sábado, 22 de novembro de 2014

MISSISSIPPI DELTA BLUES FESTIVAL 2014 - 3ª NOITE, CAXIAS DO SUL, 22 DE NOVEMBRO

Casa cheia no último dia de MDBF. Fotos: Fabiano Knopp
Em alguns momentos parece uma terra dos sonhos, um território inimaginável para ser construído tão longe do berço do blues, e mesmo assim, com tamanha identidade e coerência. Carnaval em novembro, festa da firma (é o que dizem os colaboradores do evento), uma camaradagem invejável entre os músicos, sem nenhuma ocorrência policial registrada e um verdadeiro circo de atividades, atrações, expositores, espargindo nessa composição única em termos de festivais no país.

Saiba como foi a primeira e a segunda noite do MDBF

Essas são algumas das coisas que me vem à mente depois da última noite de festival, o maior evento de blues do país. O #MDBF surgiu como uma extensão das atividades do Mississipi Delta Blues Bar, o Missi, como se referem carinhosamente os caxienses quando falam de um dos bares mais conhecidos, isso não apenas na Serra, como também por todos os amantes do blues nos quatro cantos do país. O festival que acontece no Largo da Estação Férrea teve sua noite de maior público neste sábado (22).

Casé do blues

Pelo menos pra mim, o sábado começa com Luíza Casé, prima da apresentadora da Rede Globo, Regina Casé. Ela sobe ao palco feminino acompanhada de uma super banda formada por nomes como os guitarrista Otávio Rocha (Blues Etílicos) e Cristiano Crochemore, o baixista Cesar Lago, mais Beto Werther, ex-Big Allambik, na bateria. Além de cantar muito, Luiza parece ligada na tomada, hipnotizando a plateia com sua autoconfiança e senso de humor. “Um pouco de vitamina D não faz mal a ninguém”, diz a cantora usando a mão como viseira para se proteger do sol do final de tarde, batendo fortemente no Magnolia Stage.  Quanto ao repertório, versões endiabradas de “My Babe” (Little Walter), “I’d A Rather Go Blind (Etta James) e “You Belong To Me’ (Robert Cray ). Anotem esse nome: Luiza Casé, aposto minhas fichas nela. Artista nata, inteligente e talentosíssima.

South American Harp Attack no Main Stage. Foto: Fabiano Knopp
Os gaitistas, Bilbo e o Patrono

No palco principal do festival, tudo começa com South American Harp Attack, união de quatro gaitistas de peso do continente e um desfile de clássicos do gênero. No palco, Flávio Guimarães (RJ), Gonzalo Arraya (Chile), Nico Smojjan (Argentina) e Ale Ravanello (RS). Carta marcada: uma aula de harmônica para quem gosta do som de gaitas diatônicas (as gaitinhas de dez orifícios). Aquela altura do entardecer, o MDBF já recebe seu melhor público dos três dias. Logo mais todo o complexo estaria tomado.

Ainda no Main Stage, na sequência temos a presença folclórica do músico norte-americano Robert “Bilbo” Walker, que no dia anterior, fez um show inesquecível debaixo de chuva no Front Porch Stage. Leia a resenha AQUI

Robert Bilbo Walker. Foto: Fabiano Knopp
“Nunca vi tantas mulheres bonitas num show. E também nunca vi tantos homens feios”, brinca o músico explicitando sua maneira folclórica de dizer frases prontas que podem soar engraçadas em qualquer lugar do planeta. Bilbo faz um decalque do set da sexta-feira, e fico com a impressão de que num palco maior, parte da sua magia se dissipa. De todo o modo, ele me ganhou com seu jeito burlesco e caricato, uma síntese do espírito bem humorado e divertido do blues. O público o adora, tanto que antes do show, tirou uma série de fotos com vários novos fãs. Claro que no quesito celebridade ele perde longe para Bob Stroger, Patrono honorário do evento, disparado a figura mais amada e fotografada do festival.

Stoger no All Aboard Stage. Foto (cel): Márcio Grings
Apresentação do músico na noite de sábado no All Aboard Stage, estava com lotação máxima no espaço que compreende a antiga plataforma de embarque/desembarque da Estação Férrea. Se eu fizesse parte da comissão organizadora do MDBF, iria requisitar a entrega da chave da cidade para Stroger.

O sorriso dourado de Johnny Nicholas. Foto: Fabiano Knopp
Intimismo com Johnny Nicholas

Já no meu palco favorito, a ‘casinha’, o ex-Asleep At Wheel e Commander Cody, Johnny Nicholas, que fechou a noite de sexta-feira no Main Stage, faz um dos shows mais intimistas do MDBF 2014. Chama atenção sua abordagem sutil em tocar alguns clássicos do gênero, sem muito virtuosismo, tanto nas teclas quando na harmônica presa ao suporte. No entanto, sua voz soa elegante e autêntica, um diálogo perfeito com o vernáculo do piano blues. De chapéu, bigode de crupiê e uma boca que denuncia a presença de dentes encapados com ouro, o pianista destrincha o manual de como uma apresentação pode soar despretensiosa, na primeira metade, e simplesmente espetacular na segunda leva de sons. Assim como o show de Lazy Lester na quinta, outra aula de blues assistida bem de pertinho, com direito a improvisos, surpreendentes mudanças de andamento e um constante bate bola entre os músicos.

Rockfeller, Nicholas e Fishbone. Foto: Fabiano Knopp
Destaque para as participações dos guitarristas Solon Fishbone e Netto Rockfeller, além do gaitista Flávio Guimarães, este último, que na minha opinião faz sua melhor apresentação nos três dias de festival. Inesquecíveis versões do time para “Goin’ Back to New Orleans”, de Doctor John e “Key to the Highway”, de Charlie Segar.

Na plateia, bem na frente do palco, os guitarristas Danny Vincent e Larry McCray curtiam o show junto à pequena multidão.

Flor Horita. Foto: Fabiano Knopp
Flor

Voltando ao Magnolia Stage, a jovem cantora e guitarrista argentina Flor Horita, mostra suas versões para standards como “A Put Spell On You”, “Baby What Me Want Me To Do” e “Catfish Blues”. Infelizmente só pude conferir o início da apresentação, e com isso fiquei com a sensação de que havia muito mais a ser conferido. Motivo da minha partida? Não dava pra perder o segundo set da apresentação de Johnny Nicholas. Já falei isso em postagens anteriores, uma das tônicas do MDBF é que diversas atrações são simultâneas, e com isso, precisamos fazer nossas escolhas.


Jerry Portnoy. Foto: Fabiano Knopp
A elegância de Portnoy

Próxima atração: Jerry Portnoy no Main Stage. Expoente da lendária cena blues de Chicago, Portnoy é uma presença viva de uma das escolas mais tradicionais da música norte-americana. Olhar para o gaitista, a forma cuidadosa como passa o cabo do microfone pelo ombro, a postura imponente (apesar da baixa estatura), as bochechas infladas pelos movimentos de sua boca no instrumento, a voz grave, os timbres exatos daquilo que ouvimos dos velhos LPs de blues, enfim, tudo soa fidedigno. Como um guardião do legado mais precioso da música que o tornou um dos profissionais respeitadíssimos e requintados da harmônica, Portnoy homenageia nomes como Jimmy Reed, Big Walter Horton, Sonny Boy Williamson, entre outros.

Impagável vê-lo em ação utilizando todos os traquejos que muitas gaitistas tentam invariavelmente imitar, mas raramente conseguem.  E, além disso, Jerry Portnoy leva o troféu de músico mais elegante do festival. No show do MDBF, o gaitista esteve acompanhado do guitarrista Rick King Russell, músico que já foi sideman de nomes como David “Honey Boy” Edwards, John Lee Hooker, Eddie Clearwater, entre outros.

Miss Marshall bebendo todas no palco. Foto: Fabiano Knopp
Blues rock com Bex

Saio correndo do palco principal, pois Bex Marshall está prestes a começar os trabalhos no Front Porch Stage. Se a britânica fez uma apresentação morna na noite anterior no Magnolia Stage, a única mulher a pisar como atração principal da ‘casinha’ fez o show mais rock and roll da última noite. O blues estava lá, nas estrelinhas, afinal, essa é uma das características do som da cantora: – misturar tudo. De qualquer forma, potencializando ainda mais esse ingrediente, Bex parecia endiabrada no seu figurino roqueiro esfarrapado.

Bex. Foto: Fabiano Knopp
Quando logo no início do set a cantora revisita Janis Joplin em “Piece of My Heart”, a plateia que tomou de assalto o centro, imediações e laterais do palco, simplesmente explode como num concerto de rock.

Veja no LINK a foto postada no perfil oficial da artista no FB.

De pé descalços, com os peitos praticamente saltando da blusa, visivelmente sintonizada ao espírito de festa instaurado pela sua presença, Bex toca a faixa título de seu álbum de estreia de 2007 (Kitchen Table), e prioriza canções do seu último CD, “The House of Mercy”, lançado em 2013.

Larry McCray. Foto: Fabiano Knopp
McCray. Adeus MDBF 2014

Depois de receber doses cavalares de energia, mais gás no Main Stage que recebe Larry McCray, guitarrista norte-americano escalado para dar números finais ao festival. Foi sua terceira apresentação. Vi ele como sideman de Lazy Lester (na quinta), no Front Porch Stage (na sexta) e agora no palco principal, tenho a sensação de ter visto três apresentações completamente diferentes. Nesse último show, um recorte dos seus quase vinte e cinco anos de carreira discográfica, temas como ” Run”, “Never Run So Bad” e a balada arrasa quarteirão “Don’t Need No Woman”, além de canções sempre presentes em seu setlist, como “Born To Play The Blues”.

Entre as participações, destaque para a canja do gaitista Lazy Lester. O encerramento fica a cargo de “Soulshine” releitura do Allman Brothers Band, composição de Warren Haynes que parece ter sido composta sob medida para McCray. 2015 tem mais. Parabéns a Toyo, idealizador do festival, e nossas congratulações a toda comissão organizadora.

Veja mais fotos de Fabiano Knopp.

Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp


Foto: Fabiano Knopp

Foto: Fabiano Knopp

Foto: Fabiano Knopp

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Foto: Fabiano Knopp

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Foto: Fabiano Knopp

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