quarta-feira, 25 de abril de 2012

BOB DYLAN - PORTO ALEGRE, 24 DE ABRIL DE 2012

Fotos: Marcos Matiello
Por Márcio Grings Fotos Marcos Matiello (exceto indicadas) 

Assistir Bob Dylan ao vivo é sempre uma experiência única e desafiadora. Você pode até supostamente estar bem preparado pra segurar o rojão ao vê-lo de perto, investigar os setlists anteriores, lançar os dados ou fazer apostas aleatórias num desenho do espetáculo tipo: Bob não vai sorrir, não vai interagir com o público, etc. Então, chegamos ao show dessa terça-feira (24), no Pepsi On Stage, em Porto Alegre — quando o velho ranzinza mostra para uma “puta velha” como eu, alguém que escuta seus álbuns há quase 30 anos, que se julga conhecedor do assunto, uma voz vinda do fundo de sua consciência, anuncia: “Hey man, essa é apenas a segunda vez que você vê a Never Ending Tour ao vivo, então, 'cê não sabe nada, inocente!”.

Leia sobre o show de Bob Dylan no Bar Opinião (1998) 
Marcos Matiello
Percebi a sinuca de bico que tinha me metido quando fiquei consternado ao não reconhecer uma das canções tocadas na Capital gaúcha. E não fui o único. Coincidentemente, vi o show ao lado de dois nomes escolados, Dylanólogos. Eduardo 'Peninha' Bueno (jornalista com invejável currículo de ter presenciado 74 shows do Bardo) e de Fernando Viotti (que assistiu as seis apresentações no Brasil). Mesmo assim, quando Dylan tocou “John Brown”, todos ficamos nos perguntando “Que raios de som é esse?”. É meu velho. O tranco foi violento. Ele ainda apresentou clássicos como “Like A Rolling Stone” e “All Along The Watchtower”, além de temas obscuros do grande público como “Blind Willie McTell”, uma das grandes canções abandonadas da discografia oficial do norte-americano.


Ouça o show completo no PLAYER abaixo.


Foi um show para ficar na memória, e novamente Dylan nos apresenta uma ferrenha devoção pelo palco, assim como  distribuiu tímidos sorrisos para o público. O show começou na hora marcada. 21 h, Bob surge igual um velho General Yankee em seu uniforme (terno) ao estilo dos cortes de roupa da Guerra Civil americana, com a banda também vestida a caráter. 
“Leopard-Skin Pill-Box Hat” foi o som escolhido para abrir todas as apresentações no país, e trata-se de uma boa escolha. Minha versão favorita saiu no “Bootleg Series Vol.4” e foi capturada na famosa apresentação de Manchester, em maio de 1966. Já essa versão atual soa menos virulenta, mais leve, quase como um reconhecimento de terreno, e certamente um belo aquecimento para público e  músicos.
Em “It’s All Over Now Baby Blue” dá pra perceber de cara algo que já tinha lido sobre os shows no Brasil —  a banda do Chefe toca para ele e não para o público. Principalmente o guitarrista Charlie Sexton. A cada meia dúzia de acordes parece que Charlie busca o olhar de Bob, como se estivesse a espera de um sinal de aprovação. Como um filho inseguro que aguarda o afago do Pai. Dylan sorri, tipo “Okay, Charlie!”. Bob faz o solo da canção na guitarra, e como diria Mike Bloonfield “igual um menino tateando o interruptor num quarto escuro”, e quando ele encontra a chave (leia-se — acorde certo) novamente esboça uma ameaça de sorriso.
Marcos Matiello
“Things Have Chaged”, música que deu o Oscar a Bob, sempre foi uma das minhas preferidas. Em 2002, tive uma espécie de Epifania enquanto ouvia ‘Things’. A letra diz; “As pessoas são loucas e os tempos são estranhos. Antes eu não me importava, mas as coisas mudaram”. Tomei a decisão de me separar da minha primeira mulher enquanto o refrão insistentemente ecoava seu mantra dentro da minha cabeça. Essa versão de Porto Alegre soa diferente, mais travada (no bom sentido), não menos provocante. Bob a canta no seu novo estilo “crooner”, no meio do palco, tipo cantor de baile, gesticulando, disparando cada frase como uma flecha. Para delírio do público (cerca de 7.500 foram até o Pepsi On Stage) Dylan faz seu primeiro solo de gaita.
“Tangle Up in Blue” como foi apresentada no álbum “Real Live” (1985) ainda é minha versão favorita da canção de abertura de “Blood On the Tracks”. Apesar disso,  não dá pra deixar de perceber que o atual arranjo trouxe nova luz a uma das Guernicas de Dylan. Em lembrança aos westerns, o baixista Tony Garnier parece um pistoleiro mexicano no seu terno preto. Assesta o baixo como um atirador, segurando (o rifle) contra o peito. Gosto da postura vigilante de Garnier, muitas vezes olho no olho com o baterista George Recille. O músico britânico Richard Thompson disse que essa é uma das 10 melhores canções do século XX. A versão século XXI não faz feio. 
Marcos Matiello
“Beyound Here Lies Nothing” de “Together Trough Life” (2009) é um atestado de que Bob ainda sabe construir um clássico. No início, sinto falta do acordeom de David Hidalgo (músico do Los Lobos que gravou o tema original), e ao vivo, percebo a canção mais magrinha, menos impactante. No entanto, no andar da carruagem há uma promissora progressão com a coesão da banda, uma sonoridade que expande suas arestas no espectro desse confinamento.

Contrariando o script, assim como no show de 1998, em show na mesma Porto Alegre, o velho novamente exala uma espécie de contido bom humor. Seriam os ares arejados ao largo do Guaíba ou um novo amor em sua vida, já que foi visto caminhando com uma mulher desconhecida no Parque Moinho de Ventos? Quem relatou o encontro foi Paula Taitelbaum. A escritora encontrou -o aleatoriamente no Parcão. Paula estava acompanhada de sua filha Clara, de 11 anos, que entregou um bilhete a Bob. Leia a história AQUI. Falando em outra criança, na entrada encontrei meu amigo Oly Jr. músico porto-alegrense que batizou seu filho de Dylan Gasperin Jardim. Fã é fã.*
E eis que ouço a mais incrível versão de “Simple Twist of Fate”. Essa canção que fala de uma amarga despedida, o não digerido ocaso de um relacionamento, surge como uma balada doce e angustiante. Sinto um aperto no peito. O guitarrista Stu Kimball parece entrar em transe, de olhos fechadoss, compenetrado. Eu aperto minha namorada contra o peito para que nunca mais sofra um amargo golpe do destino.
E eis que surge “John Brown”, música que apareceu pela primeira vez num registro oficial no álbum “Unplugged MTV” (1995), o tal som que deixou, eu, Peninha e Viotti consternados. A versão sincopada da canção antiguerra, grande surpresa no setlist gaúcho da NET. 
Marcos Matiello
“Summer Days” é um rockabilly danado de bom! A forma como foi tocada na capital, macia, mais lenta, não ofusca o brilho desse número arrasa quarteirão de “Love & Theft” (2002). Dá pra perceber que a banda fica ainda mais ligada no líder, e que, Dylan, controla o andamento regido pela intuição de cada noite. Recille é o pivô das viradas, inversões que eclodem no riff na guitarra de Sexton. Não é apenas o público que se sente desafiado ao assistir um show de Dylan, sua própria banda também é convidada a bater essa bolinha.
Disparado, outro dos pontos altos da noite passam por “Desolation Row”, tema que fecha as portas de “Highway 61 Revisited” (1965).  Banda coesa, firme e ajustada, 'Come frouxa' a troca de olhares entre os músicos. Novamente Dylan sorri e improvisa ao teclado. Donnie Heron não tira os olhos das mãos de Bob, e caça as notas do líder com seu lap (ou pedal steel). Há um bocado de diversão no ringue. Bueno fica embasbacado. Viotti diz: “Dá pra chorar?”. Uma nova e única versão nasce frente aos nossos olhos. Poxa! E ainda tem gente que quer ouvir as canções iguaizinhas aos discos?!
Na posição número 10 do setlist, Dylan tem “High Water” e uma segunda opção. E acreditem: sim! Ele toca a bola 2.
“Blind Willie McTell”. Era uma das mais esperadas da noite. Estava com inveja do público de Brasília que ganhou na semana anterior sua versão do som. Quem não viu o vídeo da apresentação de Dylan e sua banda no início do ano no 17th Annual Critics’ Choice Movie Awards, que homenageou Martin Scorsese, por favor, o faça! Clique aqui. Descartada de “Infidels” (1983), o tema ressurge em forma acústica (no álbum Bootleg Series Vol. 3), desde então é tratada como uma das pérolas perdidas e preciosas de Bob.

Em cinco estrofes devastadoras, 'Blind Willie' parece sintetizar a história da escravidão, da ganância e da corrupção. E eu estou bem em frente do palco, ouvindo nota por nota, pegando cada fração de segundo daquilo que ouço, guardando pra sempre em minha memória. E como disse meu amigo Vínicius Dias (repórter esportivo do DSM), Dylan tem sangue nos olhos quando sopra três vezes a sua gaita em trechos da canção. Mil vezes espetacular! E tenha certeza, caro leitor, o espírito de Blind Willie McTell, bluesman norte-americano que morreu em agosto de 1959, em Milledgeville, na Geórgia, e que inspirou a canção de Dylan, vive. Ele agora está aprisionado para sempre nas ruas e vielas de Porto Alegre.
Marcos Matiello
Com a máquina a pleno vapor, Dylan e os seus pisam no acelerador em “Highway 61 Revisted”. Particularmente, nunca foi uma das minhas prediletas. No entanto… Depois da noite de ontem, esqueçam minha não-predileção. Estupenda versão do número que dá nome ao LP de 1965. Novamente Donnie cata as notas de Dylan. Eis uma banda e seu líder em pleno parque de diversões.
A posição 15 do show trazia três opções de músicas. Ele descarta “Tryin’ To Get To Heaven” e “Spirit on the Water”e tasca “Love Sick”, obra matadora que abre o meu álbum número 1 de Dylan (escrevi em caneta azul o algarismo 1 no meu CD). Um homem sentindo o implacável desgaste do tempo, a idade avançada “cafungando” como uma besta a suas costas, o fazendo confessar que está farto do amor. Minha frase favorita foi ouvida como um entalhe definitivo: “Sometimes the silence can be like the thunder” (Certas vezes o silêncio pode ser como um trovão). E o Trovão soa em “Love Sick”. Quem mandou Augie Myers (tecladista que tocou no álbum original) incentivar Dylan a voltar às teclas. Agora ele acredita piamente que é um tecladista. Culpa da tendinite, ou de outra enfermidade, o certo é que seu teclado encaixa perfeitamente na massa sonora empurrada pela banda. Uma versão devastadora. Chega de adjetivos.
Marcos Matiello
Depois do Trovão ter soado em alto e bom som, eis o verdadeiro “Thunder On the Mountain”. Alguém do meu lado, um garoto de 18 anos, Pablo, de Montenegro, que conheci na fila antes do show, me diz; “Ele parece cansado”. Eu digo que talvez seja apenas uma impressão. Será? Dylan economiza nas notas e toca certas partes da canção com uma mão na cintura e outra pipocando nas teclas. Dá pra perceber que novamente o Chefe está no comando de uma nova versão. Talvez seja o ponto mais baixo da apresentação. 

Porém, se alguém acredita que o protagonista está cansado, depois de “Ballad of Thin Man” qualquer dúvida é exorcizada. Uma versão digna de entrar em qualquer álbum ao vivo do Homem. Monumental audição de um dos clássicos absolutos do rock.
E eis que chegamos a “Like A Rolling Stone”. Público em ponto de bala. Como acontece em BH, Dylan não canta o refrão. Pra quê? Afinal, essa é uma canção que não mais pertence ao seu criador  — estamos falando de um vernáculo de domínio público, gema faiscante que nunca perderá seu brilho. “All Along the Watchtower”, música que Jimi Hendrix roubou do seu criador e nunca mais a devolveu, tanto que muitos pensam que o 'Watchtower' foi composta por Hendrix, traz Charlie Sexton na linha de frente como maquinador do riff  — versão curta e eficiente.
Reprodução
Eis o suposto fim. Dylan se despede com a sua banda perfilada, ele à frente, a banda ferfilada um pouco atrás, como um bando de proscritos do Velho Oeste. Alguém diz que as sombras chinesas ao estilo do teatro kabuki projetadas no fundo do palco fazem o espetáculo parecer um filme antigo de faroeste  — definição perfeita. O publico não aceita sua partida. Pede seu retorno - "Dylan, Dylan, Dylan…”.

E o bis vem com a versão valseada de “Blowing in the Wind”, com Donnie no violino. Linda, tênue, longe da forma original como foi gravada no disco de 1963, mesmo assim, intensa, como um clássico.  
Mesmo que esteja longe daquela figura iconizada por muitos, meio Vincent Price western, vestido ao estilo Nico Fagundes, cantando como um representante dos velhos tempos, tocando menos guitarra, redescobrindo a harmônica e com pose de bluesman; o tecladista “falsífis” que desafia sua própria banda e ainda consegue nos deixar incrédulos com sua capacidade de permanecer como Lenda Viva, por mais ridícula e previsível que uma definição como essa possa parecer.


Foto: Marcos Felipetto


O quadrinista Rafael Grampá relatou em quadrinhos o show do Bob Dylan em SP (21.4.12). Dylan vetou o credenciamento de jornalistas e fotógrafos em sua turnê pelo Brasil.


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