quarta-feira, 22 de março de 2017

ROGER HODGSON – PORTO ALEGRE, 21 DE MARÇO DE 2017

Fotos: Juliana Pozzatti
Texto Márcio Grings Fotos Juliana Pozzatti

UMA BREVE VIAGEM NO TEMPO –

Se você pudesse voltar ao final da década de 1980, seria muito provável que ao ligar o rádio, “You Make Me Love You”, faixa do segundo disco solo de Roger Hodgson tocasse em algum momento dessa recordação. O papo na segunda metade da década é que o Supertramp não é mais o mesmo após a saída de Roger; e que o som de Roger mudou depois de ter abandonado o Supertramp.

Confira o álbum de fotos de Juliana Pozzatti

Estamos em 9 de janeiro de 1988, acaba o Fantástico na TV e a Globo transmite alguns shows do Hollywood Rock, com a Praça da Apoteose apinhada de gente. O Supertramp faz o encerramento da última noite do evento. Você acompanha as imagens e percebe que algo está faltando... Veja aqui Poucos anos depois da ruptura entre os dois principais compositores do grupo, os fãs continuam a olhar para o passado recente. Na sua casa, a cerimônia principal ainda é colocar no toca-discos “Paris”, álbum ao vivo do Supertramp. E depois você apaga as luzes da sala. Lá Roger e Rick ainda estão juntos. E assim a viagem começa...

Saiba mais sobre "Paris" (1980) e veja o show completo aqui 

Fotos: Juliana Pozzatti
A VOZ DO SUPERTRAMP –

Voltando a 21 de março de 2017, assistir ao vivo o “Breakfast in America Tour 2017” é um momento único. Especial! Isso está muito claro pra você. Lembrando, Rick Davies ainda se recupera do tratamento de um câncer, e com isso o Supertramp está parado há cerca de dois anos. De todo o modo, mesmo fora da banda, são as canções de Roger Hodgson que dominam esse hemisfério ligado à memória afetiva do grupo. Por mais que houvesse um equilíbrio entre as composições da dupla (e essa era a grande jogada do Super Vagabundo), há algo inexplicável ligado às músicas que Roger compôs. A impressão é que a magia de suas canções permanece intacta.

Fotos: Juliana Pozzatti
AS CANÇÕES DE ROGER -

Depois de três anos e na sua quinta visita ao Brasil, Roger Hodgson atua no mesmo modus operandi de suas vindas anteriores. Desde 2004 o músico inglês mantém uma média de 40 shows por ano, e para nossa alegria, o que domina o set são as canções que compôs na época em que esteve no Supertramp, mais propriamente os temas de cinco álbuns: “Crime of Century” (1974), “Crisis? What Crisis?” (1975), “Even in The Quiestest Moments” (1977), “Breakfast in America” (1979) e “Famous Last Words” (1982), oito anos que tornaram o grupo uma das grandes pedras preciosas da música internacional. Após sair do time, lançou apenas três discos de estúdio: o ótimo “In The Eye of The Storm’’ de 1984, o razoável “Hai Hai” de 1987 e o bom “Open The Door” de 2011. 

E mesmo que nos selos dos LPs e encartes do Supertramp você leia que todos os temas são assinados por Hodgson/Davies (é o último quem detém a utilização do nome ‘Supertramp’), eles compunham individualmente, mas assinavam em dupla - assim como aconteceu com Lennon/McCartney, a mais famosa das duplas do gênero. Em suma, no “Breakfast in America Tour 2017”, Roger canta apenas as ‘suas músicas’. E que músicas!

Fotos: Juliana Pozzatti
O SHOW -

21h35, o protagonista da noite entra no palco vestido de branco, saudando a audiência com uma xícara de chá na mão direita, enquanto o público prontamente o recepciona com “Parabéns a Você! Na noite em que comemora 67 anos, Roger Hodgson agradece, calmamente senta em frente ao piano e brinca com as teclas até disparar a sequência de acordes iniciais de “Take a Long Way Home”. Uma música perfeita que reflete os dilemas de uma banda/artista na estrada. 

Antes de tocar o segundo número da noite, Roger conversa longamente com o público. É interrompido novamente por um novo “Parabéns a Você”. Diz que se apaixonou pelo Brasil desde sua primeira vinda em 2004. “Estou feliz em estar aqui”, fala em tropego português. E depois convoca a audiência a esquecer dos problemas do mundo lá fora e apenas curtir toda a intensidade do espetáculo. É quando o músico pega a guitarra e ouvimos “School” – clássico em que nos avisa que o esforço pela perda da inocência é inevitável, mas essa viagem rumo à vida adulta nos trará muita frustração. Não nesta noite... 

Fotos: Juliana Pozzatti
Entre os temas da carreira solo, duas de suas preferidas reaparecem em Porto Alegre: “In The Jeopardy” e “Lovers in The Wind”, esta última música ele inclusive dedica aos casais presentes no Pepsi On Stage.

O bolo de aniversário de Roger em Porto Alegre. Foto: Facebook Roger Hodgson
Um jumbo encurtando a distância entre a Inglaterra e os Estados Unidos, as groupies, o vazio do estrelato, “Breakfast in America”, uma canção aparentemente alegre com temática melancólica e chamuscada pelo clarinete dixieland, evoca lembranças ianques da Era do Jazz e das Terras do hedonismo do rock nos anos 1970. “Se tivesse conhecido o Brazil na época em que compus ‘Breakfast in America’, ela se chamaria ‘Breaksfast in Brazil’”, disse ao público.

Ancorado por um talentoso quarteto, no palco o músico canadense Aaron McDonald (saxofone, clarinete, harmônica, teclados, voz e outros instrumentos), além de três norte-americanos - Armen Chakamakian (teclados e voz) - e não Kevin Adamson, como você leu em algumas resenhas - David Carpenter (baixo e voz) e Brian Head (bateria). A atmosfera do quarteto pode ser facilmente percebida em “Hide in Your Shell”, uma letra que fala de como podemos (e devemos) ajudar nossos entes queridos a superarem momentos difíceis. E também é chance de conferir o lendário som do teclado Wurtlizer, e sua sonoridade muitas vezes confundida com a plástica do Supertramp. Por isso, Hodson a frente do ‘Wurly’ (forma carinhosa em que os músicos muitas vezes se referem ao instrumento) é uma das imagens carimbadas de uma banda que poucas vezes ancorou a guitarra ao seu protagonismo.  

Fotos: Juliana Pozzatti
“Easy Does It”, uma das mais belas letras de Roger Hodgson, é um dos temas do Supertramp que já apontavam para os caminhos de sua carreira solo. Novamente com o violão, o tema vem colado a “Sister Moonshine”, ainda na esteira de uma temática campestre e antiga.

Escrita em 1979, atualmente a letra de “Logical Song” pode ser relacionada à crueldade do julgamento das redes sociais aos expressarmos nossas opiniões. Alguém avisa: “Cuidado com o que você diz / ou eles o chamarão de radical, liberal, fanático, religioso”. E o juiz determina: “[Sim], você não vai assinar o seu nome / Gostaríamos de sentir se você é aceitável, respeitável, apresentável, [afinal, você precisar continuar sendo] um vegetal”. Um clássico que soa muito semelhante ao original, com o som batendo forte no peito. Essa é outra característica das músicas de Roger, elas permanecem relevantes. Antes do show, no táxi a caminho do Pepsi, a fotógrafa Juliana Pozzatti (autora das imagens dessa resenha) nos lembra que em uma de suas primeiras aulas de inglês, sua professora utilizava essa música para catequizar os rebentos locais. Outros tempos...

Fotos: Juliana Pozzatti
Com Roger saltando do Wurly para o piano negro localizado lateralmente ao cento do palco, “Lord It is Mine” sempre me soou como uma oração. Um homem cansado das velhacarias do mundo em busca de um refúgio, um abrigo só seu. É uma das músicas perdidas no repertório do Supertramp, não relacionada aos greatest hits da banda, vem sendo tocada permanentemente no setlist do tour sul-americano.  

Em um português terrível, Hodgson nos pergunta: “O que você faria se tivesse a opção de ser morto ou ficar confinado o restante da existência em um zoológico?” “Death and Zoo” é seu manifesto contra o aprisionamento de animais selvagens. É necessário lembrar que apesar das dificuldades em tentar falar a nossa língua, sempre muito simpático e tranquilo, Roger leva tudo na boa. O resultado disso é que ele tem o público sempre na mão em todos os momentos do show. 

Foto: Juliana Pozzatti
Quem será o último palhaço que colocará a casa abaixo? O tom premonitório de “If Everyone Was Lintening”, canção de 1974, parece antecipar a futura ruptura do Supertramp.

“Along Came Mary” soa como uma fábula medieval. É um dos trabalhos mais bonitos de sua carreira solo e o som do violão de 12 cordas, assim como a flauta doce, emulam um remonte folk, com acentos da tradição celta europeia. Tudo isso sublinhado pela letra que se assemelha as antiga lendas da Terra do Rei Arthur: “Mary, cabelos dourados e lábios de cereja / Fiquei surpreso quando ela roubou o meu trovão”. 

"Child in Vision", único momento da noite em que o tecladista Armen Chakamakian sai detrás do seu teclado e vai para o piano, revela o solo mais chamuscado de blues/jazz da apresentação. O quinteto de músicos o faz lembrar que a parte cantada desse tema parece apenas uma desculpa para potencializar o tour-de-force de três teclados produzindo uma camada sonora repleta de groove e balanço.    

Foto: Juliana Pozzatti
E eis que alguém da equipe de produção sobe ao palco com um bolo aniversário, e assim, novamente a festejo ganha ares de celebração entre amigos. Tão particular, que a banda preparou outra surpresa: uma inédita incursão no setlist surge quando “Birthday”, música do "White Album" dos Beatles é improvisada em tom de bagunça e reunião familiar.  
  
Se você buscar na memória, é provável que “Dreamer” tenha sido a primeira canção do Supertramp a ter lhe pegado de jeito. Ancorado no piano Wurlitzer (na gravação de estúdio há uma guitarra que desaparece nessa encarnação atual), sem dúvida, esse é um dos sons que ajudaram o Tramp a escalonar o topo do rock nos anos 1970. O público, de forma mais do que esperada, delira! 
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Foto (celular): Juliana Pozzatti
Roger Hodgson agradece novamente ao público, e anuncia a última canção. ”A história nos recorda o quão grandioso o outono pode ser”. Já que acabamos de entrar no outono gaúcho, essa é uma boa frase para começar uma composição. Dá pra dizer que “Fool’s Overture” é a música mais Floydiana e ligada ao rock progressivo de Roger (e também do Supertramp), e tema que ainda nos instiga a libertar o ‘santo-roqueiro-louco-viajante’ dentro de cada um de nós.  É o que você e os milhares que foram até o Pepsi On Stage fazem deliberadamente.

A banda se despede, as luzes se apagam, e após os apelos da audiência, Roger Hodson e seu quarteto estão de volta para um dos melhores momentos da noite. “Had a Dream (Sleeping With the Enemy)”, abre-alas do primeiro LP solo do músico, é um som com a cara da sua ex-banda e claramente evoca a sensação de liberdade após sua debandada do time. Roger, David Carpenter e Aaron McDonald cantam a música a três vozes. E numa noite em que o som da guitarra poucas vezes ganhou projeção, o ex-Supertramp faz os únicos três breves solos de guitarra da apresentação.

Foto: Juliana Pozzatti
Da eletricidade para o acústico, “Give a Little Bit” é uma das canções mais populares de Roger. Violão de 12 cordas na linha de frente e o coro de quase três mil pessoas. “E só o tempo cura a dor / E faz o sol nascer de novo”. Você e sua namorada colam na grade para ver “It’s Raining Again”, o último sucesso do Supertramp da era Roger Hodgson. É também a música perfeita para nos deixar com aquela sensação premonitória de que quando a vida nos dá uma rasteira, a mesma chuva que nos molha também nos renova. O personagem do clipe (que foi exaustivamente veiculado nos primeiros anos da MTV) simboliza essa ruptura com o passado, quando saudoso e sem um puto centavo no bolso, ele embarca num ônibus da Greyhound rumo ao futuro de seus dias. Essas são duas sensações que assistir o “Brekfast in America Tour 2017” deixa em seu coração: nostalgia e renovação. Sim, você fica nostálgico, mas não de uma forma ruim, pois esse banzo dos velhos tempos lhe conforta de uma maneira agradável. 

Contudo, o grande barato é estar de contrato renovado com seu íntimo, por isso, olha com reverência para o aniversariante do dia e agradece ao #superandarilho Roger Hodgson por ter deixado esse traço brilhante de luz que insiste em não arrefecer. Esse é um daqueles shows que não o deixa esquecer o quanto a música ainda é um dos grandes acontecimentos de nossas vidas.    

Juliana Pozzatti
Depois de Porto Alegre Roger Hodson ainda toca em Brasília (23), Belo Horizonte (25) e Rio de Janeiro (26). Dia 27 ele voa até a Califórnia e descansa por alguns dias. Sim , por que a nova (e longa turnê) na Europa já tem data para começar: 30 de abril, em Dublin, na Irlanda e acaba só em 11 de agosto, em Cambrils, na Espanha. 

Até a próxima, Roger.    

Confira o setlist:

01 “Take a Long Way Home”
02 “School”
03 “In The Jeopardy”
04 “Lovers in The Wind”
05 “Breakfast in America”
06 “Hide in Your Shell”
07 “Easy Does It”
08 “Sister Moonshine”
09 “Logical Song”
10 “Lord It is Mine”
11 “Death and Zoo”
12 “If Everyone Was Lintening”
13 “Along Came Mary”
14 "Child in Vision"
15 “Birthday”
16 “Dreamer”
17 “Fool’s Overture”

Bis
18 “Had a Dream (Sleeping With the Enemy)”
19 “Give a Little Bit”
20 “It’s Raining Again” 


Foto: Juliana Pozzatti



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