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quarta-feira, 8 de abril de 2026

LYNYRD SKYNYRD - PORTO ALEGRE, 7 DE ABRIL DE 2026

| Foto: Laura Aldana |
| De Porto AlegreMárcio Grings Fotos Laura Aldana

Quando uma mentira é repetida muitas vezes, pode se vesti-la com uma fatiota aparentemente legítima. Num mundo em que a verdade escorre como chuva repentina, uma das bandas da era clássica do rock setentista pisa, enfim, em solo gaúcho. A missão da trupe: nos seduzir, convencer de que nem tudo é uma farsa.

O Lynyrd Skynyrd é a Coca-Cola do southern rock, uma daquelas bandas que fazem parte do abecedário do som feito nos anos 1970. Todos nós — em dado momento — já bebemos um gole dessa bebida. Tê-los por aqui, mesmo com o delay gigantesco, e sem nenhum integrante da formação clássica, não deixa de ser um ato celebrativo.

Foto: Laura Aldana 

A formação que pisa no palco do Araújo Vianna (lotado!) reúne Johnny Van Zant (vocal, desde 1987), Rickey Medlocke (guitarra — um dos fundadores do Blackfoot e integrante honorário do Skynyrd nos anos 1970, retornando em 1996), Mark “Sparky” Matejka (guitarra, desde 2006), Keith Christopher (baixo), Peter Keys (teclados, desde 2009), Michael Cartellone (bateria, desde 1999), além das backing vocals Carol Chase e Stacy Michelle.

Pelo ponto de vista dos fãs, o setlist é impecável. A história do grupo é contada por meio de canções presentes no imaginário de várias gerações, em arranjos que se colam ao máximo das gravações de estúdio ou reprisam versões ao vivo que se aproximam daquilo que conhecemos do álbum "One More for the Road" (1976). Há também um belo trabalho de restrospecto nas imagens do telão, revivendo os personagens construtores desse legado. Sob o viés do saudosismo, tudo o que ouvimos mantém os fãs nas nuvens. A banda, suas execuções e reprises, são impecáveis. Aquela cena clássica dos guitarristas enfileirados à frente do palco, coreografando com os braços dos intrumentos alinhados, prosperou com o Lynyrd Skynyrd, uma das primeiras bandas a utilizar três guitarristas no palco. Tivemos esses momentos na noite passada. A pergunta é: será que precisa tanta volume?

Foto: Laura Aldana

Vamos a um ponto nebuloso da noite: a bandeira dos EUA como adereço permanente no palco — nas mãos de Johnny Van Zandt e em seu pedestal — provoca desconforto. A banda cultiva um orgulho sulista ligado a valores reacionários, ao direito ao porte de armas e a temáticas conservadoras ultrapassadas. Enquanto isso, o trumpismo vomita uma retórica de guerra: ameaça-se hoje com truculência, negocia-se amanhã com pesos e medidas ambivalentes. O cessar-fogo anunciado na guerra contra o Irã não dissipa a sensação de que um barril de pólvora está prestes a explodir. Difícil engolir esse americanismo em muitos contextos, no que tange a esse ponto de vista musical e artístico, aí nem se fala. 

Foto: Laura Aldana 

Voltemos à luz. Canções como "What's Your Name", "That Smell", "Saturday Night Special" e "The Needle and the Spoon" funcionariam em qualquer tempo para um bom amante do rock setentista. E, quando o guitarrista Rickey Medlocke dispara o riff característico de "Down South Jukin'", um dos melhores momentos da noite se deflagra. No telão, imagens dos brejos e paisagens do Sul mítico tão enaltecido pelo grupo. Essa foi a música escolhida para abrir um dos melhores discos do Lynyrd pós-retorno — "Endangered Species" (1994) —, um álbum acústico que revelou uma banda que ainda tinha lenha para queimar. E dá pra perceber essa fome de bola em cada música ouvida no Araújo.

Foto: Laura Aldana 

Ao enfileirar duas falsas baladas como "Tuesday's Gone" (que rende homenagem a Gary Rossington, falecido em 2023, último membro da formação clássica) e "Simple Man", a banda lança cartadas de mestre — público na mão, e o coro nos refrões ganha o apoio de milhares de vozes e celulares registrando tudo. Em "Call Me the Breeze", releitura do Lynyrd de um clássico de J.J. Cale, o volume aumenta de forma considerável. Os ouvidos do vovô doem. Uma pena que o mesmo ocorra em "Sweet Home Alabama" — excessos que talvez incomodem apenas o autor desta resenha e mais meia dúzia. A plateia está em êxtase.

Foto: Laura Aldana 

No bis, a homenagem final em "Free Bird" recai sobre o saudoso Ronnie Van Zant — ora em uma filmagem sua falando à câmera, ora em um trecho cantado, sincronizado à execução ao vivo. Em outros momentos, a reverência se amplia: surge no telão a capa do álbum "Pronounced ‘Lĕh-‘nérd ‘Skin-‘nérd" (1973), marcada pela ausência de todos os seus integrantes originais, seguida de uma lista abrangente de músicos da banda que também já partiram.

A bandeira yankee foi hasteada em outro sul, bem mais ao sul de onde tudo começou para eles. E todos saíram sorrindo do Araújo Vianna. Essa é a mais pura verdade.  

Cobertura: Grings Tours | Quando o Som Bate no Peito. Review: Márcio Grings. Fotos: Laura Aldana. Agradecimento: Renata Gomes, credenciamento, suporte e assessoria.  

Lynyrd Skynyrd
Porto Alegre, 7 de abril de 2026

  1. Workin’ for MCA
  2. What’s Your Name
  3. That Smell
  4. I Need You
  5. Gimme Back My Bullets
  6. Saturday Night Special
  7. Down South Jukin’
  8. Still Unbroken
  9. The Needle and the Spoon
  10. Tuesday’s Gone
  11. Simple Man
  12. Gimme Three Steps
  13. Call Me the Breeze
  14. Sweet Home Alabama
✦ Bis ✦
Free Bird








Foto: Laura Aldana 

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