os créditos oficiais digam outra coisa. Nada mais justo que o show comece justamente nesse encontro. O Movistar Arena, lotado, ondula em uníssono no país onde os Stones sempre estiveram em casa.

Foto: Martin Bonetto
AM I GROOVING YOU não é uma simples releitura, mas um dos ápices do repertório solo de Ronnie. A original é de Freddie Scott, porém Wood a gravou em I've Got My Own Album to Do (1974), numa versão com Mick Jagger, Keith Richards, Ian McLagan, Willie Weeks e Andy Newmark. A presença de WILLIE WEEKS, conhecido pelo groove refinado e pela extraordinária versatilidade, salta aos olhos e ouvidos. Ele toca sorrindo e flutuando em "Am I Grooving You", de maneira quase mântrica, como fez em tantas gravações históricas. É um daqueles instrumentistas que parecem não precisar impor absolutamente nada, tudo fui naturalmente nele. 

TAKE IT EASY, canção de Hopeton Lewis, clássico jamaicano do rocksteady, reaparece agora em Fearless e casa perfeitamente com a estética da obra de Ronnie, que canta emulando os trejeitos jamaicanos, com a boca fofa, como um ancião sem a dentadura, aparentemente displicente, mas repleto de malandragem. Seu registro nasal, por vezes próximo ao de Bob Dylan, parece especialmente adequado a esse tipo de repertório. FLYING, primeiro Faces da noite, joga luz sobre CHANEL HAYNES. A cantora norte-americana ganhou projeção no trio gospel/R&B Trin-i-tee 5:7 e interpretou Tina Turner no musical londrino dedicado à cantora. Em 2022, estreou com os Rolling Stones cantando "Gimme Shelter" na estrada, retornando à banda na Hackney Diamonds Tour (2024). Chanel é uma cantora impressionante. Não apenas canta: atua. Tem uma expressão corporal completa no palco e, mesmo quando está em silêncio, ocupa um espaço dramático como atriz no percurso do espetáculo.

Foto: Martin Bonetto
HEY NEGRITA, outro extrato stoneano com as digitais de Wood, uma de suas primeiras contribuições autorais para os Stones, no álbum Black and Blue (1976), agita o público a ponto de fazer toda a arena sacolejar. É interessante perceber como Ronnie atravessa diferentes matizes da música jamaicana durante o espetáculo, do rocksteady de Hopeton Lewis ao reggae-funk incorporado à linguagem dos Stones. Em SEVEN DAYS, música que Bob Dylan entregou de bandeja para Ronnie, o público canta a letra desde os primeiros versos. JOHNNY LEE SCHELL proporciona que Wood inverta os papéis que costuma desempenhar com Keith Richards nos Stones. Dessa vez, é Johnny quem assume boa parte do trabalho pesado, enquanto Ronnie dispara seus acordes de gaveta e se diverte com o público. Johnny iniciou a carreira trabalhando com Norman Petty, produtor de Buddy Holly. Por intermédio do saxofonista Bobby Keys, aproximou-se do universo dos Rolling Stones e Faces. Também construiu uma longa parceria com Bonnie Raitt. Na Ammo Band, é o parceiro perfeito para amarrar as guitarras numa trama em que cada espaço encontra seu encaixe.

Em REMEMBER (WALKING IN THE SAND), releitura das Shangri-Las, temos uma ótima escolha para costurar o repertório e apresentar uma atração especial. A introdução parece se estender além do previsto. Ronnie procura com o olhar, nas laterais do palco, a artista convidada da turnê, prolonga os primeiros acordes e logo surge a atrasada e sorridente IMELDA MAY. A cantora irlandesa transita entre rockabilly, blues, jazz e soul. Sua ligação com Ronnie Wood vem da admiração mútua pelo blues e pelo rock clássico, que os levou a dividir palcos e gravações. Há uma cumplicidade evidente entre os dois.

Foto: Martin Bonetto
YOU'RE SO FINE, dos Falcons, recupera a tradição do R&B que alimentou o rock britânico dos anos 1960, matéria-prima que municiou o jovem Ronnie. É incrível observar a tranquilidade de ANDY NEWMARK, baterista que integrou o Sly & The Family Stone e participou de Fresh (1973), um marco do funk. Seu currículo inclui John Lennon, George Harrison, David Bowie, Pink Floyd, Eric Clapton e Rod Stewart. Assim como Willie Weeks, acompanha a trajetória de Ronnie Wood desde I've Got My Own Album to Do (1974), há mais de meio século. A dupla oferece um alicerce rítmico monumental, capaz de alternar a delicadeza de um soul com a sujeira necessária a um rock de garagem. E tudo isso sem que pareçam fazer qualquer esforço.

BABY WHAT YOU WANT ME TO DO, clássico de Jimmy Reed, é um daqueles blues revirados mil vezes por uma legião de artistas e, aqui, surge com os desenhos vocais de Imelda e Chanel. A interpretação não busca reinventar a roda, apenas fazê-la girar como nos melhores tempos. É o tipo de música que explica boa parte da formação musical de Ronnie e de sua geração, quando um blues vindo do outro lado do Atlântico podia mudar definitivamente a vida de um adolescente britânico.

MYSTIFIES ME é certamente uma das marcas mais poderosas da carreira de Ronnie. Ela se distancia do espírito festeiro e desregrado da persona do guitarrista. É uma canção confessional, marcada por um sentimento de perplexidade diante do amor — como se Wood, acostumado a lidar com a confusão de uma vida desregrada, finalmente encontrasse algo que não consegue explicar. A versão do Movistar Arena ganha ares gospel com os contornos vocais de Chanel e Imelda, o que empresta um sabor das vozes femininas de Exile on Main St. (1972). Há certa solenidade nesse momento, um intervalo de delicadeza em meio à festa. Vejo lágrimas entre os próximos. Logo depois a bola quica mais alto com RIVER DEEP, MOUNTAIN HIGH, o momento mais impactante de Chanel Haynes, quando ela consegue evocar Tina Turner com uma eficiência invejável e emocionante. Não se trata apenas de potência vocal, mas de presença cênica, de saber conduzir uma música monumental sem ser esmagada por sua própria história.

No início de SHOW ME, Ronnie chega a adiar a entrada da música porque o público insiste em vocalizar o riff de "Satisfaction". O guitarrista observa a manifestação, diverte-se e deixa a torcida cantar. É uma daquelas situações que só acontecem num país onde o repertório dos Stones adquiriu uma espécie de cidadania própria. "Show Me" é uma das peças mais perfeitas de sua discografia solo e cai como uma luva no contexto do espetáculo, reafirmando que existe uma obra relevante de Ron Wood para além dos grupos que ajudou a construir.

COUNTRY HONK e CAN'T YOU HEAR ME KNOCKING são Stones anteriores à entrada de Ronnie. Isso é curioso. "Country Honk" vem de Let It Bleed (1969), e "Can't You Hear Me Knocking", de Sticky Fingers (1971). Portanto, Wood está tratando o catálogo dos Stones como parte de sua própria história musical, e não apenas tocando músicas das quais participou originalmente. Em "Country Honk", o público argentino assume com entusiasmo o coro da canção, transformando o tema numa celebração coletiva. Já "Can't You Hear Me Knocking" é um dos grandes momentos instrumentais da noite. Em vez de tentar reproduzir literalmente a monumental intervenção de Mick Taylor na gravação original, Ron Wood encontra outro caminho, abrindo espaço para uma dinâmica de guitarra, ginga e harmônica que preserva a tensão da música sem transformá-la numa cópia de museu. É o tipo de escolha que revela inteligência musical e respeito pelo passado.

OOH LA LA, parceria de Ronnie Lane com Wood, é um extrato precioso do álbum homônimo e uma das músicas que se tornaram símbolos do Faces. A versão da turnê é mais relaxada, amparada pelos vocais de Chanel e Imelda e sombreada pelo coro do público argentino. Há uma simplicidade desarmante nessa canção, uma melancolia escondida sob uma melodia aparentemente despretensiosa. Talvez seja um dos momentos em que a passagem do tempo se manifeste de maneira mais sensível: o jovem que cantava sobre a sabedoria dos velhos agora ocupa, ele próprio, esse lugar. Ronnie a canta com orgulho e num tom devocional. 

CHAIN OF FOOLS, clássico do soul consagrado por Aretha Franklin, devolve o protagonismo às vozes femininas, com uma interpretação que combina reverência e vigor. O repertório segue revelando as diferentes camadas da formação de Wood, transitando pelo blues, pelo soul e pelo R&B sem perder o eixo do rock'n'roll. Do mesmo modo referente às suas origens, BOOGIE DISEASE, um blues de pegada boogie, recupera as pedras fundamentais que ajudaram a forjar Ronnie como guitarrista. É o tipo de música que o remete aos primeiros encontros com o blues elétrico, quando o ritmo, a repetição e a sujeira dos amplificadores valiam tanto quanto qualquer virtuosismo. 

Em I CAN FEEL THE FIRE, do primeiro álbum solo, o encontro entre o balanço roqueiro e a influência jamaicana ajuda a explicar como Ronnie desenvolveu uma linguagem própria, sempre atravessada por músicos e estilos diferentes. O mesmo espírito aparece em OUTLAWS, um rock de inspiração chuckberriana, daqueles que recuperam as pedras fundamentais de sua formação como guitarrista. Wood toca como alguém que conhece a gramática do gênero e, por isso mesmo, pode revirar ao seu modo as páginas dessa cartilha.

No bis, Ron Wood retorna com a camisa da seleção argentina, apenas ele e a guitarra. Nem é preciso mencionar a reação do público. Nesse recorte final, o guitarrista faz uma espécie de mashup com riffs e temas de sua história como músico, recuperando timbres e desenhos que remetem à época do Faces, como em "That's All You Need", para chamar na chincha DUST MY BROOM, clássico de Elmore James. É quase uma pequena autobiografia executada nas seis cordas, sem discursos, notas de rodapé ou explicações. Na sequência, um trecho de GASOLINE ALLEY, de Rod Stewart, recupera outro capítulo essencial daquela Londres em que rock, folk e blues dividiam o mesmo balcão de bar.

Coladas uma a outra, o pacote se encerra com toda a banda e as vocalistas em STAY WITH ME, um dos grandes hinos do Faces, escrito por Ronnie Wood e Rod Stewart. A execução preserva a identidade original, sua urgência e seus irresistíveis atropelos rítmicos. ANDY WALLACE, nos teclados, recupera os desenhos e as viradas que remetem diretamente ao que foi gravado em A Nod Is as Good as a Wink... to a Blind Horse (1971), o melhor registro de estúdio do Faces. Em "Stay With Me", todos encontram seu lugar numa celebração coletiva, com a banda acelerando rumo ao desfecho e o público respondendo à altura.

Ronnie Wood conseguiu transformar a noite desta sexta-feira em uma síntese de sua vida artística, costurando influências, personagens e canções com a naturalidade de quem ainda encontra prazer em cada palhetada na sua guitarra. Buenos Aires, onde o Stone parece sentir-se em casa, ofereceu o cenário perfeito: uma plateia calorosa, uma banda extraordinária e uma daquelas noites em que tudo parece estar no lugar certo. Fica agora a expectativa pelo lançamento de um álbum ao vivo da turnê, que vem sendo devidamente registrada. Afinal, enquanto a fileira das lendas vivas diminui, alguns dos últimos sobreviventes seguem nos lembrando de que o rock ainda encontra público e interesse no Século XXI. Um sopro dos velhos tempos em dias onde tudo soa tão insosso. Grato, Ronnie e Ammo Band! 


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RONNIE WOOD — BUENOS AIRES, 6 DE NOVEMBRO DE 2026

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