sábado, 12 de novembro de 2011

NAZARETH - SANTA MARIA, 11 DE NOVEMBRO DE 2O11

Fotos: Fabiano Dallmeyer
O ATC estremeceu. 1.800 pessoas foram testemunhas de uma apresentação de luxo da banda Nazareth, nessa sexta-feira (11), em Santa Maria. Em duas horas de espetáculo o quarteto mostrou todos os adjetivos que uma boa banda de hard rock deve ter. Além das sempre esperadas e tradicionais baladas (foram apenas cinco, para decepções de muitos), acima de tudo, os britânicos oscilaram algumas canções recentes (três do último álbum lançado em abril, o bom “Big Dogz”), e claro, uma penca de rocks encardidos que tornou o Nazareth um dos gigantes do rock internacional nos anos 70, época em que os escoceses venderam milhões de cópias de seus LPs. 

Foto: Fabiano Dallmeyer
0h3min – tudo começa com acordes de gaitas de fole, uma melodia derivada do hit “Hair of The Dog” que se mistura a algo que lembra algum tema folclórico anglo-saxão. Nazareth no palco. “Silver Dollar Forger” – som que coloca o pé na porta e avisa: “você está em um show de hard rock!”. “Big Dogz Gonna Howl”, número que abre o disco Big Dogz (lançado no último mês de abril), mostra que o Nazareth ainda tem lenha pra queimar. O guitarrista Jimmy Murrison, que está na banda desde 1994, e tem a árdua tarefa de substituir o virtuoso Manny Charlton (membro fundador do Nazareth), faz de sua Gibson Les Paul um arquétipo dos jargões do rock: pose, timbre, volume e proficiência em jogar seu instrumento na linha de frente das canções. “This Month Messiah” única joia faiscante do fraco “The Catch”, de 1984, faz um espectador ao meu lado perguntar: “Será que eles vão tocar as baladas?”. É quando o vocalista Dan McCafferty pergunta a plateia: “Vocês são românticos?”. Um sonoro “yeahhhhhhh” se mixa ao riff de violão de “Sunshine”, um dos hits absolutos da trajetória dos escoceses.

Foto: Fabiano Dallmeyer
“Vamos a um Boogie Woogie?”, provoca Dan. Mais lenha seca a fogueira com “Turn On Your Receiver” um hardzão danado de bom do álbum Loud N’ Proud [1974], que surge numa versão mais cadenciada que a original, eu diria relaxada. A audiência bate em sincronia com o riff comandado por Jimmy. O guitarrista volta ao violão com “See Me”, número que virou o último vídeo oficial da banda e que foi o boi de piranha do álbum “The News”, de 2008.

Entretanto, a casa cai quando a massa reconhece os primeiros acordes de “Love Lead To Madness” , um single de 1982 que colocou o grupo no horário nobre na TV brasileira. A música fez parte da trilha-sonora da novela global “Sol de Verão“, tornando-se um dos maiores sucessos no Nazareth no país.“Radio” é outro dos bons sons de “Big Dogz”que me mantém a bola quicando. Do mesmo álbum de 2011, “When Jesus Comes To Save The World Again” é uma daquelas músicas introspectivas que parece nos preparam pra um clímax que nunca acontece. “This Flight Tonight”, outra de “Loud N’ Proud”, releitura da cantora canadense Joni Mitchell, pude assistir do backstage. 

Foto: Fabiano Dallmeyer
De perto dá pra sacar que apesar dos 65 anos nas costas, McCafferty parece  ter perdido o vigor físico (ele faz paradas estratégicos para buscar novo gás num balão de oxigênio). Em outro viés, antagonicamente a sua fragilidade, a voz do homem de frente continua sendo o principal emblema da banda, carimbando-o como “band lider” legítimo. O ‘véio’ canta muito! 

Uma curiosidade: um dia antes do show (sexta, 10), Dan desapareceu em Santa Maria. Foi encontrado várias horas depois em um boteco da periferia da cidade ao lado de um dos roadies brasileiros do tour. Nada demais. O vocalista apenas estava provando algumas das delícias etílicas do sul do Brasil. Voltando ao set, já que Dan está cansado, um hit pode ajudá-lo. Cerca de 1.800 vozes fazem coro a “Dream On”, outro daqueles sons que podem ser considerados como cânones do pop baladeiro.

Foto: Fabiano Dallmeyer
Chega então o momento do Nazareth reivindicar seu re-ingresso na primeira divisão do hard rock. Surge a tríade de sons pesados do mega-platinado  “Hair of the Dog” de 1975. “Whisky Drink Woman”, um blues carregado de peso – lançado no LP “Hair of the Dog” [1975] –  me deixa com aquela sensação de que você realmente está assistindo um monstro sagrado do gênero. E tem outra: poucos baixistas tocam tão bonito (cenicamente falando) como Pete Agnew. O veterano instrumentista de 65 anos tem aquela postura clássica de palco – ao nível de caras como John Deacon [Queen] e Roger Glover [Deep Purple].

Foto: Fabiano Dallmeyer
”Chansing Times” é mais uma plataforma perfeita para os riffs afiados de Jimmy Murrison. E por último vem a faixa título do álbum. A expressão “Hair of the Dog” (em inglês: “pelo do cachorro”) um gíria sobre à prática de ingerir bebida alcoólica para curar a ressaca da mesma bebida, derivada da expressão “hair of the dog that bit you” (“o pelo do cachorro que te mordeu”), que significa que a melhor cura para algo que lhe aflige é um receber um pouco maledicência. Em tempos antigos, a expressão era literalmente aplicada: se um cachorro mordia alguém, o pelo desse cachorro era colocado sobre a ferida para curá-la. E é desse veneno (antídoto anti-monotonia?) que recebemos algumas mordidas valendo desses escoceses legítimos. Primeiro com as pancadas firmes das baquetas de Lee Agnew. O músico de 40 anos é filho de Pete e adentrou a banda em 1999, logo após o baterista original da banda, Darrel Sweet [do qual ele era roadie], morrer de enfarte. Isso minutos antes de um show em Indianápolis, nos EUA.

Foto: Fabiano Dallmeyer


"Hair of the Dog” é a música dos sonhos de qualquer baterista. Esse também é o momento que Dan toca seu solo de gaita de fole (instrumento típico da Escócia) acoplado a um talk-box (dispositivo utilizado para dar um efeito similar a voz em instrumentos musicais, normalmente guitarras). Um espetáculo! Eis que chega um momento especial da noite. Durante a coletiva de imprensa da quinta-feira (10), o vocalista falou de um fã que mandou vários e-mails para a produção da banda, insistindo para que o quarteto tocasse a balada “When Are You Now?”, som que saiu originalmente no LP “Sound Elixir” de 1983. A banda não tocava a música a cerca de 30 anos. O garoto do e-mail estava lá com sua faixa. A nova versão excluiu o piano da versão original e deixou a responsabilidade para o guitarrista. Com o público em êxtase, eles dão aquele falso tchauzinho que antecipa o bis.

Foto: Fabiano Dallmeyer
E pra delírio total da massa local, Dan McCafferty volta vestindo uma camisa do Riograndense, tradicional clube santa-mariense da segunda divisão do futebol gaúcho que completa 100 anos em 2012. Recomeçam com toda a sujeira à mostra em “Razamanaz”, disparado um dos melhores rockões da banda desde sempre. O ATC vira uma festa. Festa? Tudo vira um autêntico “Bailinho da Saudade” quando todos identificam os primeiros acordes de “Love Hurts”.

A canção dos Everly Brothers regravada em 1975 pelo Nazareth tornou a banda famosa em todo mundo. A noite já estava ganha faz tempo. Não precisava tocar mais nada. Já dava pra fechar as cortinas e mandar todo mundo pra casa às lágrimas.

Entretanto, eles tocaram mais uma. A fraquinha “We Are Animals”. Não importa. 01h58min foi quando tudo realmente terminou de verdade. O quarteto escocês sai de cena.  E como disse um amigo: “Assistir Love Hurts do Nazareth, ao vivo, no quintal de casa, e ainda com o vocalista vestindo a camiseta de um clube na minha cidade…”. É, o mundo diminui de tamanho. 


Foto: Fabiano Dallmeyer

Foto: Fabiano Dallmeyer

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