quarta-feira, 25 de outubro de 2017

JOHN MAYER - PORTO ALEGRE, 24 DE OUTUBRO DE 2017

Michael Paz/ BMoov 
Texto Márcio Grings Fotos Michael Paz/ BMoov (exceto indicadas)

No coração e na alma de John Mayer, a paixão pelo blues é algo que inevitavelmente granula a sua música. O músico norte-americano que acaba de completar 40 anos, passou nesta terça-feira (24) com seu tour "The Search For Everything" pela capital gaúcha. Segundo assessoria do evento, 15 mil pessoas estiveram no Beira-Rio (em formato de anfiteatro), um dos modelos perfeitos para se ver uma apresentação desse porte aqui no RS. Se nos discos que grava, de alguma forma ele maquia essa paixão, nas apresentações ao vivo o blues passa a ser sua principal matéria prima e fonte de transformação em suas canções. 

Mesmo que você tenha lido manchetes do tipo "Com desfile de hits e pouca empolgação, John Mayer se apresenta em Porto Alegre", me coloco a pensar que muitas vezes os jornais e sites parecem se esforçar para não publicar a verdade sobre um show. Ou falta experiência e discernimento para quem assina a matéria, ou realmente estamos falando em falta de preparo. Afinal, no quesito empolgação e interação, certamente assistir a um show de John Mayer não há equivalência com algo do tipo estar em um show de Ivete Sangalo, por exemplo. Respeitando o lugar de cada artista, no caso do que vi ontem no Beira-rio, houve entusiasmo e adesão em massa do publico, isso desde o início da apresentação e num crescendo, quando até mesmo a audiência das cadeiras mais afastadas do palco, fez bafo na nuca do público que estava na pista, mais próximo ao artista. Em resumo: o resultado foi exatamente o contrário do que foi publicado no referido site, pois houve arrebatamento de sobra em todas as pontas do show. E veja bem, quem assina esse texto não se declara um fã de John Mayer, no entanto reconhece as virtudes do cantor, compositor e guitarrista, um dos grandes hitmakers do nosso tempo. E não me cheira muito bem ler um review de show que começa falando das opções de vestuário do artista.   

Michael Paz/ BMoov 
Eu, por exemplo, prefiro começar falando do espírito blueseiro que assombra a alma e consequentemente a música de Mayer, pelo fato de que provavelmente muitos de seus fãs foram apresentados ao gênero que fundamentou os pilares do rock/pop, através de sua obra. "Ele não tem medo de errar", me disse um amigo logo após o show. Certamente cada apresentação do músico é diferente da outra, pois sua interação com a banda é pautada por constantes autodesafios e saídas estratégicas da zona de conforto. A começar pelo setlist, impossível de ser antecipado, pois Mayer altera consideravelmente a ordem e temas de um show para outro. E ainda há contantes brechas para improvisos e alterações de curso durante cada execução. É o blues novamente conversando, ou melhor, assoprando no ouvido de John Mayer...

Michael Paz/ BMoov 
Como um bom filme - e essa é a sensação que o telão nos passa como os créditos iniciais e finais, além das imagens que dão suporte ao espetáculo, o show tem exatas duas horas divididas em quatro capítulos, pensado para agradar a "geração Netflix". Primeiro ato, com banda completa, incluindo o tecladista Larry Goldings (Norah Jones, Madeleine Peyroux), mais os guitarristas David Ryan Harris (Dave Mattews, Santana) e Isaiah Sharkey (Paul Simon, Patti Labelle). Destaque para os vocais de apoio a cargo da excepcional dupla formada por Carlos Rickets Jr (U2, Willie Nelson) e Tiffany Palmer. No segundo ato, temas com roupagem acústica. A terceira, parte mais blueseira e pesada da noite, e no epílogo, novamente banda completa e desfile de hits compostos em quase vinte anos de carreira.

Michael Paz/ BMoov 
Se o fantasma de Jimi Hendrix eclode sutilmente no riff de "Helpless", o rhithm and blues respira livre leve e solto em "Moving On and Getting Over", colocando assim o novo álbum já em evidência no início da apresentação. "Who Say's", "Why Georgia", "Dear Mary"  e "Stop This Train" são porta de entrada para pop agridoce de Mayer que circula nas FMs, sem deixar de lado a sensação de que a banda nos envolve em sua massa corpórea de sustentação, com o som batendo forte no peito. Temas como "I Don't Trust Myself (With Loving You) e "Slow Dancing in a Burning Room", cartões de visita permanentes em seus shows, não passam de pura demonstração de como o músico consegue mascarar o blues com indumentária pop, algo que ao vivo fica mais evidente. 

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
No momento acústico, quando o protagonista fica sozinho no palco com seu violão, "Your Body is a Wonderland", "Emoji of a Wave" e "In Your Atmosphere", também versam sobre os constantes desdobramentos do show e de como Mayer pensa em recortes e atmosferas diferentes ao se apresentar ao vivo. Tudo isso fica ainda mais evidente quando a terceira parte, a mais blueseira e pesada da noite, revela o músico acompanhado apenas pelo baixista Pino Palladino (Pink Floyd, The Who, Eric Clapton) e o baterista Steve Jordan (Keith Richards, Stevie Wonder, Blues Brothers). Paladino na posição clássica de baixista; Jordan só sorrisos numa bateria reduzida e reposicionada no palco; e Mayer parecendo mais feliz do que nunca, tocando standards de B.B. King, Robert Johnson e "Vultures", um daqueles sons que surgem entortados e distorcidos da forma original que conhecemos da gravação, mas nem por isso menos atraente, até pelo contrário...    

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)
"In The Blood", uma das melhores músicas do novo álbum, fica ainda mais interessante com a introdução vocal de David Ryan. A letra versa sobre nossa permanente herança sanguínea, fala de ancestralidade e de como muitas vezes acabamos nos tornando muito parecidos como nossos pais e irmãos. Sem dúvida, a gravação opaca que está eternizada no álbum não faz jus a espetacular versão que foi tocada na noite dessa terça-feira em Porto Alegre.   

Em "If I Ever Get Around to Living", com Mayer no início ao violão, canção que cresce horrores no palco, as guitarras de  David Ryan Harris e Isaiah Sharkey promovem cruzamentos que lembram o som do Gratdeful Dead, ou até mesmo as dobradinhas melódicas do Allman Brothers Band. Na parte final, Sharkey faz o mais longo e belo solo de guitarra do show. Essa é outra das grandes virtudes de Mayer: ele dá espaço para iluminar os talentos individuais de sua banda. Ao final de 'Dear Marie", rola aquele boa noite (até logo). A plateia, efusivamente recorre as lanternas de seus celulares e rememora o coro da canção anterior para pedir o retorno do astro até os holofotes. É quando ouvimos a levada de baixo/bateria de "Waiting on The World To Change", um dos maiores hits de sua carreira e homenagem descarada a sonoridade de "What's Going On", um dos clássicos absolutos de Marvin Gaye. E Mayer ainda faz um mix com "Inner City Blues", outro sucesso de Marvin. Bem em frente ao palco, tudo soa ainda maior. E a despedida tem como moldura "Gravity", quando os vocais de apoio de Carlos Rickets e Tiffany Palmer rumam para a linha de frente, levantando aplausos efusivos do público no Beira-Rio. John Mayer sola e novamente evoca a saudosa quimera do Rio Mississipi.

Veja um breve trecho de 'Waiting On The World To Change".


Por mais que para alguns leitores isso pareça incoerente, ver John Mayer ao vivo me lembra muito a postura de Eric Clapton nos anos 1980: nem sempre o que ouvíamos era blues, mas o blues sempre estava lá. Apesar do injusto status de tardio ícone teen internacional, saio do Beira-rio com a certeza de que o músico ainda nos dará mais do que já deu, e parece que ele está no caminho certo.

Grings - Tours, Produções e Eventos (Santa Maria) e Jamil Magic Bus (Passo Fundo) agradecem aos clientes e amigos que escolheram compartilhar experiências conosco. Até o próximo tour. Nosso agradecimento especial a Agência Cigana pelo suporte e credenciamento.      

John Mayer - Setlist Porto Alegre

Capítulo 1: banda completa

Helpless
Moving On and Getting Over
Who Says
I Don't Trust Myself (With Loving You)
Why Georgia

Capítulo 2: acústico

Your Body is a Wonderland
Emoji of a Wave
In Your Atmosphere

Capítulo 3: trio

Every Day I Have the Blues
Vultures
Cross Road Blues

Capítulo 4: banda completa (reprise)

In the Blood
Stop This Train
Slow Dancing in a Burning Room
If I Ever Get Around to Living
Dear Marie

Bis:

Waiting On The World To Change/Inner City Blues
Gravity

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)

Michael Paz/ BMoov 

Foto: Márcio Grings (Samsung J5)

5 comentários:

  1. Parabéns pela incrível matéria! Eu, como estudante de jornalismo e fã de John Mayer, posso ver agora que nós sim estivemos no mesmo show. Me indigna ver e ler críticas que não são baseadas na verdade de quem participou e interagiu com o cantor, e sim, de alguém com "achismos" e que tem pouco ou quase nenhum conhecimento sobre o John (a maneira como ele se porta no palco, a divisão de capítulos e o comportamento do público). Me alegro em ler este texto, que condiz realmente com a realidade do que vimos e ouvimos. Obrigada pela sensibilidade!

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  2. Fico feliz ao ler teu texto, de verdade. Também sou fã de John Mayer e fico triste que não haja preparo algum dos jornalistas que cobrem esse tipo de espetáculo. É triste ver que ainda se pautam sobre as vestimentas, comida, entre outros aspectos desnecessários de serem noticiados. Obrigada, Marcio.

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  3. Grande Marcio Grings, a cada dia que passa vejo mais sentido no celebre titulo da musica dos Titas. Este é o retrato do Brasil, aqui as pessoas enganam em todos os níveis. Artistas sem talento alcançam o mainstream, jornalistas sem conhecimento de causa escrevem para grandes veículos. Certa vez conversando com um profissional da área de gastronomia que fazia resenhas sobre vinhos falei de zinfandel, brunellos, barolos, primitivos e esta pessoa nunca tinha degustado nem conhecia nenhum destes classicos do mundo do vinho. Como assim não conhece isso e faz resenha sobe vinhos?? Seria mais ou menos como tocar Blues sem conhecer Muddy Waters, Albert King, Robert Johnson e por ai vai. Mas ai lembro que no Brasil as pessoas não alcançam determinadas posições por seus méritos,é tudo uma questão de política, amizade e indicações. O famoso jeitinho brasileiro. E assim caminhamos, afinal Jesus não tem dentes no país dos banguelas.

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  4. Ótima matéria!
    Foi realmente assim!
    Maravilhoso!

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