quarta-feira, 27 de setembro de 2017

THE WHO - PORTO ALEGRE, 26 DE SETEMBRO DE 2017

Foto: Ton Muller
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Texto Márcio Grings Fotos: Ton Muller 

Há cerca de 30 anos, conheci um garoto na escola que parecia não se encaixar com o restante da rapaziada. Afinal, até hoje, ter 15, 16 anos não é algo fácil para muitos jovens. A adolescência é um período de transição em nossas vidas, e transições podem ser dolorosas e longínquas. No final das contas, o rock acabava sendo uma boa porta para a socialização. Bem, estou falando dos anos 1980, e assim, unidos pelo amor ao rock'n'roll, eu e esse camarada nos tornamos amigos. Naquela época, a maioria da rapaziada se alinhava ao que rolava no rádio (e tocava muito mais rock do que hoje), outra parte curtia o heavy metal de Iron Maiden e diversas bandas nessa linhagem, ou vivia o delay prolongado dos anos 1960/70 (e esse era exatamente o meu caso). E nessa bolha particular, Led Zeppelin era a banda número 1. Já meu brother Joselito era fã do Who. Lembro-me de certa  vez em que se pegou no pau com outro garoto da escola - não recordo o motivo -, sei que sua camiseta preta do Who rasgou próximo a manga. Ele ficou inconformado. Passaram-se alguns dias e Mod Joselito me levou até seu quarto para então lacrar num 3 em 1 Panasonic estalando de novo o vinil de “Quadrophenia”. Ao ouvir o LP, a primeira impressão não foi das melhores. Não consegui me conectar ao som que vazava  a todo volume pelas caixas de som. Alguns meses após esse dia troquei de escola e perdemos o contato. Hoje tenho certeza que ele estava alguns passos a frente de mim. Poderia ter aprendido mais rápido. 

Foto: Ton Muller
E aí foi... Vi “Tommy”, o filme (também não houve encanto), e logo em seguida tive contato com a coletânea “Who´s Better, Who's Best”... Levei o primeiro tapa na orelha. A ficha tilintou valendo e fez um barulho danado. Sucessivamente fui adentrando a obra da banda inglesa: -a apresentação no Festival de Woodstock, o excepcional “Live At Leeds”, "Who's Next", e assim, finalmente cheguei até o box em CD “The Who Thirty Years Of Maximum R & B”. Nessa altura do campeonato, com pouco mais de 17 anos, já havia me tornado um fã cativo de Pete Townshend, Roger Daltrey, John Entwistle e Keith Moon. Joselito estava certo. Queria ter a oportunidade de dizer isso pra ele hoje, no entanto, nunca mais o vi. Espero que também esteja bem, e quem sabe esse texto chegue até meu velho amigo, pois a noite de hoje não é uma noite qualquer. 

Foto: Ton Muller
Recupero essa lembrança porque ainda me parece inacreditável estar em frente ao palco onde daqui a poucos minutos Pete e Roger surgirão frente aos nossos olhos incrédulos. Logo após o aquecimento com Def Leppard, vamos ao o que realmente interessa, afinal: uma das bandas mais importantes da história do rock mundial está em Porto Alegre. O vocalista Roger Daltrey (73), e o guitarrista/ principal compositor do grupo, Pete Townshend (72), guardiões do legado do grupo. Keith Moon e o baixista John Entwistle, morreram respectivamente em 1978 e 2002. E antes do show, as imagens e os textos que sequencialmente narram a história do Who ao longo de seus 53 anos de história, nos dão a sensação de que Keith e John também estão entre nós. E certamente estão...  

Foto: Ton Muller
Mantenha a calma: aí vem o The Who! A banda se posiciona, efervescência, gritos na multidão e finalmente Pete e Roger entram correndo no palco. Felizes como dois garotos apostando corrida com uma locomotiva. 21h30 e o riff matador de “I Can’t Explain” eclode pelos quatro cantos do Beira-Rio em formato de Anfiteatro. A banda dos sonhos no quintal de casa. 20 graus na Capital dos gaúchos. Mil graus do coração da plateia. E ver Roger e Pete comendo a bola com o vigor que conhecemos dos vídeos clássicos da banda, é nosso maior presente.

Foto: Ton Muller
“The Seeker”, além de ser um rock’n’roll de mão cheia, nos lembra do quanto Pete Townshend é um dos melhores compositores/letristas do rock. Um brinde ao Clube dos Descontentes. E Pete é sócio remido dessa agremiação. “Who Are You” coloca o público pra exercitar a garganta. Cerca de 14 mil pessoas ressoam unidas na mesma palheta, em uníssono. Uma das minhas preferidas, "The Kids Are Allright”, é uma daquelas canções que evocam a simplicidade e eficiência de uma banda de rock. Um clássico com a cara dos anos 1960 que me deixa melancólico, impregnado por um sentimento dúbio de saudade e alegria. Canto como uma criança no jardim de infância. Já “I Can See For Miles” é pura tensão e ao vivo nos soa ainda mais impressionante. Não consigo tirar os olhos de Pete Townshend. E ele está inspirado.

A cada gesto de Pete a audiência se eleva. O propagador do windmill (moinho de vento) - movimento giratório com o braço antes de tocar a guitarra, nos conta como surgiu a performance. “Abrimos dois shows dos Stones quando eram jovens. Quando a cortina abriu, Keith Richards estava fazendo aquele movimento. Semanas depois, nos encontramos de novo, em um clube de Londres. Fiquei observando e ele não fez aquilo. Fui perguntar e ele não entendeu.. Então, peguei para mim”. Roubou e transformou o windmill numa de suas marcas registradas. Assim como o salto com as pernas retraídas ou os pulos com as pernas abertas, encenações que ele repetiu a todo momento no show, do alto de seus 72 anos. O Who continua sendo uma banda impressionante de ver ao vivo, ainda mais nesse clima de final de campeonato, no último show do tour brasileiro, com um publico apaixonado.

Foto: Ton Muller
Mas nem tudo é performance... Nos Beatles, Lennon/Mccartney são os principais compositores. Nos Rolling Stones os moldes ficam a cargo de Jagger/Richards. No caso do Who, Pete Townsend é o mentor intelectual por trás da massa cinzenta da banda. Escreveu centenas de canções espalhadas por uma penca de álbuns, incluindo trabalhos conceituais e óperas rock. Não esqueçam, Pete também um cantor de mão cheia e reconhecido como um  dos Heróis da Guitarra. Qualquer lista do rock que não o colar entre os 10 melhores de todos os tempos no seu instrumento de ofício não passa de uma listagem fajuta. E quando ouvimos a sequência de acordes de “My Generation” batendo no peito, vale lembrar que o Who já era punk antes do punk pensar em existir. Na parte final ainda rolou um medley com “Cry If You Want”, obscura canção de 1982 do álbum "It's Hard" que funciona muito bem como mash-up nessa nova encarnação de 'Generation'.  

E que vocalista é Roger Daltrey! Ele e seus inseparáveis óculos azuis, agilidade admirável e uma voz que migrou para um degrau abaixo do seu timbre original, mas uma garganta que ainda demonstra  potência invejável, além da postura de palco que finca o pé na linhagem clássica de frontman. Roger o arremessador de microfones (como se fossem boleadeiras) e principalmente – o baixinho balaqueiro que inspirou milhares de artistas. Se o espírito incandescente do Who tem a áurea do genial Pete Townshend, Roger é parte significativa do corpo físico do grupo.


Foto: Ton Muller
"Bargain" é um daqueles temas que tem o gene do Who, um leve flerte com o rock progressivo, riffs de guitarra dignos de se colocar numa moldura, e uma parte mais doce, acústica, em que a voz de Pete eclode cristalina pela primeira vez na noite. Vejo os reflexos e a troca de olhares entre Pete e o baterista Zak Starkey no acrílico que protege a bateria. O guitarrista limpa o suor do rosto, desembaça os óculos de grau e sorri para Roger. Aponta o dedo e diz algo do tipo: "Você deu mancada", em tom de brincadeira. E assim que ouvimos "Behind The Blue Eyes", tema regravado pelo Limp Bizkit. Sim essa é música do The Who, algo que Pete menciona em tom de ironia antes do início da canção.  Talvez por essa atemporalidade o tema mantenha o mesmo frescor do ano em que foi lançada, em 1971, algo inteligentemente percebido pelo vocalista do Biskit, Fred Durst. Os isqueiros e celulares compõem um mosaico de luzes que dialogam com as bonitas imagens do telão. "Join Together", outra canção que cresce absurdamente ao vivo, mantém a noite em chama alta. Aos primeiros segundos quando ouvimos o som do berimbau de boca (jew's harp) do tecladista Loren Gold, a massa efervesce como o antiácido. Dá pra perceber claramente o super time montado para o atual tour.

Lá estão Simon Townshend (guitarra e vocais de apoio), irmão mais novo de Pete; John Button (baixo), músico que já tocou com artistas como Shelby Lynne e Marc Ford; o já citado Loren Gold (tecladose jew's harp), profissional envolvido em projetos com Demi Lovato e Selena Gomez; John Corey (teclados), possui no currículo atuações com artistas e bandas como Rod Stewart e Eagles, além  de Frank Simes (teclados, vocais de apoio e diretor musical da banda), multi-instrumentista com serviços prestados ao próprio Roger Daltrey em atuações solo, além de bater cartão na trupe de Roger Waters. Contudo, o destaque fica por conta de um autêntico representante da realeza do rock, um músico com o suingue do pai e a irreverência do padrinho. Zak Starkey (bateria), filho de Ringo Starr, no Who há mais de 20 anos! Uma curiosidade: Zak ganhou seu primeiro kit de bateria de Keith Moon, falecido baterista original do grupo e que também o ensinou as primeiras lições. 

Zak Starkey. Foto: Ton Muller
E Zak é destaque em "You Better You Bet", tema que coloca o estádio novamente pra dançar e cantar, uma rotina dessa apresentação. O baterista tem um brilho especial, é como se fosse um remanescente da velha escola dos bateristas, cara de moleque (ele acaba de completar 52 anos) e movimentos hiperativos que reverbera a linhagem de seus antecessores. Outra curiosidade: Zak tocou uniformizado com o abrigo que ganhou da banda carioca Beach Combers, mesmo grupo em que participou de uma jam ao ar livre no Calçadão de Ipanema no dia seguinte a apresentação do Who no Rock in Rio.

Logo depois, temos a primeira sequência conceitual da noite: três temas enfileirados de "Quadrophenia" (1973). "I'm One", momento em que Pete Townshend troca a guitarra pelo violão e se torna quase um solista no palco. Roger mostra sua habilidade na gaita de boca e como sideman de luxo nessa versão ao vivo que soa tão boa quanto ao que conhecemos dos discos. 'Pete  Townshend e Concerto para banda e orquestra' - é o que imagino na faixa instrumental "The Rock", quando o show vira a direção dos ventos sem deixar de nos imergir em seu encantamento. A épica "Love, Reign O'er Me", tema  regravado pelo Pearl Jam em 2007 para a trilha sonora do filme "Reine Sobre Mim", com Adam Sandler, soa ainda familiar para muitos. Se ouvimos um papo de que Roger Daltrey já poderia pendurar as chuteiras, eis o instante em que os detratores caem por terra.   

Ton: Muller
"Eminence Front" se aproxima das composições solo do Pete (o Who possui dezenas de canções melhores que essa), e com isso temos o único número que me faz pensar em peça de reposição. Putz, seria incrível ouvir "Squeze Box" ao vivo! E finalmente chegamos a "Tommy". "Amazing Journey" "Sparks" são tocadas como uma longa suíte, onde os músicos parecem compenetrados como integrantes de uma rockorquestra ou um exército rumo ao campo de batalha, inspirado pela marcha militar de Roger. Tudo não passa de um prelúdio cirúrgico que nos prepara até a chegada de "Pinbal Wizard", um rock perfeito para as grandes arenas. Se existe um lugar dos sonhos para um fã do Who, esse lugar é o Beira-Rio na noite dessa terça. Já "See Me, Fel Me", nos conecta permanentemente a imagem da banda no Festival de Woodstock, quando remonta  na memória as cenas do documentário sobre o maior festival musical de todos os tempos. Ela é tocada muito mais rápida, alquebrada, raivosa, e não menos bela.   

Foto: Ton Muller
Como trabalhador da música que sou, um combatente do som, guerrilheiro cultural e convicto apaixonado pela vida que levo, existem canções que soam como orações.  Em primeiro lugar, "Baba O'Riley" foi uma das músicas que me convenceram a aceitar o sintetizador no rock, um épico que está eternizado no panteão das melhores canções de todos os tempos. A luta de um trabalhador pelo seu prato de comida,  o  esforço para colocar na mesa o pão de cada dia, a saudade de casa que a distância evoca, a redenção dos erros passados e a eterna busca pela Terra Prometida a encontrar conforto nos braços da pessoa amada. Épico! Épico! Épico! Grito a plenos pulmões: "Teenaaaage wastelaand!!!"     

E ainda tem mais. Ao lado de canções como "Street Fighting Man" dos Stones, "Won't Get Fooled Again" é trilha sonora para a a revolução  das ruas, um alerta que precisamos estar atentos para não sermos enganados, seja pelos governantes ou por qualquer filho-da-puta nesse mundo danado de difícil! Baita reflexão aos alienados de plantão. Sim, as letras de Pete ainda soam atuais. E ver Roger aos 45 do segundo tempo, de camisa desabotoada e atuando como boxeador a golpear um oponente fantasma é uma cena pra guardar na memória. E ainda rolou um beijo na testa de Pete em Roger. Apesar de todas as diferenças entre ambos, são mais de cinco décadas de convivência, é óbvio que existe muito carinho e respeito entre eles.

Foto: Ton Muller
Não houve bis. Por quê? Roger simplesmente não sai do palco. "You know this is bullshit, don't you?". Ele fala da velha encenação: banda sai, público implora sua volta, eles retornam para o palco. Assim, segundos depois, Pete e banda estão de volta. Nada como um grupo a fim de roer o osso. Retornam com "5:15", mais uma de "Quadrophenia", meu preferido do Who (obrigado Joselito!). E para termos a sensação de que certas noites podem ser 'quase' perfeitas, após 2h de apresentação, "Substitute", hino dos impostores de plantão e planilha do orgulho inglês de Pete a entregar sua origem proletária, encerra a noite: "Meu belo terno na verdade é feito de saco de estopa". Sim, minha credencial é falsa! Salve, Jamil! "No Rio de Janeiro o Who estava mais feroz, muito mais. Em SP eles fizeram um super show, era um estádio inteiro pra eles. Em Porto Alegre foi tudo isso junto", disse Anderson Oliveira, fã paulista que assistiu os três shows no pais. Ainda emocionado, o jornalista gaúcho Lúcio Brancato narra outro recorte da noite: "Teve um momento épico com toda a 'quad' deixando o gramado rumo a rua no fim do show e entoando 'We Are The Mods'. E junto conosco estava o primeiro mod brasileiro, Edgar Scandurra do Ira! Chorei de emoção".

Keep Calm: here goes The Who! Não Pete! Volta, Roger! Queremos mais! Em pleno êxtase e arrebatamento, encaro nos olhos da multidão e procuro o rosto de velho amigo que me apresentou a banda inglesa há mais de 30 anos. Não o encontro. Entretanto, essa memória viva ainda respira. Aonde quer que você esteja - outro salve para Joselito!

O outro John do baixo - John  Button. Em outro plano, o tecladista Frank Simes Foto: Ton Muller 
A princípio está decretado: o destino do Who como banda é uma incógnita. Há anos Pete não tem o mesmo apreço pela estrada, ímpeto que o moveu nos anos inciais da banda, mas que há décadas arrefeceu. Tanto que o guitarrista acaba de anunciar um período sabático para breve, desenhando um 2018 sem apresentações do Who ou com algo novo de sua também brilhante carreira solo. Esse não é o desejo de Roger, o homem que de alguma forma insiste em manter flamejante a flâmula do grupo que lhe deu reconhecimento artístico. E é muito provável que o Who nunca mais retorne, o que no meu ponto de vista é bastante compreensível.

No entanto, os shows no Brasil (principalmente esse de Porto Alegre) e as apresentações do próximo dia 29, em Santiago (Chile) e 1º de Outubro em Buenos Aires (Argentina), podem mudar a diração dos ventos. No entanto, sabemos o gigante deve adormecer no próximo ano. O único sentimento que não adormecerá jamais, certamente é o carinho dos fãs pela banda. E quem sabe ainda haja esperança de que o Who coloque na roda mais lenha pra queimar...

Foto: Ton Muller
Encore:

No 'after show' da noite em que assisto um dos mais importantes shows da minha vida, acabo no camarim da banda com dois amigos, e lá trocamos algumas frases com o tecladista Frank Simes. Pete e Roger não aparecem, e assim, meu vinil de "Meaty Beaty Big and Bouncy" continua sem autógrafo. Vida que segue. Reza a lenda que the kids are allright... Certamente eles estão sorrindo, felizes depois da noite de ontem. Possivelmente até mais do que nós. LEIA a a matéria do músico/produtor Brian Kehew (que trabalha na equipe do Who) publicado no site oficial da banda e que coloca o show de Porto Alegre como um dos melhores da banda nos últimos anos.



Obrigado ao talentoso Ton Muller, autor das imagens dessa resenha. Confiram o SITE do fotógrafo. Essa postagem é dedicada a parte do Mod Squad que viveu esse show meses antes dele acontecer: meu abraço nos amigos Cristiano Radtke, Jamil Khoury e Lúcio Brancato. A Grings - Tours, Produções e Eventos e Jamil Magic Bus agradecem as 158 pessoas que novamente viajaram conosco. Próximo grande evento: Paul McCartney... Já estamos ansiosos.

















Setlist The Who PoA:

 "I Can't Explain"

"The Seeker"

"Who Are You"

"The Kids Are Alright"

"I Can See for Miles"

"My Generation"

"Bargain"

"Behind Blue Eyes"

"Join Together"

"You Better You Bet"

"I'm One"

"The Rock"

"Love, Reign O'er Me"

"Eminence Front"

"Amazing Journey/Sparks"

"Pinball Wizard"

"See Me, Feel Me"

"Baba O'Riley"

"Won't Get Fooled Again"

"5.15"

"Substitute"

Foto: Ton Muller

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