quarta-feira, 16 de maio de 2012

BUDDY GUY - PORTO ALEGRE, 15 DE MAIO DE 2012

Fotos: Fábio Codevilla
21h. Você sabe que o homem que pisará no palco do Teatro do Bourbon Country em instantes é uma lenda. Ele trabalhou ao lado de nomes como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Willie Dixon, e outros tantos “Peixes Grandes” do blues. Impregnou-se de todas aquelas mágicas canções e seguiu em frente, sacolejando no trem do tempo & sobrevivendo aos altos e baixos de sua carreira ao longo dos anos. Prestes a completar 75 anos, Buddy Guy passou no teste do tempo. E, além disso, aceitou receber o cetro em suas mãos – como um autêntico portador do legado dos velhos tempos, e o melhor: – ele ainda está na ativa, quase sempre encantando multidões com uma guitarra endiabrada. Antes já havia seduzido nomes como Jimi Hendrix, Eric Clapton e milhões de meros mortais ao passar das últimas cinco décadas. Atualmente, continua catequizando novos seguidores a cada show.*
Fábio Codevilla (Itapema FM) editou um vídeo-dropes da noite. Dei uma palavrinha um pouco antes do início do espetáculo. 


21h10min. Guy entra no palco. Ele é o cara e a cara do blues. Você sabia que o show começaria com “Nobody understands Me But My Guitar”, um velho blues da dupla Cristian/Holmer. No início o som de sua guitarra soa cristalina, faiscante, para logo após, assemelhar-se a algum de pássaro agonizante, uma espécie de animal preso a alguma armadilha. Mais além, entre um bend e outro, Guy toma um gole de uma xícara branca sobre seu amplificador (bourbon?). O homem é só sorriso. Você já está em estado de graça. 

“Hoochie Coochie Man”, velho standard composto por Willie Dixon que Muddy Waters roubou pra si, ganha um arranjo extremamente macio no início da execução. Entra em campo a velha dinâmica do blues, tanto que Guy canta a segunda parte da música longe do microfone (Etta James adorava cantar desse jeito), e por isso ele pede silêncio com o dedo na frente da boca “tssssssssss!!!”. Só então conseguimos ouvir cada sussurro que sai de sua garganta. A guitarra pode ser tocada de várias formas: ao contrário, com as cordas roçando contra sua roupa e produzindo ruídos que dialogam com o tema. O instrumento é uma extensão de seu corpo, certas vezes até se projeta como um objeto fálico. Ele brinca. A plateia ri. 


Foto: Fábio Codevilla
Em 2004, Jon Pareles, crítico de música pop do New York Times, escreveu algo que define o que é assistir o Homem ao vivo: “Mr. Guy mistura anarquia, virtuosismo, blues denso e suas vertentes de uma maneira única, prendendo a si todas as atenções da audiência (…) Guy adora extremos: mudanças repentinas entre sons pesados e leves, ou um doce solo de guitarra seguido por um surto de velocidade, ou peso, improvisando idas e vindas com a voz. Seja cantando com doçura ou raiva, seja trazendo novas entonações a uma nota de blues, ele é um mestre da tensão e do relaxamento, e sua concentração e dedicação são hiponotizantes.”

No final do som, Buddy deixa a segunda parte do solo para o guitarrista Rich Hall, que também dá uma de acrobata como um dos Globetrotters girando sua bola de basquete. Só que é a guitarra que rodopia bem na frente de você e seus olhos incrédulos.

Outro velho Cavalo de Batalha de Muddy Waters, “She’s Nineteen Years Old”, mostra o quão sexy Guy pode soar no palco. Sua versão preferida era uma ao vivo de Muddy com Little Walter na harmônica. Era. Depois dessa noite, nunca mais você irá separar os acordes dessa canção com a imagem de Buddy Guy. A conotação sexual da letra toma dimensões ainda mais palpáveis quando o guitarrista crava o olho numa loirinha na linha de frente da audiência e canta algumas estrofes diretamente pra ela. Velho safado!

Foto: Fábio Codevilla
Quando ele e a banda tocam uma das canções do álbum “Slippin’ In" (1994), há uma clara demonstração de que o público do Bourbon Country conhece suas músicas. Guy provoca os espectadores a cantar o refrão – a massa responde de pronto: “Oh Someone else was slippin’ in”. O showman rebate: “I Love Brazil”. Aplausos ao homem! Guy faz um duelo satírico com o tecladista Marty Sammon, que em alguns momentos emula o Hammond de John Lord, do Deep Purple. Sim, é um show de blues, mas há instantes em que a festa esquenta e o blues naturalmente se maquia de seu rebento mais novo. Vale reprisar o bordão:” O blues teve um filho e o nome dele é rock’n’roll”. O finado Ike Turner que o diga!

A próxima atração do set é “Fever”, música composta por Eddie Colley e John Davenport, que ganhou o mundo em 1953 com a cantora Peggy Lee. A versão de Elvis também vale a pena ser mencionada. E é justamente o Rei do rock que lhe vem à mente quando Guy começa a cantar baixinho frente a microfone como um amante seduzindo seu objeto do desejo. Você sorri quando Guy finaliza o tema a capela, com todo um repertório de sussurros, gemidos e clichês blueseiros que deixam o público enfeitiçado. O blues sempre te deixou assim. Em transe.
Foto: Fábio Codevilla

Emendando um som no outro, lá vem mais um número do compositor Willie Dixon “I Just Want Make Love To You”. O baixista Orlando Wright sorri para o ‘Boss’ e jinga o corpo de leve com um embalo metódico como o tique-taque de um relógio. Dá pra você perceber que Guy não larga o osso de algumas canções básicas de um bom show de blues, e também cai a ficha pra você da importância de Willie Dixon na vida do guitarrista e de vários nomes da música negra. Dixon mereceria uma estátua em algum lugar dos Estados Unidos. Quem sabe em frente ao velho estúdio do Chess Records, onde trabalhou tantos anos, e aonde o próprio Guy, muitas vezes bateu papo com ele durante os intervalos das gravações, pegando as manhas do “negócio”, entre um cigarro e outro. No final ele faz um medley com alguma outra canção que você não reconhece. Essa é outra das pautas da noite: pequenos recortes (vinhetas) que interligam músicas, e pagam tributo a vários amigos compositores. 

Antes de tocar o próximo som, Guy reclama de que o blues não toca mais nas rádios americanas, e também diz que seus discos nunca figuraram na lista dos mais vendidos. Quem se importa? A voz do povo nunca foi a voz de Deus.

Foto: Fábio Codevilla


A verdade soa límpida em “74 Years Young”é um dos sons de “Living Proof”, álbum de 2010 que ainda é seu último registro fonográfico. É sem dúvida um dos melhores músicas do CD/LP. Guy surge reflexivo, tranqüilo, como se contasse os cobres e percebesse que sua vida ainda tem muita lenha pra queimar. Você chega a conclusão que caras como Buddy parecem intermináveis, indestrutíveis, únicos. E que som vaza de seu ampli. 

“Down Don’t Bother Me” é o momento em que Buddy Guy desce do palco e passeia pelo Teatro. O público delira, filma, toca nele, chora – se debruça sobre suas cadeiras esticando o pescoço, ou levantando para que possa percebê-lo em todas as nuanças e bem de pertinho. Vitor Cesar (um de seus brothers e guitarrista de blues/rock) o persegue pelo corredor como um apóstolo correndo atrás do Messias. Uma lágrima escorre do rosto de Vítor, justamente quando o garoto fica olhos nos olhos com o ídolo. Buddy não tem medo de se infiltrar na massa como um de vocês. E você conclui, além de talentoso, Buddy Guy é um cara legal.

Logo depois vem mais um daqueles recortes-tributo: Numa tacada só você ouve um medley de “Rock Me Baby” (B.B. King), “Use Me” (Bill Withers) e “I Miss You” (Rolling Stones). Ele troca de guitarra em “Skin Deep”. A música que dá nome ao álbum de 2008 – é uma das melhores baladas de Buddy Guy. O tecladista Marty Sammon faz o único (e belo) backing vocal da noite. “Que música bonita”, você pensa…




Aí vem outro mash up de homenagens. Assim como os ingleses levantaram a bola do blues nos anos 1960, Guy homenageia o amigo Eric Clapton em uma releitura adocicada de “Strange Brew”, do Cream. Um americano devolvendo a bola pra Terra da Rainha. Bacana. Depois volta a mostrar seu repertório de malabarismos em “Voodoo Child (Slight Return)”, tema do falecido pupilo Jimi Hendrix. E você lembra que muita gente não sabe, mas todo esse lance de exibicionismo cênico com a guitarra começou com músicos como Buddy Guy. Foi depois de ter assistido o Mestre, só então, que Hendrix começou a tocar com os dentes, de costas, com a bunda (sim!) e sabe-se lá de que outra forma mais. O riff de “Sunshine of Your Love”, por exemplo – é executado com uma flanela dando bordadas nas cordas. Acreditem: o homem é um mago! Já beirando o fim do espetáculo ele tocou “Dawn Right, I’ve Got The Blues“, do álbum homônimo de 1991. Antes de dar início a música, ele citou dois amigos que já partiram para outras paragens, Junior Wells e Stevie Ray Vaughan. 

Chegamos ao epílogo. A versão instrumental de “Let the Doorknob Hit Ya” parece interminável. O baterista Tim Austin olha pro tecladista e dá de ombros. Deve ter pensado: “Quando que acaba esse troço?”. É que o tema não passa de um pano de fundo para que Buddy distribua seu afeto entre a turma que avança ao palco. E ele não tem pressa. É atencioso e sorridente com todos. 

Autografa LPs, CDs, ingressos, ele joga quase uma centena de palhetas para o público e após cinco ou seis minutos de confraternização com os fãs gaúchos, finalmente sai de cena às 23h40min. 1h e 1/2 de espetáculo pra ficar na memória. Os shows no Rio, SP e Porto Alegre, foram seu aquecimento para o tour 2012. Daqui a três dias ele começa a turnê norte-americana. Próximo sábado Buddy toca no Smith Center, em Las Vegas. Você parece aprisionado a noite passada. 15 de maio de 2012, o dia em que você assistiu a lenda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ÚLTIMA COBERTURA:

BON JOVI - PORTO ALEGRE, 19 DE SETEMBRO DE 2017

Foto: BJA Por Márcio Grings Impossível não afirmar que o Bon Jovi sobreviveu ao teste do tempo. Por mais que suas músicas não estejam...