quarta-feira, 5 de abril de 2017

JAMES TAYLOR - PORTO ALEGRE, 4 DE ABRIL DE 2017

Foto: Fabiano Dallmeyer

Lembro-me da primeira vez que li “Botar pra quebrar”, poema de Sam Shepard que enaltecia o rock teoricamente mais enérgico e colocava pra baixo o som ‘soft’. “Foda-se James Taylor e todos esses compositores açucarados baladeiros”, tá página 62 de “A Lua do Falcão” (L&PM – 1990). Não é fácil estar eternamente vinculado como um artista ligado apenas ao romantismo e ao viés agridoce do pop. Isso tem um fundo de razão, pois sabemos que o músico norte-americano de 69 anos é um dos grandes nomes do que foi descrito inicialmente pelos críticos como sweet folk, um subgênero enraizado a uma sonoridade mais acústica com conexões na música country e no gospel. Mas sua obra é muito mais ampla. Para perceber outras incursões, basta ouvirmos alguns dos álbuns de Taylor compreendidos num amplo espaçamento de tempo, assim você irá perceber que o trânsito de suas composições vai muito além de qualquer rotulação. Bom, caso você tenha assistido ao show passou por Porto Alegre nesta terça-feira (4)... Esse equívoco pôde ser reparado.  

Às 19h50, James Taylor e banda sobem ao palco montado no Beira-Rio em forma de Anfiteatro (um dos meus modelos e lugares favoritos para ver grandes espetáculos na Capital gaúcha). Naquele momento, em torno de 20 mil pessoas ouvem o pontapé inicial com “Wandering”, uma das músicas/letras que definem suas ambições poético/musicais. Pelos shows anteriores em Curitiba e Rio, já ficamos sabendo que Jaiminho fraturou o dedo, e assim, de forma inédita em sua carreira, se apresenta sem violão. 

"Hoje não vou poder tocar violão porque quebrei meu dedo. Merda! Mas tenho aqui Dean Parks", disse JT no início do show. Foto: Fabiano Dallmeyer
Se o anticlímax inicial nos dá uma ducha gelada, o protagonista quebra o gelo ao conversar muitas vezes num português completamente inteligível. Olhando para seu caderninho de anotações, ele diz "Estou muito feliz de estar de volta ao Brasil. Mas hoje não vou poder tocar violão porque quebrei meu dedo. Merda! Mas tenho aqui Dean Parks", finalizou o papo inicial ao apontar para músico que já deixou sua marca em álbuns dos The Monkees, Elton John e BB King. "Ele é um mestre do violão. Essa noite ele será eu". E a banda de James, aliado ao seu generosismo com os músicos e a reinvenção forçada como crooner, sentado num banquinho no centro do palco, são destaques do show. Em tempo: - um dos melhores e mais cristalinos sons de palco que já senti bem de perto nos últimos anos. 

Foto: Fabiano Dallmeyer
Toda essa massa musical fica grandiosa em “Everyday”, uma balada de Buddy Holly que virou marca registrada em suas apresentações, sendo que a mesma sensação também me ocorre em “Walking Man”, uma típica canção de reconhecimento no território de Taylor. “Today, Today, Today”, único número de “Before This World” (2015), seu último disco de inéditas, é tingido pelo country. Coloque na conta do violino de Andrea Zonn e na harmônica caipira do cantor. 

Segundo meu amigo Ninu Ilha (integrante da banda de blues gaúcha Lenha Seca), tudo poderia ser resumido em apenas um nome para justificar a viagem de Santa Maria a Porto Alegre: Steve Gadd. O baterista também fez fama como músico de Eric Clapton, Simon & Garfunkel, Joe Cocker, Steely Dan (é dele o solo em ‘Aja’, uma das mais notáveis peças do grupo), entre tantos outros. “Não estou indo aos shows de Elton John e James Taylor, vou pra ver o meu ídolo, Steve Gadd”, disse. 

Luis Conté, Taylor e a lenda Steve Gadd. Foto: Fabiano Dallmeyer 
E “Country Road” mostra o quanto Gadd sabe se subjugar a moldura de uma canção sem perder a veia dilatada de baterista hiperativo. Olhar para ele, perceber a técnica (muitas vezes) com quatro vassourinhas nas mãos, a orquestrada categoria e a forma como manuseia suas ferramentas de trabalho - o transforma sempre num show parte. E Ninu estava lá, bem na frente do palco, olhos fixos no baterista em busca de lampejos da magia desse feiticeiro das peles. 

James Taylor e sua All-Star Band. Foto: Fabiano Dallmeyer
“Don’t Let Be Lonely Tonight” é uma das preferidas do repertório composto por Taylor na primeira metade dos anos 1970. É quando percebe-se a riqueza musical do guitarrista Mike Landau (Michael Jackson, Joni Mitchell, Miles Davis), um mestre na sutileza e escolha do acorde certeiro. E o solo ainda tem o talento do sax de Lou Marini, integrante por sete anos da Saturday Night Live Band, banda do programa de TV homônimo, e lendário por sua participação no filme “Os Irmão Cara-de- Pau”. Muitas vezes, a dancinha particular do músico me extrai um sorriso distraído.    

“Only a Dream in Rio” é um tributo de James Taylor a cidade que o acolheu em um dos momentos mais difíceis de sua vida. A letra diz: “Eu estava lá naquele dia / E meu coração voltou à vida”. Sempre achei a parte em português desse tema com a cara das canções de Milton Nascimento: “Quando a nossa mãe acordar / Andaremos ao sol / Quando a nossa mãe acordar / Cantará pelo sertão / Quando nossa mãe acordar / Todos os filhos saberão / E regozijarão”. É de arrepiar! Na época com 36 anos, o músico vivia um longo problema com o uso de drogas e morava recluso em uma fazenda. O último LP, lançado em 1981, foi um fracasso comercial. Não bastasse a derrocada profissional, o cantor ainda enfrentava o recente divórcio da cantora Carly Simon. O convite para tocar no Rock in Rio acabou por simbolizar seu renascimento artístico. Após a participação do músico no festival, ele conseguiu se libertar da dependência química e mantém uma carreira estável até hoje. 

Foto: Fabiano Dallmeyer
“Carolina on my Mind” é uma música que fala sobre a saudade de casa. Destaque para os vocais de apoio de Arnold McCuller (Phil Collins, Bonnie Rait, Beck), Kate Markowitz (Graham Nash, Waren Zevon), além da violinista (e também cantora) Andreia Zonn (Alisson Krauss, Keb’ Mo’).  Com acentos jazzistas, “First Day in May” é uma música que amplia a paixão do músico pela música brasileira. Novidade no set até aqui (depois das apresentações em Curitiba e Rio), “Handy Man” foi um dos hits de Taylor no país. Parte disso de deve ao tema fazer parte do LP do primeiro Rock in Rio. Assim como em “Everyday” de Buddy Holly, “Handy Man” é uma música que fez sucesso décadas antes, no caso com Del Shannon nos anos 1960. Só que a versão de Taylor (que deu a ele seu primeiro Grammy por  Best Male Pop Vocal Performance) desconstrói o esqueleto de rock juvenil e a transforma numa canção country madura, com a marca da sua interpretação. Uma delícia vê-la/ouvi-la ao vivo. 

Jimmy Johnson, Walt Fowler, Lou Marini e Mike Landau. Foto: Fabiano Dallmeyer
“Your Smiling Face” tem a cara do soft rock. O baixista Jimmy Johnson (Roger Waters, Ray Charles, Stan Getz) fica no centro do palco buscando uma troca de olhares com Steve Gadd que está perdido em seu mundo particular.  “You’ve Got a Friend”, música de Carole King, até hoje é a presença mais obrigatória em seus shows. Uma das canções sobre amor/amizade mais bonitas de todos os tempos, hit universal e uma de suas interpretações mais conhecidas. Prova disso é que o publico pontua sua presença no coro.

É também quando Taylor apresenta ao público sua esposa, Caroline Smedvig, que contribui com vocais de apoio a partir desse momento da apresentação. “Shower The People” é outra de suas canções românticas matadoras. Arnold McCuller mostra toda sua potência e a tradição vocal da música negra na parte final do tema. O publico o ovaciona. 

Foto: Fabiano Dallmeyer
Assim como Neil Young fala em "The Needle and the Damage Done”, relatando umas das tragédias que o vício em heroína podem ocasionar em qualquer um de nós, em “Fire & Rain” James Taylor apresenta sua versão da história sobre o desfortúnio no abuso das drogas. Se a música de Young homenageia Danny Whithen, guitarrista do Crazy Horse que morreu de overdose, Taylor paga tributo a amiga de infância Suzanne Schnerr, que se suicidou.  Impecável execução. 

“Steamroller” é o blues da vida de James Taylor. Tão bom que até Elvis o gravou no famoso concerto no Hawai em 1973. E esse é o momento em que nosso herói da noite levanta o dedo médio e manda Sam Shepard para aquele lugar! O solo de gaita, a interação com a banda, a dinâmica entre os vais e vens com o qual cada instrumento se sobressai. Tudo funciona! Um manual prático de como montar um blues arrasa quarteirão. É também o raro momento em que o pianista Jim Cox (BB King, Aerosmith, Elton John) abandona a sutiliza do piano para mostrar toda a ferocidade de um órgão Hammond. 

Foto: Fabiano Dallmeyer
“Mexico” é uma das minhas preferidas desde sempre. Latinidad no trompete de Walt Fowler (Frank Zappa) em dueto com o sax de Marini, e momento solo do percussionista cubano Luis Conté (Madonna, Pet Metheny). Recreio musical no Beira-Rio. “How Sweet It Is To Be Loves by You)" é uma das músicas alto-astral de sua discografia que estão no meu hall de favoritas, tema com estampa de sábado à tarde ensolarado.

E encerrando os trabalhos no bis, após cerca de 1h e meia de espetáculo, em clima ecumênico - “Shed a Little Light” é um bonito apagar das luzes do show de James Taylor & his All-Star Band, ao estilo das canções gospel que sempre foram um dos mananciais aonde o músico norte-americano buscou inspiração. Sim, mesmo com o dedo quebrado (me perdoe Sam Shepard), James Taylor 'botou pra quebrar' e ancorado pela sua banda fez um show impecável. Para isso, não precisamos de poses de guitar hero, mirabolâncias ou uma postura de estrela do rock. Bastam boas canções. E isso Taylor tem de sobra. “Maior aula de dinâmica que vi uma banda apresentar no palco. Um dos melhores times já reunidos dando suporte para um artista”, disse o jornalista Lúcio Brancatto. “Adorei ser surpreendido com a qualidade, interpretação e a verdade na música de Taylor”, completou.  

Verdade. Essa é a palavra que muitas vezes não vem à tona em uma apresentação. E a verdadeira música de James Taylor foi a grande vencedora da noite. E ainda tínhamos o show de Elton John pela frente...

A Grings - Tours, Produções e Eventos agradece ao suporte e apoio da Agência Cigana. 

Setlist

"Wandering"
"Everyday"
"Walking Man"
"Today, Today, Today”
“Country Road”
“Don’t Let Be Lonely Tonight”
“Only a Dream in Rio”
“Carolina on My Mind"
“First Day in May”
“Handy Man”
“Your Smiling Face”
“You’ve Got a Friend”
“Shower The People”
“Fire & Rain”
“Steamroller”
“Mexico”
“How Sweet It Is To Be Loves by You)"

Bis

“Shed a Little Light”

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